domingo, 3 de junho de 2012

ANOREXIA E A DITADURA DOS QUILOS

Se estivéssemos agora em uma conversa informal, tipo mesa de bar, por exemplo, diria: “pense num filme pesado!”.  Estou a falar de Réquiem Para Um sonho (2000), do cineasta Darren Aronofsky, adaptado do livro homônimo escrito por Hubert Selby Jr. Nele temos a personagem Sarah Goldfarb (interpretada por Ellen Burstyn) que é uma viúva sexagenária que vive sozinha em seu apartamento no Brooklyn, Nova York. Em sua solidão e vida esvaziada ela encontra sentido para sua apagada existência assistindo televisão. Eis que chega um dia em que recebe um telefonema convidando-a a participar de um programa televisivo. Glória para Sarah. Ela passa então a esperar esse momento sublime (seus quinze minutos de fama?) e obceca com o pensamento de voltar a vestir um antigo vestido vermelho para a ocasião.
            Sarah, que não é mais jovem quando da época em que usou o referido vestido pela primeira vez, passa tresloucadamente a fazer um regime com base em anfetaminas e barbitúricos. Com tanta química diuturnamente ingerida, Sarah altera gradualmente seu comportamento. Sua vida agora é emagrecer e aguardar ansiosamente a nova ligação para marcar o dia de sua apoteótica apresentação na televisão. Ela emagrece, mas o convite não surge. Ela emagrece ainda mais e o convite não vem. Chega-se ao ponto em que alucina estar na televisão. Seu fim, previsivelmente trágico, a leva à catatonia e o internamento em um manicômio.
            A miséria vivida pela personagem de Sarah é igualmente acompanhada pelo seu filho Harry e sua namorada Marion, todos viciados em heroína. Além do casal há um amigo também drogadicto. Todos, assim como Sarah, têm um desfecho terrível. O amigo é preso e Harry de tanto se picar tem o braço amputado. Marion se prostitui e participa de orgias degradantes em busca de cocaína. O final do filme é onírico, não no sentido de um sonho dulcorizado, mas sim nos delírios de Sarah que se vê no programa de televisão junto com seu filho, ambos sob os aplausos intensos e calorentos da plateia imaginária.
            Pense num filme pesado. Pois é, a vida também pode ser pesada, principalmente para aqueles que sofrem de anorexia, como Sarah. Definindo resumidamente anorexia nervosa como um transtorno alimentar que envolve uma limitação exagerada de alimentação a ser consumida. Na perda de peso intensa através de dietas auto impostas o anoréxico busca desenfreadamente uma magreza quase esquelética e sofre distorções em relação a sua imagem corporal. Há na anorexia nervosa um “medo doentio em engordar”. Tal medo, conjugado o emagrecimento incessante e autoimagem distorcida, são sinais claros da anorexia.
            Embora a anorexia seja claramente um transtorno psiquiátrico alimentar suas causas ainda não são de todo desvendadas. Acredita-se que possam existir causas genéticas, assim como características psicológicas provocadoras de ansiedade e obsessão. Some-se a isso um ambiente social em que se cultua o corpo magro e temos um “prato cheio” para o desenvolvimento da morbidade em questão. Seja como for, a anorexia é um distúrbio complexo e provavelmente de múltiplas raízes. Em minha prática psicoterápica clínica em todos os pacientes/clientes que apresentavam sintomas de anorexia existia sempre subjacentemente uma baixa autoestima perceptível. Trata-se de pacientes inicialmente refratários ao processo psicoterápico, onde a motivação em progredir é mínima ou quase zero. Em suas atitudes resistentes e desafiadoras o paciente anoréxico muitas vezes é um auto sabotador. Embora saibam de sua necessidade de se tratar o medo em relação à mudança corporal almejada é maior. Por detrás do discurso escondem-se sentimentos de onipotência, bem como certo desejo em não crescer, afinal o corpo de um anoréxico (na sua grande maioria mulheres em fase adolescente) de tão magro e delgado parece ser um corpo de uma criança franzina. Uma moça anoréxica tem um visual estilo “tábua rasa”, ou seja, desaparecem as curvas da mulher e predominam as silhuetas retas da menina.
            Eficácia e resultados satisfatórios parecem advir quando trabalhamos mais focalmente no desenvolvimento por parte do paciente/cliente em lidar, manejar e responder às pressões da vida e da faixa etária. Claro e evidente que somente psicoterapia talvez seja insuficiente, pois na grande maioria das vezes se faz imperante um tratamento de caráter multidisciplinar, envolvendo tanto o psicoterapeuta, quando nutricionista, psiquiatra, clínico geral e até mesmo hospitalização, se necessário.
            Do ponto de vista psicoterápico sou de opinião que deve se dar vez ao discurso idealizado do anoréxico, ou seja, não bater logo de frente com seu consciente anseio de emagrecer, pois, além de uma ideação obsessiva, tal desejo chega às raias de uma espécie de quase delírio. Possibilitar ao paciente, geralmente adolescente, expressar sua linguagem impregnada de temas como corpo, comida e peso, é a mais principal via de comunicação inicial entre terapeuta e cliente. O anoréxico, assim, tem a oportunidade – às vezes única – de se sentir escutado. Embora o objetivo mais visível da psicoterapia seja estabelecer um melhor controle sobre o hábito alimentar, conjugadamente também se foca a autoestima baixa, buscando-se a livre expressão de sentimentos e emoções, bem como gradualmente explorando conflitos psíquicos subjacentes. Quem sabe assim ele ou ela não possa dar novas significações a si mesmo, seu corpo, sua vida e ao mundo que o (a) circunda. Lembremos que um anoréxico, adolescente ou não, necessita desenvolver mais sua personalidade, crescer psiquicamente, e consolidar sua identidade ainda frágil e seu processo de autonomia e individuação.
            Será a anorexia, assim como a bulimia, um transtorno de natureza oral? Haverá um Ideal de Ego exigente a oprimir o ego debilitado? A obsessão é apenas a camada externa de uma melancolia que não ousa dizer seu nome? Estamos frente a uma patologia narcisista? O fechar a boca representa igualmente uma mudez das pulsões? Que fantasmas assombram aquele corpo emagrecido e franzino purificado de pecados? O discurso manifestadamente orgulhoso do anoréxico esconde um bulímico envergonhado? Onde está a libido e seus objetos? Não sei, de antemão, responder. Que tal deixar a pessoa chegar primeiro e poder falar e expressar toda sua humanidade em latência. Quem sabe assim possamos conhecer melhor alguém que muito mal se conhece a si mesmo. A anorexia é o nome de uma doença e a pessoa que se encontra por detrás do doente é muito mais do que apenas um nome.
            Muito prazer, eu sou Joaquim. E você, quem é?...

Joaquim Cesário de Mello

2 comentários:

Cayo C. disse...

Esse filme é uma droga.
Êxtase de imagem e delírio.
Com fortes efeitos colaterais reflexivos e sequelas para o resto da vida.
Com seu tema musical altamente viciante composto por Clint Mansell.
Confesso que é uma das coisas que mais me marcou no filme e a musica me acompanha até hoje. Eu adicionaria um “pra caralho” no final... Pq Requiem For a Dream é um filme forte pra caralho, mesmo.

E sobre os questionamentos do final, também concordo. “Que tal deixar a pessoa chegar primeiro[...]”. Como “procurar” algo em alguém, sem nem deixar esse alguém se mostrar.


ps. Enquanto escrevo o comentario, escuto Clint Mansell!

Anônimo disse...

Caio, tá na hora de vc postar aqui algum artigo, principalmente sob a inspiração de Clint Mansell. Vc está não somente convidado, mas igualmente convocado. Manda, quado puder, suas ideias para comportilharmos.
Um abraçoJoaquim Cesário