domingo, 15 de abril de 2012

CATANDO ARTE


Pena que os documentários não tenham a mesma popularidade que os outros estilos de filmes e, muitas vezes, alguns deles são exibidos sem sequer passar pelo conhecimento do público, inclusive do público mais dedicado.  Lembro-me que no passado assisti a um filme que considerei marcante, talvez um dos melhores que vi e fazia parte dessa modalidade: Arquitetura da destruição – um filme que mostrou todo o tenebroso projeto político, econômico, estético do nazismo. O documentário parecia escurecer na medida em que passavam as minúcias da Alemanha dos anos 1930. Interessante que fatos históricos tão recentes parecem-nos remotos, e muitas vezes se tem a sensação de que documentários são na verdade outra forma de ficção. Isso poderia ser justificado pela questão puramente temporal: um fato que nos ocorre há mais de sessenta anos nos será estranho hoje, e quanto mais cruel, mais tendemos a alongá-lo no tempo. Penso, contudo, que essa variável do tempo é bastante útil, mas se precisa incluir também o espaço, aglutiná-lo à história e, naturalmente, à geografia, pois podem haver Berlim  de 1930 e a Berlim de 2011 , assim como coexistir várias Capitais da Alemanha.  Voltemos para o Brasil citando um outro documentário dos nossos tempos que trás as assimetrias da vida humana simultâneas  no tempo e no espaço: “Lixo extraordinário”.
Com foco dirigido ao trabalho do artista plástico Vik Muniz numa comunidade de catadores de lixo no Lixão de Jardim Gamacho, no Rio de Janeiro, o filme surpreende por inúmeras reflexões sobre função e conceito da arte – incansável discussão –  e, obviamente, sobre a condição de miserabilidade dos que convivem na atividade de catador. Pensar que, por exemplo, uma pessoa em meio ao lixo pútrido encontre o livro “O Príncipe” de Maquiavel, leve-o para casa e depois de secá-lo fazer uma leitura sofisticada com ótimas reflexões e interpretações; ou fazer reproduções fotográficas de pinturas consagradas usando resíduos dos dejetos de grandes centros urbanos e daí sair uma boa arte.  O filme revira e dá forma ao lixo, mas remexe de maneira mais sutil naquela velha discussão a respeito do papel da arte, do artista e da comunidade. Não é pretensão do documentário, contudo, responder essas questões, mas como em geral fazem os bons filmes, provocam discussões em cima de suas imagens.  Penso que nesse “falar com imagens” – vocação do cinema –  são dadas várias alfinetada em parte da arte contemporânea. Se nossos artistas procuram sucatear a estética, procuram fazer do harmônico desarmônico, o assimétrico, ou simplesmente cultuam o feio, o dejeto, o lixo, penso que Vik Muniz e a diretora Lucy Walker quiseram mostrar exatamente o oposto, resgatando em meio ao entulho contemporâneo e os dejetos urbanos, uma tradição artística que ainda cultua o belo na arte. E não só o belo, mas a função expressiva de tocar o observador com um mosaico de imagens faladas. “Lixo extraordinário” chega aos fragmentos de biografias que estavam prestes a serem atiradas literalmente ao lixo e faz da arte um movimento que trás de volta a dignidade de pessoas anônimas, dando face a esses seres humanos.
Marcos Creder        

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