domingo, 29 de junho de 2014

SOBRE VÍNCULOS E VINCULAÇÕES

"Meu Deus! Como é engraçado!Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... uma fita dando voltas.Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço.É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braço.
É assim que é o laço: um abraço no presente, no cabelo,no vestido, em qualquer coisa onde o faço.E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando...devagarzinho, desmancha, desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo, fica solto no vestido.E, na fita, que curioso, não faltou nem um pedaço.Ah! Então, é assim o amor, a amizade.Tudo que é sentimento. Como um pedaço de fita"
...
(Trecho do poema O Laço e o Abraço de Mário Quintana)


Vínculo é o laço subjetivo que liga duas ou mais pessoas. Em termos psicológicos implica a existência de afetos. Evidente que as primeiras experiências humanas relacionais são com os seus primeiros objetos cuidadores, aquele ou aqueles que frente ao pequeno infante funcionam maternalmente. O objeto materno, assim compreendido, nutre de alimento e proteção o bebê, e desta relação básica e primordial desenvolve-se a primeira relação objetal do sujeito humano. Muitos têm sidos o estudiosos e pesquisadores que se dedicam a melhor compreender tal desenvolvimento afetivo-relacional e seus impactos na vida posterior do indivíduo. Entre eles destaquemos: Bowlby, Melanie Klein, Winnicott, Bion, Margaret Mahler, Mary Ainsworth, Esther Bick, entre outros. É a partir do tratamento dado pelo objeto cuidador (materno) ao seu bebê que parte o ser humano rumo ao crescimento.
Todos nascemos inseridos em um grupo social (familiar ou institucional), pois se assim não fosse não sobreviveríamos, dado nossa completa vulnerabilidade e fragilidades iniciais. As relações estabelecidas dentro de tal grupo social primário constituirá mais adiante nos chamados objetos internos. Ao longo da vida continuaremos nos relacionando com outras pessoas (objetos externo), fazendo de tais vínculos um interjogo entre objetos internos e externos. Desse modo, percebe-se a verticalidade e a horizontalidade das relações vinculares contemporâneas de um dado sujeito qualquer. Para que haja vínculo, na acepção da palavra, haverá de haver no mínimo duas pessoas (bicorporalidade), contudo em termos psicodinâmicos para o sujeito que se vincula ele é triangular, isto é, envolve o sujeito e seu objeto externo, assim como seu objeto interno. A coisa fica mais complexa considerando que o objeto não é algo inerte e passivo, visto tratar-se ele também de um sujeito. O sujeito e o objeto se alimentam recíproca e mutuamente (retroalimentação). Por isto podemos definir o vínculo psicológico e afetivo como uma estrutura dinâmica movida por motivações psicológicas que resultam em um comportamento que espelha externamente uma relação objetal interna. Tal definição evita olharmos a vincularidade apenas em termos atitudinais e externos, enfatizando os componentes subjetivos e internos envolvidos na questão. O vínculo é, pois, uma relação interativa dialética, um interjogo entre o sujeito e seus objetos internos e externos, que se expressa em determinada conduta. Uma verdadeira unidade interrelacional onde sujeito e objeto atuam um sobre o outro.


As características sociais dos relacionamentos adultos repousam nas relações primitivas dos seres humanos. Tal preconização é cada vez mais comprovada experimentalmente, donde se observa que os precoces vínculos infantis têm impacto e influenciam os demais relacionamentos posteriores. Hoje, com o conhecimento adquirido, é praticamente impossível no campo do estudo da Psicologia dissociar comportamentos vinculares atuais do primeiros comportamentos vinculativos da criança com suas figuras parentais. Tais vivencias infantis são internalizadas durante o processo de organização da personalidade humana. Assim sendo ou assim ocorrendo, desenvolve-se no psiquismo de cada um de nós representações mentais básicas aos outros, com consequentes expectativas, fantasias e imagens antecipatórias, que lastreiam tanto nossas reações comportamentais quanto nossas percepções em termos relacionais. Mecanismos psíquicos conhecidos e denominados de Identificação Projetiva afetam sobremaneira nossas relações afetivas vinculares, embora não nos demos conta visto tratar-se de um fenômeno psicológico da ordem do inconsciente humano. A Identificação Projetiva, em rápidas palavras, é quando aspectos do próprio sujeitos são negados em si e atribuído ao outro. Não se trata apenas de projeção (dimensão psíquica), pois tais parte projetadas no objeto externo visam dele alguma resposta (dimensão interpessoal). É como um evacuar emocional não somente sobre o objeto, mas dentro do objeto, isto é, provocando um ecoar igualmente afetivo no objeto receptor da projeção, mediante uma espécie de pressão interpessoal. considerando a complexidade de tal fenômeno e o exíguo espaço deste blog, remetemos o leitor à leitura do assunto descrito por Glen Gabbard em seu livro Psiquiatria Psicodinâmica, páginas 44/46. Vide Google Books http://books.google.com.br/books?id=9zXxbtE-jdYC&pg=PP40&dq=identifica%C3%A7%C3%A3o+projetiva&hl=pt-BR&sa=X&ei=YYShU7C8DYmosATJnoHgBg&ved=0CBoQ6AEwADgK#v=onepage&q=identifica%C3%A7%C3%A3o%20projetiva&f=false


O ser humano é um ser comunicacional por natureza. Vincular-se com alguém não é unicamente uma questão de aproximação afetiva, mas igualmente uma questão de comunicação. Bem descreve Pichon- Rivière ao dizer que quando alguém adjudica algo a outrem aí reside o princípio fenomenal básico da comunicação. Afirma Pichon: "na medida em que um adjudica e o outro recebe, estabelece-se entre ambos uma relação que denominamos vínculo". Prossegue: "o conceito de vínculo é operacional, configura uma estrutura de relação interpessoal que inclui, como já dissemos, um sujeito, um objeto, a relação do sujeito frente ao objeto e a relação do objeto frente ao sujeito, cumprindo uma determinada função".
Inquestionável que nossa primeira relação de amor - e por que não também de ódio - se faz com o objeto cuidador. O vínculo objeto cuidador (mãe) e filho é denominado por Bowlby de attachment, que em português se traduz por apego. Para Bowlby o apego modula o impulso exploratório humano que permite a criança explorar o mundo em bases mais seguras. Nisto se destaca a função adaptativa do vínculo com vistas à autonomia, independência e aquisição de uma identidade pessoal. Assim, o estudo da relações de apego nada mais é do que o estudo das relações vinculares. Para aprofundar ver http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/article/view/40/57

O que se passa emocional e psicologicamente entre duas ou mais pessoas e que as liga entre si, que desencadeia sensações, afetos, efeitos e transformações em cada uma dos elos envolvidos, é de fundamental importância à compreensão da dinâmica relacional entre elas. Fatores explícitos e implícitos movimentam o encontro e o desencontro interpessoal. Partir da premissa óbvia de que influências sociais, psicológicas e biológicas estão presentes, e de que somos todos uma história em continuação, em muito nos contribuirá ao entendimento do processo de vinculação entre as pessoas. Nós seres humanos temos propensão à estabelecer vínculos afetivos com os outros, e quanto mais clarearmos a questão mais estaremos próximos de entender muitos dos mistérios da alma humana. Como diz a escritora e filósofa francesa Simone Weil, "dois prisioneiros cujas celas são adjacentes comunicam-se entre si batendo na parede. A parede é aquilo que separa, mas também é o meio de comunicação... cada separação é um vínculo". 
Deixo com o leitor interessado, como complemento ao texto acima, o seguinte vídeo:


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 22 de junho de 2014

Os quadros da Melancolia

Os autores de textos de psicopatologia, seja ela psicanalítica ou não, costumam valorizar mais o discurso que a imagem, ou a escuta frente  a  presença fisionômica do sujeito. Já na medicina, de maneira geral, os autores preferem fazer justamente o contrário, e em muitas situações, alguns médicos costumam esquecer o que seus pacientes falam, dando maior atenção a aparência do patológico e  a materialidade do fenômeno da doença física.

Os antigos médicos de tradição hipocrática - seguidores de Hipócrates, pai da medicina - costumavam, inclusive, descrever o semblante, a expressão facial do sujeito, dando o nome de diversas “fácies” a depender do fenômeno que se instalava. Fácies mitral aos portadores da doença cardíaca estenose mitral,  fácies renal ao semblante edemaciado dos paciente renais crônicos, fácies "leonina" as marcas e cicatrizes decorrente da hanseníase, fácies hipocráticas - uma mórbida homenagem ao pai da medicina - em que o sujeito se mostra caquético à beira da morte.

Os livros da área "psi" geralmente não tem imagens ou retratos - isso muito se justifica por conta de questões da manutenção do anonimato e do sigilo profissional. Contudo, essa justificativa não se basta, e, suponho que,  além dessa, exista alguma desconsideração à imagem em detrimento da fala - Cabe destacar que a fala é fundamental, mas não se deve esquecer que a fala carrega uma fisionomia, um rosto, uma expressão, e muitas vezes os seus hiatos são  preenchidos  com a mímica, com o gesto. Na psicopatologia mais clássica se descreve com algum detalhe algumas caricaturas do sofrimento psíquico, mas mesmo assim, tem um caráter meramente descritivo-objetivo, enfim, classificatório e tipológico.  Houve toda uma tendência no final do século XIX  e início do século XX guiado por dois teóricos,  entre eles, Lombroso e Kretschmer,  que tentaram relacionar personalidade a tipo físico.  Magros, obesos, altos ou baixos poderiam, por assim dizer, determinar um modo de ser. Obviamente que hoje estes estudos foram superados, mas  ainda assim, restaram algumas descrições de  traços mais discretos da expressão facial, que toma um ou outro "sinal", entre as terminologias médicas e classifica-se: "ômega depressivo", "perplexidade catatônica", "la belle  indiferénce histérica", "apatia psicótica". Esses pequenos eventos tem algum valor, uma vez que um deprimido, por exemplo, nem sempre pode ser confundido com um apático, apesar de eventualmente tratarmos as duas palavras, depressão e apatia, como sinônimos.A imagem que ainda é valorizada é a imagem objetiva, No entanto, seria interessante nesse aspecto descritivo, acrescentar-se a imagem subjetiva, como bem faz os pintores e fotógrafos.

Freud sabia bem disso: era preciso ver para interpretar -  o frente a frente, o olhar demorado e silencioso era fundamental para captação dos sentimentos…" olhar e captação silenciosa do sentir" tem algo a ver com Freud?  Esquisito, não? Antes precisamos nos perguntar de qual "Freud" estamos falando. Certamente não  é do Sigmund, pai da psicanálise, mas do Lucian Freud, o famoso pintor londrino que talvez tenha sido um dos mais brilhantes da segunda metade do século XX. Há algum parentesco com o outro Freud? sim. O psicanalista é avó de Lucian Freud. Esse na verdade, nada tem haver com a psicanálise, salvo o parentesco sangüíneo e a habilidade de descrever (ou retratar) o sofrimento humano com lucidez. Quem vê pela primeira vez uma tela de Lucian Freud, tende a sentir repulsa, pelo grau de realismo e de devastação que sua pintura provoca. São retratos de pessoas no seu cotidiano, domésticos, muitas vezes despidas, sem qualquer adorno que as embeleze ou a que a tornem mais suaves. São retratos crus, sem sorrisos que captam como se os retratados fossem pego de surpesa.

Alguns desses retratos, que podem ser destacados, são os que o o pintor fez da própria mãe, Lucie Brasch que foi retratada nos meses que sucederam a morte do marido Enst - filho de Sigmund, pai de Lucian- nos anos 1970. O relato que se tem é de que a Sra. Lucie entrou em quadro de profunda melancolia e o próprio filho pode captar isso nos retratos que fez. As pintura The painter’s Mother Resting I e II. podem ilustrar essa captura do estado melancólico e, acrescenta-se ainda, as questões da idade como cita  o crítico e biógrafo de Lucian, Geordie Greig:


(...) Os quadros de Freud  vão muito além do biográfico. Ele nos visita as vicissitudes da idade. Ela (Lucie) é uma velha arquetípica. Sua calma, passividade e aceitação, os braços para cima, as mãos no travesseiro, em rendição, tudo mostra sua vulnerabilidade. 


Em entrevista a Greig, Lucian Freud dizia que pintar sempre envolveria dor  - dor (pain) na língua inglesa se assemelha  a palavra  pintura (paint) - e que o corpo humano era um tema profundo,  e que por essa razão, necessitava de minuciosa observação.  O aspecto psicológico de seus quadros ao contrário do avô,  era retirado do campo da palavra e colocado no campo do olhar. A palavra parecia-lhe um artefato: “O tema deve ser mantido sob uma observação rigorosíssima: se isso for feito, noite e dia, o tema acabará por revelar tudo” e conclui, “o quadro, para nos comover,   não deve jamais nos lembrar a vida, mas deve adquirir uma vida própria, exatamente para refletir a vida”. Ao ser abordado sobre qual ingrediente essencial à sua arte, responde ironicamente: a tinta.


Uma pergunta se faz: Avô e neto pensam diferente em relação à compreensão do humano?  suponho que sim, em relação ao método de aproximação,mas, de algum modo, os dois "Freuds" acertam em revelar aquilo que está à nossa frente e que não percebemos: a fala que diz mais que a palavra e a imagem que mostra bem mais que o retrato.

Marcos Creder

domingo, 15 de junho de 2014

TEMPERATURAS & TEMPERAMENTOS








Em relação a si dizia Clarice Lispector: "no meu temperamento tem um pouco de pimenta: não é todo mundo que gosta... Nem todo mundo que aguenta". Freud também se referida na seguinte frase: "sou, por temperamento, nada mais que um conquistador - um aventureiro, em outras palavras - com toda curiosidade, ousadia e tenacidade características desse tipo de homem". Aqui e acolá se fala do temperamento de si e de alguém. Seja como cordial, seja como explosivo. Seja como inquieto, seja como acomodado ou relaxado. Afinal, o que é mesmo temperamento?
O temperamento faz parte da personalidade de uma pessoa. É um aspecto inerente a ela e está fortemente relacionado com as emoções e os humores. Para Hipócrates, o "pai" da medicina, há quatro tipos de temperamentos, a saber: o sanguíneo, o colérico, o fleumático e o melancólico. O pano de fundo da maioria dos nossos comportamentos é o temperamento. Se algo nos é inato em termos de personalidade este algo é o temperamento. Ele é a nossa herança psicogenética dos nossos pais e avós. Através, pois, da interação entre as disposições hereditárias e as experiências vivenciais com o ambiente vai se consolidando uma personalidade na alma humana. Neste interjogo de forças o temperamento representa as contribuições biológicas do ser humano como ser bio-psico-social que é.
Na formação da arquitetura da alma o temperamento é o terreno inicial onde se edificará a pessoa humana. Dentro da perspectiva estrutural da mente humana Freud foi um dos pioneiros a destacar a importância dos primeiros anos infantis como formadores dos alicerces do caráter básico de um indivíduo. É como ele diz: "as pulsões sexuais atravessam um complicado curso de desenvolvimento e só em seu final o primado da zona genital é atingido". 


Mais modernamente estudos aprofundados e longitudinais sobre o tema da índole temperamental, como os dos médicos Alexander Thomas e Stella Chess, conceituam o componente estilístico do temperamento, isto é, o "como" do comportamento. Para eles o temperamento é um atributo psicológico que influencia o ajustamento do ser em formação com o ambiente externo. No aprofundamento de suas pesquisas identificaram nove categorias de temperamento: a ritmicidade das funções biológicas, nível de atividade, limite sensorial, qualidade predominante do humor e intensidade de suas expressões, aproximação ou afastamento frente a estímulos novos, distração e persistência. A combinação de tais categorias, por sua vez, resultam em três constelações temperamentais que são a criança de temperamento fácil, de temperamento difícil ou de aquecimento (receptividade) lento. Aquelas de temperamento difícil são mais refratárias a mudanças, precisando pois de mais tempo para adaptar-se e tendem a ter acessos de raiva quando frustradas. As de temperamento fácil são mais adaptativas às mudanças, enquanto as de receptividade lenta são mais relutantes inicialmente, porém lentamento se adaptam e suas reações negativas são menos intensas que as da criança difícil.
Desde cedo, em torno dos três meses de idade, os seres humanos já apresentam diferenças entre si. Alguns bebês são calmos, outros inquietos. Uns são distraídos e outros mais atentos. Enquanto uns são facilmente acalmados pelo acalento, outros nem tanto. O humor varia de bebê para bebê. Já na mais tenra idade o ser humano não é algo completamente passivo, visto reagir a estímulos externos com comportamentos primaria e geneticamente determinados. Com o tempo o temperamento vai se enlaçando com aquisições do meio, da educação, das experiências e dos esforços pessoais, formando o jeito de ser, sentir e reagir de cada um. Quanto a isto as disposições inatas vão melhor se moldando com sua interação com o ambiente em que se vive. Ou como escreve Flávio Fortes D'Andrea, em seu livro Desenvolvimento da Personalidade, ao reconhecer o temperamento como a "tendência herdada do indivíduo para reagir ao meio de maneira peculiar". Em outras palavras, são as nossas inclinações e sensibilidades frente aos estímulos, sejam eles externos ou internos. Uma maneira própria de reagir primariamente. 
Sabe aquele cara espontaneamente alegre, que Hipócrates chamava de sanguíneo, ou aquele enfezado e de "cabeça quente" (colérico), ou aquele outro que é meio lento e sem muita emoção (fleumático), pois é são seus estilos, isto é, seus temperamentos. Assim como também pessoas que são naturalmente tristes ou sonhadoras (melancólico). O temperamento, assim, portanto, é a estrutura básica dominante do humor e do comportamento.  É o clima, a temperatura, em que vive a alma humana e nele se desenvolve.
Contudo, não é porque o temperamento nos é inato que não possamos aprender a conviver com ele de maneira volitiva e até mesmo abrandá-lo. O temperamento pode até ser imutável, mas também pode ser administrável. Por isto se faz tão necessário nos conhecermos bem, principalmente se considerarmos que o temperamento tem por característica ser não-volitivo e não-intencional. O autoconhecimento é uma espécie de alfabetização emocional. Dessa maneira o sujeito mais alfabetizado emocionalmente sobre si mesmo é um sujeito que percebe melhor suas atitudes e busca colocar o calor das suas emoções mais adequadamente às inúmeras situações de vida. Evidente que o esforço resultante do controle dos nossos temperamento são recompensados com um desenvolvimento mais positivo da nossa personalidade. 
A transição na primeira infância de temperamento em personalidade, a partir da segunda infância em diante, passa pelo controle que a pessoa, que se vai construindo dentro do psiquismo antes puramente impetuoso e impulsivamente infantil, tem sobre tais demandas. A regulação das emoções brutas, intempestivas e não-volitivas (temperamento), em termos acadêmicos, chama-se de "desenvolvimento do self emocional". Tal regulação nos faz capaz de tanto controlar estados emocionais quanto o comportamento relacionado ao mesmo. Quanto mais capaz de regular e modular nossa emocionalidade mais fácil fica de experimentar e explorarmos os ambiente sociais em que vivemos. Quem consegue um bom controle de suas emoções mais resiliente aos estresses se transforma. O Eu que habita a alma humana tem como principal função mediar o temperamento com as demandas ambientais. Há na Bíblia uma passagem (Provérbios 16:32) que diz: "o homem paciente vale mais que um general que venceu muitas batalhas, porque é muito mais difícil controlar as próprias emoções do que conquistar uma cidade". 
Aprender a controlar um temperamento colérico, explosivo, estilo "pavio curto" - por exemplo - passa por compreender a dinâmica de sua ansiedade, muitas vezes provocada pela necessidade de controlar tudo e todos, o que naturalmente vai-lhe originado um acumular de frustrações e irritações que acabam por resultar em estouros emocionais intempestivos e inadequados ao estímulo raivoso atual (a gota d'água que transborda um copo já cheio). É necessário, nestes casos, desenvolver internamente um diálogo de si consigo mesmo, evitando assim que pequenas provocações gerem grandes explosões furiosas. Uma espécie de dialética psíquica entre pensamentos raivosos e pensamento anti-raivosos. Neste sentido uma experiência psicoterápica eficaz em muito contribui para o incremento do que chamamos "cisão terapêutica do Ego". Através dela constrói-se internamente um duplo Ego dialogal, ou seja, um Ego que experimenta e vivencia suas emoções e um Ego que as auto-observa. Assim conseguindo pode se alcançar o mesmo que o escritor francês Flaubert atingiu quando disse que "tinha essa inexprimível beleza da alegria, do entusiamos, do êxito, e que nada mais é que a harmonia do temperamento com as circunstâncias" (grifos nossos).


Joaquim Cesário de Mello

quarta-feira, 11 de junho de 2014

VALE A PENA VER DE NOVO


PARA ALÉM DOS ARREDORES DE MIM

(originariamente publicado em 24/02/2012)

   


       Sou mais vasto do que sei quem sou. Eu sei. Além das cercanias em que me encontro encolhido habita um Joaquim bem maior e mais amplo do que todo o somatório de minhas familiaridades. Meus horizontes visíveis são minhas cercas. Mas como posso saber quem sou se não sei quem sou após as muradas que vejo quando me vejo? Serei, como diz Pessoa, sempre aquele que não nasceu para isso? Serei somente aquele que só tinha potencialidades e qualidades? Ou serei como um Vladimir ou um Estragon que nada mais tendo a fazer da vida ou na vida vivem a esperar um Godot que nunca chega? Ou serei ainda sempre um homem adiado, uma promessa que nunca se realiza, uma inquietude perene e quieta por debaixo dos contornos de minha máscara? Será que em minha lápide nada mais será escrito senão as datas em que nasci e morri? São tantas as desculpas que crio para continuar a não fazer o que até agora não fiz. Minha mendicância é vivida de sonhos onde neles sou o inverso de mim.

                Quando deixarei de sentir saudades de quem não fui? Acomodei-me confortável a esta metade de mim. A estrada que percorro não tem piso de tijolos amarelos - mas para onde ela me leva, se até agora só consigo chegar aos limites de minhas redondezas? Devo ser alguém mais e além de minhas periferias. A estrada em que ando andando não foi feita por mim e nem para mim. Então, por que nela prossigo? O poeta sevilhano Antônio Machado já versava que “não há caminho, o caminho se faz no caminhar”.
                Samuel Beckett em seu texto teatral Happy Days compõe um longo monólogo onde a personagem Winnie encontra-se enterrada até a metade de seu corpo. O tiquetaquear de um relógio marca a passagem do tempo e a hora de dormir e a hora de acordar. E Winnie repetidamente diz dia após dia: “Ah, bem, seja como for, é o que sempre digo, foi um dia feliz apesar de tudo, outro dia feliz”. E aos poucos, com o passar dos dias cênicos, Winnie vai se soterrando até o pescoço. Sim, vive-se assim: de um aguardar infindo e de uma esperança que não se conclui.
                Não me basta mais o que já sei de mim, pois de mim já sei demais. Quero-me além dos arrabaldes e após os subúrbios. Não sou tão mínimo assim para existir uma existência só de “murmúrios e grunhidos do berço até o túmulo”. Sou como aquele personagem do poema Tabacaria de Fernando Pessoa, pois não sou nada, não posso querer ser nada, pois também trago em mim todos os sonhos do mundo. 
             Sou e estou como sempre fui e estive: como a ave enjaulada do poema que escrevi quando tinha bem menos aniversários do que trago agora (...Empinou o bico/com inútil arrogância/agitando as penas/como se fosse feliz./Olhou o mundo/que flutua por detrás da janela,/abriu as asas/um tanto desacostumado/e num último arrebatamento/chocou-se entre as grades./Resignado,/recolheu-se ao seu canto habitual/e fechando as asas e os olhos/sonhou grandes voos.). Mas, não quero isto mais para mim. Quero ir adiante. Passar das cercas e me aprofundar inteiro. O somatório das nossas larguras e alturas não são nem metade de um terço de um décimo de nossas profundidades. Somos uma enorme vastidão para dentro. Do lado de lá de nós, de cada um de nós, reside quase um infinito, que toda uma existência de séculos seria insuficiente para explorar por completo.               

          O universo da alma humana não é menor do que o universo físico. Porém, emergir de si não é fácil ao humano, pois é necessário ir além das grades e das cercas impalpáveis, porém sensíveis. Os tijolos que edificam o muro que nos aprisiona não são feitos de barro ou argila, mas de medos, vergonhas, receios, culpas e pudores. O cineasta russo Andrei Tarkovski em seu filme Stalker, por exemplo, nos oferece uma história cuja ideia central gira em uma odisseia pela busca da cura dos medos e das inquietações pulsionais. A história se passa em uma região onde houvera caído um meteorito e que não é permitido por forças militares se entrar lá. Corre o boato que quem chegar perto de onde caiu o meteorito poderá realizar todos seus desejos. Uma pequena expedição de dois homens guiados por um nativo humilde da região consegue furar o bloqueio. Mas também corre a lenda que para se chegar à zona do meteorito é necessário antes ultrapassar várias armadilhas e perigos. O filme nos conduz lentamente por entre armadilhas e perigos que nunca acontecem. Nada acontece. Nem mesmo a realização plena dos desejos.
                 O transcender das cercanias nos amplia para dentro. Mas é árduo, sempre é, o longo e interminável caminho entre quem sou, quem gostaria de ser e quem eu posso ser. Para empreender tal infinda jornada é necessário coragem pessoal para renunciar ao mundinho em que habito. e muito mais do que coragem, pois, como afirma o psicanalista Hanz Kohut, as ambições nos impulsionam e os ideais nos puxam. Uma vez cruzada a porteira, que separa a alma que sou da alma que posso ser não há mais retorno ou regresso. É como disse certa vez o poeta chileno Pablo Neruda: "quem volta jamais partiu"

                  Quando daquela porta passar, quando as cercas ficarem às minhas costas, não mais serei o mesmo. Não posso mais ser o mesmo. E lá chegando, pois depois dos muros sempre se chega em algum lugar, encontrarei outra porta e outras cercas que também devo ultrapassar até a próxima porta e novas cercas. Nunca nos livraremos das cercas e de suas portas, contudo agora ou mais adiante tenho mais espaço no curral para caminhar - e ainda posso ampliar. O ampliar termina somente quando eu findar.
                E porque  ainda não findo é que devo me exceder e e me suplantar. E seguir em frente e continuar... Até o dia em que meus fantasmas se vestirão de luto por mim.

Joaquim Cesário de Mello