domingo, 22 de outubro de 2017

Psicanálise, literatura e sonhos (parte 1)



Adolescente, assisti ao filme “O Enigma de Kaspar Hauser”, do aclamado diretor Werner Herzog, guardo na recordação, duas palavras paradoxais: o tédio e o fascínio. O tédio justifica-se pela minha idade, talvez me fosse mais adequado uma comédia de Jerry Lewis ou, se quisesse ser mais inteligente,  de Mel Brooks. Kaspar Hauser entediou-me  pelo silêncio e por  suas longas cenas com digressões filosóficas. Por outro lado,  o seu enredo, inspirado em fato ocorrido em Nuremberg no século XIX, chamou-me atenção. Um homem criado misteriosamente em um calabouço, é repentinamente libertado, ou melhor, abandonado à rua. Prisioneiro, Kaspar, não conhecia nada do mundo exterior, desconhecia as imagens do mundo, as pessoas, a linguagem -  “cavalo” era umas das poucas  palavras que pronunciava.

O filme revelou-se fascinante na habilidade de Herzog em mostrar o ingresso desse misterioso personagem no ambiente sócio-cultural. Kaspar Hauser tornou-se objeto de estudos de cientistas e intelectuais.  Uma cena, em especial,  me chamou atenção, Kaspar Hauser, ainda com dificuldades de se expressar,  traz sua primeira experiência onírica, um sonho que foi percebido e confundido como fato real - com a mesma realidade de um delírio.


Seria o sonho uma formação semelhante ao delírio? Cabe aqui, resumidamente, destacar, os conceitos de delírios que se construiu, na psicanálise e na psiquiatria nos séculos XIX e XX. Um dos primeiros trabalhos que Freud utilizou a palavra delírio, foi no conhecido texto que  analisa, ou  interpreta, a novela de Wilhelm Jensen, “Gradiva, Uma Fantasia Pompeiana”. O Ensaio (“O Delírio e o Sonho na Gradiva de W. Jensen”) faz, pela primeira vez na obra freudiana, uma rica incursão num texto de ficção, publicado em 1906, três anos após a publicação da novela de Jensen e sete anos após a publicação de  “A Interpretação  do Sonhos”. Freud relacionou o delírio à vivência de Norbert, o personagem principal, que acreditou ter encontrado, inicialmente em sonho, uma mulher (Gradiva, inspirada num baixo relevo) que teria vivido na cidade de  Pompeia, prestes a ser destruída pelo erupção do Vesúvio. Neste texto, o delírio quebra o teste da realidade, e deixa  o delirante com convicção semelhante a realidade  de um  sonho. Freud, inclusive,  compara a  formação do delírio à construção onírica, partindo do pressuposto de que os sonhos “são a realização (disfarçadas) do desejo (recalcado)” Assim como o sonho, o delírio expressaria um enredo manifesto de conteúdo ideativo recalcado.  


Soa estranho imaginar que uma experiência tão sofrida como o delírio, tenha o desejo como pano de fundo. Há contudo, desejos e desejos. O desejo inacessível à consciência são conteúdos ideativos recalcados ( e, no caso do delírio, extrojetados, percebidos como se ocorresse no mundo externo). Recalcados pois tem conteúdos conflitivos e, consequentemente, são geradores de desprazer. No livro de Jensen, esses conflitos são ingenuamente representados nos impasses dos ideais do amor romântico -  Um jovem que encontra na Gradiva pompeiana, uma paixão recalcada na infância.  


Mas o conceito de delírio é controverso. No campo da psiquiatria, por exemplo, é mais restrito e específico. A psiquiatria discorre sobre o delírio como um fenômeno próprio dos quadros psicóticos, especialmente, da esquizofrenia e da paranóia. Karl Jaspers, psiquiatra e filósofo, foi um dos primeiros teóricos a delimitar o conceito de delírio nas vivências anormais do pensamento (do juízo de realidade). O julgamento ou a capacidade de um delirante de ajuizar, de julgar a realidade, encontra-se severamente prejudicada. Contudo, não se restringe a um simples equívoco, o pensamento delirante caracteriza-se  pela  forte convicção, crença inabalável e irrefutável de um fato que não ocorre na realidade. Esse fato, em geral, põe o delirante no centro da trama.  Jaspers, aos 23 anos, escreveu os dois volumes da Psicopatologia Geral, e especificou que o delírio primário, que também chamou de verdadeiro, se caracteriza, não apenas pelo não ocorrência do fato, mas pela interpretação dada pelo delirante. uma interpretação baseada em percepções e intuições pouco convencionais. Por exemplo, se uma pessoa se diz perseguida pelos órgãos secretos norte-americanos, depois de vir  numa loja de animais - Cão&Cia - a imagem de um cão buldogue, com o nome do atual presidente dos EUA, a justificativa para o seu delirio está na interpretação as palavras , CIA, “cão” - no sentido demoníaco - e buldog sao senhas criptografadas que revelam a conspiração.  Desse modo, do ponto de vista psiquiátrico, “o caso” narrado por Jensen, se distancia do  conceito psicopatológico de delírio, por haver um distanciamento na "crença inabálavel" do personagem, e ganha mais semelhança com o conceito de pseudologia fantástica  ou de fantasia - palavra que, inclusive, é utilizada no título de Jensen. Além do mais, no texto,  a imagem fantasmática de Gradiva, é que se impõe, e a construção de uma imagem inexistente - percepção sem objeto -  chama-se alucinação. Na novela, talvez nem alucinação seria o conceito mais adequado, mas ilusão -  pois  o personagem descobre que  Gradiva era a imagem de uma mulher, Zoe, anteriormente conhecida - enfim, não houve uma construção , mas uma deformação de um objeto percebido.


A defesa dada pelos  psicopatologistas a essas supostas filigranas conceituais  se devem a sua  importância semiológica. A investigação psicopatológica é um instrumento de grande serventia na avaliação diagnóstica  dos transtornos psíquicos. Mas, contrário do que se poderia imaginar, essas digressões conceituais não põe em xeque  os preceitos freudianos. A psicanálise, na verdade,  acrescenta importantes elementos subjetivos. Dois aspectos fundamentais destacam-se no texto de Freud:  a ideia de que delírio encarcera um “desejo”.   Encarcerando o desejo, encarcera algo de verdadeiro - o delírio traz  no seu conteúdo um grão de verdade.

A importância do estudo da interpretação dos sonhos, fez com que Freud, muitas vezes, ficasse na fronteira epistêmica da psicanálise. Seria, afinal, a psicanálise uma ciência? sim, mas, ressalta, uma ciência  que se edificou nos mitos e nos textos literários, portanto distante, muito distante, das ciências de seu tempo. Freud ao citar os mitos de Édipo, Hamlet, Lady Macbeth, entre tantos personagens da literatura e do teatro, fez deles, a fonte do  saber da psicanálise. Para ele, os escritores estão muito mais à frente dos cientistas e dos homens cotidiano no conhecimento da alma. Queixou-se contudo, que mesmo detentores desse conhecimento, os escritores viam a psicanálise com ambiguidade. De fato, são inúmeros os escritores que trataram, e ainda tratam, com indiferença a teoria freudiana. O próprio Jensen, apesar de elogiar o trabalho interpretativo do seu livro, manteve-se distante e, eventualmente, arredio às incursões freudianas. O biógrafo Peter Gay, acredita que  o novelista, conheceu previamente o texto “A Interpretação dos Sonhos”, pois o texto seguia, com enorme coincidência,  o roteiro da clínica psicanalítica em direção a cura.


Marcos Creder

domingo, 15 de outubro de 2017

A POESIA QUE NOS DESNUDA

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"A psicanálise nasceu com a descoberta de que as palavras são cheias de silêncio", escreveu certa vez Rubens Alves. Alma humana muito tem a dizer de si e muito fala sem o uso das palavras faladas ou pensadas. Os poetas também sabem disso, bem antes mesmo que o surgimento da psicanálise. A poesia desvela pronuncias e dizeres que habitam no silêncio. Um poema, um bom poema, não nos revela o desconhecido propriamente dito, mas sim muitas vezes o que jazia esquecido. Entende-se assim os seguintes versos de Jorge Luis Borges: "quando menino, eu temia que o espelho/me mostrasse outro rosto ou um cega/máscara impessoal que ocultaria/algo na certa atroz". No silêncio moram sonhos, lembranças e imaginações.
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Um poema se constrói com a linguagem da mente. Não há poesia, nem no mais belo amanhecer ou crepúsculo, se não houver uma alma a contemplá-los. Juan Luis Vives, que viveu entre os anos 1493-1540, reconhecia que "nenhum espelho reflete melhor a imagem do homem do que as suas palavras". Não as palavras que nos escondem no povoar do cotidiano. Porém as palavras que emergem do poço fundo de nossas entranhas. Por detrás do meu eu familiar encobre-se um homem em mim estranho.
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A poesia tanto nos encanta quanto nos desencova. |dize-me caro(a) leitor(a) o que vês ao ler este poema de Carlos Drummond: "Sonhei que o sonho se forma/ não do que desejaríamos/ ou de quanto silenciamos/ em meio a ervas crescidas,/ mas do que vigia e fulge/ em cada ardente palavra". Percebes que o poeta está a tentar tornar o indizível em exprimível? Que a poesia é o interior da alma ancorada pelas palavras? E que um poeta é aquele que está a testemunhar o que perdemos de consciente? Fala-nos Florbela Espanca: "só quem embala no peito/dores amargas e secretas/é que em noites de luar/pode entender os poetas". Com a poesia é que podemos vislumbrar a vida secreta e imaginária da alma humana.
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Alguns podem dizer que poetizar é resultado por processo psíquico da sublimação. Em termos físico-químico a sublimação é a passagem de uma substância em estado sólido diretamente para o estado gasoso. Em termos psicanalítico sublimação representa a gratificação/satisfação de um desejo/pulsão em termos socialmente positivos. A poesia escrita, embora faça uso das palavras, usa da linguagem para manifestar o sensível. A poesia subverte o que diz Adélia Prado ("a palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/foi inventada para ser calada"). A fala poética, por sua vez, evoca o que existe vivo e pulsante na vida vivida.
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Se a psicanálise brotou próxima dos sonhos, a poesia ela mesma é um acordar para dentro. "Sem Poesia não há Humanidades. É ela a mais profunda e a mais etérea manifestação da nossa alma", afirma Teixeira de Pascoaes. Freud já dizia que os poetas são os mestres do conhecimento da alma.  O médico e também escritor português Fernando Namora afirma: "a minha poesia é assim como uma/vida que vagueia/pelo mundo, por todos os caminhos/do mundo,/desencontrados como os ponteiros de um relógio velho". Já Adélia Prado inicia um poema dizendo: "a mim que desde a infância venho vindo,/como se o meu destino/fosse o exato destino de uma estrela". Assim, não é difícil enxergarmos uma articulação possível entre psicologia e poesia. Um poeta é antes, e acima de tudo, uma criança brincando com o mundo e as profundezas de si mesmo.
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O dizer poético pode muitas vezes ser tão esfíngico quanto a alma humana, pois é dela que brota o bom poema. Tanto a Psicanálise, como proposta por Freud, quanto a poesia brotam da mesma fonte: as palavras e sua força. Como declama Florbela Espanca. "só quem embala no peito/dores amargas e secretas/é que em noites de luar/pode entender os poetas".

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 8 de outubro de 2017

A literatura de Auto-Literatura



Se você, prezado leitor, chegasse à livraria e na primeira estante, onde geralmente se expõem os best-sellers  - textos  de auto-ajuda, religiosos, motivacionais,  biografias, métodos de emagrecimento, fórmulas para ficar milionário ou para ser feliz, além dos crescentes livros publicados por youtubers  - e encontrasse o volume: Guia de Escrita: Como conceber um texto com clareza, precisão e elegância, qual seria o seu julgamento? E ainda, quais  seriam suas impressões de um livro cuja a capa tem um layout sofrível,  lembrando os antigos manuais de caligrafia? Seríamos, eu e você, preconceituosos ou indiferentes, especialmente, por ser um best-selller. Não costumo criticar os best-sellers pelo fato de serem populares. Pelo contrário, acredito que se os  livros foram escritos para serem lidos, precisam ser vendidos - e bem vendidos.  A maioria dos "literatos" (assim mesmo, entre aspas) atuais, por despeito ou vaidade - seus pecados capitais mais evidentes -, passa a régua e divide o mundo do best-seller, contaminado pela mediocridade cultural, propagado pela industria editorial e pelo consumo de massa; do seu mundo, da literatura culta, um latifúndio povoado por escassos leitores - aqueles que tem o privilégio de compreender sua obra, ou como diz Ledo Ivo, de conseguir passar da página quinze. Para estes autores, o livro comercial, ou a pulp fiction, é um texto menor, com apelos comerciais que corrompem a inteligência dos criadores. Discordo. Existem bons livros que foram bem vendidos e não foram poucos. O Nome da Rosa de Umberto Eco, Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar, A Idade da Razão de Sartre, O Estrangeiro de Camus, foram, em seu tempo, best-sellers. As vendas dos romances  de Simenon, por exemplo, provocariam inveja nas publicações dos atuais livros de colorir.   Admito, contudo, que estão desaparecendo das prateleiras e os literatos contemporâneos, na tentativa de se defender dos corriqueiros fracassos editoriais, criaram  uma nova modalidade de literatura: o livro que chamarei de “auto-literatura”, livros para serem  lidos pelo próprio autor, seus familiares,  professores de literatura e, especialmente, para serem apreciados por outro escritor. Ironia à parte, essa modalidade, assim como a literatura de auto-ajuda, que é imbecilidade escrita para imbecis, um erudito escreve para o outro erudito - o que não deixa de ser também uma forma de imbecilidade. Os aficionados na literatura de “auto-literatura” tratam com desdém o mercado editorial e respeitam apenas os autores best sellers já falecidos ( "o melhor escritor está morto"), como Cervantes, Garcia Marques, Hemingway e todos que citei mais acima. O texto de “auto-literatura” tem algumas diretrizes para se fazerem originais ou mais eruditos: fugir dos lugares comuns, das repetições, das redundâncias, das assonâncias, da prolixidade, dos períodos longos, das frases de efeito, dos verbos ser, estar, ficar, ter; e não esqueçamos, o texto deve ser paragrafado com harmonia. Enfim, um texto sem erros, enxuto - eventualmente, um texto sem texto. Assim como um psicanalista neófito, esses literatos economizam palavras para errar menos. O resultado? Vejamos... Quando positivo, uma boa crítica em página especializada de um texto insosso e um dezena de volumes vendidos.  

Se levássemos em consideração o rigor técnico desses literatos, autores consagrados correriam sérios riscos de serem excluídos da "boa literatura", ainda nas primeiras duas ou três páginas: Dostoiévski, por exemplo, seria acusado de prolixo ou redundante; Proust, desaconselhado por seus períodos longos, digressões, e por esquecer de paragrafar; Melville, por capítulos descritivos e enfadonhos; James Joyce, pela falta de clareza, Bukowski, pela rusticidade e pela ousadia. Esses literatos da auto-literatura, aliás, não permitem a ousadia - como se fosse algo desnecessário à criação.
  
Abri o livro Guia de Escrita, e tomado pelo espírito de um literato contemporâneo, esbocei a face de um personagem de Tarantino, pronto para trucidá-lo nas primeiras linhas e, no entanto, ao virar-lhe as páginas, descobri, contrariado,  que não se trata de um manual de redação, nem de um guia de boas maneiras da escrita, mas um desabafo do autor, o psicólogo norte-americano Steven Pinker, que assim como eu ou você,  entediou-se dos textos pernóstica, pseudo-eruditos. Pinker elaborou esse manual desmascarando a mediocridade que há nos textos “difíceis”. E ele tem razão. Pinker é  sincero: escrever não é  fácil, escrever fácil, ou seja com fluência, simplicidade e clareza, é dificílimo. Inspirado na psicolinguística o autor admite que é bem mais cômodo redigir um texto com o rebuscamento de Lacan, do que escrever um texto palatável, em um ou dois parágrafos,  de uma teoria da física. A escrita clara, para este o autor, é um exercício de rara inteligência.   Pinker põe em xeque um sem número de  textos pedantes, cerimoniosos, que, em seu cerne, encontram-se esvaziados de ideias e, o que é mais grave, de sentido. o livro também traz várias situações e sentenças em que um texto ou uma frase poderia ter uma melhor escrita. Pinker acrescenta minuciosamente elementos da sintaxe importantes na confecção de textos. Naturalmente, que a ênfase dada pelo autor é o livro de não ficção. Sabemos que a ficção tem mais liberdade, que os elementos estéticos - o estilo - podem dar mais peculiaridade e beleza nesse formato - desde que funcione bem.  

Guilherme Leão

domingo, 1 de outubro de 2017

A DEPRESSÃO CONGELADA


         



         Há pessoas com depressão que não respondem satisfatoriamente ao tratamento medicamentoso e psicoterápico. É sabido que o enfrentamento da depressão deve ser realizado nas esferas biológica, psicológica e social do paciente. O uso de determinadas substâncias medicamentosos e a conduta psicoterápica a ser adotada deve ser individualizada. Se cada caso é um caso, cada depressão é uma depressão.
Resultado de imagem para depressão, cid                O primeiro passo, em qualquer abordagem, é engajar a pessoa deprimida a proposta de tratamento, afinal o tratamento é sempre realizado com o paciente e não para o paciente. A depressão que lemos nos livros, que é descrita do CID, que é estudada nas salas de aula, é uma depressão abstrata, já a pessoa do deprimido é uma realidade, uma depressão concreta e vívida, que pulsa no pulsas da vida desta pessoa e que deve ser compreendida tanto a partir do contexto social e cultural desta, como nas suas dimensões biológicas, biográficas e psicológicas.
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Várias são as intervenções possíveis que pode fazer uso um psicoterapeuta, entre elas as psicoterapias de apoio, interpessoal, psicodinâmica, focal, comportamental, cognitiva-comportamental, de grupo, de família, etc. Fatores que contribuem fundamentalmente para a eficácia e o sucesso de toda e qualquer empreitada psicoterápica são: motivação, confiança, ambiente estável e capacidade para insight e mudança. Não basta tão somente embater a sintomatologia depressiva apresentada, mas igualmente mudar o estilo de vida, que eu particularmente chamo de “moldura de vida”.
Resultado de imagem para antidepressivoAntidepressivos, em média, alcançam bons resultados na melhora sintomática em cerca de 70% dos casos, segundo pesquisas e estimativas várias, após um prazo mínimo de um mês. Todavia, pacientes respondem a antidepressivos cada um a sua maneira. A escolha, pelo médico, de qual medicação antidepressiva a ser usada se baseia no tipo de depressão, na comorbidade, nos efeitos colaterais, na tolerância do paciente à medicação, se há risco de suicídio, etc.
Resultado de imagem para endorfinas, depressãoAs formas e os sintomas da depressão são variáveis de pessoa para pessoa. O mesmo, então, se quanto ao tratamento, visto que um manejo que pode muito bem funcionar com fulano pode não funcionar com sicrano. Os antidepressivos são armas potentes no enfrentamento do inimigo depressão, pois ajudam a equilibrar os níveis de substância químicas produzidas no cérebro e com isto controlar o humor transtornado. Quando falamos de substâncias químicas cerebrais estamos falando de serotonina, dopamina e norepinefrina. Os antidepressivos mais comumente prescritos são os inibidores seletivos de receptação de serotonina (fluoxetina e sertralina, por exemplo) e inibidores de receptação de serotonina e norepinefrina (cloridrato de venlafaxina e duloxetina, por exemplo).
Resultado de imagem para psicoterapiaAs psicoterapias são também importantes no conjunto do tratamento da depressão. É necessário e útil o paciente poder conversar sobre a depressão e as maneiras como lidar com elas e seus sintomas. Uma abordagem psicoterápica auxilia ao paciente formas de pensar e de se comportar diferentes, bem como de entender os possíveis gatilhos em sua vida que provocam ou ajudam a manter a depressão. Um outro viés que a psicoterapia trabalha são as relações interpessoais do paciente que também podem estar contribuindo para a preservação do quadro mórbido.
Uma depressão resistente é na maioria das vezes uma depressão crônica. Em uma depressão crônica temos um doente crônico, ou melhor, uma pessoa que se cronificou com a depressão. Explico melhor. Alguém que tem depressão não aguda, que sofre com a depressão há anos, acaba formando hábitos, pensamentos e comportamentos depressivos. Até sua rotina tem o clima depressivo. É como se passasse a viver em uma cultura da depressão. A pessoa, o doente e a doença não só se confundem, se fundem. Lembram aquela célebre frase proferida pelo rei da França Luís XIV no auge do absolutismo europeu “lé ètat est moi”? Pois é, é como se a pessoa cronicamente deprimida dissesse “a depressão sou eu”.
Resultado de imagem para depressãoQuem convive com a depressão há bastante tempo sofre de um vazio paralisante. E o pior: muitas vezes acostuma-se com este vazio familiar. Congelado em um presente vazio, não olha para frente (futuro), mas sim para baixo (presente) ou para trás (passado). Sabe aquela expressão “a esperança é a última que morre”? Pois é, o deprimido crônico se acha um morto em vida, um espectro de si mesmo perambulante. Embora queira uma vida normal, livre da depressão, a mesma está tão arraigada nele que não consegue os mínimos passos para frente. Seguir lhe é pesaroso.
Resultado de imagem para demonio do meio diaAndrew Solomon, em seu livro O DEMÔNIO DO MEIO-DIA: UMA ANATOMIA DA DEPRESSÃO, ele mesmo um deprimido de três recorrências, escreve que “a depressão é a imperfeição do amor”. Um indivíduo deprimido encontra-se eclipsado em sua capacidade da dar e de receber afeto. Dói viver. Dói viver porque a vida perdeu o sentido. Ou, como diz Solomon, “cada segundo da vida me feria”.


Em uma tipologia da depressão ela pode ser episódica, recorrente ou crônica. Seja como for, costumo descrevê-la como uma espécie de bicho que habita hibernante o ser humano. Quando, por alguma razão, o bicho acorda ele é voraz, guloso e insaciável. Precisa sempre de nutrientes para ficar vivo, e seus nutrientes é sugar a vida. O bicho depressão adora, por exemplo, escuro e cama. Depressão detesta sol. Ele nos manipula para que lhe demos seus alimentos favoritos. E é aqui que o bicho pega, ou seja, quando a pessoa, sob domínio da ditadura da depressão, atente suas demandas criando ao seu redor, em sua rotina e postura frente a vida e ao mundo, comportamentos e cacoetes depressivos. A habitude e suas práticas ficam a serviço da manutenção do status quo depressivo.
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Isolamento social, álcool, comidas gordurosas, automedicação com ansiolíticos, sedentarismo, ambiente desorganizado, falta de higiene, entre outros comportamentos não somente contribuem para a manutenção da depressão, como podem agravá-la ainda mais. Como a depressão crônica é mais resistente aos tratamentos e os resultados não vêm no curto prazo, o paciente tende a abandonar o próprio tratamento – o que, por sua vez, eleva ainda mais a descrença de que não tem mais esperança ou saída. A aderência contínua ao tratamento é um grande desafio a ser vencido. O trabalho é de formiguinha e ao paciente deve ser mostrado isso, valorizando suas pequenas conquistas e avanços, por mais insignificantes que possam parecer.
É um verdadeiro processo de aprendizagem ou reaprendizagem. É como se a pessoa do paciente fosse desaprender padrões de pensamentos e comportamentos habituais e nocivos que estão a serviço do bicho depressão. Uma pessoa cronificada em depressão consequentemente tem déficits interpessoais. O psicoterapeuta deve ter uma postura ativa e muitas vezes diretiva para fazer frente a passividade típica da doença. A atenção de ser centrada na atualidade e não necessariamente em experiências infantis, ao menos enquanto não se avançar na modificação de alguns hábitos, tendências e inclinações depressivas. A ênfase recai, portanto, nas alterações atitudinais e na melhora da qualidade de vida contemporânea. É necessário que o paciente se veja cada vez mais no controle de sua vida.
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Pessoas acostumadas à depressão são pessoas que tendem a desqualificar ou minimizar qualquer melhora. Qualquer mínima melhora, repito, deve ser sempre valorizada e maximizada pelo psicoterapeuta, embora em princípio isso contrarie a tendência típica auto-desqualificatória do deprimido resistente. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Com o tempo, espera-se, o paciente deve aprender a se auto monitorar o seu próprio paulatino progresso.

Lembremos sempre: uma depressão crônica não é uma depressão passageira. O paciente acostumou-se e se familiarizou com a depressão e seus sintomas. Ganhos secundários da doença não só foram desenvolvidos, mas também cristalizaram. Pessoas que se acomodaram em ruminar sua negatividade, embora a sua revelia. Um dos principais objetivos da psicoterapia não é esvaziar o paciente de sua subjetividade negativa, mas sim de ajudá-lo em transformá-la em positiva.
O trabalho é árduo e lento. Sabemos de antemão disso. O paciente também deve ter o direito de saber. Ele não se cronificou porque quis, nem foi de um dia pro outro. Por isso os resultados não serão assim tão no curto prazo, ao menos os eficazes. Os tratamentos da fala (psicoterapia) e os tratamentos medicamentos (farmacoterapia) devem andar lado a lado e sem antagonismos. Como diz um entrevistado de Solomon em seu acima citado livro O DEMÔNIO DO MEIO-DIA, “o prozac não deveria tornar o insight dispensável. Deveria torná-lo possível”.
                A doença é resistente. Os profissionais de saúde devem ser persistentes. A resistência é como uma casca de cebola: por baixo dela há outra resistência e depois outra, e mais outra, e assim por diante. O trabalho é análogo a um descascar cebolas, dadas às devidas proporções. Mas é passo em passo, de centímetro em centímetro, que fazemos uma estrada, que andamos quilômetros. Quem tem pressa, quem não tolera ser ele mesmo (terapeuta) paciente, no sentido de ter paciência, então que procure outra praia. Mas se for a praia que vier até você atenda-o sem pressa ou urgência de grandes resultados imediatos, e com tolerância à ansiedade e à frustração. Afinal, seu Ego é uma referência a ser internalizada pelo paciente. Se você não estiver ainda pronto para isso, então o encaminhe a outro colega. 

Joaquim Cesário de Mello