Joaquim Cesário de Mello
domingo, 26 de março de 2017
O SENHOR DA POEIRA E DAS SOMBRAS
domingo, 19 de março de 2017
Uma Relação Infantil
Um
tema muito discutido na assistência à saúde é um dos pontos que considero
crucial e, que talvez, seja um dos problemas mais significantes, e
paradoxalmente mais desvalorizados, dos profissionais que atendem na
Clínica ou nos hospitais. Trata-se da relação "profissional de saúde"
(médico, psicólogo, fisioterapeuta etc) - paciente. Acredito que dessa
relação pode demandar vários acertos, mas também muitos erros -
chega-se a cogitar em artigos especializados que mais da metade dos erros médicos, por exemplo, acontecem na tensão da relação
médico-paciente. Contudo, para a maioria das pessoas, os erros que esses
profissionais cometem, ocorrem por diversos motivos: incompetência técnica, inaptidão, má formação, má
remuneração, descaso, falta de “compaixão " e de princípio éticos.
Argumenta-se também que o próprio modelo de assistência em saúde
"animaliza " seus profissionais. Esse argumentos são plausíveis e
inquestionáveis, mas penso que nessa relação profissional - paciente
ainda cabe mais um elemento que vai mais além da postura técnica, ética ou
das questões das políticas assistências - embora, como disse, essas
tenham relevância significativas.
Há
uma tensão mais subjetiva que deve ser melhor esmiuçada e incluída
nesse rol de desacertos. Esse "mais além" está no fato de que, no
fenômeno do adoecer, não existe uma objetividade como se tem - ou dizem
ter - em outras áreas do conhecimento. O adoecimento está na dimensão
de um sujeito (sempre) singularizado em sua dor, sofrimento e em suas
fantasias aterradoras relacionadas a vida e a morte. Esse temor às
incertezas do corpo e da mente fazem com que, muitas vezes, se utilize
de defesas psíquicas remotas ou infantis. Isso porque o corpo se tornou
(ainda mais) frágil e suscetível e fez com que o sujeito revisitasse os
tempos igualmente frágeis de sua existência: a sua infância.
Naturalmente na infância se é mais dependente, mais exposto, o corpo é
mais manuseado e submetido aos seus cuidadores. O julgamento que a
criança faz dos cuidadores são ambíguos e arcaicos. É um misto de um
ser, um“outro”, todo poderoso, que é capaz de promover e aliviar as
dores e os desconfortos. São bons e ruins, acolhedores ou ameaçadores. E assim se reedita essa relação quando se adoece, pois se precisará de
mais cuidado que o habitual.

Escuto uma história desde de que era estudante de medicina. uma história que parece mais uma anedota, mas que seria perfeitamente possível dentre as tensões da relação médico-paciente.
Um obstetra numa maternidade pública, ao atender uma gestante, que estava sangrando excessivamente, haveria dito para o assistente que “aquela paciente estava ‘chocando’ “(um jargão médico que se refere ao estado de choque). Ao ouvir isso, a paciente queixosa, disse: "o senhor diz assim porque sou pobre, porque se fosse rica estaria tendo menino”. O que se pode pensar dessa cena? de que havia um abismo social e subjetivo entre o paciente e seu médico; o médico acreditava na compreensão do seu vocabulário, e de que a paciente reeditava seu lugar de excluída.
Marcos Creder
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