domingo, 10 de junho de 2012

A TRAGÉDIA DE ONTEM DA HISTÓRIA


Um dos temas trágicos da humanidade que ainda me surpreende, e sempre me surpreenderá, apesar das inúmeras tragédias cotidianas, é aquele que se relaciona ao extermínio dos judeus na 2ª Guerra Mundial. Sabe-se que é bastante explorado pela literatura e, principalmente, pelo cinema e, para alguns, é um enredo desgastado ou repetitivo – discordo dos críticos que pensam assim, acredito que, em se tratando dessa passagem da história da humanidade, a repetição é necessária e bem-vinda.  Precisamos de alguns “mantras” para que possamos incorporar alguns valores éticos e evitar atos hediondos e, por fim, se utilizarmos elementos estéticos nessas narrativas, faremos, quem sabe, arte. Uma repetição, contudo, deixa parcialmente de sê-la, no momento que mudamos de foco.  Cada filme que vejo ou cada texto que leio, que faz referência a essa época, percebo  por  um novo enfoque, mas o sentimento de horror se repete, e, se repete tão inusitadamente, que faz pensar, ilusoriamente,  que nunca tinha visto episódio tão trágica  quanto esse genocídio cometido nesse “dia de ontem” da história da civilização.
Na verdade, já se tentou dar várias explicações sobre o nazismo e, principalmente, sobre os nazistas e, muitas vezes, a solução mais usual – ou mais “cômoda” como diria Luiz Felipe Ponde – seria tentar, por assim dizer, psiquiatrizá-los, julgando-os como loucos, desequilibrados, psicopatas etc. Controvérsias à parte, prefiro utilizar a definição de Hannah Arendt: eram pessoas “terrivelmente normais”. Esses “normais” e essa “normalidade”, acrescento, não é histórica, não foi daquele época, não pertence a outra etnia, não faz parte de uma religião, nem mora do outro lado do continente, tampouco do outro lado da cidade. Ela habita muitos discursos de pessoas iguais a nós.    
 Assisti ao filme “A Chave de Sarah” (2010) do diretor francês Gilles Paquet-Brenner.  O filme narra um episódio  de uma outra  França ocupada pela Alemanha nazista que se mostrava muito mais colaboracionista que “resistente” – enfim, da França que estamos mais acostumados a ver nos livros de história . A maneira como a comunidade judaica foi presa e deportada aos campos de concentração e de como parte da população francesa apoiou ativamente, particularmente me surpreendeu e me fez pensar se a humanidade, de fato, não seguiria as linhas de pensamento de Leviatã de Thomas Hobbes. Não seria a sociabilidade acidental? Não se reduziria a moral aos interesses, às paixões e ao conatus (instinto de conservação individual)?
Duas personagens se destacam no filme: Júlia Jamond, uma jornalista norte-americana radicada na França dos tempos atuais que tem como objeto de pesquisa justamente o dia em que cerca de 12 mil judeus foram presos, e,  Sarah, uma dessas prisioneiras, a segunda personagem, uma criança de dez anos de idade. Enquanto Julia procura desvendar os mistérios desse passado, Sarah, após fugir do campo de concentração, vai tentando se ocultar no futuro. A fuga de Sarah tinha pelo menos dois objetivos: carregar uma chave e sobreviver. Metaforicamente as duas coisas são postas em prova pela crueldade dos acontecimentos da 2ª. Guerra. Contudo, Sarah sobrevive àquela época e Julia consegue desvendar grande parte das minúcias do acontecimento. Enfim, falando desse modo, poderíamos interpretar que o filme conclui, como muitos concluiriam, sua narrativa de forma alegre ou pelo menos esperançosa. Mas não foi bem assim que os fatos aconteceram...
Uma pergunta muitas vezes se deixar esquecer quando, aliviados, saímos de um recorte cinematográfico de uma tragédia: que resíduos deixaria, naquelas crianças, ou mesmo nos adultos, a experiência trágica? Tendemos a acreditar, infantilmente, que as histórias épicas desses heróis, que vivem horrores semelhantes, após fazer essa travessia – essa Odisséia – caminham naturalmente para a vida das pessoas normais. Será?
 Ao questionar esses resíduos ou seqüelas, vem sempre a minha lembrança a história verídica de uma das inúmeras vítimas de Auschwitz, o mais famoso e mais terrível campo de concentração nazista. Trata-se do escritor Primo Levi, judeu italiano, que milagrosamente sobreviveu ao extermínio e que depois de terminada a guerra, dedicou-se  boa parte de sua vida a pergunta que deu título a um dos seus livros mais famosos, o autobiográfico “É isso um homem?” – texto que narra toda a experiência no campo de concentração. Levi voltou à vida comum, inquieto com seus questionamentos, e famoso com sua habilidade de escritor. Foi autor da celebre frase: ‘O objetivo da vida é criar melhor defesa contra a morte". Aos 68 anos de idade, contudo, acidentou-se. Caiu do terceiro andar do lugar onde morava, e ali mesmo morreu. Apesar de controverso, a maioria dos biógrafos atribue a sua morte a um ato de suicídio – ou parafraseando Arendt, a um acidente “terrivelmente normal”.
O filme Chave de Sarah reedita a frase-título irrespondível de Primo Levi: É isso um homem?

Marcos Creder
    

Um comentário:

Alice disse...

Como caminhar após ter vivido uma tragédia como aquela e tantas outras? como continuar a viver apesar dos horrores inimagináveis pelos quais certas pessoas passam todos os dias? isso me lembra a morte daquele garoto de 6 anos que foi arrastado preso pelo cinto de segurança, ou para citar um caso mais próximo o menino que foi atacado e morto por um leão quando estava num circo com o pai. Sempre me perguntei como os pais dessas crianças conseguiriam continuar encontrando forças para viver. Não há explicação, as pessoas superam o insuperável. Não há limite e me vem a pergunta de um professor: por que não se matar?