domingo, 30 de novembro de 2014

Uma sexta-feira nada Santa



Apesar desse artigo está sendo lido no domingo, escrevo ele na sexta-feira. Sexta-feira  é um dia meio ambivalente no calendário das pessoas. Há aqueles que juntam todas as premonições e colocam nesse dia,  e outros que preferem depositar comemorações. Falemos dessa sexta-feira que passou, ou como vem se ouvido nos dias de hoje, na black friday – pois é mais elegante falar qualquer palavra em inglês de uma sexta-feira nada "santa".

Há uma regra conhecida entre comerciantes e vendedores que é simples. Se um cliente/comprador se interessar por um produto, tente, se você é vendedor, convencê-lo de comprar nos primeiros quinze minutos. Caso isso não ocorra a chance do produto ser realmente adquirido cai vertiginosamente. Se o cliente “já se decidiu” e diz que vai dar uma volta ou que comprará mais tarde, lamento informar, prezado vendedor, dificilmente ele voltará.  Por que?  ou melhor: o que  faz um produto se tornar indispensável por quinze  ou vinte minutos e deixar de sê-lo em meia hora? Em verdade, essa regra nada tem haver com a necessidade, a maioria das compras que se faz estão muito distante de uma realidade ou necessidade imediata, mas muito próxima da gratificação e da satisfação geradas pelo próprio impulso de comprar ou consumir. Consumir ou gastar talvez seja o correlato as caçadas pré-históricas, em  que o caçador saía  floresta a dentro a procura de alimentos e de desafios; não bastava ser um simples caçador de ofício, o status de caçador era, por assim dizer, carregada de virtudes: coragem, desafio, habilidade. Virtudes que até hoje as pessoas precisam para acalentar suas almas sofridas. Poder-se-ía dizer, gorsseiramente,  que  a caça era uma forma de representar o “poder”. Isso faz lembrar muitos discursos atuais em que a pessoa ao passar por algumas dificuldades da vida, com a autoestima comprometida, vai ao shopping e, como mesmo diz, ‘se excede” na tentativa de (re)capturar esse animal simbólico. Esse animal poderia ser traduzido e  atualizado pela palavra “necessidade”,  mas como existe algo mais que que vai além da simples captura de alimentos  – e isso se observa desde a pré-história – poderíamos retificá-la para desejo. Por isso que não compramos o que necessitamos, mas o que desejamos. Se se trocasse o “objeto de desejo” por “objeto de necessidade”, certamente, muitas pessoas perderiam o entusiasmo de ir à caça, pois o que está em jogo, no desejo, são incontáveis variáveis que, as vezes, o objeto em si, tem uma discreta participação – tão discreta que sequer é usado ou consumido depois de caçado/comprado.
   
 
Tudo que suscita o desejo, tende a atos irrefletidos, ou melhor impulsivos, e é justamente nesse item que o vendedor leva vantagens incontestáveis na hora da venda, pois os impulsos ocorrem  justamente nesses minutos inicias em que um produto é cortejado pelo cliente. Dentro desses quinze ou vinte minutos as reflexões são rasteiras, os orçamentos são flexibilizados, dívidas são esquecidas,e o produto é divinificado e elevado a  uma espécie de tábua de salvação  - livrará momentaneamente toda a infelicidade que o cerca .  No passado mais ou menos recente, entre o encantamento e a compra, havia um empecilho. A falta de recurso, de dinheiro – embora que se pudesse fazer um crediário, mas se corria o risco, na burocracia, de consumir esses minutos iniciais e provocar  desistência. Hoje, contudo, mesmo sem recurso imediato, o produto pode ser adquirido. Costumo dizer que uma das melhores invenções do mercado financeiro é o cartão de crédito – melhor invenção principalmente para quem inventou. Sua funcionalidade convida, necessariamente, para o consumo. A maioria das pessoas tem pouco controle sobre os gastos que fez no cartão, alguns só tomam conhecimento quando topou no limite. Quando se estipula um valor da dívida da próxima fatura, em geral, erra-se para menos, Enfim, o crediário ou o cartão de crédito  anda de mãos dadas com os impulsos de consumo.




Penso que as mudanças que ocorreram na humanidade foram norteadas pelos seus desejos, e como o desejo tende a ser incotinenti – insaciável – uma parcela de pessoas irão necessariamente perder o controle frente aos seus impulsos - os muitos excessivos serão consumidores compulsivos. Não é por acaso que se fala tanto nos dias de hoje da sociedade de consumo e correlatos. O consumo, em minha opinião, sempre existiu, mas os dispositivos de facilitação do consumo - e aqui, entram inúmeros dispositivos que vão bem mais além que o crediário - são recentes e são  importantes para disparar esses impulsos nebulosos. Costumamos avançar em nossas invenções e, a depender da utilizarão, poderemos ter uma relação patológica com elas. Um exemplo: a humanidade sempre procurou formas de elevar sua reserva de energética com alimentos; na medida em que houve um aumento das reservas de carboidratos, em razão de vários refinos tecnológicos, a sua utilização em desmedida criou, por assim dizer, a obesidade e os impulsos relacionados a alimentos. Confeccionamos em nossas invenções, criação e criatura e, desse modo, teremos que aprender a conviver com mais e mais variáveis a partir de cada descoberta. Alguns acreditam que o melhor seria retroceder no tempo e voltarmos a relação menos agressiva entre comércio e consumo. A ideia não deixa de ser interessante, mas  temo que voltemos a ser caçadores, que ao invés de dinheiro, cartões ou talão de cheque, tenhamos em mãos  facas e picaretas.


Conto nesse pequeno intervalo de tempo em que escrevi esse artigo, pelo menos quinze e-mails anunciando preços extraordinários da Black Friday. hoje é dia da caça ou do caçador?

Marcos Creder

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - FÉRIAS






Mais um semestre letivo se encerra. A vida continua. Foram quatro meses, afora fatores extra-sala, agradáveis de compartilhamento com novas pessoas, novas turmas e, quiçá, novos futuros colegas e amigos. Deparei-me com uma turma (sétimo período) diferenciada, principalmente no sentido de simpatia e compromisso. De um modo geral, são pessoas que demonstraram interesse no que estudam e, principalmente, curiosidade, muita curiosidade no conhecer e caminhar pelos labirínticos mistérios da alma humana. Como dizia o grande mestre Bertrand Russell, "o que é necessário não é a vontade de acreditar, mas o desejo de descobrir". O próprio Russell ensina a necessidade de aprender a desaprender. Faço aqui minhas as palavras do emérito professor Peter Druker: "as pessoas atualmente devem possuir a capacidade de aprender, desaprender e reaprender".

Neste período, nesta turma, individualmente conheci pessoas que, com certeza, chegarão lá. Lá que eu falo é a realização de seus sonhos profissionais. Alguns darão grandes psicólogos, muitos deles, provavelmente, diferenciados. É fundamental - e vejo neles - a lealdade consigo mesmo, com seus projetos, suas aspirações, anseios, desejos e ideais. Faço aqui de mim também as palavras do psicanalista Hanz Kohut: "enquanto nossas ambições nos empurram, nossos ideais nos puxam".

Na célebre aula inaugural da cadeira de semiologia do Colégio de França Roland Barthes professava que "Há um tempo quando se ensina aquilo que se sabe. Mas há um tempo que se segue quando se ensina aquilo que não se sabe. Talvez agora chegue o tempo de outra experiência: a de desaprender, quando a gente se permite estar à merce das transformações imprevisíveis que o esquecimento impõe à sedimentação de todos os tipos de conhecimentos, de culturas, de crenças....nenhum poder, uma pitada de conhecimento, uma pitada de sabedoria, e o máximo possível de Sabor..."

Obrigado agora velhos alunos (estudantes). Você contribuíram para me ensinar a desaprender mais para mais reaprender. Continuem assim, inspirando seus professores a amar sua profissão. Mantenham sempre a chama dessa instigante curiosidade e nunca aceitem fácil as verdades que parecem fáceis. Como já escreveu William Ward, "a curiosidade é o pavio na vela da aprendizagem". Com vocês confio no futuro e, por isso, tô com vocês e não abro.



Pelo acima exposto, decidi manter no período de férias (todas as quartas-feiras) a coluna Diário de Aula. Durante nossas ausências na faculdade ela receberá o título de DIÁRIO DE FÉRIAS, e versará sobre os assuntos da Psicologia em geral, mormente aqueles suscitados no dia-a-dia da prática clínica quando lidamos com pessoas reais e seus problemas, conflitos e sofrimentos reais. Quem tira férias são os alunos escolares (aqueles preocupados com notas e faltas). Os estudantes continuam vida afora estudando, sempre. E sempre, como sempre, a vida continua...
Até próxima quarta
Joaquim Cesário de Mello

domingo, 23 de novembro de 2014

A ESTÉTICA DOS SENTIDOS




O que leva o bicho homem produzir arte? Minha resposta mais imediata a tal questão é que o homo sapiens é um ser dotado da consciência de sua existência ou, como diz Voltaire, "a espécime humana é a unica que sabe que tem de morrer". Não bastasse isso o homem se inquieta frente a tantos fenômenos que o circundam - o que fez Pascal a se indagar e responder: "o que é o homem na natureza? Um nada em comparação com o infinito, um tudo em face do nada, um intermediário entre o nada e o tudo." Imerso neste imenso mundo o ser humano sofre o sofrer de se saber viver. Inquieto, aflito e desassossegado o homem se expressa e se comunica com os outros homens. Beneficiado pelo desenvolvimento da linguagem ele fala, gesticula e se manifesta; sente e se expressa. Cria.
O pensamento psicológico humano apreende fenomenologicamente os objetos ao seu redor e seus estímulos e os julga conforme sua própria experiência pessoal e atributos. O mundo percebido pelo ser humano não é um somatório de objetos externos, mas sim resultado de sua relação e vivência diante dos mesmos. E neste sentido a própria capacidade de percepção humana já é em si e por si mesma transformadora. Na sequência percepção-internalização-elaboração-externalização o ser pode modificar o objeto e comunicá-lo esteticamente modificado. Aqui reside uma das principais qualidades da arte humana: propiciar uma experiência estética.
Arte é um termo que vem do latim Ars, cujo significado se traduz por habilidade. Em sentido latu tudo que o ser humano produz, inventa ou cria sua visão de mundo (real ou fruto de sua imaginação) podemos chamar de arte. O caráter único e diferente de cada obra artística se dá pelo simples fato de que o processo criativo iniciado pela percepção (proprioceptiva e/ou exteroceptiva) tem o intuito de expressar direta ou indiretamente emoções e ideias (subjetividade). Em sentido stricto a definição do que é arte e do que não é arte vai variar em conformidade à época e à cultura. 
Ah!, o que seria da arte sem a inquietude? Aliás, o que seria do bicho homem se ele não fosse psicologicamente inquieto? Bem provável que ainda estaríamos morando nas cavernas de nossos ancestrais. Somos, decididamente, inquietantes inquietos. Nunca estamos totalmente satisfeitos. Necessitamos sempre ir além do oferecido; lançar-nos à frente; pensar e buscar o futuro. Nossos voos tem raízes em nosso próprio anseio em voar. Ou como escreveu Bachelard: "a imaginação quer sempre sonhar e compreender ao mesmo tempo, sonhar para melhor compreender, compreender para melhor sonhar."
O psicanalista Donald Winnicott nos propicia vincular Psicologia com Arte ao afirmar que "a obra abre um espaço de experiência em que se articulam paradoxalmente, constitutivamente, o sujeito psicológico e o mundo". Para Freud o tema estética não se entende simplesmente por beleza, mas sim pelas qualidades do sentir. Em termos mais psicodinâmicos o "pai" da Psicanálise expõe assim seu pensamento: "As criações, obras de arte, são imaginárias satisfações de desejos inconscientes, do mesmo modo que os sonhos, e, tanto como eles, são, no fundo, compromissos, dado que se vêem forçadas a evitar um conflito aberto com as forças de repressão. Todavia, diferem dos conteúdos narcisistas, associais, dos sonhos, na medida em que são destinadas a despertar o intessse noutras pessoas e são capazes de evocar e satisfazer os mesmos desejos que nelas se encontram inconscientes".
 Em seu livro "Arte, Dor - Inquietudes entre Estética e Psicanálise", Frayze-Pereira destaca que entre a dinâmica da presença e a ausência do sensível, a experiência estética é vizinha da experiência psicanalítica no que tange (em suas palavras) à "silenciosa abertura ao que não é nós e que em nós se faz dizer". A beleza está em toda parte, já dizia Rodin que continua "não é ela que falta aos nossos olhos, mas nossos olhos que falham ao não percebê-la". Alguns poderão afirmar que Estética é a ontologia do belo, isto é, um estudo das sensações - por isto seu caráter subjetivo. Lembremos que o ser humano tem uma necessidade do outro, afinal ser significa "ser para o outro". Ao possuir a capacidade de questionar o ser de si e do outro o ser é um "ser-aí-no-mundo" (dasein) e o ser que se forma humano em um corpo humano advém desta intrínseca relação entre o mundo interior e o mundo exterior. Com o olhar de si e o outro do outro ambos os mundos se comunicam. 
Aprimorar os sentidos sobre a condição humana é educar-se esteticamente. A educação estética, diz Solange Jobim e Souza, no livro "Subjetividade em Questão: a infância como crítica da cultura", forma pessoas mais capazes de criar um novo modo de se acercar da verdade que se esconde nos objetos, nas paisagens e no próprio rosto ou olhar de uma outra pessoa. Lembremos que arte é expressividade, um fazer expressivo. Um objeto artístico, seja ele qual for, é sempre algo ou alguma coisa que contém vida e seja qual for a sua forma ele sempre tem algo a dizer, nem que seja até sobre o nada. O processo artístico por si mesmo é percepção, sensação,elaboração, fazimento, expressão e conhecimento. É como diz os seguintes versos de Jorge Luis Borges: "Por vezes à noite há um rosto/Que nos olha do fundo de um espelho/E a arte deve ser como esse espelho/Que nos mostra o nosso próprio rosto".

A beleza de um objeto artístico não se resume ao objeto em si, mas acima de tudo à psicologia do artista que o faz e do expectador que a aprecia. Por isso diz Fernando Pessoa que "a arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação". Assim uma obra de arte pode nos remeter tanto à elevação da alma quanto a seu aprofundamento; ambos inclusive. A estética, como termo, vem do grego aisthésis, que significa percepção, sensação. Representa, pois, a produção das emoções e sentidos humanos através do fenômeno estético, fenômeno este que nos diferencia dos chamados outros animais. 
Se para uns a arte é um meio catártico de escape, pra mim e outros tantos a arte é primordialmente uma necessidade fundamental de aprimorar o ser para ser melhor o que se é. Além de um condutor de expressão da experiência da vida, a arte é a própria vida expressada - afinal a vida, ela mesma, é uma própria obra de arte. Sentir a vida e traduzi-la, creio que responde ao poeta Ferreira Gullar: isto é arte.
"A arte serve a beleza, e a beleza é a felicidade de possuir uma forma, e a forma é a chave orgânica da existência; tudo o que vive deve possuir uma forma para poder existir, e, portanto, a arte, mesmo a trágica, conta a felicidade da existência."
(Boris Pasternak)
Joaquim Cesário de Mello

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - CLÍNICA




O dicionário é cheio de palavras inusuais, que não temos o hábito de utilizá-las e até mesmo sequer conhecemos da sua existência. Anancástico é uma delas. Significa indivíduo que se preocupa de forma excessiva com detalhes e regras, e costuma a ser perfeccionista. Anancástico tem somo sinônimo termos como caprichoso, meticuloso, detalhista. Em termos de personalidade anancástico corresponde às características obsessivo-compulsivas da conduta e pensamento de uma pessoa, também chamado de personalidade obsessivo-compulsiva (POC).

Segundo nossos atuais manuais diagnóstico o Transtorno de Personalidade Obsessiva-Compulsiva (TPOC) tem como característica essencial a preocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal, às custas da flexibilidade, abertura e eficiência. Este padrão começa no início da idade adulta e está presente em uma variedade de contextos. Escrupulosidade, obstinação, rigidez excessiva, pedantismo e constantes sentimentos e ideações de dúvida complementam o quadro clínico. Frequentemente são pessoas que não aceitam que as outras pessoas não pensem ou ajam como elas, assim como seu perfeccionismo acaba atrapalhando o cumprimento de suas tarefas. 

Estima-se que cerca de 1% da população geral apresente TPOC, sendo que na clínica esse número cresce para cerca de até 10%. Mais uma vez as causas provocadoras de organizações de personalidade assim definidas é possivelmente multifatorial, com predominâncias genéticas e/ou ambientais, visto ser recorrente em situações familiares. Suas raízes - tratando-se de personalidade - remontam ao passado, mais precisamente à infância. Diferente do Transtorno Obsessivo-Compulsivo, comumente conhecido como TOC (que tem forte influência bioquímica, a personalidade obsessiva-compulsiva é uma maneira de ser do sujeito. Enquanto o TOC é egodistônico, a POC é egosintônica. 


No tocante a psicoterapia, tomemos emprestado de Liberman descrições como "pessoas lógicas" e "pacientes narrativos" para entender que indivíduos com TPOC apresentam discursos carteseanos, racionais e ruminantemente intelectuais. Lidar com sentimentos e afetos não é nada fácil para pessoas com personalidade obsessivas. O paciente pode passar sessões inteiras relatando situações vividas do presente ou do passado, porém com pouca ou nenhum emocionalidade aparente. Divagações e ruminações intelectivas são uma espécie de "cortina de fumaça" que contribuem para mascarar ao outro e, principalmente, a si mesmo os sentimentos pertinentes. Gabbard, inclusive, diz que tal discurso cheio de palavras e esvaziado de afetos podem servir como uma "nuvem anestésica" que faz os outros adormecerem. O psicoterapeuta deve tomar bastante cuidado em relação a tais divagações, pois elas levam o discurso a fugir do tema e perder o fio da meada. Como ainda diz Gabbard (PSIQUIATRIA PSICODINÂMICA NA PRÁTICA CLÍNICA) o padrão divagante leva o paciente a se distanciar, inclusive, do tema da sessão. 

O olhar pelo viés psicanalítico e a aplicação de uma abordagem psicoterápica de influência igualmente psicanalítica proporcionam boas respostas em pessoas com tais transtornos de personalidade. Quando aqui falamos de psicoterapia de influência psicanalítica leia-se dirigida ao "insight". Embora, em princípio, tenhamos uma refratariedade pela predominância do discurso divagativo e racionalizante, a psicoterapia dirigida ao insight proporciona melhoras significativas no tocante ao funcionamento interpessoal do paciente.


A aptidão das pessoas com TPOC de serem defensivas esconde/revela o medo inconsciente de entrar em contato com componentes afetivos e impulsivos (desejos) de sua mente tão contraladoramente isolante dos sentimentos subjacentes (discurso latente). É comum que o paciente veja o terapeuta como uma figura desafiadora em relação a sua onisciência, rejeitando assim a tomada de nova consciência sobre questões que até então ele se achava proprietário de todo o conhecimento a respeito (controle intelectual obsessivo).


Óbvio que ao lidarmos com uma personalidade obsessiva estamos lidando com um Superego bastante exigente em termos de Ego Ideal e Ideal de Ego. Neste sentindo estamos na órbita não de um Superego pós-edipiano, mas sim de um Superego em suas raízes narcisistas. Modificar a correlação de forças internas entre Ego e Superego é, portanto, subjetivamente o grande objetivo psicoterápico, isto é, que o Ego Real possa usufruir de sua condição humana (frágil, imperfeita e falha) sem com isto ser cobrado e oprimido por não corresponder um idealização superegóica. Para se conseguir tais objetivos acima, faz-se necessário que  tenha como estratégia principal - nos dizeres de Gabbard - "atravessar a cortina de fumaça das palavras e ir diretamente aos sentimentos".
Tratando-se de um transtorno de personalidade, com rigidez ideacional e atitudinal, o trabalho psicoterápico requer um longo processo pela frente. Não é fácil, sabemos, mudar o "jeito de ser", principalmente quando o "jeito de ser" é um enorme e enrijecido "jeitão de ser".