domingo, 29 de julho de 2012

RAÍZES PSICOLÓGICAS DA PSICOTERAPIA: ANATOMIA DE UMA RELAÇÃO (ÚLTIMA PARTE)


Com o texto abaixo damos seguimento e conclusão aos posts anteriormente publicados aqui no blog LiteralMente nos dias 01 e 15 de julho do presente ano.
São inegáveis os avanços proporcionados pela neurociência e pela psicofarmacologia. Todavia tal progresso trouxe em seu bojo certos retrocessos, tais como a ênfase nas psicoterapias atuais no tratamento somático. Evidente que a busca de melhoras sintomáticas se faz necessário, mas não somente. Não somos apenas um resíduo externo de alterações químicas e fisiológicas do cérebro. Não nos resumimos psiquicamente a neurônios, sinapses e atividades biológicas. Algo em nós nos habita além do nosso corpo e que comumente chamamos de mente e outros de alma.
Sim, a mente não existe sem um cérebro. É como diz Sonenreich, "a mente é um produto da inserção e da interação do cérebro dentro da cultura". Biologicamente somos dotados de um instinto de sobrevivência que nos leva a formar relacionamento com outras pessoas. Como já referido na segunda parte do presente texto, postada em 15/07/2012, o instinto e seus comportamentos derivados foi denominado por Bowlby de "sistema de apego". O sistema de apego é ativado toda vez que alguém se vê frente a algum perigo que lhe ameace. A ideia de perigo gera sensações de ansiedade e angústia que frequentemente são amainadas com a proximidade de um outro que gere cuidado e proteção. O senso de segurança, por sua vez, faz com a pessoa consiga lidar com o perigou com a ameaça de perigo com mais tranquilidade, dando-lhe assim chances de ser mais bem-sucedido. E é aqui que entra a importância da psicoterapia, ou mais precisamente do vínculo psicoterápico.
Técnicas à parte, psicoterapia é comunicação. O cliente comunica suas necessidades frente a um terapeuta que não somente recebe e processa as informações, mas também atente a necessidade humana de se comunicar com um outro. Somos seres por natureza e por excelência dialogais, ou como diz Bakhtin "sem material semiótico não se pode falar em psiquismo". Ou ainda como nos versos iniciais do poema Tecendo a Manhã de João Cabral de Melo Neto: "um galo sozinho não tece uma manhã/ele precisará sempre de outros galos". É isto o que temos no encontro psicoterápico: o compartilhamento de mentes humanas.
Um dos mais importantes teóricos do cenário psicoterápico, Winnicott, sempre destacou o papel do ambiente na integração com o indivíduo. Um “ambiente facilitador” é como o próprio nome diz: facilita o desenvolvimento psíquico que é potencialmente inato. A prática clínica se faz em um espaço (físico e intersubjetivo) que deve estar sempre aberto e disponível para o novo, o criativo e a descoberta mútua.
Já Kohut, outro autor que nos oferece elementos relevantes e significativos para o entendimento do que se passa subliminarmente em uma relação psicoterápica, contribui com a premissa de que a pessoa do terapeuta (enquanto objeto e função) será internalizada paulatinamente na estrutura do self do cliente/paciente. Como diz Kohut, não são as intervenções do terapeuta que curam, mas sim o uso do self deste como objeto por parte do self do cliente. Uma postura introspectiva, questionadora e empática do terapeuta é, portanto, um componente fundamental no processo de mudança que uma psicoterapia propicia. Tal postura (conjugada a função continente que faz menção Bion e o holding como sugere Winnicott) não somente gera um “lugar” do psicoterapeuta dentro do setting clínico, mas principalmente uma figura ou representação psíquica de segurança e proteção para os mergulhos alma adentro, afinal, como escrevem Vitor Rodrigues e Mariza Hutz, a mudança é uma potência que deseja por um espaço no psiquismo e aguarda uma oportunidade.
O que torna uma psicoterapia eficaz ainda é um mistério a ser desvendado, pois nosso conhecimento acumulado de mais de 100 anos é insuficiente para sabermos com exatidão. Mas avançamos e estamos avançando, é bem verdade. Estudos e pesquisas a respeito centram-se em dois aspectos: investigação dos resultados terapêuticos e investigação dos processos. São vários e diversos os ingredientes terapêuticos envolvidos que contribuem para a mudança psíquica e comportamental do indivíduo. Embora qualitativamente seja ampla a questão, indubitavelmente os mecanismos de ação terapêutica se processo graças e com a presença humana de um psicoterapeuta.
Evoco aqui analogamente, dadas às devidas proporções, o fenômeno do efeito placebo. O placebo é aquele fármaco ou substância inerte (“pílula de açúcar”) que apresenta efeitos terapêuticos com base na crença do paciente de estar sendo tratado. É um fenômeno fortemente psíquico com resultados reais que é causado pela ilusão subjetiva de que tal substância vai ajudar. As crenças e as esperanças de uma pessoa têm significativos efeitos psicológicos e bioquímicos sobre o mesmo. É como demonstra o antropólogo Claude Lévi-Strauss ao referir que a eficácia da magia implica na crença da magia. Para ele o fenômeno da feitiçaria é calcado em um tripé assim constituído: a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas, a crença do doente de que ele é capaz de curá-lo ou de enfeitiçá-lo e o background social de que aquela relação é uma relação de feitiçaria.
Não que uma psicoterapia seja uma relação de feitiçaria, é óbvio, mas que ela se processo em um campo gravitacional semelhante ao da magia. E isto não está distante do conhecido conceito lacaniano do “sujeito do suposto saber”, afinal quando um paciente procura um psicoterapeuta ele trás consigo suas esperanças, sua confiança no outro e sua crença de que este outro detém um saber que irá ajudá-lo. Gostem ou não os mais objetivistas, mas direta ou indiretamente o cliente coloca seu terapeuta em um lugar de figura de autoridade. E assim, queiramos ou não, um processo psicoterápico se inicia com e a partir do estabelecimento de uma transferência.
O próprio Skinner também deu sua contribuição ao entendimento dos efeitos terapêuticos da relação em si no que ele denomina de “audiência não punitiva”, isto é, na atitude compreensiva do terapeuta dos comportamentos do cliente sem julgá-lo e que propicia a exposição mais livre da intimidade por parte do paciente na expressividade do que quer, do que pensa e do que sente. O compartilhamento com alguém dos segredos, medos, inseguranças, pensamentos, dúvidas, conflitos e afetos já é por si próprio terapêutico. 
A utilização do setting como um espaço promovedor de uma relação íntima e de envolvimento é fundamental. Mesmo que a exposição de certos conteúdos psíquicos por parte do cliente possa ser dolorosa é papel e função do psicoterapeuta inibir os movimentos evitativos e de esquiva, através de sua capacidade de continência e tolerância em meio a um clima de confiança, respeito e aceitabilidade. Aos poucos o paciente vai melhor compreendendo suas evitações e respostas de esquiva e escape e com isto igualmente tolerando suas experiências subjetivas dolorosas e, assim, desenvolvendo outros repertórios que o auxiliam a crescer psicológica e emocionalmente.
Enfim, toda e qualquer psicoterapia é sempre um processo complexo de inúmeras variáveis e que se faz dentro de um cenário e contexto interpessoal. Ambos os envolvidos – paciente e terapeuta – não ficam e saem ilesos desta relação. Embora o foco transformativo esteja voltado ao cliente, o psicoterapeuta é também reciprocamente tocado pelo clima psicoterápico. Como afirma Brandão em “Os sentimentos na intervenção terapeuta-cliente como recurso para a análise clínica”, publicado no livro Sobre Comportamento e Cognição, o exercício diário de um psicoterapeuta é fazer crescer e reciprocamente ele também cresce.
Espero, ao término deste artigo aqui dividido em três partes, estar dando minha modesta contribuição ao campo de estudo da psicoterapia, mormente em tempos cuja atividade clínica corre o risco de se estar reduzindo a uma quase mera aplicação de manuais e execução de protocolos. A subjetividade humana é rica e vasta para ficar empobrecida somente porque estamos ficando preguiçosos em estudar mais, refletir e aprofundar tanto os conhecimentos já adquiridos como em investigar os mistérios da alma humana. Sem isto a alma do próprio psicoterapeuta empobrece e empobrecida de pouca serventia tem ou quando tem contribui para alívios e melhoras mais imediatas e pouco ou quase nada para a mudança, mudança psíquica esta que no fritar dos ovos é o que realmente interessa.

Joaquim Cesário de Mello

Um comentário:

Andreza Crispim disse...

Ao chegar ao término do artigo me encontro muito inquieta. Venho pensando e tentando formular ideias sobre psicoterapia a um tempo e com esses textos minha cabeça está borbulhando. Obrigada por isso.