domingo, 31 de março de 2013

A PROSA DOS PESQUISADORES


Uma das coisas que mais me chama atenção quando leio alguns textos de teóricos  do passado  - e quando falo do passado, não me refiro  há 10 ou 15 anos, mas há mais de meio século, ou que sabe há 200 anos - é a qualidade da escrita.  Há nesses textos um elemento que muitas vezes, quem escreve hoje não tem tanta preocupação: a necessidade de fazer um texto agradável ou atraente. Na verdade, o que se assiste hoje no meio acadêmico é uma necessidade de um texto “enxuto”, emagrecido – anoréxico – , uma espécie de minimalismo intelectual, travados por dezenas de citações textuais de outros autores. Muitas vezes, o pesquisador é um profissional da compilação ou, como dizem os alunos mais jovens, são organizadores de Ctrl C + Crtl V. O autores que copiaram e colaram, por sua vez, estão citando alguém, que aludiu algum outro autor (“apud”) . O somatório disso tudo é que muitos textos acadêmicos, em razão desse mosaico, dessa colcha de retalhos, terminam por ficarem chatos e redundantes e, certamente, poucos terão acesso por desinteresse – e se tiverem, vão como que teleguiados a visitarem uma determinada página, procurando uma frase ou no máximo um parágrafo, copiam e colam no seu trabalho de pesquisa (Crtl C + Ctrl V) . O resultado disso: um amontoado de papéis inúteis acumulados real ou virtualmente nos espaços universitários.

Tenho certeza de que textos como os de Freud, Nietzsche, Darwin, Maquiavel, Montaigne, entre outros, dificilmente iriam passar pelo crivo da burocracia acadêmica. Seriam julgados como pouco objetivos, extensos, excessivos, sem padronização, com os objetivos esgarçados, criptografados ou diluídos. As figuras de linguagem seriam criticadas – “para quê metáforas? elipses? para quê ironias, hipérboles, paradoxos?” – assim como a falta de citações adequadas.  

Com todo esse engessamento supervisionado, os textos ficaram claros, tão claros, quanto insossos. Sou partidário da idéia de que o texto, seja ele qual for, tem que convidar o seu leitor a se entreter com ele – há sempre algo sedutor - e não fazê-lo entediado como se estivesse - e muitas vezes estão – perdendo tempo.  Há quem julgue que muitos textos antigos poderiam ser reduzidos a um artigo e, desse modo, teriam tido maior alcance de público. Certo? Errado.  Utilizo-me da metáfora de Marcel Proust de que sua literatura, seu texto, é um tapete bem mais extenso que as pequenas moradias da França de sua época.  Nenhum desses textos dos autores clássicos é excessivo e se assim parecem, talvez o próprio escritor quisesse propositalmente construí-lo.  Se Euclides da Cunha escreveu “Os Sertões” com todos os seus excessos, poderíamos pensar que algum texto “enxuto” da época, escrito por outro autor, tenha dito algo semelhante, mas, se disse, perdeu-se. Perdeu-se porque não tinha a mesma estética ou a mesma beleza d”Os Sertões”. Ilusão pensar que só o conteúdo científico, inovador, revelador é o que interessa no texto acadêmico. Eles são de fato o objetivo, mas o que faz alguém  reconhecê-los como tal, é a maneira de   como são construídos. São construídos com uma escrita em prosa, as vezes poéticas (porque não?) que faz com que temas tão densos tenha minimante algo de agradável. Se folhearmos as primeiras páginas: de Mal-estar na Civilização, de Freud, A Origem das Espécies, de Darwin, Os ensaios, de Montaigne, O Príncipe, de Maquiavel, somo meio que convidados a seguirmos adiante. Isso fez com que muitas obras cientificas ficassem consagradas não apenas pelo seu conteúdo inovador como sua estética literária. Muitos autores na ocasião obtiveram prêmios de literatura.


Marcos Creder

domingo, 24 de março de 2013

A SUAVE DELICADEZA DAS MINHAS INQUIETAÇÕES



        


    
        Minha pele tem dupla face: aquela com que me visto e aquela sob a qual habito. Abaixo de ambas existe uma profundeza enorme que muitas vezes me assusta. Sou quase todo uma latência que pulsa nos estremecer dos meus mais pequenos e mínimos gestos. Aquém das superfícies nada sei de serenidades. Acaso pudessem as pessoas me conhecer o que achariam era um inesgotável e buliçoso inverno.

                Porque me inquieto eu sonho; porque sonho não sou. Não sendo, penso-me. Pensando, vejo-me; vendo-me, me surpreendo. E me surpreendendo me indago. O que posso ser de mim, o que ainda não fui? Sou aquele que não sou? Ou serei apenas aquele que não conseguiu ser? Se sou assim tantos, então quem sou de fato eu? Minhas labaredas internas não me queimam, porém me aquecem. Meu inverno interno não é feito de chuvas e trovoadas, mas de mansas nuvens em movimento. Sim, isto sei quem sou: uma nuvem entrajada de mim.
                Nos anos 80 passados Cacaso musicou os seguintes versos, celebrados na voz de Sueli Costa: quem me vê assim cantando/não sabe nada de mim./dentro de mim mora um anjo/que tem a boca pintada/que tem as unhas pintadas/que tem as asas pintadas/que passa horas à fio/no espelho do toucador. Mas dentro de mim não moram anjos nem demônios. Dentro de mim mora um céu inteiro. Sou o meu sol, minha lua e minhas estrelas. Sou meu próprio paraíso e meu inferno. Sou infinito enquanto não findo. Sou eu mesmo meus arcanjos, meus querubins decaídos e meu Éden. E no transitório celestial de mim sou pagão, ateu e cristão. Sou uma profunda contradição que anda de roupa por aí. Quem me vê assim cantando, não sabe nada de mim.
                Na clareza dos seus mistérios, o homem se encontra e se traduz. O dialeto da alma é diferente de todas as racionalidades humanas. A língua de fora exclama, enquanto a de dentro estala. Talvez esteja certo Pascal quando diz que o coração tem razões que a própria razão desconhece”.
                Nossa mais verdadeira existência não transita pelas ruas e praças, pois é nos quartos e becos onde reside o existir e suas autenticidades. O eu da alma não foi feito para claridades, porém para as sombras privadas dos fundos. Nas abissais profundezas o eu se dissolve na liquidez de um oceano cósmico. O que entendemos de eu – como ensina o Budismo – é uma ilusão construída pela mente. O que pensamos que somos, pois, nada mais é do que resíduos de nossas sensações, percepções e sentimentos. Para fora terminamos; para dentro somos infinitos e eternos.

                Freud nos dizia que somos um cavalo montado por um cavaleiro. Somos ambos. O cavaleiro conduz a força do cavalo com suas rédeas, sem elas o cavalo conduz o cavaleiro. Solto de mim que riscos corro do que serei? A força que trago necessita ser domada, afinal sem dono dispararia para bem distante de mim. Por isto entendo mais uma vez Fernando Pessoa (Bernardo Soares) quando escreve que porque sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”.
                  Ah!, não me venham com cavilações e prosopopéias, meus caros senhores. Meus interiores não são construídos de carnes ou vísceras, mas sim de quimeras e desejos. Por isto é que me sinto quando me sinto desperto para dentro na impalpabilidade vulcânica de todos meus inconsumos.
                      Transpiro versos como quem faz prosa. Grito silêncios nos entremeios dos meus sussurros. Meu sabor é doce por detrás do azedo e amargo em lugar de ameno. Já cantava Caetano que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...”. Apenas eu e somente eu sei dos meus encantos e desencantos, das minhas paixões e dos meus ardores. Minhas inquietações são mansas e porque mansas são imensas. Não me assossego nem um instante, nem quando pareço calmo, pois pacato e pacífico sou todo inquieto.
         Quem me vê assim cantando não sabe nada de mim...

         Joaquim Cesário de Mello 


domingo, 17 de março de 2013

Hans Selye e as Situações de Estresse


Escrevi recentemente em outro artigo aqui no LiteralMENTE sobre as várias palavras usadas na psiquiatria que foram paulatinamente banalizadas  no discurso do dia a dia: “meu marido tem uma  bipolaridade”, “a situação lá em casa está esquizofrênica”, “sou meio TOC”, “esse menino é hiperativo”, “comendo desse jeito, vou acabar pegando uma bulimia”,  “aquele cafajeste é um sociopata”.  Óbvio que estas palavras não são propriedades da ciência ou da medicina, mas o que observo é que com o passar do tempo, alguma delas vão se desconstruindo do sentido original que muitas vezes provocam equívocos até mesmo na comunidade científica. Vamos a mais uma dessas palavras...

Costumamos chamar de estressadas as pessoas que são submetidas às situações mais deploráveis ou sofríveis de suas condições de vida. O excesso de trabalho, de tarefas, de compromissos, as dificuldades econômicas, a indisponibilidade de tempo, as situações de perda, fazem muitas vezes estas pessoas adoecerem com o que se denomina de estresse.   Esse fenômeno, quando está assim descrito, geralmente se refere a condições desfavoráveis ou desprazerosas e são vistas como sinônimos de fadiga ou de ansiedade, restringindo-se as experiências psíquicas. Se recomendarmos, contudo, aos estressados uma atividade física, uma viagem de turismo, uma mudança de ares, poderíamos estar assim prescrevendo uma receita para o tratamento anti-estresse? Não. Por quê? Porque estas recomendações podem ser igualmente estressantes. Afinal que seria estresse?

O primeiro teórico a utilizar a palavra estresse foi o médico e biólogo canadense Hans Selye num livro que posteriormente se transformou num clássico: The Stress of Life (O estresse da Vida). Selye nunca foi psicólogo ou psiquiatra, era médico endocrinologista, e sua teoria foi construída em cima de experimentos puramente biológicos.  “O Estresse da vida” foi publicado em 1956, e desde então, calcula-se que gerou centenas de milhares de publicações científicas.  Inspirada em conceitos Darwinista, Selye teorizou uma sequência de mecanismos orgânicos-adaptativos nas ocasiões/situações   em que o “ser” era submetido a ameaças a sua integridade. Essas situações iam desde as alterações fisico-químicas, às existenciais ou sociais – as situações de estresse. Esses mecanismos adaptativos evitariam o adoecimento ou a morte do organismo.  Todo esse processo Selye denominou de Síndrome Geral de Adaptação. Havia no entendimento desse teórico a relação adaptação/aptidão de um lado, e a intensidade do estressor do outro – estresse é a situação e a doença. O resultado dessa relação resultaria em três possibilidades: superação (adaptação), adoecimento e nos casos extremos, morte. Alguns exemplos: se saio de um lugar de calor intenso e enfrento uma sala com ar-condicionado com temperatura abaixo dos vinte graus, acontecerá inúmeros mecanismos fisiológicos que vão tentar me adaptar a essa nova situação, caso isso não ocorra, adoeço: resfriado, pneumonia etc. Se vou trabalhar em um novo emprego, mesmo que seja um tão sonhado emprego, vou utilizar, do mesmo modo, de mecanismos adaptativos que se porventura falharem, posso adoecer de inúmeras formas: desde as  crises ansiosas, depressão às doenças físicas.

Tendemos a utilizar a palavra estresse apenas para as situações indesejáveis como perda morte, desemprego, separação. No entanto, as situações estressoras geralmente não são mensuradas apenas pelo infortúnio, mas pela severidade da transformação entre a situação anterior e a experiência posterior e, os novos eventos da vida, não são necessariamente  desagradáveis. Quantas vezes já se observou pessoas adoecerem após casarem, ou aquelas que foram convocadas para uma grande realização profissional, se deprimiram, ou mesmo aquela tão sonhada férias para Europa culminar em vários doenças físicas. O nascimento do primeiro filho seja desejado ou indesejado é considerado um dos estressores mais significativos na cultura ocidental. Se se observar com mais cautela, muitas doenças físicas são desencadeadas em momentos de passagem – que são estressores. Muitas se iniciam na puberdade, no final da adolescência, ou entre a juventude e a meia idade e assim por diante. Os imigrantes são mais sujeitos a mais adoecimentos que os nativos.

A teoria do estresse reporta, de certo modo, ao lado animal; enfrentamos situações sociais ou existenciais como um animal ao seu predador. A ameaça é captada pela nossa fisiologia como se estivéssemos, de fato, à beira de uma situação mortal. Um dos mecanismos defensivos, a ansiedade, é muito utilizada na Síndrome Geral de Adaptação nas situações de estresse. O que suponho que justificaria com que muitos pensem em estresse como situações exclusivamente psíquicas, seria a capacidade que o ser humano tem de transformar ameaças reais em ameaças simbólicas – e no mundo simbólico existem leões, aves de rapina, serpentes,  insetos venenosos, como a mais temida das selvas

Marcos Creder   

sábado, 9 de março de 2013

A SUBLIME SABEDORIA DAS ALMAS SIMPLES



    



            O Iluminismo, o Renascimento e a Modernidade, parecem ter fundado o homem mais sapiens até então criado. É como se acreditássemos que antes só houvesse barbárie, excluindo ocidentalmente o período da Antiguidade Clássica Grega. A Hipermodernidade, então, nos tornou seres tecnológicos ou adoradores pagãos da tecnologia. Steve Jobs é o gênio da raça dos tempos que nos consumem.
                Sabedoria encontra-se associada à erudição, ciência, domínio tecnológico, habilidades retóricas, logicidade, poliglotismo e sofisticação estética. O mito de Prometeu faz menção de como o ser humano se sobrepõe aos demais seres viventes: Prometeu rouba o fogo dos deuses e lhe dá aos homens. Por tal ousadia e transgressão Prometeu é condenado a ser acorrentado no cume do monte Cáucaso onde diária e perpetuamente um corvo lhe comia o fígado que depois se regenerava para no outro dia mais uma vez ser dilacerado. Este mito, portanto, conta a história de como o ser humano herdou o poder de pensar: do fogo divino roubado.
                Ao longo de nossa jornada no mundo convencionamos dividir o pensar em comum e sábio, em popular e erudito, em vulgar e científico. Passamos a considerar que um sábio é aquele que tudo sabe e um ignorante é aquele que nada sabe. Todavia, a sabedoria socrática reside na premissa de que se é sábio aquele que sabe que nada sabe. Sócrates, assim, institui um “Elogio à Ignorância”, que Rousseau, em seu DISCURSO SOBRE AS CIÊNCIAS E AS ARTES chama de verdadeira sabedoria. Neste discurso Rousseau refere que o progresso da ciência e das artes em nada acrescentou à verdadeira felicidade humana. Diz: “Quanto a nós, homens vulgares, para quem os céus não repartiram tão grandes talentos, e a quem não destinam tanta glória, fiquemos na obscuridade. Não corramos atrás de uma reputação que nos escaparia e que, no estado presente das coisas, não nos daria nunca o que nos teria custado, ainda que tivéssemos todos os títulos para obtê-lo. De que serve procurar a nossa felicidade na opinião dos outros, se podemos encontrá-la em nós mesmos!”.
                Socraticamente tomar consciência de nossas própria ignorância é que nos torna verdadeiramente sábios. Ou como diz o poeta chinês Lao-Tsé “Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão”.  Eis, pois, o cerne da problemática: a ignorância pode ser benéfica? Sim, afinal  a etapa inicial e fundamental de qualquer processo do saber é a ignorância. É necessário nos sabermos ser ignorantes para se chegar algum conhecimento.  É a pergunta (sobre aquilo que ignoro) que nos leva a resposta (conhecer o que antes ignorava). E talvez a resposta mais sábia a uma pergunta seja uma nova pergunta. As incógnitas podem em princípio parecer um obstáculo ao conhecimento, porém são as incógnitas que nos orientam em busca das respostas mais profundas, além das aparências.
                Quando um cara se acha sabedor de determinada coisa ele geralmente deixa de olhar com mais atenção à coisa conhecida. Neste sentido O “eu sei” nos torna míopes ou até cegos frente ao que se sabe. Um “sábio” dessa forma e maneira é arrogante que despreza ou não consegue enxergar a própria ignorância. Ainda existem os opulentos do saber. Estes vivem “arrotando” conhecimento expressos em malabarismos linguísticos e barroquismos verborrágicos impregnados palavreados obscuros, herméticos e enigmáticos. Ou como já disse Galileu “falar de forma obscura todo mundo sabe, mas de forma clara pouquíssimos conseguem”.
            
    A verdadeira inteligência é aquela que, sabedora humilde de sua ignorância, se espanta frente à realidade, ao mundo e à vida, e se reconhece não-sabente e por isto indaga, questiona e busca querer saber o saber que não sabe. O filósofo renascentista Nicolau de Cusa afirma que “ninguém é mais sábio do que aquele que se reconhece como o mais ignorante dos homens”. Para Nicolau de Cusa não há doutrina maior que a sabedoria da ignorância, pois não há nada mais ciente da essência da verdade que a própria ignorância.
                E por que, então, queremos tanto nos saciar de respostas e no empanturrar de informações?
                É sabido que excesso de informação (dispersa, vaga, superficial, fragmentada) consome a atenção do indivíduo. Com o dispersar da atenção e excesso informativo, temos a diminuição da capacidade de reflexão e retenção na memória de longo prazo. É como se a memória humana estivesse sido trocada pela memória digital e virtual. Ou, como afirma o escritor e semiólogo Umberto Eco, tal excesso provoca amnésia.
                A tecnociência predomina. Palmas para ela e que bom para nós que temos hoje a nosso favor a tecnologia que nos facilita a vida e o viver. Mas a questão ainda é: estamos mais felizes ou menos felizes? O acúmulo de conhecimento tem nos proporcionado enriquecimento ou empobrecimento prático? Sei, de antemão, que as respostas vão depender de inúmeras variáveis e de pontos de vistas. Eu tenho cá os meus. Quais os seus?
                Para mim sabedoria, sabedoria mesmo, é aquela que nos oferece um olhar para além do imediato e das aparências. Vivemos no corre-corre do dia-a-dia contemporâneo dos grandes centro urbanos. Pouco observamos as paisagens. Pouco nos damos conta do que talvez importe de verdade: as pequenas coisas. Vivenciamos um ritmo tão acelerado que dificilmente a qualidade de nossas parcas existências são usufruídas em sua mais possível plenitude. Subaproveitamos os dias e a vida.
     
           Para mim sabedoria, sabedoria mesmo, é aquela que nos transforma, muda nossa relação com o mundo, com a realidade e com a própria vida. Não é necessário grandes tratados científicos e/ou filosóficos, nem textos herméticos e enrabuscadamente escritos. Basta encontrar em nós a simplicidade de se estar vivo.
                Encontro nos escritos do século XIX, de Henry Thoreau, palavras sábias que gostaria de serem minhas, entre elas: “simplicidade, simplicidade, simplicidade! Tenha dois ou três afazeres e não cem ou mil; em vez de um milhão, conte meia dúzia... No meio desse mar agitado da vida civilizada há tantas nuvens, tempestades, areias movediças e mil e um itens a considerar, que o ser humano tem que se orientar - se ele não afundar e definitivamente acabar não fazendo sua parte - por uma técnica simples de previsão, além de ser um grande calculista para ter sucesso. Simplifique, simplifique." Ou ainda: “somos vulgares, incultos e analfabetos; e, em relação a isso, confesso que não faço maiores distinções entre o analfabetismo de meus concidadãos que não aprenderam a ler e o que o que aprendeu a ler somente aquilo que se destinam às crianças e aos intelectos medíocres. Uma coisa é ser capaz de pintar um quadro especial, ou esculpir uma estátua, produzindo assim objetos de beleza; mas é muito mais glorioso esculpir e pintar a própria atmosfera e a maneira pela qual vemos o mundo. Influir na qualidade do dia – esta é a mais elevada das artes.”
                O filósofo André Comte-Sponville, em seu pequeno livro A FELICIDADE, DESESPERADAMENTE, pondera que talvez não exista felicidade. O que existe é alegria, contentamento e tranquilidade. Quando estamos alegres, contentes e tranquilos nos sentimos e nos dizemos que estamos felizes. Se assim for, quando consigo ser simples com as pessoas, com o mundo e comigo mesmo, quando consigo deixar aflorar a simplicidade de ser simplesmente eu, estou e sou feliz; embora aqui e acolá me perceba petulante, arrogante, especial e superior (resquícios inescapáveis do narcisismo humano). Nestes instantes não estou e nem sou um homem feliz.
                                Simples, assim.

Joaquim Cesário de Mello

sexta-feira, 8 de março de 2013

CESTA DE VERSO & PROSA

EU PENSO...

 
EU PENSO que a noite já chegou, com todo seu silêncio, atmosfera perfeita para que o pensamento aflore, pelo escuro e pela ausência de sons.

EU PENSO que ao contrário do que muitos possam imaginar o pensamento nem sempre é liberdade, ele pode ser prisão. Porque ninguém se liberta dele depois que os tem tão facilmente, porque ele volta quando a gente nem se da conta, sem grandes anunciações.

EU PENSO que a palavra presa coroe tudo que está dentro até poder se expressar, ela cutuca as lembranças e suas experiências mesmo as que você não se deu conta que teve.

EU PENSO que tentar entender tudo que vem a tona essas horas é em vão, ou no mínimo enlouquecedor, porque não se resolve nada pensando e porque nada faz sentido, mas, mesmo sabendo disso, o caminho mais comum e freqüentemente realizado é o de buscar explicações.

EU PENSO que escrever é a tentativa de pôr para fora o que de dentro incomoda, e grita e sacode e balança.

EU PENSO que já está mais que na hora de amanhecer.

Andressa Costa

domingo, 3 de março de 2013

VINGANÇA


Há algum tempo postei aqui no LiteralMente um artigo sobre a personagem Medeia, do teatro de Eurípides, focando o seu ato hediondo – assassinar os filhos para se vingar do marido que a havia abandonado. O ato de Medeia é repulsivo por várias razões: por praticar um crime bárbaro contra crianças inocentes, seus próprios filhos, pela impulsividade e a ausência de arrependimento. O ato é fruto da vingança. O que estava sendo vingado? A dor do abandono.  Na peça Gota D'Água de Chico Buarque, que tem Medeia como pano de fundo, há todo um discurso de justificativa em que o ato seria fruto de uma espécie de justiça íntima, ou seja, de vingança, de uma vingança má. Pergunto: existem vinganças boas?

Lembrei-me de filmes que eram, há pelo menos uns quinze anos, continuamente reprisados na televisão tarde da noite de domingo, depois do “Fantástico” – Domingo Maior. Os roteiros eram muito semelhantes. Um homem tinha um ente querido brutalmente violentado e, a partir desse momento, começava uma implacável perseguição aos assassinos. O homem, que era o herói da trama, terminava por executar cada integrante da quadrilha com requintes de crueldade, alimentado pelo desejo vingado, que  provocavam  êxtase e deleite nos telespectadores. Eram vários filmes do gênero, vários domingos, mas um desses filmes foi grande sucesso de público: “Desejo de Matar” (que, devido ao sucesso, se desdobrou em Desejo de Matar  II, III, IV e V), com Charles Bronson, como protagonista. Pois é, a moral desses filmes, e de muitos outros filmes desse tipo, é de que vingar é uma forma de justiça, talvez a mais saborosa das justiças – se observarmos com mais atenção, incontáveis filmes de ação mantém essa ideia. Se o cinema, assim como, muitas vezes, a literatura, constroem essas tramas,  devemos, então, concordar com a ética dos vingadores? Ou deveríamos seguir a frase de Confúcio: “antes de embarcar na vingança cave duas covas...”?

Um dos livros mais importantes da literatura mundial trata desse entre outros temas – geralmente os grandes textos são multifacetados em metáforas. Nele a metáfora do vingador esta perfeitamente destacada: Acab (ou Ahab em algumas traduções) o capitão do “Pequod”, navio baleeiro, tem um objetivo: um desejo vingança por Moby Dick – o título do livro –, uma baleia gigantesca (da espécie cachalote) que o teria, em outra ocasião, mutilado e desfigurado.  Nesse romance de Herman Melville, o capitão insano leva toda a tripulação à destruição em nome de seu ato de ira por um animal que sequer sabia o que é ódio ou vingança. O romance é narrado no nome de um suposto Ismael, ajudante da tripulação e um dos personagens mais famosos da literatura mundial, que em determinada passagem do romance comenta sobre seu capitão:  “Acab se alimentava das patas sombrias de sua melancolia”  Em determinado trecho Starbuck (que nessa época ainda não era nome de cafeteria), outro dos integrantes da tripulação, tenta demovê-lo da implacável perseguição:  “Por que insistes em dar caça a esse hediondo cachalote? Vem comigo! Vamos embora dessas águas mortais! Vamos voltar para casa!” (...)“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia. Vê! Moby Dick não te procura. És tu, tu, que loucamente o buscas!” . O romance literalmente descamba em mais uma tragédia humana e segue os preceitos de Confúcio.

No ocidente, a vingança foi, de certo modo, codificada nas leis de talião, onde se poderia revidar com dano de igual proporção, o dano original – “olho por olho, dente por dente” –, e ainda hoje é oficialmente recomendada em várias culturas, especialmente, no oriente médio. Muitas vezes, é justiçada com o nome de  “princípio de reciprocidade”. No entanto, se tomarmos como exemplo “Moby Dick” e Confúcio, a vingança terá nas suas entranhas um elogio a “justa violência” e, consequentemente, a uma postura (auto) destrutiva. Há algo que se subtrai do sujeito no ato de vingança.  Utilizando da frase de Bacon “a vingança é uma espécie de justiça selvagem”, acrescento que renunciar a esse ato seria mais humanamente justiceiro e civilizatório. O cristianismo talvez tenha sido uma das religiões que tenha de fato revisto, pelo menos em tese, o direito a vingança, com o aforismo de Cristo:

Tendes ouvido que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau; mas a qualquer que te dá na face direita, volta-lhe também a outra; ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e quem te obriga a andar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.»  ( Mateus 5:38-42)

Se nos detivermos puramente nos aspectos psíquicos da vingança, saberemos que muitas vezes ela é inevitável, mas também sabemos que ela se alimenta da raiva e pressiona impulsivamente para ato destrutivo imediato. Essa junção – agressão e impulsividade – é uma aliança que muitas vezes, respinga no próprio vingador e, assim como Acab, o primeiro alvo do ato de vingança é o próprio sujeito. Daí vem àquela famosa frase do dito popular: ”a vingança é prato que se serve frio”. De fato, distanciar o impulso do ato é bastante vantajoso, porque, muitas vezes, nesse “esfriamento” o prato sequer será comido ou vingado. Resta então uma pergunta: quem de fato é o objeto agredido pelos obcecados por vingança?

Marcos Creder