domingo, 20 de maio de 2012

OS OLHOS, A DANÇA E A MÚSICA: QUANDO A MUDEZ DA ALMA FALA


Às vezes um equívoco nos traz agradáveis e inusitadas surpresas. Pois foi o que aconteceu comigo na última vez que fui ao cinema da FUNDAJ. Para passar o tempo e esperar dar a hora de ir jantar em casa de amigos programei-me e fui assistir ao filme "O´Último Dançarino de Mao". Lá chegando no horário que li no jornal deparei-me com outro filme: "Pina" do cineasta alemão Wim Wenders. Embora seja um cineasta que deixou marcas indeléveis em minha memória cinematográfica e afetiva ("Paris, Texas", "Buena Vista Social Club") não estava disposto naquela noite a assistir um documentário. Porém, assisti. Não me arrependi, pelo contrário. Acaso fosse em uma palavra somente descrever o impacto do filme em mim diria "estupefato".
                O filme homenageia a bailarina e coreógrafa, também alemã, Pina Bausch, diretora do balé Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, que faleceu em 2009. Pina foi uma artista de mão cheia e rara que inovou a linguagem da dança. Suas coreografias combinam a expressividade do balé com o teatro. Logo nos minutos iniciais do filme temos a seguinte colocação de Pina: "tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança".
                O próprio filme do Wenders é uma dessas coisas que não só nos deixam sem palavras, como não encontramos palavras certas para descrever a poesia toda do filme em exibição. Mesmo sabedor de que as palavras aqui somente diminuem o prazer e encantamento estético musical, visual e dramático da obra, permitam-me os inúteis esforços.
                Ali está a subjetividade humana em movimento. Paixão, solidão, beleza, contentamento, êxtase, luto, angústia e sofrimento, bailam frente aos nossos olhos e alma perplexos, seduzidos hipnoticamente e sem chances de qualquer defesa ou fuga cognitiva. Pura arte em ebulução. Teatro, dança, poesia, música e cinema interligam-se magistralmente no esculpir dos corpos frágeis e fortes, jovens e velhos, magros e musculosos, nos bailar da leveza de nossas insustentáveis existências finitas. O pulsar da vida parece querer jorrar das veias expostas. Como disse Arnaldo Jabor, "o filme Pina é um spa mental".
                Não foi apenas Jabor que saiu da sala de cinema com deslumbre na alma. Eu e os demais igualmente. Não queria que o filme terminasse. Queria-o eterno. Ou seria eu que queria a eternidade da vida? Em toda sua dor e prazer, em toda sua glória e fracasso, em toda sua transitoriedade e permanência, a vida é bela. Embora muitas vezes, parece, esquecermos disto. Frederico Fellini (grande mestre do cinema italiano) também assim sentiu, muito antes do que eu. Para Fellini, Pina expõe em seu teatro dançante a força inebriante e libertária do desejo. Afirma, porém, ser um "conforto que se esvai aos poucos, porque o que a gente quer é que toda essa harmonia, toda essa leveza não acabe nunca e que a vida seja assim".

                Certa vez disse minha filha que basta um pequeno momento sublime em um filme que para mim já vale o filme inteiro. Pois em "Pina" de Wenders, do primeiro ao último fotograma, do primeiro ao último acorde musical, o filme inteiro é sublime, sem exceção.
                O autores deste blog, Marcos Creder e eu, em nossa arrogância impotente criamos o LiteralMente com intuíto de falar da alma humana através da arte. Tola e ingênua pretenção. Se alguém chegou perto disso certamente foi Pina, e Wenders seguiu bem seus passos. Depois do filme e de assistir o que aquela mulher enevoada de fumaça de cigarro conseguiu fazer dá vontade de desistir. Todavia a vida não é somente para ser assistida, mas sim para ser vivida. Insisto e continuo...
                A trilha sonora é um deleite à parte. Tem a assinatura e interpretação de Thom Hanreich, ex-vocalista da banda de rock Vivid. Fica em nossos ouvidos Bahamut (Modine), Tied Down (Thom), The Here and after (Miyake) e Lillies of the Valley (Miyake).
                "O corpo diz o que o que as palavras não podem dizer" (Martha Graham). A dança expõe a alma em movimento, nos revela sentimentos, nos expõe emoções, nos suscita sonhos, nos leva pra longe da fria realidade das coisas. Através do gesto artístico, dos pequenos gestos, a vida pulsa. Bernard Shaw (dramaturgo) já dizia que a dança é "uma expressão perpendicular de um desejo horizontal". Pela arte da dança transformamos o sentimento em movimento e o movimento em sentimento. A dança nos coloca visível o que é invisível.
                Pina Bausch foi indubitavelmente uma artista que como poucos soube explorar a subjetividade humana e os conflitos vividos na relações entre pessoas. Está tudo ali: sonhos, fantasias, desejos, sentimentos, paixões, dores e amores. Da alegria à tristeza transita o ser humano no próprio transitar de sua efêmera existência. E pensar que ao longo deste pouco tempo nos deixamos tragar pela banalidade fútil do consumo e da materialidade, alienando-nos do que mais importa ao humano que é a vida passageira que ele carrega em seu corpo constantemente envelhescente. Quase suplica Pina: "dancem ou estamos perdidos".
                Sim, assistir ao filme Pina é se permitir se deleitar com a música do corpo. Ou como disse certa vez a bailarina Isadora Duncan, "Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar... Tu amas, sofres e sentes. Dança!"
                Saí do cinema extasiado e cantante, porém triste e melancólico. Abrochou em mim a culpa. A culpa de não ter sido um dançarino. Pena, virei tão apenas um psicólogo que sentado em meu cotidiano clínico escuto os ruídos das almas alheias que se movimentam pelas ruelas e becos do cotidiano da vida.

Joaquim Cesário de Mello (LiteralMente)

Um comentário:

Cayo C. disse...

Abstenho-me de demais comentários além de:

Assisti, e minha mente e alma dançaram.