
Se se pesquisar os anúncios de marcas de cigarro na década de 1950, por exemplo, se observará verdadeiras apologias ao bem-estar, ao vigor físico, à saúde - inclusive, sugerindo um ou outro fim terapêutico - com o hábito de fumar. Esses comerciais relacionavam o uso do tabaco a beleza física, inclusive, ao hálito agradável. Se o cidadão daqueles anos folheasse as revistas e jornais de sua época, não se espantaria ao ver nos anúncios, crianças, ou bebês, recomendando às mães a usarem uma determinada marca de cigarro, ou um médico relatando o bem-estar e os aspectos terapêuticos, especialmente para as vias aéreas superiores, com a inalação de cigarro. Nesses anúncios nem mesmo papai Noel escapou ao apelo da indústria.
Mesmo com todas as advertências constatadas pelo uso de tabaco, a substância continua sendo comercializada, no entanto, com várias restrições ao uso. Se estabeleceu, por exemplo, nas últimas décadas, locais de utilização, campanhas de esclarecimento sobre os riscos da utilização do tabaco, realizado por profissionais de saúde. Nunca se cogitou - e seria uma infantilidade se cogitar - a proibição do cigarro. A questão não passa pela proibição ou legalização do consumo, mas pela adequada restrição do uso e das campanhas preventivas e esclarecedoras de combate ao fumo.

Desse modo, não se pode afirmar que não há risco com a comercialização em escala industrial do canabis Sativa. Ultimamente vem se observando em alguns segmentos da sociedade, a ideia de que, ao contrário de outras drogas lícitas ou ilícitas, a maconha seria inócua, terapêutica, com promissores resultados no tratamento de doenças como epilepsia, depressão, ansiedade ou insônia. Argumenta-se que a maconha seria uma substância “natural”, “orgânica” tão inócuo como numa espécie de “alface fumável”. Essa demanda favorável ao uso de canabis me faz lembrar os antigos anúncios de cigarro. Será um novo embuste?

Com o aumento estatístico do consumo, começa já a aparecer, com mais frequência, alguns transtornos psíquicos relacionados ao seu uso. Sabe-se, e isso não é nenhuma novidade, que quadros psicóticos podem ser desencadeados ou agravados pelo uso de canabis, que síndromes ligadas à perda cognitivas vem sendo demonstrada com o seu uso crônico. Já se evidencia a dificuldade de concentração, atenção e memória com a frequente utilização, alguns desses estudos, inclusive, apontam que o uso na adolescência podem interferir no desenvolvimento intelectivo.
Enfim, não há substâncias inocentes. Talvez o canabis não seja a mais agressiva, mas isso não a torna inócua. o risco de sua utilização deve ser sempre aprofundado para que não se caia nos equívocos que vivemos no passado.
Marcos Creder