Muitos acreditam que
paixão e amor são a mesmo coisa, muda apenas a intensidade. Outros creem que a
paixão vem primeiro e o amor depois, ou seja, que a paixão com o tempo se
transforma em amor. Já há quem ache que paixão e amor são dois lados de uma
mesma moeda. Deixemos logo claro nossa posição – e abaixo tentaremos explicitar
porque – que é a de que paixão e amor são sentimentos distintos que, embora
tragam características semelhantes algumas vezes, têm qualidades diferentes,
isto é, a natureza da paixão e a natureza do amor são divergentes.
Comecemos mais uma vez pelo
começo de tudo que é a própria palavra que empregamos para falar de paixão e de
amor. Paixão vem do latim passione ou passionis que está relacionado ao ato de suportar sofrimento e traz
em seu bojo o significado de passividade. Em grego utiliza-se o termo pathos (padecimento). Pathos, por sua vez, também significa
emoção (vide a palavra “apatia”) e doença (vide a palavra “patologia”). Como
diz Marilena Chauí é ser afetado por uma experiência, emoção ou sofrimento. Pathos é o oposto de práxis (atividade, ação) no sentido em
que se recebe o sofrimento. Por isto na semana santa celebra-se a paixão de
Cristo, isto é, o sofrimento de Cristo.
Em uma rápida ida a um Wikipédia
da vida temos paixão definida como uma emoção ampliada de maneira quase
doentia, ou até mesmo doentia. É um sentir tipicamente doloroso e limítrofe com
a patologia onde aquele que é acometido pela paixão perde sua individualidade
psíquica devido a atração e o fascínio que o objeto da paixão proporciona. Em
sua natureza passiva o apaixonado é representado pela pessoa que se vê “flechado”
(acometido) pela paixão. Quem não reconhece nesta imagem a figura do Cupido,
por exemplo?
Paixão, literalmente, é pois uma patologia amorosa, caracterizado pela superlatividade fantasiosa que se tem da realidade do outro (objeto da paixão). Subjetivamente há na paixão um sentimento de fusionamento com o objeto da paixão, pois este é idealizado e quem está apaixonado crê que com ele todas suas carência não mais existirão. Nesta busca narcisista de fusão objetiva-se ilusoriamente a simbiose que um dia tivemos (bebê-mãe) e perdemos. Lembram da última aula (post quarta passada), pois é, o que restou em nossas mentes daquela época primeva e originária do psiquismo onipotente, auto suficiente, grandioso, completo e perfeito, convencionamos chamar de EGO IDEAL. Parece que o objeto amado representa algo deste Ego Ideal projetado nele, e assim tem-se a ilusão de que a união do sujeito apaixonado com o objeto da paixão será uma relação perfeita, um par completo e completamente feliz. O outro como a sua cara-metade. Juntos formam uma unidade plena.
Atentem que não estamos no
conceito “vulgar” de paixão, no sentido popular e romanceado que damos ao
mesmo. Em filmes como “Love Story” a paixão é resumida em frases do tipo “amar
é ter jamais que pedir perdão”. Ora se amor fosse isto (jamais pedir perdão)
significaria que jamais magoaríamos a pessoa amada ou seríamos magoados por
ela. E só há uma maneira de nunca magoarmos alguém: sendo tudo o que é ela quer
que eu seja, isto é, ser o seu objeto pleno de desejo. E vice versa.
Quando uma pessoa se
vê acometido pela paixão ela tem fortes sensações de arrebatamento. O coração
dispara, não consegue deixar de pensar na pessoa “amada”, sente-se ansiosa e
angustiada na ausência desta, quer sempre estar perto da mesma, eleva-se a estratosfera
o apetite e a atração sexual dirigido ao objeto da paixão, altera-se o sono, a
alimentação e o humor, por aí vai. Tal arrebatamento é consequência de
alterações neurofisiológicas no organismo do apaixonado, pois o cérebro se encontra
banhado de neurotransmissores e hormônios, entres eles a adrenalina, a
noradrenalina e a dopamina. Esta última é responsável pela sensação de
dependência em que se acha a pessoa apaixonada em relação a seu objeto de
desejo. Também há uma diminuição da liberação de serotonina, fazendo com que a
pessoa fique obsessivamente pensando no amado(a) de maneira fixante. Não nos
esqueçamos do papel dos feromônios no fenômeno da paixão, afinal estes
hormônios propiciam a “comunicação química” entre os apaixonados.
Resistir à paixão não
é fácil não. O queimar da euforia proporcionado pela paixão pode acometer
qualquer um a qualquer momento, porém é mais comum na adolescência, a tal ponto
que chamamos este período desenvolvimental de “o tempo das paixões”. A explosão
química da paixão é capaz de viciar, e há pessoas assim viciadas que tão logo
termina uma paixão já está rumando para outra em busca de endorfinas e sensações.
A adolescência é por
natureza o período de vida das grandes paixões, haja vista ser uma fase
evolutiva caracterizada pela exuberância hormonal, impulsos e emotividade. O
jovem ali se vê em meio a um redemoinho de desejos, sentimentos, dúvidas, que
se confundem pela incipiente capacidade cognitiva e emocional de discernir
prazer, êxtase, gozo e harmonia interior. Na imaturidade afetiva inerente à
adolescência, o amor-paixão toma roupagens idealizantes e, às vezes, possessivas.
São sentimentos fortes e avassaladores onde predomina a avidez e a urgência dos
afetos. Quando dizemos que “o amor é cego” estamos de fato falando da paixão em
seu espírito puramente juvenil.
Decididamente paixão não é amor, mesmo que em nome da paixão digamos ao outro "eu te amo". A paixão na adolescência é necessária e normal para o desenvolvimento emocional do indivíduo. Todavia a paixão quando acomete um adulto ela é nada mais nada menos que uma patologia do amor. Fica aqui uma sugestão para aqueles que querem adentrar mais no tema: "A Patologia do Amor - Da Paixão à Psicopatologia", de Tiago Lopes Lino (http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0146.pdf)
Sugestões de leituras complementares:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2007000400009
http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cadpsi/v35n29/a10.pdf
http://www.cbp.org.br/indagacoesdapaixao.pdf
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372011000300011
Pois é. Embora a imagem da
paixão esteja associada ao coração (ele dispara), a flecha do cupido não atinge
este órgão muscular vital à vida, mas sim o cérebro. Este sim é responsável
pelas loucuras da paixão. A respeito do assunto leiam essa reportagem publicada
na revista Superinteressante titulada de "A Química da Paixão": http://super.abril.com.br/cotidiano/quimica-paixao-446309.shtml
Se na adolescência as paixões
são uma espécie de teste drive para as futuras relações amorosas da maturidade,
no adulto a paixão tem seu caráter regressivo. Não importa a idade que o adulto
tenha, apaixonado ele se torna emocionalmente um verdadeiro adolescente
Decididamente paixão não é amor, mesmo que em nome da paixão digamos ao outro "eu te amo". A paixão na adolescência é necessária e normal para o desenvolvimento emocional do indivíduo. Todavia a paixão quando acomete um adulto ela é nada mais nada menos que uma patologia do amor. Fica aqui uma sugestão para aqueles que querem adentrar mais no tema: "A Patologia do Amor - Da Paixão à Psicopatologia", de Tiago Lopes Lino (http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0146.pdf)
Sugestões de leituras complementares:
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0486-641X2007000400009
http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cadpsi/v35n29/a10.pdf
http://www.cbp.org.br/indagacoesdapaixao.pdf
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-34372011000300011
Joaquim Cesário de Mello
2 comentários:
Belo, pungente e sensualíssimo filme. Para se degustar. Um verdadeiro deleite aos olhos, ouvidos e sentimentos. Uma bem urdida história sobre a paixão reprimida, transpirada nos estritos espaços dos silêncios, olhares, desvios e gestos. Se chamá-lo de sublime for piegas, eu sou piegas.
Joaquim
Texto explicativo e que verdadeiramente se traduz no que chamamos de "boderline" no estudo da histopatologia das lesões malignizáveis. Resumindo, paixão e amor é viver entre o imaginário e o real, respectivamente.
Postar um comentário