domingo, 27 de maio de 2012

MILAGRES SÓ ACONTECEM NO PASSADO



Quando fazia curso de catecismo, ou até mesmo nas aulas de religião na época do colégio, achava curioso quando os padres e os irmãos leigos contavam as histórias bíblicas  sobre os milagres de seus personagens, assim como os dos Santos da Igreja Católica. Eram histórias agradáveis de ouvir: Sansão enfraquecido com um corte de cabelo, Moisés abrindo com um gesto de braços o Mar Vermelho, Jesus Cristo ressuscitando Lázaro, São Francisco conversando com as cotovias, Santo Antonio pondo as cabeças dos peixes fora d’água para ouvi-lo... São tantas histórias, tantas narrativas épicas que me deixava em estado de graça. Contudo, uma pergunta sempre me ocorria: porque esses eventos não acontecem mais? Porque um defunto não mais se levanta sob a ordem de uma apelação divina, porque alguém como Josué não faz mais o sol ficar parado, ou algum tirano tenha reconsiderado seus atos após ter uma visão iluminada de Cristo, assim como acontecera com Paulo de Tarso no caminho de Damasco. Na minha timidez infantil penso que cheguei a perguntar sobre isso, mas as respostas eram insuficientes, reticentes  que se resumiam, proferiam os religiosos – com ar de pedantismo – “aos elementos metafóricos do cristianismo”.
Penso que essa indagação me perseguiu e ainda me persegue até a minha vida adulta, contudo, não mais na religião, mas em outras formas de conhecimento.  Pude perceber mitologias, histórias épicas freqüentar várias biografias e vários saberes, mas uma delas, especialmente, chamou-me atenção: a Mitologia da Psicanálise Institucional. Adianto que sou um admirador e entusiasta da teoria e da prática psicanalítica, contudo, ao freqüentar uma Instituição, em especial um grupo de estudos, pude fazer algumas reflexões. Essas reuniões fazem lembrar alguns encontros religiosos, na verdade,  misturam-se neles elementos de várias crenças, desde a “mesa branca”  à cerimoniosidade católica - poderia acrescentar alguns itens exotéricos, mas iria me alongar bastante.
Na penumbra os integrantes do grupo, antes de se sentarem, curvaram-se e acenaram com a mão em direção ao “mestre”, um psicanalista de barbas e óculos freudianos, que balançou positivamente a cabeça ao perceber minha presença, o novato. Como numa missa, havia na sala um  livro de capa dura, grosso e aberto como uma Bíblia, rodeado de cadeiras onde sentariam os integrantes do grupo -  pessoas de vozes serenas, escrupulosas, com os semblantes de que estavam prestes a viver ou reviver às cenas de “revelações” dos quadros renascentistas. O sacerdote freudiano, paradoxalmente, encontrava-se sentado de maneira despojada numa poltrona, e ouvia as nossas palavras de olhos fechados como se fossem as nossas confissões, os nossos pecados.  Quando alguém anunciou a minha presença, formalizando-me como novo integrante, o senhor abriu os olhos e com severidade, indagou-me: “tudo bem contigo?”. Não sabia o que responder, mas uma das integrantes quebrou o silêncio com sorriso agudo e apontando-me na estante, os livros de interesse da psicanálise e me disse: “aqueles são os trabalhos d’Ele, e esses são de seus discípulos” – Freud tinha discípulos, seguidores e, inclusive, um Judas Iscariotes. Jung ao ser citado por duas vezes provocou um mal-estar generalizado com olhares repulsivos, esconjuros labiais, e invisíveis gestos de sinal-da-cruz.
 A reunião, em tom monótono, era entrecortada pelas palavras “genialidade”, “interpretação”, “resistência”, “inconsciente”, "Sujeito" e “cura”. Cura? Essa palavra me chamou atenção: Freud analisava seus pacientes e em meses, poucos meses, estavam todos curados. No início do século XX, suas fascinantes interpretações, suas reflexões perspicazes navalhavam o mundo dos recalcados e pulverizavam as neuroses, como uma epidemia similar a da febre amarela, e assim como Osvaldo Cruz, apesar de empreender verdadeiros milagres em prol da população, criava um sem número de opositores. Freud foi condenado por mostrar o "mosquito" da sexualidade infantil... Pois foi em meio a essa discussão que fiz uma longa pergunta:
“Com os avanços da psicanálise, com todas essas descobertas maravilhosas no decorrer do século XX, suponho que o índice de cura seja altíssimo e a rapidez na remissão dos sintomas, tenha aumentado”
Não podia cometer tamanha gafe. O mestre disse em tom solene: “o tratamento dura anos a fio, meu jovem, e não podemos prometer qualquer cura ou felicidade. Não cometemos a imprudência da promessa de cura”. Sua voz tenebrosa, repreendia a mim e aos outros que, de cabeças baixas, pareciam se envergonhar das minhas palavras. Uma jovenzinha consolou-me: “Freud é Freud...”. Uma senhora, que parecia dormir, abriu os olhos como se tivesse ouvido um ruído estranho: “meu jovem, o mundo não é mais ingênuo como nos tempos freudianos”.
Frustrado, recolhi minhas ideias e as juntei nas minhas recordações infantis onde os milagres só aconteciam no passado.

Guilherme Saraiva (colaborador - LiteralMente)

GUILHERME SARAIVA ESTRÉIA NO LITERALMENTE

O FILÓSOFO, escritor e ensaísta Guilherme Saraiva nos solicitou para colaborar  eventualmente com seus artigos, o que para nós, organizadores, é uma honra. Disse-nos que seus textos parecem se adequar bem à proposta do LiteralMente, "pois", comenta, "esse Blog abre espaço inédito para  diálogos mais ecléticos  entre  saberes afins, numa linguagem clara, sem barroquismos". Para quem não o conhece, Guilherme é filosofo e seus escritos tem sido marcadamente influenciados pelo seu interesse na psicanálise. Em seu artigo "Elementos da Psicanálise na Construção Estética da Arte Moderna", escrito para uma revista Catalã,  afirma que é impossível pensar os séculos XX e XXI sem o freudismo, mas acrescenta que o pensamento psicanalítico, do qual se diz apenas um diletante,  "tem caído em perspectivas perfunctórias". Essa relação Arte&Freud tem lhe encantado e ao mesmo tempo deixado apreensivo - acredita que "a falta de amarrações dessa nova ciência leva a caminhos de obscuros e arbitrários". 
É com grande satisfação  que apresentamos  sua primeira   colaboração que certamente será um grande  presente, com seus escritos repletos de ironia e ceticismo - consequentemente propiciador de grandes reflexões.


Joaquim Cesário de Mello
Marcos Creder 
   

domingo, 20 de maio de 2012

OS OLHOS, A DANÇA E A MÚSICA: QUANDO A MUDEZ DA ALMA FALA


Às vezes um equívoco nos traz agradáveis e inusitadas surpresas. Pois foi o que aconteceu comigo na última vez que fui ao cinema da FUNDAJ. Para passar o tempo e esperar dar a hora de ir jantar em casa de amigos programei-me e fui assistir ao filme "O´Último Dançarino de Mao". Lá chegando no horário que li no jornal deparei-me com outro filme: "Pina" do cineasta alemão Wim Wenders. Embora seja um cineasta que deixou marcas indeléveis em minha memória cinematográfica e afetiva ("Paris, Texas", "Buena Vista Social Club") não estava disposto naquela noite a assistir um documentário. Porém, assisti. Não me arrependi, pelo contrário. Acaso fosse em uma palavra somente descrever o impacto do filme em mim diria "estupefato".
                O filme homenageia a bailarina e coreógrafa, também alemã, Pina Bausch, diretora do balé Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, que faleceu em 2009. Pina foi uma artista de mão cheia e rara que inovou a linguagem da dança. Suas coreografias combinam a expressividade do balé com o teatro. Logo nos minutos iniciais do filme temos a seguinte colocação de Pina: "tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança".
                O próprio filme do Wenders é uma dessas coisas que não só nos deixam sem palavras, como não encontramos palavras certas para descrever a poesia toda do filme em exibição. Mesmo sabedor de que as palavras aqui somente diminuem o prazer e encantamento estético musical, visual e dramático da obra, permitam-me os inúteis esforços.
                Ali está a subjetividade humana em movimento. Paixão, solidão, beleza, contentamento, êxtase, luto, angústia e sofrimento, bailam frente aos nossos olhos e alma perplexos, seduzidos hipnoticamente e sem chances de qualquer defesa ou fuga cognitiva. Pura arte em ebulução. Teatro, dança, poesia, música e cinema interligam-se magistralmente no esculpir dos corpos frágeis e fortes, jovens e velhos, magros e musculosos, nos bailar da leveza de nossas insustentáveis existências finitas. O pulsar da vida parece querer jorrar das veias expostas. Como disse Arnaldo Jabor, "o filme Pina é um spa mental".
                Não foi apenas Jabor que saiu da sala de cinema com deslumbre na alma. Eu e os demais igualmente. Não queria que o filme terminasse. Queria-o eterno. Ou seria eu que queria a eternidade da vida? Em toda sua dor e prazer, em toda sua glória e fracasso, em toda sua transitoriedade e permanência, a vida é bela. Embora muitas vezes, parece, esquecermos disto. Frederico Fellini (grande mestre do cinema italiano) também assim sentiu, muito antes do que eu. Para Fellini, Pina expõe em seu teatro dançante a força inebriante e libertária do desejo. Afirma, porém, ser um "conforto que se esvai aos poucos, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza não acabe nunca e que a vida seja assim".

                Certa vez disse minha filha que basta um pequeno momento sublime em um filme que para mim já vale o filme inteiro. Pois em "Pina" de Wenders, do primeiro ao último fotograma, do primeiro ao último acorde musical, o filme inteiro é sublime, sem exceção.
                O autores deste blog, Marcos Creder e eu, em nossa arrogância impotente criamos o LiteralMente com intuíto de falar da alma humana através da arte. Tola e ingênua pretenção. Se alguém chegou perto disso certamente foi Pina, e Wenders seguiu bem seus passos. Depois do filme e de assistir o que aquela mulher enevoada de fumaça de cigarro conseguiu fazer dá vontade de desistir. Todavia a vida não é somente para ser assistida, mas sim para ser vivida. Insisto e continuo...
                A trilha sonora é um deleite à parte. Tem a assinatura e interpretação de Thom Hanreich, ex-vocalista da banda de rock Vivid. Fica em nossos ouvidos Bahamut (Modine), Tied Down (Thom), The Here and after (Miyake) e Lillies of the Valley (Miyake).
                "O corpo diz o que o que as palavras não podem dizer" (Martha Graham). A dança expõe a alma em movimento, nos revela sentimentos, nos expõe emoções, nos suscita sonhos, nos leva pra longe da fria realidade das coisas. Através do gesto artístico, dos pequenos gestos, a vida pulsa. Bernard Shaw (dramaturgo) já dizia que a dança é "uma expressão perpendicular de um desejo horizontal". Pela arte da dança transformamos o sentimento em movimento e o movimento em sentimento. A dança nos coloca visível o que é invisível.
                Pina Bausch foi indubitavelmente uma artista que como poucos soube explorar a subjetividade humana e os conflitos vividos na relações entre pessoas. Está tudo ali: sonhos, fantasias, desejos, sentimentos, paixões, dores e amores. Da alegria à tristeza transita o ser humano no próprio transitar de sua efêmera existência. E pensar que ao longo deste pouco tempo nos deixamos tragar pela banalidade fútil do consumo e da materialidade, alienando-nos do que mais importa ao humano que é a vida passageira que ele carrega em seu corpo constantemente envelhescente. Quase suplica Pina: "dancem ou estamos perdidos".
                Sim, assistir ao filme Pina é se permitir se deleitar com a música do corpo. Ou como disse certa vez a bailarina Isadora Duncan, "Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!"
                Saí do cinema extasiado e cantante, porém triste e melancólico. Abrochou em mim a culpa. A culpa de não ter sido um dançarino. Pena, virei tão apenas um psicólogo que sentado em meu cotidiano clínico escuto os ruídos das almas alheias que se movimentam pelas ruelas e becos do cotidiano da vida.

Joaquim Cesário de Mello (LiteralMente)

domingo, 13 de maio de 2012

REMÉDIOS PESADOS COMO PALITOS DE FÓSFORO



Relendo a resenha de Joaquim Cesário aqui no LiteralMente sobre o livro “A Ilusão da Alma” de Eduardo Gianetti, tive algumas reflexões que foram acrescentadas justamente porque participei recentemente de um evento de psicofarmacologia que atiçou mais uma vez a discussão da relação mente-corpo.
O Encontro tinha vários convidados internacionais e entre eles um que é considerado uma verdadeira sumidade nessa área, o Dr. Stephen M. Stahl, da Universidade da Califórnia, e foi justamente um pequeno comentário desse professor que me chamou atenção. Ao explanar sobre os avanços do uso de várias medicações antidepressivas ele comentou que um dado “estranho” vinha acontecendo na pesquisa científica. O placebo, comentou, vem a cada ano apresentando resultados mais favoráveis, enquanto que muitos antidepressivos estacionaram em suas respostas terapêuticas. Como todos sabemos o placebo (que significa “agradarei”, em latim) é uma substância inócua do ponto de vista químico, mas  poderosa do ponto de vista “xamânico”.  - Há quem diga que não só há magia no placebo, como, também, uma rede de reações químicas provocadas pela sugestão. E é sobre as circunstâncias que envolvem o placebo, essa medicação mais pesada que o palito de fósforo que Joaquim tentava segurar num ritual de sugestão, que falarei mais um pouco.
As relações terapêuticas são permeadas constantemente pela magia da sugestão e de seus ritos. Apesar da psicologia e da medicina serem saberes científicos, o exercício da profissão remete a ritos de tratamentos religiosos anteriores a ciência moderna.  Esses ritos muitas vezes sequer são percebidos pelos pacientes ou terapeutas, mas estão presentes na vestimenta, na empostação da voz, na orientação higiênica – muitas vezes moralista –  e principalmente na divinificação do profissional.  Esse fenômeno é desencadeado nas relações assimétricas, em que um sujeito “carente” de saúde procura por um suposto provedor de bem estar.  É nessa relação que se instala o fenômeno da Transferência – grosso modo, um aglomerado de sentimentos arcaicos que são atualizados na relação com o sujeito que cuida.  Queiramos ou não interpretá-la, manejá-la, ou esquecê-la, a transferência estará lá, atenuando a dor já na sala de espera do médico generalista ou fazendo aliviar a angústia com um simples gesto facial de um psicoterapeuta. Assim faziam os religiosos, onde o sacerdote, o pastor, o líder ou o mestre assumem esse mesmo lugar assimétrico que propicia o alívio do sofrimento.
Esse lugar de “Todo Poderoso” da ciência ou da religião levaria a dois sentimentos díspares: o sentimento de acolhimento e o sentimento de temor. Temor? Porque temor? Quantos não tem medo dos médicos e dos remédios da medicina ou das falas ou do olhares dos psicoterapeutas?  Na verdade, a cura geralmente implica riscos e a submissão a procedimento muitas vezes desagradáveis. No exemplo de Joaquim, o palito de fósforo poderia esmagar-lhe a mão, assim como os remédios e as palavras poderiam destruir arruinar os clientes submissos a determinação dos médicos e psicólogos.  Esse desamparo vivido pelo doente frente ao cuidador deverá ser uma das fontes prováveis desse sentimento ambivalente de destruição e cura depositados no cuidador. Cabe lembrar que os símbolos da medicina e da psicologia também são ambivalentes. O cajado com a serpente, símbolo da medicina, reedita a idéia de bem e de mal, de alimento e de veneno, de Inteligência e a malícia. PSI, o tridente símbolo da psicologia, numa das diversas interpretações, era usado por Poseindon, na mitologia grega, para arrancar o poder da alma do adversário. Observa-se que nas relações humanas há sempre essa tensão entre o dano e a fortuna e, refazendo a cena do encontro terapêutico, se o “mestre” oferece um “agrado” (um placebo) como alívio, seu poder e sua empatia vão juntos.
O médico prescreve determinada medicação... Será que o paciente toma apenas um fármaco? Os resultados são apenas reações químicas? Na verdade, naquele grão medicinal vai um conglomerado de elementos químicos e grossos pedaços das almas do terapeuta e do esperançoso paciente.


Marcos Creder 



domingo, 6 de maio de 2012

QUANDO A POESIA ENCONTRA A MÚSICA


Em tempos de vacas magras onde o empobrecimento musical nos leva a divas como Ivete Sangalo e Cláudia Leite, eis que chega ao mercado fonográfico uma leve brisa com sabor lírico de maresia. Falo do novo disco de Leonard Cohen, Old Ideas.
                Muitos podem estar se perguntando: afinal quem é Leonard Cohen. Até entendo. Cohen é um poeta e escritor canadense que, já maduro, enveredou pela música tornando-se um dos mais cultuados compositores de sua geração. E que geração é esta? Trata-se da geração “cabeça” dos revolucionários e loucos anos 60. Naquela época vivia-se a chamada “contracultura”, cuja juventude de então em seus ideários contestadores e libertários inovou estilos e deixou marcas profundas em toda cultura e sociedade ocidental. Segundo Wikipédia o movimento contracultural era focado “principalmente nas transformações da consciência, dos valores e do comportamento,na buscca de outros espaços e novos canais de expressão para o indivíduo e pequenas realidades do cotidiano”. Foram tempos verdadeiramente undergrounds e de cultura alternativa. E em meio a tudo isto eis que nos surge Leonard Cohen e seu disco In My Life (1966).
                A carreira do cantor e compositor ofuscou-lhe o escritor que já era desde antes. Em 1961 alcançou a consagração literária com The Spice Box of Earth, segunda coleção de poesias do poeta. Anos bem depois, em 2011, recebeu o prêmio literário Príncipe das Antúrias, concedido pela fundação de mesmo nome na Espanha a pessoas ou instituições que tenham contribuído de maneira notável em várias áreas humanas.
                Músicas como Hallelujah, I’am Your Man e Dance Me To The End of Love fazem parte da trilha Sonora da vida de muitas pessoas. Quantas mulheres já não se encantaram e ainda se encantam com os versos de I’am Your Man na voz lúgubre e rouca, cheia de nicotina e testosterona de Cohen? Não há anima que resista... Permita-me um trecho:
                                                                                “Se você quiser uma amante
Eu farei tudo o que me pedir 
E se você quiser outro tipo de amor
 Eu usarei uma máscara por você
 Se quiser um parceiro,
 Toma a minha mão ou se quiser me derrubar, 
de raiva Aqui estou eu 
Eu sou o teu homem”  

                Leonard Cohen é autor de um livro que pode ser considerado um “livro de geração”(A Brincadeira, relançado recentemente pela Cosac Naify) ao se debruçar sobre as agruras psicológicas e sociais da juventude do seu tempo (ou será de da juventude de todos os tempos?) em começar andar por suas próprias pernas. Como diz Cohen “é fácil exibir uma ferida, as orgulhosas cicatrizes de guerra. O difícil é ter espinhas”.
                Com sua poesia de riqueza e requinte o poeta igualmente leva sua verve às letras musicais e com elas ela canta e conta suas experiências de vida – que não são poucas e nem rasas, principalmente no auge dos seus 77 anos de idade. Seus versos são agudos e às vezes bem diretos e secos como uma flecha, como quando diz: “não tenho futuro/seis que meus dias são poucos/o presente não é tão prazeroso/apenas algumas tarefas a cumprir/pensei que o passado iria sobreviver a mim/mas a escuridão chegou lá também”. Dolorosa sinceridade!
                O retorno de Cohen à música – infelizmente devido a um golpe que sofreu de quem administrava seu fundo financeiro de aposentadoria – deve ser saudado por todos que curtem a sensibilidade da existência além da superficialidade efêmera das máscaras e do cotidiano barato. Sua obra é naturalmente intimista e talvez exatamente por isto sua musicalidade se infiltra em nós sorrateiramente qual veneno de cobra. Impossível a indiferença frente sua voz, seus versos e seu som. Ou se ama, ou se odeia.
                Mestre da poesia cantada, assim como Bob Dylan, Leonard Cohen se analisa como quem dialoga com um alter ego ou com um espelho de dupla face (“adoro conversar com Leonard... ele é um bastardo preguiçoso vivendo dentro de um paletó”). Com seu vozeirão inconfundível este velho poeta vindo do século passado nos trás hoje suas velhas ideias, que de velhas ela só têm a jovialidade de serem permanentes.
                E como se diz por aí “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Pois é, bons versos falam mais do que mil letras de músicas de Vander Lee ou até mesmo tudo que foi escrito acima, I’m sorry. Então porque não deixar a poesia falar por si mesma, afinal se há algo mais revelador do que se passa com a alma humana não se encontra nos livros didáticos e acadêmicos de Psicologia ou áreas afins, mas sim na poesia. Se for verdade que “os olhos são a janela da alma” não é menos verdade que a poesia é a própria alma que se expressa e se revela, seja através da escrita, da música, da imagem, da cena, no palco ou na arte. A poesia é a alma transpirada.
                Com vocês um pouco do poeta, compositor e escritor Leonard Cohen, aqui reproduzido em trechos e alguns versos de sua obra:
                                                                       “Poderá existir algo mais vazio                                                                                        que a gaveta onde                                                                                                              costumavas guardar o teu ópio?”
                                                                       (O Estado da Minha Gaveta)

“Fechas os olhos e deixa que se fechem cosidos.
 Provocas um abraço e cais nele.
Há só um momento de dor e de dúvida
quanto te perguntas quantas multidões estão deitadas junto
do teu corpo,
mas uma boca beija e uma mão afasta esse momento”
                                                                       (Tens os amantes)

                                                               “Dance-me até sua beleza com um violino ardente
                                                               Dance-me através do pânico até eu estar em segurança
                                                               Eleve-me como uma oliveira
                                                               e seja a pomba fazendo ninho em mim”

                                                                                  (Dance me To The End Of Love)

Joaquim Cesário de mello