terça-feira, 5 de junho de 2012

TODO PSICOTERAPEUTA É MULHER   


Somos seres biologicamente divididos em dois sexos: macho e fêmea. Já  socialmente somos construídos a partir de dois gêneros distintos: feminino e masculino. Tal construção, por sua vez, se realiza mediante a dinâmica das relações sociais, afinal os seres humanos, ao menos os humanizados, se constroem em relações com outros seres humanos. A pessoa que habita cada indivíduo é, portanto, em parte, uma encarnação das relações sociais.
O conceito de gênero é prestável para aclarar muitos dos comportamentos dos homens e das mulheres em uma dada sociedade. Sim, há diferenças entre gênero e sexo. Todavia deixemos a diferença sexual no momento de lado, visto que são diferenças que estão em nossos corpos, seja em suas externalidades, seja em suas interioridades. Enfoquemos, pois, a alma, ou melhor, o psiquismo humano que constitui a personalidade e a maneira de ser e de se estar no mundo e na vida.
Toda sociedade e/ou cultura cria ideias de como é ser homem e ser mulher. A isto damos o nome de representações de gênero. Homem e mulher, assim, se apresentam biológica e socialmente como opostos e complementares entre si. A construção da masculinidade e da feminilidade são processos correlatos à construção de própria identidade pessoal. Mas igualmente não quero, no pequeno espaço deste texto, ficar aqui a abordar socialmente a questão. Busco questionar em termos psicológicos, embora saibamos que o que chamamos de psicológico é inseparável do biológico e do social.
Psicologicamente falando somos todos duais. A separação do feminino e do masculino não encontra guarida na esfera psíquica. Somos ambos, isto é, masculinos e femininos. E neste sentido Jung foi bastante profícuo e perspicaz. Jung nos fala do anima e do animus, que são opostos inconscientes à persona de um sujeito. Considerando a persona como a forma como nos apresentamos, bem como o papel que assumimos e que por meio dela nos relacionamos com os outros, a persona é um veículo de comunicação entre o nosso interior psíquico com o nosso exterior. Feito uma roupa que se usa, a persona revela nosso estilo pessoal e interpessoal.
A alma ou psiquismo humano tem assim sua dupla face. A imagem como ela se vê enquanto Eu e se identifica, e uma outra que a complementa e que se encontra como um Não-EU, isto é, por detrás do próprio Eu. A consciência masculina tem, pois, sua contrapartida em um anima, enquanto a consciência feminina, por sua vez, tem sua complementação em um animus.
Masculino e feminino, dois aspectos de um todo. Sem fusão, nem confusão. Convencionamos caracterizar como masculino qualidades psíquicas e habilidades tais como: racionalismo e pensamento instrumental, objetividade, maior aptidão motora, orientação espacial, logicidade; enquanto o feminino é caracterizado como sensibilidade, intuição, comunicação emocional, fluência verbal, entre outros.
Venhamos e convenhamos, não se necessita ser homem ou mulher para ter tais qualidades e habilidades acima citadas. Basta ser humano. Qualquer ser humano é ou pode ser sensível, empático, racional, lógico, intuitivo, observador, analítico, paciente, objetivo e subjetivo. Muitas vezes é só se permitir. Outras, desenvolver.
Qual psicoterapeuta, para o bom exercício de sua função, não tem uma percepção mais aguçada das coisas, isto é, sensível? Como auscultar a alma humana sem o se usar a empatia e a dita “inteligência emocional”? Como lidar com sentimentos e aflições alheias sem o tirocínio das próprias emoções em sua habilidade de escutar as modulações e sutilezas emotivas do outro, muitas vezes imperceptíveis aos olhos empíricos do rosto, mas não aos olhos da alma? Que psicoterapeuta consegue navegar no mundo interno de alguém sem a bússola do feeling? Que psicoterapia existe, de fato, sem a calorosa responsividade acolhedora de uma escuta introspectiva e nutriente que possibilita ao cliente um espaço de sustentação psíquica e interpessoal? Afinal, que psicoterapia é essa que desleixa, em nome da rigidez objetiva e racionalista em excesso, o mais importante de tudo: olhar o outro a quem chamamos de paciente/cliente com amor e consideração? Há de se amar, respeitar, aceitar e tolerar, porém com compreensão, estabilidade e firmeza. Hay que endurecerse pero sin perder la ternura jamás.
O espaço terapêutico por onde permeia a psicoterapia é o instante do encontro entre a subjetividade do terapeuta com a subjetividade do cliente. O bom psicoterapeuta é aquele que propicia, facilita e possibilita tal encontro. A relação psicoterápica, como relação de ajuda, é antes e acima de tudo uma interpessoalidade ativadora do sistema de apego (vide Bowlby) e que assim disponibilizada aciona, por sua vez, no cliente/paciente a capacidade funcional psíquica de buscar e explorar o mundo e a si mesmo, maximizando as potencialidades antes atrofiadas ou hibernantes.
É no diálogo que se faz a escuta psicoterápica. Uma escuta que traspassa os limites da audição e do ouvir, afinal são tantas as comunicações, ao princípio inaudíveis, que flutuam nas entrelinhas discursivas de um setting psicoterápico. É ali que a intimidade se desnuda gradualmente em narrativas impregnadas de sentimentos, sonhos inconsumados, dores, ambiguidades e antagonismos. É ali onde no timbre das emoções mais recônditas e impensadas que emerge uma pessoa antes ocultada pelas inibições e pelo receio de se expor ao desconhecido. Recriar-se nunca é tarefa fácil, pois implica trocar o sofrer repetitivo e familiar da neurose pela dor saudável de simplesmente existir além das cercas. Abrir guarda-roupas e encontrar esqueletos requer tempo, o tempo psicológico da expressividade e da liberação rumo ao crescimento.
Todo bom psicoterapeuta é feito uma árvore que proporciona a sombra e que abriga e nutre. É como um seio que alimenta e um colo que acolhe, protege, sustenta e aquece. É como uma mãe que materna e fortalece seu filho para o vindouro instante em que ela própria se transforma em pai que auxilia o mesmo filho a se lançar no mundo e na vida sem mais necessitar de si. O escutado, assim, toma sua feição com autonomia, autoconfiança e mais autoestima.
Se ser feminino representa aconchego, afeto, intuição, sensibilidade, comunicação sentimental, feeling, introversão, compreensão e reflexão, então todo psicoterapeuta é principalmente feminino. Claro que não somente, pois se ser masculino representa pensar pragmaticamente, instrumentalizar, agir, e objetivar, então todo psicoterapeuta são ambos. É na dualidade da alma que a alma escuta, interage, fala e faz frente psiquicamente à aflição psíquica do outro. Ou como ensina o taoísmo no tocante ao Yin e Yang, é no equilíbrio dinâmico das forças complementares que surge a mudança e o movimento. Não é parado que se cresce. Parado apenas se envelhece.
Sejamos, pois, noite e dia, claro e escuro, passivo e ativo, quente e frio, verso e anverso, tigre e tigresa. Não somos opostos, somos forte e fragilmente humanos. Sejamos inteiros e nos ofereçamos inteiros ao outro que nos procura, pois somente assim podemos nos encontrar. Como diz o poeta Mário Quintana “o segredo é não cuidar das borboletas e sim cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você”.
“Ser um homem feminino/ não fere o meu lado masculino” (Pepeu Gomes). Em psicoterapia, assim como na vida, exceto na cama e no espelho do banheiro, sou andrógeno.

Dedicado ao colega e supervisionando Leonardo que está em busca de descobrir a beleza de seu feminino

Joaquim Cesário de Mello

3 comentários:

Cayo C. disse...

"Eu sei como pisar
no coração de uma mulher

Já fui mulher eu sei
Já fui mulher eu sei"

Sensibilidade essa que vêm sendo negada por muitos. Com uma capa de "não ser sensível para agir com exatidão, frieza e eficácia" vai-se escanteando-a para botar a máquina para funcionar. Onde na verdade o medo de ser sensível é o medo de sentir. Não “sentir” simplesmente, mas perceber o que o homem está fazendo. Não ser sensível, para não sentir a dor latente na cidade.
E com essa escuta, essa sensibilidade, a dor em si é inevitável. Se evita o feminino, pra tentar se evitar a dor. Mas como sentir a dor do outro, se nego a minha própria. Sim, ser mulher dói. Já fui mulher, eu sei.

Andreza Crispim disse...

É Colocando-se como humano diante do outro que este poderá mostrar-se humanamente.

Adorei o texto e algumas ideias foram ativadas e outras refinadas. Compreender essa dualidade em si mesmo é um grande passo para facilitar o processo de terapêutico de um outro. Somente encarando-se enquanto Ser humano é que se poderá olhar os indivíduos com sinceridade, respeito e compreensão. No encontro comigo mesmo posso ver o outro que habita em mim.

Emanuela Nascimento disse...

Que texto foda, muito bom professor!!!