Encerrado mais um semestre letivo, aproveitaremos o espaço das quartas-feiras para reeditar antigos textos dos colaboradores e dos coordenadores deste blog que já tem mais de dois anos de vida. Vida longa, pois...
(editado originariamente em 21/04/2013)
O HOMEM ÀS AVESSAS
O poeta é por natureza um psicólogo e o psicólogo é por ofício um poeta. Ambos buscam o por detrás das aparências, o profundo das superfícies. Ambos perscrutam o significado indelével e indizível das subjetividades e a desnudez dos sentimentos ocultos. Ambos xeretam o interior das coisas e no encontrar do impalpável transformam espanto em palavras, gestos e versos. Ou como escreve Mário Quintana, "ser poeta não é apenas dizer grandes coisas, mas ter uma voz reconhecível dentre todas as outras”. Seria diferente com o psicólogo? Afinal, ambos, são como nos dizeres de um outro poeta, Paul Éluard: "muito antes é poeta aquele que inspira do que aquele que é inspirado”. Ou o que nos ensina Jung não é pura poesia? (ou seria pura psicologia?): “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”.
Sim, triste é aquele que vive sem poesia, pois não conhece a psicologia da vida e assim não vive, somente sobrevive. Quero a loucura lúcida de que fala Quintana, pois é certo, como diz Shakespeare, que “enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança”. E a esperança – lembra-me Aristóteles – é o sonho do homem acordado.
É, Freud já sabia. Ele mesmo reconhece e afirma que “aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim”. Não há nada mais poético, pois, que ser psicólogo. Não o psicólogo burocrático, um barnabé da ciência, mas aquele que se depara com o verso quando enxerga e apalpa a alma. É no encontrar dos espíritos que o humano se revela. E é lá, onde minha alma toca a alma alheia e esta a minha, que nasce um poema. Se assim não fosse não versaria Florbela Espanca que ser poeta é “morder como quem beija”.
Em psicologia se busca mais do que o sentido do que se pensa e das palavras, procura-se, feito quem cata, o sentir e seus sentimentos. O homem em toda sua humanidade é posto como que de cabeça para baixo. É adentrar através da alma como quem atravessa espelhos, seguindo coelhos. E assim o que é frugal se torna denso, o que é prosaico se torna homérico, o que é matéria se torna etéreo e o que é rasteiro e pedestre se transforma em assombro, sumo e espanto. Faz-se psicologia como quem converte prosa em verso. Assim, tanto o poeta quanto o psicólogo propõem a conversão do olhar.
O mistério só é mistério quando dele se desconhece. O pensador e poeta Níkos Kazantzákis nos fala sobre o andar inseguro por meio do invisível:
“Ouço uma ordem dentro de mim:
- Cava! Que vês?
- Homens e aves, águas e pedras.
- Cava mais! Que vês?
- Idéias e sonhos, relâmpagos e fantasmas.
- Cava ainda mais! Que vês?
- Não vejo coisa alguma! Só a Noite, muda e espessa como a morte. Deve ser a morte.
- Cava, cava!
- Ai, não posso atravessar a muralha negra! Ouço vozes e prantos, ouço bater de asas do outro lado!- Não chores! Não chores! Não é do outro lado! As vozes, os prantos e o bater de asas são o teu coração!"
- Cava! Que vês?
- Homens e aves, águas e pedras.
- Cava mais! Que vês?
- Idéias e sonhos, relâmpagos e fantasmas.
- Cava ainda mais! Que vês?
- Não vejo coisa alguma! Só a Noite, muda e espessa como a morte. Deve ser a morte.
- Cava, cava!
- Ai, não posso atravessar a muralha negra! Ouço vozes e prantos, ouço bater de asas do outro lado!- Não chores! Não chores! Não é do outro lado! As vozes, os prantos e o bater de asas são o teu coração!"
O que é, pois, do homem que não olha a vida com olhos de poeta? O que ele vê quando vê uma folha caída de uma árvore? Uma folha caída de uma árvore. O que ele vê quando vê um óculos esquecido em um sofá? Um óculos esquecido em um sofá. Ou quando vê um outro chorando? Uma pessoa chorando. É isso o que ele vê: fenômenos e coisas, tão somente. Carece ele enxergar sentindo o imóvel e invisível que se esconde por detrás do evidente transitório da existência e de seus conteúdos. Os sutis e finos cordéis que nos movimentam e nos movem são imperceptíveis aos olhos do corpo e da face. É necessário ser poeta, filósofo e psicólogo (ou tudo isso junto e algo mais) para atravessar o árido deserto das aparências e encontrar o oásis encoberto da vida que só a alma pode encontrar.
Ah, como queria ser mais poeta! Transformaria esta visão em poesia, e meus afetos em minha mais própria e mais íntima psicologia
Joaquim Cesário de Mello