quarta-feira, 22 de março de 2017

DIÁRIO DE AULA: CASAMENTO


   CASAMENTO E A PSICODINÂMICA DO CASAL


 





Em sociedades como a nossa os casamentos são monogâmicos. Outras sociedades, culturas e momentos históricos possuem organizações conjugais diversas, tais como casamentos poligâmicos ou poliândricos. O casamento monogâmico é entendido como um vínculo entre duas pessoas, geralmente de caráter íntimo, afetivo e sexual, que pressupõe coabitação. A própria etimologia nos remete à ideia de coabitar, visto que vem da latim medieval casamentum que se refere à cabana, moradia.
                
          O casamento representa uma contratualidade, seja ela social, jurídica, moral, afetiva, psicológica, ou tudo isso junto. Casamento é, pois, contrato (explicito e/ou implícito), é vínculo. É o liame que liga dois seres físico, afetiva e juridicamente. É também, de certo modo, um rito de passagem.

                
São vários os tipos de casamentos. Assim vejamos:
                - casamento civil: celebrado sob aos auspícios do ordenamento jurídico do Estado;
                - casamento religioso: celebrado perante a uma autoridade religiosa;
                - casamento poligâmico: entre um homem e mais de uma mulher;
                - casamento poliândricos: entre uma mulher e mais de um homem;
                - casamento homoafetivo: entre pessoas do mesmo sexo;
                - casamento monogâmico: com a presença de apenas dois cônjuges;
                - casamento arranjado: cuja celebração é combinada por terceiros;
                - casamento putativo: passível de anulação;
                - casamento aberto: aquele em que os cônjuges podem, de comum acordo, ter outros parceiros sexuais.

          O casamento, no sentido de uma vida afetiva íntima, tem grande implicação no mundo adulto. A questão não é casar, pois casar até que é fácil, é manter o casamento em bons níveis de satisfação conjugal. Conviver com alguém envolve sensações, sentimentos, afeição, desejos, sonhos e mutualidade. Segundo Maria de Betânia Norgren e outros, em SATISFAÇÃO CONJUGAL EM CASAMENTOS DE LONGA DURAÇÃO: UMA CONSTRUÇÃO POSSÍVEL (http://www.scielo.br/pdf/epsic/v9n3/a20v09n3.pdf),  para a satisfação conjugal existem diversas variáveis intervenientes, como: características de personalidade, valores, atitudes e necessidades; sexo, momento do ciclo da vida familiar, presença de filhos, nível de escolaridade, nível socioeconômico, nível cultural, trabalho remunerado e experiência sexual anterior ao casamento.
          
                Olhando por uma perspectiva sistêmica a família de origem produz nos indivíduos padrões comportamentais de interação que são transmitidos transgeracionalmente. Assim, crenças, regras, valores e modelos de afetividade são passados de pai para filhos. O casamento é uma oportunidade para se elaborar e construir soluções para velhos conflitos ou repeti-los. Ainda segundo Pincus e Dare, desejos frustrados e sentimentos dolorosos que fazem parte da história dos indivíduos que formam o casal repercutem na interpessoalidade conjugal.
            Na formação de um laço conjugal ocorrem várias articulações psíquicas conscientes e inconscientes, desde a escolha do parceiro amoroso até o legado familiar de origem. Em seu hoje clássico livro A FAMÍLIA NO DIVÃ, Pincus e Dare, ressaltam que desejos inconsumados e sentimentos infantis dolorosos ou não tendem a reaparecer na vivência da conjugalidade. Devido à intensidade do laço afetivo os parceiros podem fazer acordos tácitos e inconscientes baseados nas demandas de cada um. A história do casal se inicia na história pessoal dos parceiros envolvidos.Ao longo do tempo, ao longo da história de um casal haverá de haver momentos gratificantes e de satisfação, bem como momentos de insatisfações e conflitos. A cada conflito superado tanto o casal como os cônjuges vão amadurecendo. Embora idealisticamente falando para muitos o casamento seja uma representação de felicidade, ele é permeado por conflitos, atritos e incertezas. A estabilidade em um casamento está muito relacionada com a capacidade de flexibilizar de cada parceiro envolvido.

                Vários estudiosos do casamento, do ponto de vista psicológico, entendem que nele existe uma espécie de “contrato secreto” onde demandas inconscientes de cada cônjuge se interligam de maneira não escrita e não verbalizada, afinal a conjugalidade é um terreno fértil para reedições de dramas familiares anteriores, assim como para a elaboração de conflitos não bem resolvidos em vivências infantis.
Uma das mais aprofundadas pesquisadoras brasileira sobre o casamento é Terezinha Fères-Carneiro que, junto com colaboradores, tem contribuído sobremaneira para o entendimento da psicodinâmica conjugal. Investigando, por exemplo, a influência do casamento dos pais na construção do laço conjugal dos filhos, afirma que antes mesmo do encontro amoroso, em ambos os psiquismos de cada parceiro já existe uma representação de conjugalidade. Nesta representação psíquica coexiste a história do sujeito, seus ideais de conjugalidade, os mitos familiares da família de origem, bem como as imagens, lembranças e fantasias sobre a conjugalidade de seus pais e de seus antepassados. Tudo isto conjuga e se engendra no futuro eu conjugal do indivíduo.
                E é com base em muitos trabalhos da referida autora que daremos prosseguimento ao presente texto a seguir...
continua amanhã


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 19 de março de 2017

Uma Relação Infantil

 
Um tema muito discutido na assistência à saúde é um  dos pontos que considero  crucial e, que talvez,  seja um dos problemas mais significantes, e paradoxalmente mais desvalorizados, dos profissionais que atendem na Clínica ou nos hospitais. Trata-se da relação "profissional de saúde"  (médico, psicólogo, fisioterapeuta etc) - paciente. Acredito que dessa relação pode demandar vários acertos,  mas também muitos erros - chega-se a cogitar em artigos especializados que mais da metade dos erros médicos, por exemplo, acontecem na tensão  da relação médico-paciente. Contudo, para a maioria das pessoas, os erros que esses profissionais cometem,  ocorrem por diversos motivos: incompetência técnica, inaptidão, má formação, má remuneração, descaso, falta de “compaixão " e de princípio éticos. Argumenta-se  também  que o próprio modelo de assistência em saúde  "animaliza " seus profissionais. Esse argumentos são plausíveis e inquestionáveis, mas penso que nessa relação profissional - paciente   ainda cabe mais um elemento que vai mais além da postura técnica, ética ou das questões das políticas assistências - embora, como disse, essas  tenham relevância significativas.


Há uma tensão mais subjetiva que deve ser melhor esmiuçada e incluída nesse rol de desacertos. Esse "mais além" está no fato de que, no fenômeno do adoecer, não existe uma objetividade como se tem - ou dizem ter - em outras áreas do conhecimento.  O adoecimento está na dimensão de um sujeito (sempre) singularizado em sua  dor, sofrimento e em suas fantasias aterradoras relacionadas a vida e a morte. Esse temor às incertezas do corpo e da mente fazem  com que, muitas vezes, se utilize de defesas psíquicas remotas ou infantis. Isso porque o corpo se tornou (ainda mais) frágil e suscetível  e fez com que o sujeito revisitasse os tempos igualmente frágeis de sua existência: a sua infância. Naturalmente na infância se é mais dependente, mais exposto,  o corpo é mais manuseado e submetido aos seus cuidadores. O julgamento que a criança faz dos cuidadores são  ambíguos e arcaicos. É um misto de um ser, um“outro”, todo poderoso, que é capaz de promover e aliviar as dores e os desconfortos. São bons e ruins, acolhedores ou ameaçadores. E assim se reedita essa relação quando  se adoece, pois se precisará de mais cuidado que o habitual.

Resultado de imagem para REGRESSÃOFreud dizia categoricamente que o processo de adoecimento, seja ele qual for, tendia a provocar no sujeito reações regressivas - uma retificação importante é de que essa regressão não é um caminho de retorno no tempo, pois não se vai ao passado, mas o caminho do infantil ainda presente, um infantil contemporâneo - uma espécie de "passado" escondido nas recordações prontas para serem representadas. Para validar  isso não é uma tarefa tão difícil.    Quantos  não ficam dengosos, manhosos, ressuscitando os antigos mimos da infância quando doentes? ou ainda, quantos não  ficam birrentos, rebeldes, " trelosos" durante um tratamento médico?  No mesmo passo que a doença reedita esses sentimentos, no outro lado, no  lugar do terapeuta se retifica muitas vezes as figuras do antigos cuidadores que podem assumir as funções da amabilidade ou da tirania, ou ainda, da impotência ou da onipotência - ressalto que não há neutralidade em qualquer profissionais, haverá sempre identificações, projeções que poderão ser úteis ou danosas ao tratamento. ha texto de Luiz Cláudio Figueiredo, Implicação e Reserva, que estabelece um manejo dessa transferência. Essa variante da não neutralidade, muitas vezes, explica que um mesmo remédio  ou procedimento pode ser venenoso ou terapêutico a depender de quem o prescreveu. 

O psicanalista húngaro Balint defendia, ainda no início do século XX,  que assim como as medicações, os médicos na relação médico-paciente também teriam “efeitos colaterais”, “subdosagens”, “intoxicações” -  E, nesse presente texto,  acrescento, não só os médicos, mas todos os profissionais de saúde. Há profissionais que se ausentam ou se presentificam excessivamente, há aqueles, que na generosidade excessiva, terminam por reforçar os ganhos secundários que as doenças propiciam - a grande dificuldade, na verdade, é encontrar a medida certa, a medida terapêutica que garanta ao paciente  a condição de sujeito. Para que isso venha de fato se efetivar, será preciso ter entendimento de que assim como esse sujeito doente se fragiliza, o outro que o assiste deve cortar as asas de sua onipotência e de fantansias igualmente infantis. Esse encontro entre a fragilidade (paciente) e a onipotência (profissional) muitas vezes desencadeia equívocos, graves equívocos.  
Escuto uma história desde de que era estudante de medicina. uma história que parece mais uma anedota, mas que seria perfeitamente possível dentre as tensões da relação médico-paciente.    
Um obstetra numa maternidade pública, ao atender uma gestante, que estava sangrando excessivamente, haveria dito para o assistente que “aquela paciente estava ‘chocando’ “(um jargão médico que se refere ao estado de choque). Ao ouvir isso, a paciente queixosa, disse: "o senhor diz assim porque sou pobre, porque se fosse rica estaria tendo menino”. O que se pode pensar dessa cena? de que havia um abismo social e subjetivo entre o paciente e seu médico; o médico acreditava na compreensão do seu vocabulário, e de que a paciente reeditava seu lugar de excluída. 


Marcos Creder