sexta-feira, 31 de maio de 2013

ESPAÇO DO COLABORADOR

No segundo livro de As crônicas de gelo e fogo - A Fúria dos Reis - acontece um valioso diálogo entre Varys, um eunuco e Tyrion Lannister, um anão. Dois personagens maravilhosos e instigantes que apesar dos estigmas ultrapassam o discurso de desprezo e a cada capítulo crescem na trama. 

Varys se dirigindo a Tyrion lhe diz: - "Posso deixá-lo com um pequeno enigma, Lorde Tyrion? - Não esperou resposta.- Numa sala estão sentados três grandes homens, um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um pede a ele para matar os outros dois. 'Faça isso', diz o rei, 'pois eu sou o governante por direito'. 'Faça isso', diz o sacerdote, 'pois estou ordenado em nome dos deuses.' 'Faça isso", diz o rico, 'e todo este ouro será seu.' Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?"

Depois da indagação o eunuco vai embora. Tyrion fala a uma prostituta que questiona se seria o rico sobrevivente: "Talvez. Ou talvez não. Parece que dependeria do mercenário."
Algum tempo depois Varys pergunta a Tyrion se ele havia pensado e solucionado o problema. E então se  desenvolve a seguinte conversa

- "Passou pela minha cabeça uma ou duas vezes - Tyrion admitiu. - O rei, o sacerdote, o rico ... Quem sobrevive e quem morre? A quem obedecerá o mercenário? É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.
- E, no entanto, ele não é ninguém - Varys concluiu. - Não tem uma coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.
- Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.
- Precisamente... E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam por que fingimos que nossos reis têm poder? Por que que um homem forte com uma espada obedeceria um rei criança como Joffrey, ou a um idiota encharcado em vinho como o pai?"

Após uma pequena, mas não simples reflexão, Varys responde:
- "O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.
- Então o poder é um truque de mímica?
- Uma sombra na parede - Varys murmurou. Mas as sombras podem matar. E muitas vezes, um homem muito pequeno pode lançar uma sombra muito grande."

E assim começo a introdução para tratar do conceito Topdog-Underdog na gestalt-terapia. É usado na literatura duas traduções, uma é Dominador (topdog)- Dominado (underdog) e a outra Manipulador ativo e manipulador passivo. Utilizarei a segunda por acreditar que contempla melhor o conceito.

Pode-se resumi-los como um embate entre opostos que ocasiona numa encenação que tende a inércia. O manipulador ativo faz o papel do poderoso. De acordo com Perls é exigente, punitivo, autoritário e primitivo. Sempre se julga com a razão, nem sempre a tem, mas não importa, julga-se certo toda vez. Ele é um tirano, e funciona com "você deve" e "você não deve". O manipulador passivo atua sendo defensivo, procura seduzir, despertar piedade, vive pedindo desculpas. Desenvolve uma grande habilidade em fugir das ordens do manipulador ativo tendo a intenção de concordar apenas parcialmente. Ele é astuto e, geralmente, leva a melhor no conflito.

O que de fato acontece é uma brincadeira, como fala Perls, entre dois palhaços que representam uma sina e papéis inúteis. O show gira em torno do poder, do controle. Ambos disputam por um espaço maior no palco. Cada um com suas artimanhas tentam aprisionar o outro e silenciá-lo. 

Os espectadores podem acreditar que o manipulador ativo possui o poder, e o passivo é um pobre subjugado. Porém, observando com atenção vê-se o manipulador passivo brincando de marionetes com o seu suposto "dominador". Escondido atrás de seus dramas provoca a piedade e compaixão dos outros e deles retira sua força, aliás, essas são suas maiores armas. Contudo, não se pode negar que as investidas do manipulador ativo têm seus efeitos. Ambos estão numa batalha que não haverá vencedores. O poder é uma sombra que passeia entre os dois palhaços, assombrando-os. 

Quanto mais forte é o Manipulador ativo, mais poderoso fica o seu rival. Rivais que dançam uma bela valsa. Em completa harmonia. Tão complementares, que tal cenário não precisa ser composto por dois atores. Tudo isso pode se passar dentro de um mesmo corpo.

Poder, a busca de muitos, se não todos, os homens. Ilusão que os devora e na verdade não passa de uma capacidade natural de todo Ser humano. O mundo vive este espetáculo e não se dá conta que no final não há aplausos.
Andreza Crispim

domingo, 26 de maio de 2013

EU SOU DO TAMANHO DO QUE VEJO: O Narcisismo em Pessoa


“A vulgaridade é um lar. O quotidiano é materno”
Fernando Pessoa

                “Eu sou do tamanho do que vejo”. Este presente titulo é um verso de Fernando Pessoa na voz do seu heterônimo Alberto Caieiro, em “O Guardador de Rebanhos-poema VII”. Embora o próprio Pessoa tenha também escrito que "cada um de nós é um grão de pó que o vento da vida levanta, e depois deixa cair.", também afirmou que “fui, dentro de mim, coroado imperador”. Ele mesmo que em seu “O Livro do Desassossego” igualmente expressa que “o homem fatal, afinal existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares”. Fernando Pessoa não é paradoxal: a alma humana é paradoxal.
                Por detrás ou por baixo das camadas que nos encobrem encontra-se o humano em sua mais pretensa grandiosidade. Nos subterrâneos de nossas superfícies e aparências espreita, feito animal feroz, a nossa autoimagem. Nosso psiquismo de origem é narcísico, pois somos feitos não de barro, mas de plenitudes. Quando ainda sequer sabíamos que existíamos existentes em um mundo circundante e maior do que nós, nos iludíamos de sermos sós e todo o universo, mas não somos. Perdida esta primeira ilusão, nos achamos então o centro do universo, mas não somos. A realidade nos impõe sermos periféricos, mas nem sempre aceitamos. Achamo-nos especiais, exclusivos e preferidos dos céus. Mas não somos. Somos pequenos, diminutos e insignificantes. O mundo, todo o universo, assim como o sol, as nuvens e as estrelas não dependem de nós. A vida não depende de nós. Porém, se somos pequenos, somos pequenos como homens. Nossa alma não. A alma não é pequena. A alma pode tudo, a alma quer tudo, a alma se acha tudo. Todavia todos os tudos da alma são quimeras e ilusões. A alma é pura imaginação, pois a alma se imagina e se acredita que é alma. Ou como escreveu Marcos Creder aqui no blog, em 19 de maio passado, “esse espaço imaginativo que é regido pelo desejo é justamente o que nos dá o status de humano: ser de ilusão”.
                A alma humana, em seu mais recôndito abrigo, pode sonhar ir a Júpiter, pode querer todas as mulheres (ou homens) na cama que ela escolherá, pode fantasiar feitos mais do que Napoleão fez, pode fazer filosofias em segredos que nenhum Sócrates jamais fez, pode ter em seu peito hipotético mais humanidades do que Cristo, mas na realidade, é como diz o poeta, seremos sempre o da mansarda, ainda que nem moremos nela.
                Por isto retorno às palavras de Pessoa: “uns governam o mundo, outros são o mundo”. No arcadismo de todos nós a argamassa de nossas essências é uma mistura de imponência, vastidão e majestosidade. Somos um embricado primordial e rudimentar de grandiosidades e ideais. Assim entendo quando Fernando Pessoa escreve em seu “livro do Desassossego” tais palavras e pensamentos: Quisera viver diverso em países distantes. Quisera morrer outro entre bandeiras desconhecidas. Quisera ser aclamado imperador em outras eras, melhores hoje porque não são de hoje, vistas em vislumbre e colorido, inéditas a esfinges. Quisera tudo quanto pode tornar ridículo o que sou, e porque torna ridículo o que sou. Quisera, quisera... Mas há sempre o sol quando o sol brilha e a noite quando a noite chega. Há sempre a mágoa quando a mágoa nos dói e o sonho quando o sonho nos embala. Há sempre o que há, e nunca o que deveria haver, não por ser melhor ou por ser pior, mas por ser outro. Há sempre...”
            Heinz Kohut, neurologista, psiquiatra e psicanalista, ao mergulhar nos grotões do psiquismo, destacou que a onipotência, a grandiosidade e o exibicionismo são características narcisistas naturais da mente e que assim compõem o que ele chamou de Self Grandioso. Tais características originárias da mente humana, diz Kohut, sofrem transformações quando as mesmas são aceitam pelos pais (cuidadores) que são os primeiros objetos que o psiquismo conhece e que através deles se desenvolve. Escreve Kohut: quando a exigência de resposta em eco aos sentimentos de expansividade e de poder ilimitado são recebidas de maneira favorável e respondidas, a criança finalmente abandona suas exigências exibicionistas grosseiras e suas fantasias grandiosas, e a. aceita suas limitações reais. As ruidosas exigências do self grandioso são então substituídas pelo prazer pelo funcionamento realista e pela autoestima realista”.
            Embora saibamos, ou não nos seja difícil compreender que nos iniciamos na vida como seres psicologicamente narcísicos, o narcisismo não é uma fase ou etapa a se superar. Durante todo o nosso desenvolvimento nosso narcisismo evolui. Quem, de sã consciência, há de negar a importância fundamental do amor-próprio como base saudável de um indivíduo humano? Narcisismo, portanto, não é sinônimo de patologia. É claro que há patologias narcísicas, mas também é claro que há o narcisismo normal do adulto, assim como pode e é normal o narcisismo na infância. Graças a este resíduo essencial do nosso narcisismo é que podemos buscar ser mais, realizar mais, conquistar mais, querer mais. Ou, dentro da ótica kohutiana, as ambições nos impulsionam e os ideais nos puxam.
            Assim, pois, entendo em parte a alma humana como nestes versos de Pessoa:
               Sou o fantasma de um rei
        Que sem cessar percorre
        As salas de um palácio abandonado...
               ---
        Eu não sei o que sou.
        Não sei se sou o sonho
        Que alguém do outro mundo esteja tendo...
        Creio talvez que estou
        Sendo um perfil casual de rei tristonho
        Numa história que um deus está relendo...
                Sejamos gênios ou mendigos, súditos ou majestades, anônimos ou poetas, pecadores ou profetas, somos todos pretensiosamente divinos, poderosos e eternos; quando de fato somos feitos de carne, vulneráveis e cheios de términos. 
               
             E ainda vos digo, como diz Pessoa, “somos dois abismos – um poço fitando o céu”.



Joaquim Cesário de Mello

sábado, 25 de maio de 2013

DIÁRIO DE AULA: EDIÇÃO ESPECIAL

    Abaixo momentos cruciais do diálogo entre mãe e filha no filme Sonata de Outono, do Ingmar Bergman, passado recentemente em sala de aula, em vídeo dividido em parte I e parte II. É bom revê-lo, e revê-lo com apreciação e calma:


sexta-feira, 24 de maio de 2013

VALE A PENA VER DE NOVO

                                               

O AZUL POR DETRÁS DA NOITE

O azul se foi engolido pela enorme boca negra da noite. A cidade, como que em festa para esconder o medo, clareia-se outra vez derramando suas luzes pelas calçadas e as pessoas nelas. O dia agora reinventado no sumiço do sol é tão elétrico, químico e falso quanto tudo o que habita e reside no ventre da noite. A artificialidade brilhosa e fluorescente e a luminescência piscante das ruas confundem-se com a multidão de vampiros que vagueiam por entre bares e cantos sugando ilusões. Iluminada, a noite desaba inteira e fogosa sobre a cabeça da cidade.

O barulho da sirene da ambulância passageira interrompe o prolongado cochilo, acordando-a. Às escuras a casa parece inexistir e com ela suas recordações, embora permaneça lá e meticulosamente arrumada como antes estivera. Temendo enxergar-se na impossibilidade de ver, tateia o relevo da parede e suas imperfeições em busca de interruptores. Mais rápidos do que um pensamento retornam a ela os objetos, os móveis e todas as coisas com as quais reafirma sua memória de décadas. Tudo lembra épocas e pessoas ausentes ou que também se foram como se toda a casa fosse feita somente de azul.

Logo se percebe sozinha em meio ao silêncio de suas histórias - não há mais a ruidosa algazarra dos filhos a encher os espaços de coloridos sons azulados. Ele ainda não está: o vazio da poltrona ao lado em frente ao aparelho de TV denuncia a costumeira demora, porém tem ela ali, como eternamente tivera, a lerda certeza do seu impreciso retorno. Conhece-o bem após tantos anos que é sabedora das repetidas impontualidades do seu homem de meio-século. Vê-lo chegar sobrevivente das ruas fora tarefa de sua vida inteira, e com resignada aceitação destínica recolhia, como ainda recolhe, as paisagens em suas roupas ao cesto na lavanderia. Jamais houvera ele de conhecer notícias de suas inquietas insônias. Chegasse cansado, bêbado ou triste sempre a encontraria em dissimulados sonos de onde, através dos cerrados olhos, mirava a madrugada que dormia entre os dois.

Para passar o tempo, o tempo da espera e da colheita, rezava aos santos inúmeras preces aprendidas de sua mãe, assim como sua mãe aprendera de sua avó e esta da avó desta e ela de seus outros ancestrais (o terço e a novena eram-lhe assim ecos de vozes quase medievais). Deus lhe vinha de tão distante, de remotas eras herdadas muito antes das caladas bocas já mortas nos retratos espalhados por toda a casa. Lá, nos dias primordiais em que se encontram enterradas sua infância e mocidade, rosnam e ladram os nomes que a fizeram de barros e água, como as frágeis argilas e gessos dos moldes dos seus santos. Incontáveis ave-marias e padre-nossos a separam do seu início e do seu término.

Uma fina garoa molha e esfria a noite. Pelo vidro umedecido da janela espia preocupada o caminho murado e arborizado da volta. Ele, como de comum e habitual, saíra sem guarda-chuva ou capa. Prepara-lhe o pijama sobre a cama e debaixo dela os chinelos de couro com que o presenteara em suas bodas de ouro. Separa as toalhas inusadas e perfumadas de amaciantes de roupa e aquece a sopa para que ele ao chegar a tome ainda bem quentinha. Arruma sobre a mesa pratos, talheres e copos, dispondo em sequência os compridos: primeiro os brancos e em seguida os rosas, os marrons, depois os amarelos e por último os azuis, como quem prepara carinhosamente arco-íris. Não precisaria falar para ele o tamanho da imensidão de seus afetos, apenas o banharia de álcool para que não apanhasse gripe, servindo-lhe um chá de alho e limão para, após, deitar-se à cama fingindo-se dormir.

Quando ele chegar, seja de onde vier, a encontrará com a mesma inesquecida ternura como se seu homem viesse de cinquenta anos atrás, trazendo-lhe de volta, em seus grandes olhos esbugalhados, o azul de um imenso e ilimitado azul, tão azul que espantaria de vez e para longe toda aquela prolongada noite.

(ORIGINARIAMENTE PUBLICADO EM 17/09/2012)
 

Joaquim Cesário de Mello



terça-feira, 21 de maio de 2013

DIÁRIO DE AULA - FUNÇÃO PATERNA


             FUNÇÃO PATERNA


                Parece mais fácil compreender a função materna do que a função paterna, principalmente quando ela é descrita como tendo uma função dessimbiotizante. Chego a rever os olhares de atonicidade e confusão nos olhares dos alunos de antes frente ao termo quase palavrônico: dessimbiotização. Parecem surdamente perguntar “que danado é isso?”.
                É uma função que aumenta a complexidade à mente infantil em formação, pelo simples fato de representar uma terceira pessoa em jogo, uma nova e inédita função. Se a mãe é o primeiro não-eu da vida de uma criança, o pai é o primeiro não-mãe da vida da mesma. Lembremos que a relação inaugural mãe-filho uma relação psiquicamente (aos olhares infantis) fusional e simbiótica. É a primeira experiência humana de par. Nela a mãe é quem atende as expectativas, anseios, desejos e necessidades do bebê. É uma relação de completa e natural dependência do infante frente a seu cuidador original. Depois, bem depois, vem o pai, ou melhor, a função paterna.
                O pai, assim como os demais circundantes da vida de um bebê, conjugam-se em um ambiente narcisicamente materno. É como se todo o ambiente fosse uma grande e enorme mãe, embora muitas vezes seja a criança “pegada” de maneira diferente por este ambiente-mãe, bem como outras vezes o cheiro seja diverso e a barba espinhe a face da criança-filho. Aos pouco o pai, como pai e enquanto pai, vai retomando seu lugar junto ao objeto primário cuidador (mãe). Essa entrada na relação de estreita intimidade psíquica, afetiva e biológica, que é a relação mãe-bebê, vai sendo sentida como uma espécie de invasão e ameaça de separação do par idílico.
              A vida para um bebê, antes da “chegada” do pai, era mais simples, pois era uma díade de caráter simbiótico. A “descoberta” da existência do pai transforma a díade em tríade.  O mundo não é mais circular, mas triangular. É, entramos no âmbito do famigerado “complexo de Édipo”. Não custa nada lembrar que o tal do “complexo de édipo” transita na mente humana no campo do simbólico. O pai, a função paterna, deixará marcas psíquicas em seu filho, mesmo que não tenha sido esta sua intenção, afinal a função paterna (pai) retirará o sujeito infante da fase de alienação junto ao corpo materno. Por seu caráter limitador divide a relação imaginariamente simbiótica da criança. Daí ser comum encontrarmos expressões associativas à figura paterna como “Lei”. Sim, lei. E com L maiúsculo.



                Brincadeiras, estereótipos e caricaturas à parte, na problematização do complexo de Édipo entramos no período desenvolvimental freudianamente chamado de fase fálica, por volta dos 3 anos de idade aproximadamente É quando a criança começa a “encarar” o pai como um rival, rival na disputa do amor materno. Bem resumidamente falando é quando, na fantasia, a criança vê esta terceira pessoa (pai) como alguém que fica com a mãe que era dele (na ilusão narcísica dos primeiros tempo de vida) e que assim o impede de continuar mantendo seu desejo de ter a mãe só para si. A fantasia infantil do bebê do início da criança (de possui amor total e pleno da mãe) agora é “quebrada” com a realidade de que a pessoa da mãe não existe somente para ela. A pessoa da mãe também é do mundo de outros objetos. Corta-se um outro cordão umbilical. Eis a dessimbiotização.


        Claro que o pai (ou quem o represente) só funcionará de maneira dessimbiotizante caso a mãe assim o permita, ou seja, a gradual separação narcisista mãe-filho e a entrada do pai na cena edípica só se fará se ela vê a pessoa do pai como objeto de parte dos seus desejos. Caso uma mãe narcisicamente esteja vinculada ao seu filho, este pai, embora existente como pessoa concreta, não fará inscrição simbólica no psiquismo infantil, visto que ele não é objeto de desejo da mãe e, por isto, também não é rival no jogo triangularl do desejo. Caso ela não esteja emaranhada narcisicamente com seu filho este poderá sair do narcisismo psíquico natural da primeira infância para um outro estágio: o social.
                A ausência da função paterna na formação psíquica de uma criança nos leva ao campo de personalidade deficitária nas questões dos limites internos. Vide, por exemplo, A AUSÊNCIA DA FUNÇÃO PATERNA NO CONTEXTO DA VIOLÊNCIA JUVENIL, de Sandra Araújo, em http://www.proceedings.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=MSC0000000082005000200006

              Outro texto recomendável no tocante a ausência da função paterna durante o desenvolvimento de um filho também é encontrado em AUSÊNCIA PATERNA E SUA REPERCUSSÃO NO DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE; UM RELATO DE CASO, de Maria Eizirik e David Bergamann, em http://www.scielo.br/pdf/rprs/v26n3/v26n3a10.pdf

         Enfim, para fins de resumo, recapitulemos. Nos primeiros dias e meses a mente infantil vê a mão como um prolongamento de si. Aos poucos a realidade vai se impondo e esta mesma mãe começa a ser percebida não como um prolongamento psíquico da mente infantil, mas sim como alguém separado dela. Neste separação mãe-bebê a mãe também tem outros interesses que não somente seu filho, e outros desejos que não apenas o seu filho. A criança, assim, vai paulatinamente percebendo que não é ela o único alvo de interesse materno, e que existem outros objetos que a mão investe psicológica e libidinalmente. Uma mãe assim sadia propicia ao seu bebê a desilusão de que ela e ele não viverão eternamente uma relação fundida e/ou simbiótica. A função paterna – aqui representada pelos outros interesses da mãe que não unicamente seu filho – é como um interdito, uma intervenção limitante nas fantasias fusionais infantis. Este interdito, este corte, este limite, por sua vez, possibilita a inserção simbólica da criança no social. Tal interdição se faz fundamental, pois abre espaço para que o processo de individuação tome seu curso e vá se realizando. 
                O pai representa, pois, um libertar-se do colo materno e um lançar-se na vida do filho rumo ao desbravar do mundo e da vida. Ao se impor à mente infante a realização plena dos desejos narcísicos, dá-se essencial passo para a ordem e os limites da própria vida, tão fundamentais para um bom e saudável convívio social a posteriori. A função paterna, em conclusão, é parte essencial e saudável para o crescimento da criança como ser subjetivo e também social.
Joaquim Cesário de Mello







sexta-feira, 17 de maio de 2013

VALE A PENA VER DE NOVO


TODO PSICOTERAPEUTA É MULHER

   

      Somos seres biologicamente divididos em dois sexos: macho e fêmea. Já  socialmente somos construídos a partir de dois gêneros distintos: feminino e masculino. Tal construção, por sua vez, se realiza mediante a dinâmica das relações sociais, afinal os seres humanos, ao menos os humanizados, se constroem em relações com outros seres humanos. A pessoa que habita cada indivíduo é, portanto, em parte, uma encarnação das relações sociais.
O conceito de gênero é prestável para aclarar muitos dos comportamentos dos homens e das mulheres em uma dada sociedade. Sim, há diferenças entre gênero e sexo. Todavia deixemos a diferença sexual no momento de lado, visto que são diferenças que estão em nossos corpos, seja em suas externalidades, seja em suas interioridades. Enfoquemos, pois, a alma, ou melhor, o psiquismo humano que constitui a personalidade e a maneira de ser e de se estar no mundo e na vida.
       
     Toda sociedade e/ou cultura cria ideias de como é ser homem e ser mulher. A isto damos o nome de representações de gênero. Homem e mulher, assim, se apresentam biológica e socialmente como opostos e complementares entre si. A construção da masculinidade e da feminilidade são processos correlatos à construção de própria identidade pessoal. Mas igualmente não quero, no pequeno espaço deste texto, ficar aqui a abordar socialmente a questão. Busco questionar em termos psicológicos, embora saibamos que o que chamamos de psicológico é inseparável do biológico e do social.
Psicologicamente falando somos todos duais. A separação do feminino e do masculino não encontra guarida na esfera psíquica. Somos ambos, isto é, masculinos e femininos. E neste sentido Jung foi bastante profícuo e perspicaz. Jung nos fala do anima e do animus, que são opostos inconscientes à persona de um sujeito. Considerando a persona como a forma como nos apresentamos, bem como o papel que assumimos e que por meio dela nos relacionamos com os outros, a persona é um veículo de comunicação entre o nosso interior psíquico com o nosso exterior. Feito uma roupa que se usa, a persona revela nosso estilo pessoal e interpessoal.
A alma ou psiquismo humano tem assim sua dupla face. A imagem como ela se vê enquanto Eu e se identifica, e uma outra que a complementa e que se encontra como um Não-EU, isto é, por detrás do próprio Eu. A consciência masculina tem, pois, sua contrapartida em um anima, enquanto a consciência feminina, por sua vez, tem sua complementação em um animus.
Masculino e feminino, dois aspectos de um todo. Sem fusão, nem confusão. Convencionamos caracterizar como masculino qualidades psíquicas e habilidades tais como: racionalismo e pensamento instrumental, objetividade, maior aptidão motora, orientação espacial, logicidade; enquanto o feminino é caracterizado como sensibilidade, intuição, comunicação emocional, fluência verbal, entre outros.
Venhamos e convenhamos, não se necessita ser homem ou mulher para ter tais qualidades e habilidades acima citadas. Basta ser humano. Qualquer ser humano é ou pode ser sensível, empático, racional, lógico, intuitivo, observador, analítico, paciente, objetivo e subjetivo. Muitas vezes é só se permitir. Outras, desenvolver.
      Qual psicoterapeuta, para o bom exercício de sua função, não tem uma percepção mais aguçada das coisas, isto é, sensível? Como auscultar a alma humana sem o se usar a empatia e a dita “inteligência emocional”? Como lidar com sentimentos e aflições alheias sem o tirocínio das próprias emoções em sua habilidade de escutar as modulações e sutilezas emotivas do outro, muitas vezes imperceptíveis aos olhos empíricos do rosto, mas não aos olhos da alma? Que psicoterapeuta consegue navegar no mundo interno de alguém sem a bússola do feeling? Que psicoterapia existe, de fato, sem a calorosa responsividade acolhedora de uma escuta introspectiva e nutriente que possibilita ao cliente um espaço de sustentação psíquica e interpessoal? Afinal, que psicoterapia é essa que desleixa, em nome da rigidez objetiva e racionalista em excesso, o mais importante de tudo: olhar o outro a quem chamamos de paciente/cliente com amor e consideração? Há de se amar, respeitar, aceitar e tolerar, porém com compreensão, estabilidade e firmeza. Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.
O espaço terapêutico por onde permeia a psicoterapia é o instante do encontro entre a subjetividade do terapeuta com a subjetividade do cliente. O bom psicoterapeuta é aquele que propicia, facilita e possibilita tal encontro. A relação psicoterápica, como relação de ajuda, é antes e acima de tudo uma interpessoalidade ativadora do sistema de apego (vide Bowlby) e que assim disponibilizada aciona, por sua vez, no cliente/paciente a capacidade funcional psíquica de buscar e explorar o mundo e a si mesmo, maximizando as potencialidades antes atrofiadas ou hibernantes.
É no diálogo que se faz a escuta psicoterápica. Uma escuta que traspassa os limites da audição e do ouvir, afinal são tantas as comunicações, ao princípio inaudíveis, que flutuam nas entrelinhas discursivas de um setting psicoterápico. É ali que a intimidade se desnuda gradualmente em narrativas impregnadas de sentimentos, sonhos inconsumados, dores, ambiguidades e antagonismos. É ali onde no timbre das emoções mais recônditas e impensadas que emerge uma pessoa antes ocultada pelas inibições e pelo receio de se expor ao desconhecido. Recriar-se nunca é tarefa fácil, pois implica trocar o sofrer repetitivo e familiar da neurose pela dor saudável de simplesmente existir além das cercas. Abrir guarda-roupas e encontrar esqueletos requer tempo, o tempo psicológico da expressividade e da liberação rumo ao crescimento.
Todo bom psicoterapeuta é feito uma árvore que proporciona a sombra e que abriga e nutre. É como um seio que alimenta e um colo que acolhe, protege, sustenta e aquece. É como uma mãe que materna e fortalece seu filho para o vindouro instante em que ela própria se transforma em pai que auxilia o mesmo filho a se lançar no mundo e na vida sem mais necessitar de si. O escutado, assim, toma sua feição com autonomia, autoconfiança e mais autoestima.
Se ser feminino representa aconchego, afeto, intuição, sensibilidade, comunicação sentimental, feeling, introversão, compreensão e reflexão, então todo psicoterapeuta é principalmente feminino. Claro que não somente, pois se ser masculino representa pensar pragmaticamente, instrumentalizar, agir, e objetivar, então todo psicoterapeuta são ambos. É na dualidade da alma que a alma escuta, interage, fala e faz frente psiquicamente à aflição psíquica do outro. Ou como ensina o taoísmo no tocante ao Yin e Yang, é no equilíbrio dinâmico das forças complementares que surge a mudança e o movimento. Não é parado que se cresce. Parado apenas se envelhece.
  Sejamos, pois, noite e dia, claro e escuro, passivo e ativo, quente e frio, verso e anverso, tigre e tigresa. Não somos opostos, somos forte e fragilmente humanos. Sejamos inteiros e nos ofereçamos inteiros ao outro que nos procura, pois somente assim podemos nos encontrar. Como diz o poeta Mário Quintana “o segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você”.
“Ser um homem feminino/ não fere o meu lado masculino” (Pepeu Gomes). Em psicoterapia, assim como na vida, exceto na cama e no espelho do banheiro, sou andrógeno.

(originariamente publicado em 05/06/2012)
Joaquim Cesário de Mello