Depois de muitos anos, alimentado por infundado preconceito, passei a ser um leitor assíduo de biografias. Qual seria a razão desse preconceito? Achava, entre outras coisas, que as biografias eram um falso relato da vida de uma suposta pessoa que (não) existiu - um retrato sentimental e afetivo mais do biógrafo do que do biografado. Tem biógrafos, inclusive, que são tão agradáveis e conhecedor de seu personagem ilustre que, talvez, o próprio biografado não se reconhecesse no seus textos. Há uma modalidade de biografia escrita pelo próprio biografado, enfim, um tipo de autobiografia, que assim não pode ser inteiramente classificada, por ter elementos de ficção. São os interessantes “romances de formação”. Por muito tempo achei esse tipo de texto, apesar de inverídico, mais, bem mais, honesto que a escrita confessional. Li alguns. Há maravilhosos textos de Goethe, Thomas Mann, Proust, Pedro Nava, Roth, autores que fizeram de suas recordações, elementos para um deslize ficcional - fato que dá beleza e realidade ao texto. Realidade? Sim, realidade… Sou adepto a certos paradoxos e não posso deixar de me recordar de Oscar Wilde num livro bastante instigante: “A Decadência da Mentira, Um Protesto”. afastando todas as ironias, chacotas e as provocações de Wilde, devo concordar com ele que a verdade é muito mais expressa na ficção do que nos supostos fatos verídicos. Diz Wilde que Platão ou Sócrates ao relatarem passagens de suas vidas estavam contando verdades, contudo, verdades que não ocorreram. Segundo esse escritor, os pensadores de nosso tempo contam mentiras que ocorreram - nada mais desagradável que a vida sem arte - e arte sobretudo é invencionice. Eis o paradoxo. Minha formação em leituras de psicanálise faz concordar com Oscar Wilde. As pessoas trazem seus sofrimentos às sessões terapêuticas sem ter a menor ideia de que estão enganadas, iludidas e de que falam dando ênfase, apenas, aos seus desejos e versões. Falar sob influência do desejo é criar e/ou mentir, mas nele, no desejo, há verdades. E assim fazem os biógrafos e cronistas, “criam” imaginando que estão narrando fatos verídicos e inquestionáveis.
Desse modo, comecei a admirar as biografias.
Quem era dolores Duran? uma das rainhas do samba-canção. quem era Tom Jobim. um dos criadores da Bossa nova - se quiser saber mais, leia Ruy Castro. Dessa junção de talentos e de estilos, surge a canção tão carioca, tão feminina. O livro de Ruy Castro é um primor, um texto que você teme por terminá-lo, uma história que se deixa adormecer e permitir-se sonhar com a biografia de uma cidade.
Marcos Preder
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