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Otelo mata Desdêmona (desenho de Josiah Baydell, século XVIII). |
Na peça Otelo, de Shakespeare, o personagem título é um militar mouro que, embora seja um bom e eficiente comandante e guerreiro, sofre na pele os efeitos do racismo. Por força do preconceito ele se sente inseguro e tal insegurança resvala ao seu casamento com Desdêmona. Por influência de Iago, que lhe inveja o desposar da bela Desdêmona, desperta-se em Otelo ciúmes de sua esposa em relação a Cássio. O ciúme se intensifica e culmina na tragédia em que ele transtornado mata Desdêmona. No texto teatral há a seguinte fala de Iago: "Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta". Este é, pois, o nosso tema de hoje: o complexo, perigoso e danoso sentimento chamado ciúme.
O enciumado é um escravo do ciúme. Quanto maior o ciúme maior o estreitamento psíquico que o sujeito sofre, e sua vida, sua atenção, sua energia e seu comportamento passam a serem ditados pela tirania da emoção. O ciúme é um afeto que nos afeta e infecta nossa alma. Inquieta, perturba, desassossega. Em alemão ciúme se descreve com a palavra eifersucht que significa fogo, queimação.
Na altura do presente texto e leitura pode-se perguntar "qual o limite entre o ciúme normal e o patológico"? Um marcador significativo é o sofrimento. Quando o mal-estar provocando pelo ciúme atinge intensidades intoleráveis ao Ego e resulta em pensamentos invasivos e insistentes (obsessão), bem como em comportamentos impulsivos e repetitivos (compulsão) aí estamos frente a uma patologia do afeto que pode resultar em atos tresloucados de consequências devastadoras.
Emmanuelle Béart |
Novos Otelos andam por aí ou nos espreitam, até mesmo dentro de nós. O puer aeternus que todos temos, se afrouxado os controles psíquicos da mente, pode sair desembestado em todo seu desejo de posse e exclusividade, e consequente paranoia. É o caso retratado no filme L´Enfer (que no Brasil levou o título Ciúme - O Inferno do Amor Possessivo), do grande cineasta francês Claude Chabrol, Detalhe: também, casado com Emmanuelle Béart (atriz que protagoniza a esposa objeto do ciúme do marido), até eu teria ciúmes. Você não?
Joaquim Cesário de Mello
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