sexta-feira, 16 de março de 2012

A Morte é a irmã mais velha da "Melancholia"











Na ocasião em que Hipócrates descreveu a melancolia, fê-la uma doença líquida, ou seja, dos humores, como se o estado de espírito, juntamente com sentimentos e palavras, umedecessem e a bile (chole) enegrecia (Melano) o que desencadeava todo o conhecido processo de definhamento físico e psíquico do sujeito. O que mais instigou reflexões sobre a melancolia com o passar dos anos, na verdade, são seus desdobramentos psíquicos, suas indagações existenciais e o seu enredo trágico: a perda e a busca infrutífera por um objeto perdido e o sentido de finitude. O melancólico antecipa-se ao infortúnio da condição humana e se recusa categoricamente a aceitar qualquer indumentária que dê sentido à transitoriedade da vida. “Somos”, insiste o seu portador, “vítimas ou obra de uma sucessão de acasos, onde a alegria buliçosa e vertiginosa” – a vida – “é um caroço extraordinário, envolvido pela penumbra da incerteza e do inominável: a áspera casca melancólica.

Se deixarmos Hipócrates de lado e fizermos da melancolia um acontecimento que está em rota de colisão com nossa existência, chegaremos a várias suposições alucinadas, mas, entre elas, chegaremos a uma alucinação contemporânea: ao cinema, e aqui, especialmente, ao cinema  do diretor Lars Von Trie e ao filme "Melancholia".

Em recente entrevista à revista Veja o diretor revelou que Deus abandonou a humanidade como uma criança entediada abandona um brinquedo, e deixou à deriva os habitantes do planeta terra. Desse modo, entregues a essa orfandade, Lars Von Trie dá textura ao filme onde a melancolia é materializada, alegoricamente, num planeta prestes a colidir com a terra." Melancholia" aparece, aos olhos do diretor, como planeta e como condição humana, irrefutável, inquestionável e contingente. Melancholia é uma arma de extermínio em massa, de pulverização da existência humana.

O filme leva as reflexões da morte – irmã mais velha da melancolia –  e do sentido da vida e há de se destacar, em meio a trama, três personagens importantes: Justine a noiva, que padece de doença melancólica,  num momento que seria de alegria, o dia do seu casamento – cerimônia  que não se efetiva , em meio a fragmentos de diálogos e cenas recortadas;  Claire, sua irmã angustiada, insegura, com extremo pessimismo e temor ao sofrimento e, por fim, John marido de Claire, um vaidoso milionário, racionalista, de elevada auto-estima, soberba, e de reflexões pragmáticas. A única certeza: todos vão findar com" Melancholia", que vem, como no Apocalipse, para o fim da vida e da humanidade. Dessa forma, há três reações das personagens perante o fim dos tempos: admitindo a existência devastadora de "Melancholia", mesmo antes de uma ameaça global (Justine), sofrendo com sua certeza (Claire), ou, categoricamente, recusando em aceitá-la (John).
Não haveria outra saída para tamanho infortúnio? Lars Von Trie parece encontrá-la em provável experiência pessoal, justamente com o recurso da arte, da própria arte cinematográfica, construindo o próprio filme em sobreposição a sua vivência depressiva.
Com a consolidação da dramaturgia e do pensamento grego o conceito de catarse vem humanizar esteticamente os fenômenos aflitivos da natureza.    Fruto “do temor e da compaixão”, a catarse seria uma forma de expressão afetiva que por resultar da expressão artística, traria algum tipo de satisfação.
No negrume surrealista do filme de Lars Von Trie, pode-se afirmar ao assisti-lo a frase de Victor Hugo: “a melancolia é a felicidade em estar triste”.
Marcos Creder

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