domingo, 22 de julho de 2012

O MITO DE MEDEIA E A ALIENAÇÃO PARENTAL


ATRIBUI-SE A SÓFOCLES, dramaturgo grego, autor da conhecida peça Édipo Rei, a frase: “tento retratar a vida como ela deveria ser, Eurípides retrata como ela é...” na verdade, Sófocles falava de Medeia, umas das peças mais trágicas da dramaturgia universal. Para quem não conhece o texto, a história dessa personagem enigmática do teatro clássico pode ser resumida da seguinte forma: Medeia, uma feiticeira, é abandonada por Jason, seu marido e pai de seus dois filhos, por ter se apaixonado por Gláucia, filha do rei de Corinto.  Medeia é tomada por uma dor intensa e por um profundo sentimento de vingança. Acuada na sua crueldade, Medeia comete um dos crimes mais horrendos já conhecidos, mata as duas crianças na tentativa de punir e de se vingar do ex-marido.

 Porque se falou que Eurípides em Medeia falou da vida como ela é? Assistimos a esse crime diariamente? Se tomarmos como parâmetro “Édipo Rei” – peça tão explorada pela psicanálise – , observa-se veladamente a repetição de um drama familiar simbólico. O pai, a mãe, ou seus representantes são colocados no lugar de rival e a cena trágica é apenas vivida de maneira reservada na angústia da criança. Fantasia-se, por assim dizer, um parricídio, mas o pai está ali ao lado, acarinhando e acalentando esse pequeno “criminosos de fantasia” – ainda sim, invadido por uma imensurável culpa.    Em Eurípides a repetição não é apenas simbólica, não é de fantasia, mas de uma real agressividade. Medeia seria a representação da maldade, da autodestruição, da vingança e da impulsividade. Apesar das inúmeras leituras que esse texto pode desmembrar, darei, aqui, um foco específico: o da agressão aos filhos.

Quantas vezes já ouvimos falar de mulheres e homens que em função da frustração de rompimentos e separações conjugais, fazem dos seus filhos armas e escudos para atingir o outro? Quantas vezes ouvimos dessas pessoas, com um tom de uma suposta abnegação, que são dedicadas “exclusivamente” aos seus filhos, enquanto que o outro é sempre distante, relapso, desalmado, negligente e muitas vezes monstruoso. Certa vez, ouvi um relato em que a mulher para afastar o ex-marido da filha teria o acusado de pedófilo. Em outra ocasião uma criança indagou a mãe porque ela tinha optado pela profissão de prostituta – como ela era chamada na casa do pai.  Um menino de apenas três anos chamava o pai aos risos de “psicoPAIta”.

Pois então, aí está a crueza do mito de Medeia fazendo translações na vida humana e no conceito de alienação parental.  Observamos aqui vividamente essa personagem se presentificar com todos os seus sentimentos horrendos.  Medeia habita parte da condição humana, no mesmo cômodo onde estão a inveja, a ira e a vingança, ao lado da dor e do ciúme. Ressentida, como diz Shakespeare, “toma o veneno para atingir o outro”, e acrescento, atingir aos outros. Ao contrário do mito de Édipo que, em geral, atribui-se ao processo de subjetivação, em Medeia se assiste ao dano, muitas vezes ao dano irreversível.



            No final da peça de Eurípides, a feiticeira foge de maneira altiva e impossível, toma um carro em direção ao sol. O filósofo Aristóteles criticava esse final por contrariar as regras da ‘poética’ trágica e por interpretar o fim da peça por deveras inverossímil, em que o herói fracassa e a agente da tragédia escapa ilesa – incolumidade trágica demais. Discordo em parte. Penso que o final da peça mesmo não sendo moralista não é assim tão triunfante. Certamente, no caminho do sol, a personagem corre o risco na sua ira desmedida de incendiar-se no seu próprio ódio.

                                                           Marcos Creder

Nenhum comentário: