domingo, 14 de agosto de 2016

A ALMA REVELADA

Resultado de imagem para alma humana





Aos poucos, com o tempo, a experiência, a prática clínica e pela a vida afora, descobri o indescobrível: a alma humana. Ela é abstrata, imaterial, subjetiva e grandiosa, muito grandiosa. Se uma coisa a alma quer é o ilimitado. Ela é ambiciosa e não aceita viver dentro de suas extremidades com o real. A alma humana é a pura natureza humana. Se nossa natureza fosse dócil e submissa com os limites que a vida nos impõe, viveríamos ainda nas cavernas como nossos longínquos antepassados. Não nascemos com a capacidade alada de voar. Inventamos o avião e voamos. O ser humano já está prestes a mandar até o homem à Marte, inclusive. A lua já não nos é suficiente. Decididamente a alma humana é pretensiosamente imponente e gigantesca em sua avidez. Ela é insaciável. Freud chamava a alma humana (psiquismo), em suas características originais e primitivas, de "ego oceânico".
Resultado de imagem para homem e deus
A alma quer sempre crescer, crescer sempre. Quem internamente a limita é o Ego que vai se formando dentro do psiquismo desde cedo. Dependendo do Ego que se configura na mente humana, a tendência natural da alma ao crescimento (princípio vital) pode ser tolhida, inibida e atrofiada. Tal entravamento, por sua vez, vai provocar um conflito de forças antagônicas. Por um lado um Ego inibido e inibidor. Por outro um crescimento reprimido. Deste embate silencioso resulta uma espécie de dano colateral que é o sofrimento, a angústia e a depressão. O cerceamento do evoluir da alma cobra em algum momento seu preço.
Resultado de imagem para principio de realidade
Sim, somos naturalmente narcisistas. A psicanálise clássica nos demonstra que o psiquismo em seu estado primevo funciona pelo que convencionou-se chamar de Princípio do Prazer. Em pleno narcisismo imperante a alma humana se crê (ou se sente) onipotente; porém isto é uma mera ilusão psíquica, uma miragem narcísica. O psiquismo (alma) em seu gradual contato com a realidade, através da experiências vivenciais, vai percebendo que nem tudo pode e nem sempre pode no exato instante que se quer. É aqui que nasce e se desenvolve na alma algo que não existia no início: o Ego (o Eu humano). A alma vai aprendendo a lidar com a realidade (Princípio de Realidade). Em sua insaciabilidade de expansão a natureza humana passa a buscar conhecer a realidade que lhe é mais forte. Melhor conhecendo-a passa a utilizar seus conhecimentos para se ampliar sobre ela. O homem não muda a realidade, mas utiliza-se de seus princípios, leis e funcionamento para transformá-la. O homem cria a cultura, a sociedade, a ciência e a tecnologia. Assim, chega ao avião e ao foguete do qual fazíamos menção acima.
Resultado de imagem para tudo flui
Não iremos hoje destacar as ilusões narcisista da alma humana. Todos as temos. Uns mais outros menos. Nosso destaque é sobre a potencialidade de crescimento reprimida. A alma é sempre chamada a crescer. O seu não desenvolvimento, o seu emperramento, ou o seu crescimento desequilibrado muito provavelmente gerará patologias psíquicas, entre elas a neurose. Se tudo flui, como já afirmava Heráclito, se tudo muda sempre, o que não muda é a neurose. Ela é feita de repetições. Gosto de dizer que sempre é aquilo que não evoluiu. Se houver algo de neurótico em nós é porque esse algo carece de evolução.
Resultado de imagem para ego e cavalo
Escreve Fernando Pessoa: "entre o sono e o sonho/entre mim e o que em mim/é o que me suponho/corre um rio sem fim". Um rio que corre sem fim. Isto é a alma humana enquanto natureza humana. Assim como o universo continua se expandindo, a humanidade se nunca tiver fim não sei onde terminará. A humanidade, ao longo de sua existência, vem com altos e baixos, avanços e recuos, evoluindo. Porém, subjaz nela o seu mais puro egoísmo e brutalidade. De vez em quando a humanidade avançada falha e surge mais uma vez a barbárie. Freud visualizada a alma humana como se fosse um cavalo conduzido por um cavaleiro. O cavalo é mais forte e maior que o cavaleiro, mas este, por saber montar e segurar as rédeas, é quem conduz o cavalo levando-o para lugares em que ele quer ir. Quando o cavaleiro, por algum razão, deixa escapar as rédeas ou não sabe montar direito quem o conduz é o cavalo, levando-o até a lugares onde ele não quer ir. Pois é, a alma em seu estado mais puro e selvagem é o cavalo e o cavaleiro é o Ego ou a sua parte racional. Acontece que alguns Egos seguram demais o cavalo, geralmente por medo. Quando assim o faz tanto o Ego quanto o cavalo deixam de avançar. E ambos, limitados em excesso, adoecem. Limitar o que nos é possível crescer nos faz sofrer.

Resultado de imagem para verdadeiro self
A experiência é o potencial da existência. O potencial de um indivíduo apenas seria potencial se não houvesse a experiência de agir. A tendência inata ao crescimento de que tanto falava Winnicott somente pode ganhar contorno na vivência. Quando nos protegemos muito acabamos por inibir a "continuidade do ser", surgindo assim uma hipertrofia de quem poderíamos ser. E lá venho eu mais uma vez com Fernando Pessoa: "fiz de mim o que não soube/e o que podia fazer de mim não o fiz". O verdadeiro eu da pessoa é, dessa forma, negado. E vive-se uma vida com um crescimento interrompido.

Resultado de imagem para balsa de medusa

O quadro ao lado reproduzido é A BALSA DE MEDUSA, feita por Théodore Géricault, atualmente exposta no Museu do Louvre em Paris. Baseada em uma tragédia real - quando em 1816 a fragata Medusa naufragou e algumas dezenas de sobreviventes se espremeram e lutaram por viver em uma pequena balsa 27 dias em alto mar, onde de 147 pessoas restaram apenas 15 - na tela pode-se observar diferentes atitudes humanas que vão do desânimo, do desespero e do desânimo até a força da esperança. Nem toda alma humana, exposta em momento cruciais da vida, perde a força de sempre querer ir em frente. Atentem que na pintura não se vê no horizonte nenhum navio para resgatá-lo. Ainda assim a alma é capaz de ser persistente. Porém, nem sempre, nem todos. Alguns sucumbem ou se deixam sucumbir.
Resultado de imagem para kohut, self grandioso
A raiz grandiosa da alma humana é fundamental ao próprio processo de crescimento da mesma. As necessidades narcísicas nos acompanharão ao longo da vida. Todo ser humano traz consigo resíduos desse narcisismo original. Heinz Kohut (psiquiatra e psicanalista austríaco, fundador da Psicologia do Self) considerou o narcisismo uma força constitucional, subentendido como ambição e idealização. Para Kohut enquanto nossas ambições nos empurram nossos ideais nos puxam. Eis, pois, dois importantes combustíveis à alma humana: nossas ambições e nossos ideais.


Resultado de imagem para self grandioso, alma humanaA alma humana emana vontades e desejos. Desejos de exibir-se, assim como desejos de expandir-se em busca de novos horizontes além, não são perniciosos ao psiquismo, pelo contrário. Para Kohut um self saudável é aquele no qual as ambições exibicionistas são experimentadas e comodamente orientadas por ideais confiáveis e atingíveis, possibilitando assim a realização de talentos e habilidades. Isto - afirma Kohut - encontra-se na base da autoestima e nos dá um sentido criativo e alegre à vida.

Resultado de imagem para autoestimaUm narcisismo saudável, por assim dizer, é base de uma autoestima adequada, embora muitas vezes estejamos contaminados com a ideia de narcisismo como algo patológico. Ambição, egoismo, orgulho, por exemplo, são termos associados frequentemente a aspectos negativos. Creio que a questão deva ser olhada no sentido quantitativo, isto é, um pouco de egoismo, ambição e orgulho, são componentes inerentes ao amor-próprio e a autovalorização que o sujeito tem de si. Dosagens mais excessivas, estas sim, são componentes encontrados em alguns transtornos de personalidade e algumas psicopatologias conhecidas. Estudos sobre o self observam que o narcisismo normal e/ou sublimado encontra-se no cerne do sentido que o self de uma pessoa se dá a si mesmo.

Resultado de imagem para crescimento psicologico

Ambição e idealismo, portanto, são importantes fontes de energia que nos leva a explorar o mundo, a vida, a realidade e suas oportunidades em termos de crescimento e evolução psíquica e social. Uma boa e elevada autoestima nos permite mais autoconfiança e coragem. O medo de errar é suplantado e assim avança-se e aventura-se além dos limites limitados pelo medo inibidor. Trabalhos de pesquisa como os de Kashdan e Steger (intitulado Curiosity and pathways to well-being and meaning in life: Traits, states, and everyday behaviors) demonstram a necessidade para a alma humana de correr riscos e explorar o desconhecido em busca de sua autorrealização e bem estar subjetivo.

"A alma humana é como a água: ela vem do Céu e volta para o Céu, e depois retorna à Terra, num eterno ir e vir".
(Goethe)

Joaquim Cesário de Mello

Um comentário: