A biografia é uma modalidade sempre geradora de controvérsias e acredito que a maioria se deve a vulgarização, a má qualidade de seus autores, e, por fim, ao próprio biografado consumiu livros volumosos. Calculei , depois de algumas leituras, que a vida de um sujeito dura mais ou menos 500 páginas escritas incluindo as referências bibliográficas ( risos). Geralmente as cem primeiras contam a infância, em que se tenta desvendar das razões psicológicas que fizeram daquele sujeito gênio ou tirano, ou ambos. Nas duzentas páginas seguintes, descreve-se as contribuições ou o legado que deixou a humanidade e de todos só percalços que atravessou. Por fim, nas últimas cem ou cento e cinquenta páginas aparecem as doenças, os estertores e quando o vida termina consequente de alguma tragédia os detalhes de sua morte, são meticulosamente esmiuçados - infelizmente nas biografias, trago o spoiler: todos morrem no final.
Gosto desse gênero literário - confesso que comecei a gostar mais recentemente, depois de longos anos de inexplicável preconceito - Acho o texto biográfico trabalhoso, dedicado, alguns muito bem escritos, mas noutros, muitas vezes, se peca por alguns equívocos que aqui destaco: existe uma tendência exagerada de demonizar ou santificar o biografado a depender do que ele representa para os segmentos que sua vida venha a interessar; outro erro ocorre, eventualmente, quando se tenta tornar a leitura mais agradável, romanceando a vida do sujeito fazendo dele, não mais uma pessoa, mas um personagem, uma invenção do autor. Isso ocorre acidentalmente, sem a consciência plena do autor que se envolve sorrateiramente com a vida da personalidade pesquisada - o risco extremo é do texto passar a narrar uma autobiografia. Mesmo que haja algo de ficcional nas biografias - não temos como fugir da ficção das palavras escritas - não é ou não deveria ser essa a intenção dos seus leitores. Tenho entendimento que o autor deve ou deveria destituir o biografado do lugar de personagem, da invenção e de ícone e trazê-lo de volta a sua condição de ser humano comum.
E é baseado nesses preceitos que li a mais recente biografia de Freud de Elizabeth Roudinesco publicada recentemente no Brasil. “Sigmund Freud em sua Época e em nosso Tempo (belo título, aliás) é uma biografia mais perto da reflexão acadêmica do que dos detalhes sórdidos da vida do protagonista, e isso a deixa mais perfeita. Suponho que para os que nunca conheceram esse sujeito Sigmund Freud - fato raro - talvez seja um livro por demais denso - acredito que seja uma biografia para os que tem alguma familiaridade com o jargão da psicanálise. Traz, contudo, significativas vantagens perante algumas biografias anteriores, pois é meticulosa e bem documentada, fato que põe por terra alguns mitos comumente ditos em relação a vida de Freud. A famosa frase “Eu lhes trouxe a peste” atribuída a ele, quando estava chegando de viagem ao continente norte-americano, é um desses mitos, essa frase jamais foi pronunciada ou escrita por Freud. A ideia romântica de que o livro “A Interpretação dos Sonhos” teria sido um fiasco de público e de crítica - ideia que teria como objetivo fazer do pai da psicanálise um sujeito persistente, obstinado, lutador, também é uma de outras inverdades. Esse livro, obviamente, não foi nenhum best-sellers, no entanto, foi acolhido com resenhas - não passou despercebido - pelos principais publicações vienenses. Talvez, como todo o escritores ou cientista, Freud quisesse mais…
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frase falsa atribuída a Machado de Assis, imagem de Monteiro Lobato |
Freud é dos personagens mais comentados desde o século XIX. Apesar de muitos contestarem suas teorias (assim mesmo, no plural) , ainda assim, se fala o nome de Freud com muita frequência desde os textos especializados aos comentários de rede social - nesta, em especial, se postam frases que certamente faria o falecido criador da psicanálise arregalar os olhos ou gargalhar. Nas redes sociais, muitos sujeitos de baixa auto-estima escrevem textos, em sua maioria, medíocres, para ser lido por outro semelhante (que nunca ousaram folhear alguns livros) e atribuem à Nietzsche, à Jung, à Clarice Lispector, à Rui Barbosa à Machado de Assis e obviamente Freud. Um conhecido texto denominado "Se" foi durante toda minha juventude atribuída a Jorge Luiz Borges, texto que jamais este escritor argentino escreveu. Esse texto equivocado, aliás, além de frequentar as redes sociais, comumente está em dedicatórias e em epígrafes de livros, artigos e publicações científicas.
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Marcos Creder