sexta-feira, 20 de julho de 2012

RECITAR-SE: UMA PEQUENA ODE AOS PSICÓLOGOS DO AMANHÃ


Joaquim cesário de Mello

Talvez, em meus anos estudantis, também houvesse algum professor que olhava nossa geração com olhares de desencanto, desesperança e nostalgia. Talvez esse suposto professor presenciasse o transitar sociocultural de uma era e, assim, com certa estranheza e alguma soberba dissesse baixinho cá com seus botões “na minha época era melhor”. Talvez...
                Talvez o mesmo esteja acontecendo comigo agora quando do outro lado do balcão. Na figura de professor, vejo-me a cada ano que passa mais desanimado e desapontado, muito parecido com aquele professor que sequer sei se realmente existiu com seus olhares de desencanto, desesperança e nostalgia. Entristece-me deparar com o empobrecer dos alunos de hoje. Não que o hoje tenha começado hoje, já vem de algum tempo, mas gradualmente o que observo são turmas (pessoas) esvaziadas de bagagem humanística, ocas e desprovidas de exercício crítico e reflexivo. A agudicidade de lidar e sentir as coisas significativas da vida parece anoréxica, falta ou carece de um mínimo de conhecimento cultural sobre o que há de mais humano em nós que é a nossa própria humanidade sócia histórica.
                Contudo, isso não é um fenômeno restrito às paredes das salas de aula, é acima de tudo um fenômeno social. Alguns chamam a geração dos tempos em que aqui escrevo de “Geração Z”, ou seja, toda uma geração nascida sobre a égide da internet. Uma geração imediatista e habituada ao zapear. Embora altamente conectada muitas vezes sequer saiba calcular uma equação matemática, por exemplo. É só teclar uma calculadora, e pronto. No culto ao iPhone, verifica-se uma imensa multidão de pessoas cheias de informações fragmentadas e pouca ou quase nenhuma cultura filosófica, artística, cientifica e humanas. Um verdadeiro empobrecimento intelectual das massas.
                Choramingos meus à parte, eis que de vez em quando sou surpreendido e caio do pedestal de minha pretensa arrogância e pedantismo. Recentemente um grupo de jovens alunos lá da FAFIRE (Andreza Crispim, Caio César, Lucas Garcia, Jonas Araújo, Jéssica, Andressa Costa e, creio, outros) criaram o grupo de poesia “Recitar-se”, ou como eles mesmos chamam “encontro de falação de poemas entre amigos do Recife”. Quem diria poesia! Logo hoje em que a poesia, principalmente a literária, está ficando reduzida a guetos. Logo hoje em que vivemos a ditadura das imagens digitais e quando se sabe menos pensar escrevendo ou escrever pensando. Logo hoje em que canetas, papéis e caligrafias parecem repousar em museus ou cemitérios. Logo hoje, quem diria, ainda se pensa e se produz poesia!
                A poesia é mais do que uma forma de escrever, é uma forma de ver e viver o mundo e a vida. Mais do que estética, poesia é transcendência e é arte. Mais do que texto, poesia é sentimento. E neste sentido, tanto faz se é escrita, pictórica, falada, imagética, sonora ou digital. Poesia é poesia e não se restringe a páginas de papéis ou livros. Repito, poesia é uma forma a mais de ver a existência e de lidar com o mundo. Dizia o poeta Mário Quintana, “se alguém te perguntar o que quisestes dizer com um poema, pergunta-lhe o que Deus quis dizer com este mundo”.
                Um poeta não é feito de barro, aço ou ferro, mas é feito de sensações, olhares e sentimentos. É como se enxergasse além das coisas e as expressasse em verso e prosa. Não se nasce poeta, descobre-se poeta, afinal há em todo homem, em todo ser humano, um poeta escondido pronto a se achar, a falar, ouvir, ver e escrever. O pessoal do Recitar-se clareou-se. O mundo nunca mais será o mesmo para eles.
                Há muito afirmo que se não sabemos ler poesia jamais saberemos ler uma alma humana. Como se ser um bom psicólogo sem a sutileza e a aguda intimidade de um verso. Toda alma é pura poesia. Veja só ao seu redor, leitor, quantas imagens poéticas existem? Uma, duas, sete, cinquenta, cem? São incontáveis os poemas que nos circulam em uma prosaica cena qualquer, apenas muitas vezes não nos apercebamos. É como aqueles óculos deixados sobre a escrivaninha, ou como aquela cadeira vazia ou como o vento que entra pela janela. Bem descreve a escritora Ana Hatherly: “o poeta é um pintor do mundo invisível”.
                Voltemos aos nossos emergentes poetas, aliás, aos psicólogos do por vir, já que eles já ensaiam seus primeiros e sólidos passos. Como não se encantar com a madurês contida na construção dos seguintes versos: “o tempo passou, porém você ficou estático/você é um mero recorte daquele m momento/algo que não se aplica mais na realidade./A sua voz é a mesma/a minha capacidade de ouvir diminuiu.../aquele seu cheiro só seu persiste/preencho a casa de incensos.../você se transformou em uma lembrança imediata./Não consegui deixar para trás a vontade de crescer./Eu andei/e você ficou na estrada/e nós caminhamos sem sentir./Andei sobre ela/já você se deixou ultrapassar./A estrada passou sobre ti/e você nem viu”.
                Não é o traçado dos versos que aqui saúdo, mas a atitude. A atitude de não somente se sujeitar ao confinamento confortável da mesmicidade cotidiana. Atitude de se expor à angústia de existir e que é também a beleza de se ser. Atitude de dessuforcar fantasmas e se confessar sujeito. Atitude de subverter a lógica das multidões e ampliar horizontes. Atitude em se confrontar com o materialismo contemporâneo dando voz ao inexprimível interior das próprias emoções. Atitude em se assombrar no expandir sensível da subjetividade. Atitudes. Atitudes estas que no cerzir das palavras costuram o psicólogo do por vir.
                Uma escuta clínica é também uma escuta poética. Olhar o ser humano que nos procura ou necessita com olhos de poeta é antes e acima de tudo aproximar a alma do que ela tem de mais humano: o seu simbólico. Um encontro psicoterápico não é um encontro protocolar e nem a abordagem que tal encontro suscita em toda sua singularidade não se encontra escrita em manuais ou qualquer livro didático. Ali onde aquelas subjetividades se interligam é pura poesia. Falta apenas o poeta e o poema.
                Pois é, caro e eventual leitor, no achado de versos como “a minha ousadia é esconder o que me pertencia/foi bobagem pensar que assim me protegeria./Sinto muito por me perder/o que queria era me encontrar” encontro agora alívio a uma pergunta que tanto me atormentava: a quem encaminhar meus netos se necessitarem de psicoterapia? Sim, o amanhã se faz no fazer do hoje e hoje já sei onde estão alguns psicólogos do amanhã. Meus futuros netos já podem se neurotizar.
PS: o primeiro encontro do Grupo Recitar-se está gravado no vídeo:

3 comentários:

Lucas G. disse...

Sempre penso que o tempo dos meus pais era melhor...que a musica era de melhor qualidade, que os grandes pensadores teriam ja passado por esta vida, que o mundo era mais bonito e que na atualidade só sobrava aqueles que derivam de grandes pessoas. Eu por muitas vezes pensei, porque não fiz parte do pasado? Porem, quando vejo reconhecimento daqueles que considero grandes mentes e que vejo que são permanecentes deste pasado que tanto desejei participar, fico muito satisfeito e motivado para criar, quem sabe, algo melhor.

Andreza Crispim disse...

Não sei o que dizer sobre o texto. Fiquei muito feliz com o que li e admito que tudo isso serviu como um combustível para continuar nessa caminhada me dedicando mais e mais.

Acho que os sentimentos que agora me transbordam são os mesmo da pessoas dedicadas que são reconhecidas.

Obrigada :)

Cayo C. disse...

Obrigado pelo reforço no discurso Joca!
O povo da minha idade acha que num da pra fazer mais nada no mundo. Fica parado esperando alguma coisa acontecer!

É um saco, isso sim. Um grande saco velho. Mas a gente se junta, a gente tenta! Nem tudo é tão bom, mas nem tudo está perdido.

A gente ta tentando na literatura, na música e no teatro! E a maioria das coisas sozinhos. Nesses projetos somos as cabeças, as caudas, o corpo e a alma. A coisa é boa! Eu particularmente não espero frutos de nada disto. Pra mim, já é bastante alimento pronto.

A ultima coisa que escrevi fala disso, essa coisa do não fazer, do "deixar pra lá tem gente melhor no youtube" http://cayoc.blogspot.com.br/


ps. Meu nome é Cayo César.