domingo, 18 de junho de 2017

A NUDEZ QUE SE DESVELA

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A poesia é feita de insights. A poesia provoca insights. O insight e a psicologia andam juntos, isto porque a poesia vem da subjetividade e a subjetividade é a alma, a alma humana. A poesia é a nudez da alma transvestida de palavras. A poesia é a invisibilidade que se faz ver, é um suspirar que vem lá de dentro do ser. Em termos literários a arte poética é impregnada de símbolos, significações e significados. A poesia é talvez o caminho mais curto para se chegar à psiquê. O poeta Pablo Neruda já dizia que "a poesia tem comunicação secreta com o sofrimento humano". A poesia revela e esconde. A poesia fala dos silêncios e das entrelinhas, é um grito calado que se ouve. Entendo quando o outro poeta, Paul Claudel, disse; "o poema não é feito dessas letras que eu espeto como prego, mas do branco que fica no papel". Teixeira de Pascoaes é então ainda mais radical quando afirma "sem poesia não há humanidade".
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O psiquismo humano tem na poesia seu melhor intérprete e tradutor, afinal a poesia é aquilo que escapa das regras do discurso gramatical e em sua liberdade, longe das amarras e convenções, pode ela entender e transmitir o que está dentro daquilo que está por dentro. É o que nos diz, por exemplo, o poeta português Eugénio de Andrade: "o ato poético é o empenho total do ser para a sua revelação".
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É comum se dizer que "ninguém nasce vestido". A alma humana também não. A sua pureza vai aos poucos sendo vestida de normas, regras, moral, preceitos, padrões, hábitos, convenções, leis, costumes, cultura, adultificações e socializações. Não há no início da vida de um psiquismo sentimentos de vergonha, recato ou pudor. A alma humana é por natureza desavergonhada. A mente humana começa a olhar o mundo através do olhar de uma criança, e o mundo lhe é, então, um espaço de encantamento, magia, deslumbramento, assombro, fascínio, medo, curiosidade, maravilhamento e sedução, Tudo se abre para o ser como uma sensibilidade indescritível. A criança olha o descortinar do mundo e da vida com olhos de ver. A alma ao descobrir o mundo se exalta. Há, assim, algo de lírico no psiquismo. Talvez por isso Oswald de Andrade tenha escrito que "aprendi com meu filho de dez anos que a poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi".

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A poesia é a linguagem desamarrada da lógica. É quando o lúdico se ilumina de criatividade e enxerga o prosaico com a vitalidade do espírito que se surpreende com o novo e o descoberto. Assim poetiza Manoel de Barros: "mostrei a obra pra minha mãe./A mãe falou:/agora você vai ter que assumir as suas/irresponsabilidades./Eu assumi: entrei no mundo das imagens".
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Poesia é visualidade. Visualidade esta que se faz com a sensibilidade menina do olho interior. Desse modo, igualmente poesia é imagem. É o objetivo que se subjetiva e o subjetivo que se objetiva. Lembro de Jorge Luis Borges quando afirmava: "imagens não passam de incontinências do visual". Por isso entendo que o discursar poético da alma com o mundo somente se faz no despolimento das seriedades repressoras e contidas do adulto. Quem, na circunspecção cobrada do adulto, diria - como diz Manoel de Barros - que "a distância seria uma coisa vazia que a gente/portava no olho"?
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Desculpem-me os cientistas e os neurocientistas, os behavioristas e os psicólogos, mas não se estuda a alma humana aquele que não saber ler e fazer poesia. Não a poesia métricas dos cânones dos liceus, nem o letrismo literário das academias, mas a poesia do olho que vê, da percepção que elucida, da sensibilidade que recusa o óbvio e revela o oculto e o submerso das coisas. Já dizia Lorca, "todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas".
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O material da poesia não são as palavras, são os sentimentos. A sonoridade dialética da vida é o ecoar dela nas cordas musicais da nossa afetividade. Com os vocábulos e as palavras devolvemos o perceptivo sentido que nos toca com a correspondência do intelecto. Através das metáforas e das palavras expressam-se as emoções desnudadas das racionalidades inférteis e impensadas dos que realmente apalpam a vida e não somente assistem ela passar no dissolver lentificado dos minutos. Sentir é, pois, se comover, impressionar-se e apreciar. Quando você sente algo é a sua alma refletindo e elaborando.
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A Psicanálise, muito tempo depois da poesia, descobriu que as palavras são repletas de silêncios, assim como as entrelinhas e os silêncios são cheios de significados. Por esta razão o próprio Freud reconheceu que "os artistas e os escritores são aliados muito valiosos à pesquisa da psicanálise". Tal clareza sobre as palavras que falam pelo silêncio e o silêncio que habita as palavras é igualmente encontrada na poesia de Mário Quintana, como nestes versos que dizem: "um poema que não/te ajude a viver e/não saiba/preparar-te para a/morte/não tem sentido:/é um pobre chocalho/de palavras".
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Fernando Pessoa sugeriu "sentir tudo de todas as maneiras. Sentir tudo excessivamente. Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas". Afinal, para o referido poeta a alma é o lugar onde se sente ou pensa. A alma sente, a mente pensa. Ambos são tão incomensuravelmente fecundos. O sobreviver é da ordem do biológico; o existir é da ordem anímica do psiquismo. Cabe a cada humano ser quem ele é. Mas quem é cada um se, como canta Pessoa, não sabemos quantos almas temos. "Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê. Quem sente não é quem é" (Fernando Pessoa).
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O ser humano é um ser dividido entre o que ele conhece de si e o que ele desconhece. O inconsciente é uma dimensão da alma humana. A poeta Florbela Espanca reconhece em si isso quando expõe "passei a vida a amar e a esquecer.../um sol a apagar-se e outro a acender". O mesmo diz Ferreira Gullar: "uma parte de mim/é multidão:/outra parte estranheza/e solidão". Nosso psiquismo também se partilha entre a criança (puer aeternun) e o adulto (senex). Recita Fernando Pessoa: "depus a máscara e vi-me ao espelho/era a criança de há quantos anos./Não tinha mudado nada..." Outro grande poeta brasileiro, Manuel Bandeira, já dizia que o poeta é o homem que vê o mundo com olhos de criança, isto é, como se visse o mundo pela primeira vez. E não há nada mais puramente alma que o deslumbrar-se com o mundo e a vida de maneira infantil. Muitas vezes o poeta faz o que fez Carlos Drummond de Andrade, "ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão". Como diz o poeta Manoel de Barros, "carrego meus primórdios num andor./Minha voz tem um vício de fontes./Eu queria avançar para o começo./Chegar ao criançamento das palavras". A alma humana, o psiquismo humano, é naturalmente infantil.

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O texto poético, pois, embora muitas vezes revestido de palavras, é uma voz que vem lá de dentro dele e que representa o psiquismo do autor se corporificando de frases e verbos. Um poema pode vir pelas palavras, mas vai além das palavras. Há na poesia, na verdadeira poesia de qualidade, uma energia vital que parece haver escapado da fundura da alma. É como escreve em seu poema Tortura Florbela Espanca: "tirar dentro do peito a Emoção/a lúcida Verdade, o Sentimento!/- E ser, depois de vir do coração/um punhado de cinza esparso ao vento!". O psiquismo desnudado revela assim a sua mais pura essência, fingindo-se que se veste de palavras.


Joaquim Cesário de Mello



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