domingo, 31 de dezembro de 2017

Dezembro




O antigo seriado  Cosmos - talvez poucos se recordem -, narrado e idealizado pelo astrônomo Carl Sagan, teve, na ocasião, um relativo um sucesso  de público ainda na televisão aberta, apesar do horário pouco convidativo - era apresentado tarde da noite aos domingos.  O programa divulgava a ciência, especialmente a astronomia,  e foi apresentado nos anos 1980-90 - ainda me espanto em saber que, naqueles anos, um programa desse tipo atraísse um extenso público. Falo isso, porque recentemente,  há pouco mais de um ano, fizeram um caprichado remake desse seriado utilizando dos aparatos tecnológicos de imagem de alta definição e efeitos especiais da atualidade. Essa versão, poucos tiveram conhecimento, apesar da excelente qualidade de texto. Conta com a apresentação do físico  Neil deGrasse Tyson sob o nome “Cosmos: A Spacetime Odyssey”. O título, que em tradução livre seria Cosmos: Uma Odisséia no Tempo-Espaço, se inspirou no filme de Kubrick : 2001 uma Odisseia no Espaço, filme de referência na história mundial do cinema, do século XX -  encontra-se sempre nas listas dos melhores filmes entre o público especializado.

Cosmos de Neil Tyson é um belo e cuidadoso  seriado, daqueles que nos emociona quando o assistimos e nos deparamos com um céu estrelado. Pena que, diferente do passado, o novo seriado restringiu-se a um pequeno  público de curiosos e de NERDS. Este novo Cosmos tem roteiro diferente do Cosmos de Sagan, equiparam-se em qualidade, Tyson tem autonomia e nos seus  episódios faz uma elegante homenagem ao antigo físico morto precocemente em 1996. Tyson, inclusive, o conheceu criança e guardou por vários anos um pequeno texto autografado pelo próprio Sagan. 

Assim como no primeiro episódio do seriado antigo, Tyson reapresenta a mesma analogia alegórica do calendário da “criação” idealizada por Sagan. A ideia é simples:  todo o tempo, desde da big bang até a atualidade, é incorporado  proporcionalmente entre os meses  de um calendário anual, naturalmente o big bang aconteceria em janeiro e os dias da atualidade em dezembro. Propõe-se com isso dar uma ideia mais ou menos aproximada da  dimensão do tempo universal com o tempo de nossa existência. Essa proposta traz conclusões assustadoras e melancólicas.  Se a big bang ocorreu no primeiro dia de janeiro, o sistema solar surgirá  no começo de setembro - no dia 30 deste mesmo mês aparece a vida na terra. Surpreende-se que os dinossauros, seres tão aparentemente remotos da história da terra, tenha surgido no dia 25 de… Dezembro (isso mesmo! e ainda, depois do “natal”). E nós humanoides (pasmem!),  no dia 31 de dezembro -  às 23:50 - dez minutos para terminar o calendário. A humanidade civilizada, tal qual conhecemos nos livros de história, perdura por longos 20 segundos finais desse calendário. Para contar nossa história contamos, enfim com miseráveis 20 segundos,  momento pelo qual  deveríamos estar muito próximo já de erguer os braços para deseja feliz ano novo e se livrar de dezembro. Dezembro foi, contudo, o que nos restou.

Vivemos um longo dezembro e suas consequências. A ideia de fazer desse mês o fechamento de um ciclos em meio a enormidade universal, mostra, melancolicamente, a nossa insignificância, pois sequer podemos  interferir no grão de areia de nossas decisões.  Somos nada. Levamos - e culpamos - à dezembro, na maioria das vezes, a mesma experiência dos dezembros anteriores, ou melhor, em sua maioria, a não experiência,  a sensação faltosa de que nada ou quase nada pode ser feito.

Dezembro faz, por outro lado,  lembrar a infância, as festas natalinas trazem o sabor de alegrias perdidas e ou a nostalgia, um desacerto, um desacordo, com o tempo. Traz lembrança também do céu  entre  o éter, a substância aristotélico (e posteriormente astronômica),  e o firmamento - o céu dos  religiosos, o céu judaico,  cristão  -  com um cometa, um meteoro,  uma estrela cadente.  Por essas razões, dezembro, apesar de quente e abafado, tem hábitos noturno. Noturno, mas não notívago, pois a esses  cabem os outros meses do ano - dezembro se dorme tarde como eventualmente faz uma criança.

Como no calendário de Sagan - que, inclusive, morreu em dezembro -  dezembro nos aponta para  o começo e para o final. Final do ano, final do ciclo, final das horas, dos tempos... Ferreira Gullar ( também morto em dezembro) nos diz:


Perplexidades

a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado

Ferreira Gullar

Marcos Creder



domingo, 24 de dezembro de 2017

SILÊNCIO PARA OUVIR O SILÊNCIO



O mundo de repente calou-se. Nenhum som, sequer nenhum ruído. Toda uma calmaria me cercou no emudecimento do cosmos, feito uma casa retirada de crianças e dos demais adultos. Na solidão em que me imponho dilata-se o vazio das coisas vivas, enquanto me debruço além da garganta, das epidermes e dos ossos. Ouço-me ao estender-me para dentro na quietude morna  e comedida das ressonâncias agora outonais de verões passados. Sinto em meu rosto o sol em plena noite. Transformo-me em uma agigantada madrugada sem fim desabafando gemidos de um outro silêncio que desabrocha no tremeluzir profundo das minhas ocultas entranhas.





Poderia iniciar assim um esboço de texto se pretendesse fazer aqui literatura. Poderia ser um conto, uma crônica ou uma prosa poética qualquer. Porém, meu presente intuito é apenas abordar a temática em termos de um pequeno ensaio. Perdoem-me se fiz pensar tratar-se de outra coisa, mas vamos, então, ao que interessa, isto é, penetrar nos espaços onde os sons corriqueiros não entram e cuja a vida, como escreveu o poeta Rainer Maria Rilke, "perdura ao lado da nossa, que passa". Voltar-se a si mesmo. Escutar o indizível. Reconhecer os mais inaudíveis ruídos e sonidos. Ir aonde o ouvido não vai. E ouvir o silêncio que sempre está por detrás do silêncio.
Voltar-se para dentro significa interiorizar-se. Dentro do homem habita o homem. Como diz José Saramago, em seu livro "Ensaio sobre a cegueira", "dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". Santo Agostinho (considerado o "pai da interioridade") afirmou que "é no interior do homem que habita a verdade". Não saiamos, portanto, tanto para fora - como de hábito e frequência fazemos. Retiremo-nos, de vez em quando, do mundo externo e suas mundanidades ruidosas. Afastemo-nos, pois, alguns instantes, do falatório e barulho geral. Cerquemo-nos de silêncio, para a partir dele escutarmos outras vozes. Alguém já disse que o silêncio é o respirar da alma. Ou como expressou Confúsio: "O silêncio é um amigo que nunca trai".


A agitação nos distrai. No alvoroço da vida banal muitas são as vezes em que nos multiplicamos e nos fragmentamos, nos diversificamos. É necessário um certo afastamento de tudo, ingressar no ócio, para que possamos refletir, desenvolver nossos potenciais, conhecer e melhorar quem somos. Damásio, em seu livro "O ócio criativo", diz que precisamos descansar a mente através do ócio criativo que, segundo ele, é aquela trabalheira mental que acontece quando ficamos parados. Ociar, diz Damásio, não significa não pensar; significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelos relógios e não obedecer aos percursos de certas racionalidades. Não forcemos, pois, o germinar que se inicia no afastamento dos pensamentos não pensados. Sem pressa permitamos o amadurecer das palavras escurecidas rumo ao parto de sua luz. Deixemos o fluir do questionar das verdades prontas e nos coloquemos a desaprender, como ensina Barthes, tudo o que temos aprendido. É necessário, portanto, não conhecer para ter anseio de conhecer. É como escrevem Gilberto Dimenstein e Rubem Alves, em "Fomos maus alunos", "o aprendido se agarra de uma forma terrível e é o aprendido que impede que eu aprenda uma coisa de uma maneira diferente". Nossas certezas e nossas verdades são impregnadas de talvez.
Parafraseando o escritor Virgílio Ferreira ("fecha os olhos para não seres cego"), tapemos os ouvidos não ficarmos surdos. Refletir, disse certa vez Jean Rostand, é desarrumar os pensamentos. É no calar da cacafonia do mundo externo que o mundo interno se nos revela. Não existe silêncio absoluto, pois até o nada tem lá seus murmúrios e cochichos. O silêncio completo é inexistência. E se existo, então posso me ouvir. Assim, nem o silêncio silencia o silêncio.
Refletir é uma atividade mental, todavia uma atividade mental diferente do pensar como pensamos vulgarmente nos nossos espaços correntes do cotidiano. É analisar e avaliar o visto, ouvido, cheirado, tocado, sentido. lembrado, sonhado, pensado..., enfim, é moer, ruminar e elucubrar o que há em nós. É caminhar para dentro até para melhor entender o fora. É consultar a alma e pensá-la, aliás, pensar com ela e a partir dela. Dialogar com a própria mente e com o mundo e a vida por meio dela requer um processo psíquico elaborativo auto discursivo. Vejamos, por exemplo, o conceito de meditação, cuja etimologia vem do latim meditare que significa "voltar-se para o interior de si com o sentido de desligar-se do mundo exterior". É um voltar a atenção para dentro do seu psiquismo no intuito de escutar-se, melhor compreender a sua existência e o mundo circundante, como uma espécie de instrumento ao desenvolvimento pessoal. Muitas vezes associada a práticas religiosas, o ato de meditar é ultrapassar o intelecto comumente usado ("calar a mente") para contemplar o habitualmente incontemplável. Também o termo refletir traz sentido análogo, ou seja, significa um movimento de volta sobre si mesmo, no qual o pensamento passa a questionar o pensamento e as nossas ações e relações com a realidade vivenciada. Questões como: por que pensamos o que pensamos?; por que fazemos o que fazemos?; o que eu quero quando penso, ajo e falo?; qual ou quais minhas reais intencionalidades?; que sentido tem a vida?; que sentido tem a minha vida?, entre outras, contribui para o entendimento e aprofundamento de nossas essências e existências.
Silenciar o balbucio das rotinas e do trivial dos dias. Cobrir o redor de fundura noite para iluminar as tênues e frágeis luzes que se encobrem pelo brilhar ruidoso do cotidiano usual. Apagar as aparências para descobrir o submerso. É no emudecer das zoadas e dos sons audíveis que podemos escutar os sons que vêm das entranhas das coisas, vivas e mortas. Como diz Fernando Pessoa, "é fácil trocar as palavras/difícil é interpretar os silêncios". Quando outro poeta, Manoel de Barros (falecido recentemente), afirma que é difícil fotografar o silêncio, ele também assim o tenta e fotografa uma nuvem de calças. O mesmo reconhece o escritor Franz Kafka quando propõe:

"Não é necessário sair de casa.
Permaneça em sua mesa e ouça.
Não apenas ouça, mas espere.

Não apenas espere, mas fique sozinho em silêncio.

Então o mundo se apresentará desmascarado.

Em êxtase, se dobrará sobre os seus pés."



Se fosse fazer deste meu texto aqui um outro texto (mais poético ou literário) talvez eu continuasse o que o acima iniciei da seguinte maneira e curso:


Agora que o silêncio me toma e me apodera estou tão despovoado de tudo e de todos que posso ouvir o passar dos minutos, o murmurar dos objetos e o acasalar das formigas. A nitidez em que me encontro assusta-me. Receio o encontrar das respostas a perguntas que nunca ousarei fazer. Na vastidão deste silêncio impoluído algo se move e suspira. Chego a sentir em minha nuca o segredar de seus respiros. Reconheço o frágil som de sua voz que vem lá do fundo do baú da minha memória. Sou eu, menino, que na inalação do adulto se exala. E me fala a linguagem pura e sensível das crianças. É quando o emudecer do universo explode em sons variados e infinitos. E todo o mundo, o mundo inteiro, se vê invadido por uma estranha e nova polifonia, de sons, significados e vozes. Na ausência das palavras, o silêncio, então, baila brincante na festa que ele criou.

Talvez o texto que jamais farei discorresse assim. 
Talvez...

Joaquim Cesário de Mello


domingo, 17 de dezembro de 2017

O X da questão


Afirmo com frequência que os avanços da tecnologia costumam deixar sentimentos nostálgicos nos objetos obsoletos. Pessoas procuram escrivaninhas antigas, telefones pretos de discar, discos em vinil, livros em capa dura com ilustrações antiquadas, máquinas de escrever manuais com longos teclados, para preservá-los nem que seja como objeto de decoração - são objetos que perderam a praticidade. No tempo das máquinas de datilografar, por exemplo, era comum páginas e páginas de papel ofício apresentarem rasuras, corrigidas aqui e ali com erroex, por conta das dificuldades de se corrigir os erros de palavras já tecladas.



(escrivaninhas? Vinil? datilografar? erroex? Provavelmente os leitores, especialmente os mais jovens, devem estar com dificuldades em saber o significado dessas palavras - recomendo o google).


Os textos datilografados, quando teclado às pressas, deixavam rasuras, borravam as folhas, enfeiavam o trabalho. Os apressados, contudo, sem tempo para reescrevê-los, tentavam facilitar a leitura teclando a letra “X” quando precisavam apagar palavras ou letras indesejadas. Hoje o X não tem mais essa função, mas - descobri recentemente - continua encobrindo erros, erros graves.

Ao ser convidado para participar de uma confraternização de uma associação das artes, li a seguinte introdução:

“queridxs amigxs,”

Veja só! - perguntei-me com sarcasmo -, depois de tantos recursos de correções inteligentes, como se pode hoje, ainda, cometer erros tão grosseiros? Antes de triunfar com a evidente percepção do erro, alguém comentou, num sussurro, como se tivesse corrigindo enquanto eu ainda pensava: “Olha, esse ‘X’ aí, não está teclado errado, essa letra substitui as vogais ‘A’ e ‘O’ para que as pessoas sejam tratadas com neutralidade, evitando o preconceitos de gênero”.




Não entendi ou, num primeiro momento, não quis entender. O meu informante, contudo, ao ver o meu espanto, e minha suposta ignorância, continuou com parcimônia e pedagogia: “entende-se hoje que o gênero é algo construído socialmente e que, por essa razão, devemos deixar as pessoas decidirem com mais liberdade sobre sua orientação e sua identidade sexual".





Mais uma vez me dou conta de que a humanidade é dada a soluções estéticas a seus conflitos particulares. Explico-me melhor. Na verdade, somos seres essencialmente estetas - passaria um tempão escrevendo polêmicos conceitos sobre o belo, o sublime, o maravilhoso, mas como também usei da palavra "conflito", prefiro discorrer um pouco mais sobre esse tema. Pois além de estetas, somos seres de conflitos - a estética vem, em verdade, tamponar um desses conflitos, talvez o mais crucial dos conflitos humanos: a relação do sujeito com sua sexualidade.

(Somos complicados, prezados leitores, complicadíssimos)

Se no mundo animal sexuado não há grandes mistérios sobre a sexualidade, pois o ato sexual parte de uma necessidade instintiva, sem rodeios, e tem objetivos precisos, no humano esse evento é bem mais ambíguo, consequência de uma vida menos instintiva e mais pulsional. Segundo meus amigos psicanalistas e psicólogos, a libido toma várias formas de satisfações simbólicas que não necessariamente estão ligadas, como nos animais, com a vida genital. No animal, tem propósitos biológicos definidos ligados a vida reprodutiva. A ambiguidade de nossos impulsos faz com que vida sexual/genital humana seja tomada por tabus. Pois nossos impulsos se invadem de desejo e desejo é outra palavra complicada no manual do homo sapiens. Os tabus escondem e intercedem na sexualidade, no sentido genital, se utilizando de vários recursos: com o uso de vestimentas (nada mais complicado que a exposição da nudez humana), com a elevação de muros e paredes, com a criação de ritos religiosos e das expressões artísticas, com os discursos moralistas.

Tendemos a nos ver diferentes dos animais por julgarmos mais transcendentes, elevados e éticos. Ledo engano: a sexualidade humana é um poço de culpa, de sentimento supostamente transgressores. Não é a toa que a libido, na nossa inserção na civilização, é recalcada e distanciada da genitalidade - aliás os animais não precisam de uma ética, seguem as leis da natureza.




Se a psicanálise se propôs a abrir essa caixa preta da condição humana e mostrar que somos imersos nesses conflitos, certamente o cerne de sua teoria não seria poupado, justamente por conta de que recalcados, somos resistentes. A teoria psicanalítica foi frequentemente atacada pelos discursos religiosos e conservadores no início do século XX, e, na atualidade, é alvejada pelos movimentos sociais. Freud ontem acusado de perverso ou imoral, hoje é considerado machista, misógino, falocentrista, burguês. já ouvi determinação de alguns movimentos sociais a proibição da leitura do texto freudiano.

(Pois é... No final, o monstro da censura e da repressão se mostra bem vigoroso.)

O discurso social afasta ou anula o biológico. Que vantagem há em separar a vida biológica da vida social? Ora está claro: alegando-se que somos seres estritamente sociais, mais uma vez criamos um mecanismo para nos livrar do horror à genitalidade. O órgão genital passa a ser apenas um detalhe - vejam quanta arrogância, mimo e pretensão! - Desse modo, podemos nos denominar quem desejamos ser e construir mais uma ilusão.

(quase ia me esquecendo, também somos seres de ilusão)

Como disse acima, essa solução, por enquanto, é absolutamente estética - nossa eterna herança -, pois tampona todas as funções atribuídas a genitalidade - para quê existe sexo, afinal? para quê existem pênis e vagina, testículo ou útero? Se um animal pudesse falar, talvez não soubessem responder por falta de suporte cognitivo, mas certamente animais não acreditam em cegonhas.

Se as letras A e O revelam o legado de nossa miséria genital, colocamos um X, não para apagar, mas para encobrir a vergonha que nos revela tão selvagens.


Guilherme Leão

domingo, 10 de dezembro de 2017

SYMPOSION: O AMOR EM DIÁLOGO

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O tema amor talvez não comece com Platão, mas tem nele seu primeiro e original pensador. Em Fedro e O Banquete Platão dialoga com a questão: o que é o amor? O Banquete foi o meu inicial contato com a escrita e o pensamento platônico. Cheguei jovem a este livro provocado por um outro texto A Infância de um Chefe, conto de Jean Paul Sartre. Nele Sartre instiga ao escrever, na voz de um personagem professor, que Freud era um Platão revisado. Como assim?, perguntei-me. Pronto, lá estava eu lendo O Banquete. Hoje, olhando a pequena multidão de alunos por quem transito em meu dia-dia acadêmico, interrogo-me se é possível se aprofundar nas entranhas afetivas da alma humana sem nada conhecer, nem que minimamente, sobre Platão. Provavelmente não. Porém, isso não importa presumivelmente à maioria deles. Para mim, sim. Cada um sabe a alegria e a delícia de ser o que é, dizia Caetano. E a vida continua...
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Normalmente um banquete é um festim, cercado de bebedeiras, comidas e algazarras. Porém em seu livro O Banquete (que em grego é Symposion) Platão privilegia não a desarmonia e o tumulto das vozes em festa, mas o logos surgente no diálogo entre os homens participantes. Vozes que mutuamente se provocam, instigam e refletem. Os diálogos de Platão são suas ideias e filosofia transmutadas em escrita. Seus protagonistas não são totalmente ficcionais, afinal ele se utiliza de personagens históricos como Sócrates, Parmênides e Protágoras, entre outros.
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Em O Banquete temos a presença de Diotima de Mantineia, que ensinou a Sócrates o que é o amor: uma carência cheia de recursos e em perpétuo ir e vir entre eles. O amor (Eros) como filho de Penia (pobreza) e Poros (abundância), por isso seu caráter sempre misto de avidez e preenchimento. Para Diotima, segundo Sócrates, o amor busca o belo, a essência. Tal beleza e essência não estão no intercâmbio sexual, mas sim na melhoria da pessoa que ama e de seu objeto amado. Claro que o texto de Platão não expressa a ideia de um amor descarnalizado, uma espécie de culto à distância, porém um amor impulsionado por Eros (daí ser erótico) que visa o perpetuar do estado de felicidade dos amantes.
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No texto de Platão o Eros socrático é revelado como algo da imperfeição e por isto anseia. E não se anseia aquilo que já se é ou se tem, mas sim aquilo que nos falta. Aqui, na voz de Sócrates, temos a fórmula do amor: "amor é desejo e desejo é falta". Diz Platão claramente: "o que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor".
O amor, o verdadeiro amor, surge na manifestação do belo - belo entendido como essência divina correspondente ao bem. Eros, na tradição grega, é o deus do amor, um poder vinculador e integrador. Quem ama admira o belo que há dentro daquilo que ele ama. O belo e bem que Platão fala representam a sublimação do humano em seu mais alto nível.

(continua em breve)
Joaquim Cesário de Mello