domingo, 18 de novembro de 2012

O LADO POSITIVO DA PSICOLOGIA: EM BUSCA DO PONTO DIALÉTICO



        A Psicologia, enquanto ciência, a partir do início do século XX direcionou muito de sua atenção, mormente a Psicologia Clínica, a estudar e tentar entender o que leva o ser humano a ser depressivo, ansioso, fóbico, neurótico ou psicótico, enfim a buscar ajudar aquele que sofre. Voltou-se mais, portanto, a temática da “doença mental” em detrimento à “saúde mental”. Neste sentido temas como felicidade passou a ser assunto de guetos de prateleiras centradas em livros de autoajuda. Parece que a questão da felicidade humana era vista pela Psicologia moderna com certo acanhamento e quase tabu. Basta olharmos para a grande curricular de um curso de Psicologia para observar que existem disciplinas do tipo Psicopatologia, Psicoterápicas, Clínica, Psiquiatria e nenhuma cujo foco seja explicitamente Felicidade. Interessante ressaltar que contribuir para que um indivíduo seja menos deprimido, ansioso ou neurótico, por exemplo, não o faz uma pessoa feliz. Ou seja, retirar o que incomoda e faz o sujeito sofrer não aumenta seu grau de felicidade.
                A Psicologia não deve se envergonhar de cientificamente pesquisar, estudar, refletir e teorizar sobre felicidade, bem-estar e prosperidade, afinal isso também faz parte da natureza humana ou, ao menos, do que anseia e busca o ser humano. Não devemos, é claro, deixar em enfocar os aspectos negativos e maléficos do existir humano, mas ampliar o entendimento do espectro humano para também enfocar seus aspectos positivos e autorealizantes. Não sou defensor de uma mudança de paradigma propriamente dita (do negativo ao positivo), mas de uma ampliação englobante e plural (negativo e positivo). Vejamos por que.
                Peguemos um copo meio preenchido com água. Haverá pessoas que dirá que ele está meio cheio. Todavia haverá também pessoas que dirá que ele está meio vazio. Existem pessoas que têm uma tendência a olhar suas vidas pelo lado que lhes falta e pouco para o que elas têm. Primariamente falando este é um dos indicadores básicos de felicidade e bem-estar: como percebemos, interpretamos e construímos nossa visão do mundo. Alguns estudos recentes apontam que cerca de 50% da sensação de felicidade tem base genética-biográfica. E a outra metade, a metade não genômica-histórica? Cerca de 10% aproximadamente tem a ver com as circunstâncias da vida e 40%, por sua vez, do chamado senso de felicidade é resultado de ações e atitudes, isto é, do que o ser humano faz e age efetivamente em seu cotidiano. Por esta perspectiva não estar se sentindo feliz não é somente culpa da genética ou do azar, mas igualmente em nossa capacidade e potencial em superar obstáculos e vencer dificuldades, afinal obstáculos e dificuldades são obstáculos e dificuldades e não problemas. Nós é que transformamos os mesmos em problemas.
                Sim, a mente tem poder. Embora o poder da mente tenha seus limites, dentro dos seus limites ela tem tanto o poder de adoecer e infelicitar a pessoa, quanto de fazê-la feliz e otimizada, independente das adversidades que a vida nos oferece.
                Ao longo dos meus mais de vinte anos como psicoterapeuta fui aprendendo com meus outros que chamo de clientes que a psicoterapia não é uma relação profissional de ajuda que visa apenas “tratar” de transtornos, mas também auxiliar a esse outro a desinibir-se, e desinibindo-se avançar com seus potenciais rumo a sua melhor auto realização. Busquei olhar igualmente para os potenciais, motivações, sonhos e capacidades adormecidas, descobrindo que a alegria, a satisfação e a esperança são tão “material clínico” quanto às ansiedades, as angústias, os medos e a melancolia humana. Coaching, coping e resiliência são conceitos operacionais que passaram a fazer parte do meu acervo e arsenal técnico-profissional.
                Uma atitude positiva frente à vida gera emoções positivas. Pessoas que geralmente restringem ou inibem tais atitudes podem, por exemplo, tentar suprir a falta de com comportamentos compulsivos, entre eles o de comprar, pois comprar bens materiais traz prazer, alegria e sensação de bem estar, porém prazeres, alegrias e sensações de bem estar momentâneos e passageiros. O que nos torna, então, felizes? Prazer, alegria e sensação de bem estar, todavia prazer, alegria e sensação de bem estar mais perenes e duradouros.  E como se consegue isto? Embora desde a Antiguidade Grega se saiba parte como, embora seja simples, muitas vezes temos dificuldades de implementar e botar em prática. Vejamos.
                Primeiro exercitar a atenção plena, ou seja, o velho e sábio carpe diem romano.  Capinar o dia é viver maximamente o presente. Segundo surfar na experiência (flow), ou seja, permitir-se fluir na vida, imergir e se envolver no que se está fazendo, sentir prazer na atividade e nos desafios. Quando se está realmente envolvido em uma atividade ou tarefa com alta motivação intrínseca não se sente sequer o tempo passar. Como afirma o psicólogo húngaro Mihályi Cslszentmihalyi quando uma pessoa está em flow-feeling ela utiliza toda suas capacidades e habilidades, experimentando enorme satisfação e prazer pessoal. Outro recurso que podemos utilizar é o degustar e apreciar as coisas boas da vida, sem pressa ou açodamentos. A atenção plena, o se permitir fluir e o saborear o instante faz a nossa vida ser sentida de maneira muito mais interessante.
                Paralelamente ao embatimento das dores construídas desde o passado e da visão negativista que podemos ter de nós mesmos e do mundo a partir de nossa infância, há de se buscar o fortalecimento dos aspectos funcionais da personalidade. Enfocar e estimular as emoções positivas fortalecem não somente o ego e o self da pessoa, mas também até mesmo o sistema imunológico do mesmo. E o que são emoções positivas? Alegria, serenidade, tranquilidade, contentamento, amor, esperança, são exemplos de emoções positivas.
 Os fatores salutogênicos são e devem ser trabalhados em psicoterapia, além dos fatores patogênicos. Por salutogenia se entende aspectos inerentes à personalidade, bem como hábitos considerados saudáveis para o sujeito, tais como atividades físicas, práticas de esporte, bom nível de lazer, hobbies, boa alimentação, amigos e rede social satisfatória. Um indivíduo sofrente apresenta um desequilíbrio na balança entre os fatores patogênicos e salutogênicos, com inclinação para o polo patogênico. O reequilibrar-se não é somente diminuir o peso da patogenia, mas igualmente aumentar o lado da balança pertencente à salutogenia.
                Toda boa psicoterapia visa (além do alívio sintomático e/ou resolução de situação-problema porque passa o paciente/cliente) elevar as forças pessoais já existentes no sujeito, reconhecendo os comportamentos adaptativos que servem de proteção a futuros estressores e dificuldades. É como se fortalecesse a pessoa para outros possíveis enfrentamentos na vida, dando espaço ao florescimento de um sujeito antes obstaculizado em seus potenciais adormecidos. Uma pessoa assim mais fortalecida e mais autêntica e mais realizada é, inevitavelmente, mais autoconfiante e mais engajada com a vida e traz consigo uma autoimagem menos negativa e, consequentemente, mais positiva. Embora isto tudo não seja garantia de felicidade, não se é feliz sem isto. E o isto aqui empregado resume-se em um sentido mais satisfatório de vida. Com sentido de vida o sujeito se motiva para a própria vida e aprofunda sua própria existência.
                 Breve, em nova postagem, demonstraremos algumas técnicas mentais que auxiliam no desenvolvimento positivo do nosso psiquismo.


Joaquim Cesário de  Mello

2 comentários:

Andreza Crispim disse...

Adorei o post. Fazia tempo que não lia o blog e voltar a lê-lo com essa publicação foi instigante.

Sempre pensei na importãncia de perceber esse outro lado e realmente na academia é visado mais os aspectos negativos da vida, talvez por isso a imagem contruída sobre o profissional de psicologia como alguém que lida com dano e dor, na verdade somos profissionais da existência humana, ou seja, tudo que ela tem a oferecer.

Alice disse...

Maravilhoso, isso é a clínica, assim que deve ser. Maravilhosas lições e direcionamentos para um trabalho efetivo e um auto trabalho. espero as dicas.