domingo, 9 de julho de 2017

Sobre os vingadores


Dos sentimentos ambíguos vividos pelas pessoas, nenhum é mais excitante que a vingança. A vingança reina  entre os personagens da literatura, do teatro,  do cinema e é  ambígua, por ser um sentimento que transita entre o herói e o vilão,  o bem e o mal, está nos ritos religiosos, nas feitiçarias, no divino e no demoníaco e na escrita dos códigos penais. Há na vigança, como na lei de talião, um desejo de dar uma resposta social ao malfeitor. Aliás quando pactuada socialmente, a ambiguidade dos vingadores tendem a desaparecer e, como num linchamento, as culpas e ressentimentos pessoais se dissolvem na comunidade. Quando, contudo, praticada por um indivíduo, um único sujeito, tem outros desdobramentos.

Há quem despeje sua vingança nas suas criações: A Divina Comédia não existiria sem o desejo de vingança de Dante em entregar seus inimigos, mesmo que metaforicamente, ao inferno ou ao purgatório; não existiria Moby Dick sem a obstinação de Acab em perseguir o cachalote - a outra face do Leviatã; não haveria Hamlet se não houvesse o desejo de honrar a alma de seu pai. Em todos esses personagens, apesar do desejo de vingança motivar os seus atos, em um ou outro momento, a vingança é geradora de ambivalência após o êxito do vingador. O vingador é, aliás, um ressentido solitário - um temente ao remorso.

E isso fica claro na leitura  dO Conde de Monte Cristo de Dumas -  uma espécie de manual romanceado da  psicologia da vingança. Neste  clássico da literatura, o desejo de vingança do personagem principal, Edmond Dantès, cresce na medida que vai tomando consciência das injustiças a que foi submetido durante sua juventude que o levou  a longos anos de  prisão.  Dado como morto, Danté, ou o Conde de Monte Cristo, reaparece anos depois  sem ser reconhecido pelos seus desafetos, com os quais passa a ter um convívio social. Paulatinamente uma ardilosa trama de vingança começa  a ser desenhada e realizada - acredito que todos os leitores já saibam o seu spoiler - a vingança se estabelece da maneira mais cruel  e elegante. Monte Cristo sai vitorioso. Por trás, contudo, de sua honra lavada, sobra-lhe um ou outro remorso e um sentimento melancólico.

Monte Cristo depois  de ter  gasto  sua vida  na prisão, passa outra parte, talvez a maior de sua existência tentando retificá-la na vingança. A melancolia vem da constatação de que essa vingança o aproximou de seus fantasmas fazendo crescer mais ainda seu ódio e seu sofrimento.  Durante a prisão, ouviu de outro prisioneiro, do abade Faria,  louco e mentor  de sua sabedoria: “não cometa o crime pelo qual você está cumprindo a pena. Deus disse, ‘A vingança é minha’”. Monte Cristo desconsidera.  

Após o cumprimento dos  reveses  aos seus eternos adversários, Dantè cai no vazio dos errantes.  Questiona o sentido da vida - uma vida ocupada em represálias,  vingança que não salda as dívidas dos seus inimigos, tampouco lhe devolve a alegria ou alivia sua amargura.

Dantè embarca  sem destino certo e, na miragem do horizonte, mar adentro, assim como fez Medeia de Eurípides, em direção ao  sol, desaparece.

Marcos Creder

            

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