quarta-feira, 29 de março de 2017

DIÁRIO DE AULA: CONJUGALIDADE

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A grande maioria das pessoas sonham, ou um dia sonharam, em casar, embora aja poucos que não querem. Por detrás do anseio de casar acoberta-se (às vezes nem tanto oculto assim) o desejo de ser feliz. Sabe aquela estória infantil de "casaram-se e foram felizes para sempre"?, pois é, a ênfase no amor romântico advindo a partir do século XVII levou-nos associar casamento à felicidade. Talvez felizes mesmo fossem as pessoas da Antiguidade quando o casamento era voltado exclusivamente à procriação. Como diz o historiador Phillippe Ariès a ideologia burguesa em sua valorização pelo individual estabeleceu o casamento por amor e com predomínio amor erótico na relação conjugal. Dessa maneira ideologicamente os cônjuges passaram a se verem obrigados a se amarem e serem felizes. O amor, que antes do século XVIII era buscado fora do matrimônio passou a ser buscado antes do casamento e perpetuado dentro do casamento. Mas a grande questão não é o amor propriamente dito, mas sim o amor-paixão. Todos sabemos que normalmente o amor-paixão tem uma grande durabilidade assim, E agora, quando o amor-paixão acaba como preservar o casamento? O segredo não está em casar, afinal casar pode não ser tão difícil assim (aqui incluso as uniões consensuais). Ser um casal, formalmente falando, é uma coisa, porém funcionalmente é outra. O segredo, caros alunos, é a conjugalidade.
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Conjugalidade é a construção de uma vinculação entre dois indivíduos independentes. Vínculo conjugal não é sinônimo de apenas coabitação, mas sim uma espécie de liame ou laço afetivo que liga duas pessoas. A conjugalidade, como já dito em aulas anteriores, resulta da construção de um terceiro elemento; o casal. A formação de um casal se faz na combinação de duas individualidades (dois sujeitos) que no espaço da intimidade interrelacional geram uma conjugalidade, ou seja, um desejo conjunto, uma história conjugal, um projeto de vida a dois, uma identidade conjugal. Sabe aquela história de "um por todos e todos por um"? Pois é, em seu livro Psicanálise do Casal (ed. Artes Médica), Puget e Berenstein assim conceitualizam vínculo como uma estrutura de três termos, constituída por dois pólos, os dois egos e um conector (ou intermediário) que liga ambos. Assim sendo a identidade conjugal emerge da relação conjugal - o que Caillé chama de "absoluto do casal".
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O físico moçambicano Alexandre Quitanilha diz que a identidade não se descobre, constrói-se. Essa é a parte difícil.". Sim, transmutar a subjetividade na conjugalidade não é algo mágico, rápido ou que seja fácil e não implique em algumas renúncias e sacrifícios. Não é fácil principalmente porque a subjetividade das pessoas envolvidas tende a querer repetir a remota experiência narcísica de uma relação perfeita e simbiótica, que foi idealisticamente a relação do bebê com seu primeiro objeto relacional, isto é, a mãe. Aquele antigo e primitivo "nós" ilusoriamente simbiótico (vide post aula sobre PAIXÃO x AMOR) tende a se transferir inconscientemente para o par conjugal. Como diz o sociólogo alemão Georg Simmel, em sua obra Filosofia do Amor (ed. Martins Fontes) no amor há uma condição trágica que promove, entre os sujeitos, a necessidade de fundir-se com a pessoa amada, de modo a constituírem uma só pessoa. Tal expectativa idealizada e superexigência provoca tensão, tensão entre o objeto amado idealizado e objeto amado real.
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O amor não é um afeto puro que sentimos de maneira passiva (como se flechado por um cupido), mas sim uma prática e atividade social. Neste sentido e contexto a comunicação entre os membros do casal é fundamental tanto para a intimidade quanto para a interação conjugal. Terezinha Féres Carneiro, pós-doutorada em psicoterapia de família e casal, afirma que a intimidade "para ser alcançada depende, essencialmente, da igualdade entre os parceiros e da comunicação emocional de cada um consigo mesmo e com o outro". Isto implica, entre outras coisas, no desenvolvimento e ajustamento de hábitos e funções, assim como o estabelecimento e a manutenção de novas relações sociais (amigos) e familiares (família de origem do cônjuge/companheiro).
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Cada casal é um casal, único e singular, isto é, o modo como cada um dos personagens do casal lida com seus conflitos, traumas, superações e tarefas outros do processo de amadurecimento, tem impacto significativo no nível da qualidade conjugal e sua satisfação. É atualmente amplo os estudos sobre o assunto, principalmente devido a sua complexidade e variedade de contextos. No âmbito reduzido do presente blog cabe-nos neste momento indicar algumas leituras complementares a respeito:

http://www.infocien.org/Interface/Colets/v01n01a05.pdf
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/7791/7791_5.PDF
https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/25533/25533_3.PDF

Boas leituras e bons estudos

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 26 de março de 2017

O SENHOR DA POEIRA E DAS SOMBRAS




Logo ao passar pela porta que o separa do mundo dos vivos, ficou parado um instante como que suspenso em meio àquela atmosfera bolorenta impregnada de fungos mofando móveis, objetos, quadros, livros e as outras coisas que preenchem e circundam todo o espaço amplo da sala. Tudo é tão antigo e gasto que parece ser a casa um enorme museu a conservar o que ainda resta dos últimos vestígios de uma remota civilização desaparecida (passado tem o cheiro desagradável do envelhecimento da história). Ali, onde mora o desusado tempo, reside também o pai e seus consumidos e antiquados trastes, todos esquecidos por tudo que a eles da casa é fora, não fosse o filho ocasionalmente revisitar o homem que lhe era mais o guardião de sua distante meninice. Enquanto houver velhos (esses diminutos adultos de ontem) a frequentar, haverá alguma infância a ser revisitada ainda mais uma vez, de novo.


Infelizes aqueles que não têm velhos, pois lhes sobram apenas a insonoridade monótona dos álbuns de fotografias. Ao fechar a porta, cortando feito uma lâmina o domingo, uma lufada de ar levanta e espalha a poeira antes sossegada em seu repouso quase secular sobre a superfície rígida das coisas. No azular da sala mal iluminada pelas frestas envidraçadas das janelas fechadas bailam granulados fantasmas acordados pelo repentino vento – em breve retornarão a quietude das planícies onde tomarão a forma inanimada das peças e dos objetos domésticos.
Resultado de imagem para VELHICE, PINTURAO filho aguarda antes de dar o primeiro relutante passo através de tantos espectros paternos, enquanto o vê, aos poucos, surgir do fundo da penumbra, vindo como quem vem das trevas, trazendo consigo a escuridão dantesca das memórias. Embora fosse o pai de estatura baixa e franzino corpo curvilíneo, frágil como uma capa de livro bastante manuseado, sua sombra é grande, imensa e gigante, a encobrir todos os móveis e utensílios da sala e ao filho que ali estava. Um homem de passadas curtas e gestos tremulamente delicados, contrastando com o heroico guerreiro do menino de outrora.
Do cavaleiro antes andante, não ficou armaduras, escudos, elmos, lanças ou espadas; o que continua é somente a magra silhueta quase imobilizada que lembra o desenho em preto e branco que ilustrava as estórias de Cervantes. Talvez até não tivesse aquele livro, eram tantos os livros dele, porém o filho jamais o pedira para ver, como se assim ainda receasse algum atrasado carão pelo dia em que buliu escondidamente os segredos invioláveis da biblioteca do pai.
Resultado de imagem para TEMPO, PERDASO velho homem conversa agora coisas do passado e o outro dele escuta lembranças fragmentadas como se do pai saíssem inúmeras vozes e fosse ele tantos vários. Sua voz, antes potente e hoje muito mais um sussurro, percorre uma vida: do tempo em que também fora menino, morando em engenho e tomando banho de rio, à época em que vivera um fugidio amor viajando pelos litorais do Nordeste. Conhecera praias, coqueiros e paixões. Ela se foi, como tudo ao homem um dia se vai. Ele igualmente.
Resultado de imagem para MEMORIA, PINTURAO que ficou, o que sempre fica, foram as amargas e doces recordações saudosas dos momentos irrecuperáveis, e um filho este que de vez em quando o visita, até mesmo depois dos sonhos. As lembranças idosas de um homem idoso são feitas da mesma seda filamentosa e opaca que tece o embranquecer dos olhos nublados de cataratas e de tempo. Quantas aquisições anteriores não sucumbem ao pouco brilho que nos chega à mente, esta interioridade obscura que em parte se apresenta nas narrativas, e em outra parte se oculta, se disfarça e muitas vezes se deslembra. O pai que fala e se cansa com o que de si mesmo ouve não é um homem completo, é simplesmente a porção de um pedaço de fração de uma vida inteira.
Como se o que permaneceu fosse menos, repete ele as mesmas aventuras, glórias e dissabores de aposentadas eras em que é hoje então somente o único afastado sobrevivente. Algumas vezes o filho ouve com desatenta atenção, em outras se distrai enxergando através do emagrecido corpo de amontoados ossos e relatos, encoberto pela enrugada e manchada pele que ainda lhe sustenta o pouco tanto de suas tantas sobras, o pai e o seu menino que ambos foram muito antes do que agora. Sentado naquela quebradiça e encardida cadeira de balanço, é ele, assim como as sombras de todo o demais resto, uma mera noção rudimentar de uma melancólica e nostálgica aparência que ligeiramente parece uma esfinge a tutelar sepulcros e mortos.
Aquele homem que lhe fundara a própria história é ao filho a oralidade pulsante de sua ecoante inocência, pois rever o pai, mesmo tão velho, é redescobrir o que já não é mais descoberta com igual encanto e deslumbramento de uma criança curiosa. À hora de ir embora, beija-lhe com respeito a testa, último reduto de carinho e afeto com que reverencia sua infância ainda viva. Por possuir também as chaves, como de hábito, aguarda o pai recolher-se vagarosamente indo para dentro da casa e dos seus escuros. A poeira novamente levantada baila e por detrás dela segue um homem rumo ao seu quarto, arrastando com ele o silêncio de um garoto que de soslaio e sem acenos se despede do adulto aqui assombrado.

Joaquim Cesário de Mello