domingo, 13 de maio de 2012

REMÉDIOS PESADOS COMO PALITOS DE FÓSFORO



Relendo a resenha de Joaquim Cesário aqui no LiteralMente sobre o livro “A Ilusão da Alma” de Eduardo Gianetti, tive algumas reflexões que foram acrescentadas justamente porque participei recentemente de um evento de psicofarmacologia que atiçou mais uma vez a discussão da relação mente-corpo.
O Encontro tinha vários convidados internacionais e entre eles um que é considerado uma verdadeira sumidade nessa área, o Dr. Stephen M. Stahl, da Universidade da Califórnia, e foi justamente um pequeno comentário desse professor que me chamou atenção. Ao explanar sobre os avanços do uso de várias medicações antidepressivas ele comentou que um dado “estranho” vinha acontecendo na pesquisa científica. O placebo, comentou, vem a cada ano apresentando resultados mais favoráveis, enquanto que muitos antidepressivos estacionaram em suas respostas terapêuticas. Como todos sabemos o placebo (que significa “agradarei”, em latim) é uma substância inócua do ponto de vista químico, mas  poderosa do ponto de vista “xamânico”.  - Há quem diga que não só há magia no placebo, como, também, uma rede de reações químicas provocadas pela sugestão. E é sobre as circunstâncias que envolvem o placebo, essa medicação mais pesada que o palito de fósforo que Joaquim tentava segurar num ritual de sugestão, que falarei mais um pouco.
As relações terapêuticas são permeadas constantemente pela magia da sugestão e de seus ritos. Apesar da psicologia e da medicina serem saberes científicos, o exercício da profissão remete a ritos de tratamentos religiosos anteriores a ciência moderna.  Esses ritos muitas vezes sequer são percebidos pelos pacientes ou terapeutas, mas estão presentes na vestimenta, na empostação da voz, na orientação higiênica – muitas vezes moralista –  e principalmente na divinificação do profissional.  Esse fenômeno é desencadeado nas relações assimétricas, em que um sujeito “carente” de saúde procura por um suposto provedor de bem estar.  É nessa relação que se instala o fenômeno da Transferência – grosso modo, um aglomerado de sentimentos arcaicos que são atualizados na relação com o sujeito que cuida.  Queiramos ou não interpretá-la, manejá-la, ou esquecê-la, a transferência estará lá, atenuando a dor já na sala de espera do médico generalista ou fazendo aliviar a angústia com um simples gesto facial de um psicoterapeuta. Assim faziam os religiosos, onde o sacerdote, o pastor, o líder ou o mestre assumem esse mesmo lugar assimétrico que propicia o alívio do sofrimento.
Esse lugar de “Todo Poderoso” da ciência ou da religião levaria a dois sentimentos díspares: o sentimento de acolhimento e o sentimento de temor. Temor? Porque temor? Quantos não tem medo dos médicos e dos remédios da medicina ou das falas ou do olhares dos psicoterapeutas?  Na verdade, a cura geralmente implica riscos e a submissão a procedimento muitas vezes desagradáveis. No exemplo de Joaquim, o palito de fósforo poderia esmagar-lhe a mão, assim como os remédios e as palavras poderiam destruir arruinar os clientes submissos a determinação dos médicos e psicólogos.  Esse desamparo vivido pelo doente frente ao cuidador deverá ser uma das fontes prováveis desse sentimento ambivalente de destruição e cura depositados no cuidador. Cabe lembrar que os símbolos da medicina e da psicologia também são ambivalentes. O cajado com a serpente, símbolo da medicina, reedita a idéia de bem e de mal, de alimento e de veneno, de Inteligência e a malícia. PSI, o tridente símbolo da psicologia, numa das diversas interpretações, era usado por Poseindon, na mitologia grega, para arrancar o poder da alma do adversário. Observa-se que nas relações humanas há sempre essa tensão entre o dano e a fortuna e, refazendo a cena do encontro terapêutico, se o “mestre” oferece um “agrado” (um placebo) como alívio, seu poder e sua empatia vão juntos.
O médico prescreve determinada medicação... Será que o paciente toma apenas um fármaco? Os resultados são apenas reações químicas? Na verdade, naquele grão medicinal vai um conglomerado de elementos químicos e grossos pedaços das almas do terapeuta e do esperançoso paciente.


Marcos Creder 



Um comentário:

Andreza Crispim disse...

Essa matéria fala sobre o mesmo assunto:http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-59/questoes-medico-farmacologicas/a-epidemia-de-doenca-mental

Muito interessante.