Na infância não escolhemos nossos
primeiros objetos amorosos, no sentido de que não escolhemos os pais que tivemos,
nem a família em que nascemos. É a partir da puberdade e da adolescência que
iniciamos dirigir nossos interesses afetivos-sexuais (libido) para fora do âmbito
familiar. Todavia é a infância que muito determina a maneira como iremos amar
exogamicamente.
Antes, em 1905, Freud nos brindou com seu clássico texto TRÊS ENSAIOS SOBRE A SEXUALIDADE, onde, ao introduzir a noção de pulsão, estabeleceu uma clara distinção entre objeto e alvo sexual. Objeto = pessoa de onde provém a atração sexual; Alvo = ação impelida pela pulsão. Escreveu Freud (1914), “os primeiros objetos sexuais de uma criança são as pessoas que se preocupam com sua alimentação, cuidados e proteção; isto é no primeiro caso sua mãe ou quem quer que a substitua”.
A nossa primeira escolha objetal
amorosa foi denominada por ele de “escolha objetal anaclítica”, isto é, uma
relação de apoio derivada das condições naturais de desamparo, fragilidade e
impotência do bebê em ele mesmo atender suas necessidades mais primárias. São
tempos mentais idealizantes que levamos pela vida afora, inclusive na vida
adulta.
Vê-se
aqui a defesa do presente texto em compreender os relacionamentos amorosos a
partir de uma ótica baseada nas raízes inconscientes originadas a partir de
nossas famílias de origem. Por este ângulo, ou viés compreensivo, nossas
escolhas amorosas adultas têm sempre um quê de infantil, ou seja, repetições de
alguns padrões adquiridos na meninice. Sentimentos e desejos infantis,
portanto, se misturam aos sentimentos e desejos adultos no momento da escolha
do objeto amoroso.
A
paixão – como já foi vista aulas atrás – é um sentimento forte carregado de
identificações e idealizações. Não é de todo incompreensível entender a paixão
como uma espécie de reedição da experiência ilusória primária de completude da
relação bebê-mãe. Busca-se com o outro atingir a perfeição.
Porém, nem toda escolha é paixão. Existe a escolha pelo amor, com mais maturidade, menos idealização, porém jamais isenta de qualquer resquício infantil. Mais uma vez reporto-me à Freud: "É absolutamente normal e inevitável que a criança faça dos pais o
objeto da primeira escolha amorosa. Porém a libido não permanece fixa nesse
primeiro objeto: posteriormente o tomará apenas como modelo, passando dele para
pessoas estranhas, na ocasião da escolha definitiva. Desprender dos pais a
criança torna-se portanto uma obrigação inelutável, sob pena de graves ameaças
para a função social do jovem."
A necessidade que tínhamos de se
apegar da primeira infância permanece, pois, adultos ou não, continuamos
incompletos, frágeis e vulneráveis. Nosso psiquismo é regido pela raiz primária
da busca pelo retorno do momento “mágico” e seguro da mais significativa das
relações humanas: mãe-bebê.
Deixo
vocês agora, rumo ao tema conjugalidade: formação do casal, sem antes indicar mais uma leitura
afim: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/cadpsi/v35n29/a10.pdf
Boas
leituras, estudos, questionamentos e reflexões...