Ouvi
de uma pessoa: “minha vida é uma sucessão de círculos que se repetem”.
Certamente todos já pensaram ou pensam assim de suas próprias vidas, e os que
se incomodam com isso - muitos, por sinal – se esforçam para que o repertório
dos acontecimentos se diversifiquem. Nestes tempos de final de ano se escuta
discursos sinceros de que “de agora em diante tudo vai ser diferente” , ocorrerão mudança dos hábitos alimentares às relações afetivas. Contudo, no final de mais um ano, revelam-se as mesmas frustração, pois pouco se fez para sair dessa máquina de repetição, não se foi mais ousado, diferente, ou original na vida; não se ficou lá tão mais feliz, tampouco,
engordou ou emagreceu.
Negamos as nossas repetições; somos avessos a elas, e
acreditamos que uma pessoa em especial –
eu ou você, leitor – não caímos
nessa lógica medíocre desses movimentos circulares. Mera ilusão. Os ciclos fazem
parte, como diria os filósofo romano Tito Lucrecio, “da natureza das coisas”, mas
nessas repetições há nuances que fazem desse “círculo”, paradoxalmente, um
repetir diferente. Nessa nuance podemos nos utilizar da metáfora do filósofo
grego Heráclito, que ao entrar sair de um rio, não seremos os mesmos, tampouco o
rio o será. Nessa visão, da dialética de Heráclito, não ocorrem repetições, mas
modificações sutis – que grosso modo,
parecem idênticas. Há ciclos e pequenas diferenças neles.
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Enfim,
alguém vai ao analista ou psicoterapeuta e diz: “venho aqui há pelo menos três
anos e parece que falo sempre a mesma coisa”. Esse sujeito frustrado mal sabe
que muitos do que disse são palavras que
se repetem, mas que, de algum modo, se rearrumavam, se reorganizavam e, por fim, se ressignificavam,
ou ainda, que foram acrescidas de outros dizeres e de outros sentidos - pois vai ter sempre algo
novo a ser dizer. É dessa sutil novidade que se propiciam as transformações. Infelizmente ou felizmente, sempre queremos mais do que desejamos. Faltará
algo aqui ou ali – aliás, o sentimento de que algo sempre nos falta e outro vício que se repete no humano.
Há muito
tempo assisti a um filme desses que
passavam na “Sessão da Tarde” – tive oportunidade de revê-lo recentemente . Groundhound
Day é um filme da categoria que
classifico de pipoca cult (risos), nessa categoria incluo os filmes
despretensiosos que repercutiram mais do que o esperado. De fato, essa produção de 1996 e só foi descoberto pela crítica em 2006, dez anos depois. O título que foi dado no Brasil nada
tem haver com o original: “Feitiço do Tempo”. A melhor tradução seria “O dia da
Marmota”, mas não sabemos o que é marmota e se preferiu escolher um título que trouxesse alguma coisa do seu enredo.
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Traçando um paralelo com o filme, podemos afirmar que o sujeito que vem à análise se queixará, assim como Phil, das muitas sessões que se repetem como no “dia da marmota”. Phil ainda sofreria mais, pois a palavra "tempo" parece-lhe ter uma significação especial – por que escolhera se especializar “no tempo” (era
meteorologista)? Phil tenta dominar o tempo e transforma-lhe? apesar da feitiçaria do tempo que se repete, Phil, assim como nós, não consegue se livrar da repetição que a vida impõe.
Marcos Creder