Consumir é gastar, ingerir, comer, debilitar, exaurir, devorar, destroçar, destruir. Consumimos objetos, coisas, alimentos, bebidas, roupas, aparelhos e quinquilharias várias. Consumimos também pessoas. Foi, em boa parte e sentido, o que fizemos (e continuamos a fazer) com a cantora inglesa Amy Winehouse, nascida em 14 de setembro de 1983 e morta em 23 de julho de 2011. Possuidora de uma potente e rara voz de tipo contralto vocal, Amy Winehouse "explodiu" ao estrelato e ao sucesso em 2006 com o disco Back to Black. Seu êxito musical foi igualmente curtido e acompanhado pelo público com a sua "carreira" desenfreada e autodestrutiva de álcool e drogas. Comparada às clássicas divas do jazz e do soul, como Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Sarah Vaughan, Amy com sua voz grave e vigorosa teve uma vida curta e intensa, talvez intensa até demais.
Há um momento emblemático no documentário: Amy, aos 20 anos aproximadamente, diz claramente que "não quero ser famosa. Tenho certeza que não aguentaria a pressão". Dito e feito. Contudo, não creio que a fama por si mesmo a destruiu. Ela própria, em sua possível fragilidade egóica e vulnerabilidade afetiva, parece ter contribuído para tal. Uma combinação por demais fatal: ego frágil + fama. E nós, aqui do outro lado do balcão, concluímos por canibalizá-la.
Será que ainda estamos buscando "pão e circo"? Que celebramos, como os antigos romanos celebravam seus gladiadores, saudando àqueles que vão morrer? Há, no fundo obscuro da alma humana, um gosto mórbido ou ancestral pelo sangue alheio? Parece que aqui amor e ódio andam bem juntinhos, né? Ou será que por detrás das nossas costelas invejamos a quem idolatramos? Ou será que precisamos consumir até a exaustão e extinção nossos heróis e ícones como uma forma de simbolicamente reciclarmos os mesmos? A vampirização do ídolo pelo fã é algo que merece estudos e aprofundamentos. Alguém até já chamou isso de iconofagia.
O documentário sob comento é contundentemente claro: Awy não foi nem de perto uma santa nem muito menos um anjo decaído. Ela tinha lá os seus demônios pessoais que tóxicos e bulimicamente lhe mataram. Assim como nós temos os nossos que projetivamente gozamos vê-los agonizar no morrer dos outros. Como dizia o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre "o inferno são os outros".
Pranteamos a morte de Amy Winehouse. Festejamos porque estamos vivos. Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.
Joaquim Cesário de Mello