domingo, 16 de novembro de 2014

Humano em Demasia



Muito já se falou da influência das redes sociais em diversos segmentos  da sociedade.   Há um certo encantamento e, eventualmente, um entusiasmo, nesses dizeres,  principalmente, porque essas ferramentas trazem  tecnologias de informação instantâneas com rápida propagação de notícias, de aproximação virtual entre pessoas e grupos -  mesmo que em grandes distâncias geográficas reais – e, entre outros,  por dar “um novo  formato ao sujeito” que,  dentro desse modelo,  se torna uma pequena celebridade e , consequentemente,  um sujeito supostamente mais influente na mídia. Obviamente que ferramentas como essas trazem vantagens as relações humanas. Avança-se, na rede social, no tempo – no tempo imediato – , no espaço e no sentimentos gregário de uma grande aldeia – supõe-se que desse modo, o mundo ficaria mais democrático, mais opinativo e mais igualitário. Os pessimistas, aqueles que destacam as desvantagens,  assistem a esses avanços com desconfiança, ceticismo e focam mais na falta de privacidade, na vida excessiva e desnecessariamente exposta e nos monitoramentos – inclusive, na espionagem de Estado, como foi recentemente divulgada. para esses as redes sociais foram construídas inspiradas na politica da exposição, o que incorre muito frequentemente em mal-entendidos e gafes.

 A cada dia surge uma ou outra novidade que traz  comentários do poder transformador das redes sociais,  aqui, contudo, darei foco a uma de suas novidades que, talvez, menos surpreenda. A novidade? O ser humano continua – parafraseando Nietzsche  – demasiadamente humano, tanto quanto em outros momentos da história. A diferença é que não sabíamos que era tão demasiado assim.  A forma explicita como as pessoas emitem opiniões, mostra exatamente isso. Alguns pensamentos que julgamos repulsivas  são lugares comuns nessas redes – criam, inclusive, seguidores, as vezes centenas de milhares de replicadores. São pensamentos rasteiros, frases falsas, ideias odiosas, vingativas, voluntariosas, pensamentos de cunho facistas, nazistas – hoje posso compreender que alguns povos foram tolerantes com o holocausto porque de certo modo, na opinião própria, no íntimo,  partilhavam de suas ideias. O filme  cult  “a Onda” pode bem representar e antecipar  essa tendência ao contágio e adesão as  ideias rateiras dos grupos sociais. Esse sujeito em demasia é, em função do seu narcisismo, totalitário – esqueçam de que o status de ser de  direita ou de  esquerda  o fazem melhores ou piores. Na verdade esses sujeitos, não tem ideologias, torcem por suas ideias com a mesma convicção de quem torce por time de futebol ou uma escola de samba.

O período eleitoral recente afirmou  esse forma de funcionar. Observou-se disputas passionais as mais absurdas de ambos os lados. Acusações infundadas, preconceituosas, grotescas, mal educadas. A má educação, por sinal,  é quem vem ditando moda nas redes sociais desde que foram criadas. Uma pergunta que sempre se faz,  As redes provocam naturalmente essa incontinência verbal? Sim e não.


O filósofo  Luiz Felipe Pondé afirma em tom irônico que algumas pessoas jamais deveriam trazer suas opiniões a público, e diz que as redes sociais possibilitaram o dizer irresponsável e descabido. Com essa afirmação, penso, inclui-se as duas respostas a pergunta acima. O sujeito demasiadamente humano sempre existiu, está não apenas no nosso país, mas em todo mundo, na nossa comunidade, ao nosso lado. Está, enfim, dentro de nós. Estamos na dialética da realização do desejos e do seu impedimento,  estabelecemos contratos frágeis que precisam ser reiterados, retificados e modificados  a todo momento em função do algo transgressor que há em todo sujeito - em todos nós. Leis precisam ser escritas e reescritas, destacadas para que todos possam ver.  Esse ser em demasia é  justamente esse ser que se educa pelo frustração e pela dor e se gratifica com muito pouco.  A essa gratificação alguns chamam de felicidade. As redes sociais criam um espaço ilusório de liberdade de expressão, que na verdade são dizeres muitas vezes infantis, impensados. E para aqueles que acreditam que a infantilidade tornaria a humanidade melhor, justamente, pela ingenuidade sugiro que leiam “O senhor das Moscas” livro clássico da literatura escrito por William Golding

Marcos Creder
.

Nenhum comentário: