domingo, 18 de janeiro de 2015

O FIM DA INFÂNCIA









Estranho título, não? Talvez não soe estranho para quem já teve a oportunidade de conhecer o livro A História Social da Criança e da Família de Philippe Ariès. Contudo, o leitor aqui presente que não leu ou conhece a referida obra e estudo, não se confunda: não estamos a falar de crianças (meninos ou meninas), mas sim da infância, ou melhor, do sentimento de infância.
Neste seu farto livro Ariès tematiza o conceito de infância através de três blocos históricos, a saber: Antiguidade, século XIII e do século XVIII até os tempos atuais. Até o século XIII, demonstra o autor, a criança praticamente era vista como um adulto em miniatura, não havendo distinção clara entre o mundo infantil e o mundo adulto. Já a partir de meados do século XIII vai-se ter a primeira transformação na ideia de infância que começa a preservar a inocência da criança, e para isto afastando-a do convívio adulto através da criação de instituições escolares. Já no terceiro período histórico – século XVIII – consolida-se o conceito de infância como o herdamos. É desta época em diante que vai gradualmente ocupando o lugar central no seio da família que, por sua vez, transforma-se em uma família pedifocal.


O privilégio dado à criança de ser criança parece estar sofrendo um retrocesso, embora muitos de nós não nos apercebamos. Comecemos pelo vestuário. Os meninos e meninas de agora se vestem como adultos, bem como se comportam como se adultos fossem. Vivenciamos o declínio e até mesmo a supressão da infância como fase inicial da vida, mediante o encurtamento da fronteira entre o mundo da criança e o mundo do adulto.
O tempo de convivência dos pais com as crianças é cada vez menor, bem como a outrora figura da mãe presente em casa e na criação da prole está se escasseando, devido principalmente ao duplo carreiramento profissional do casal. Os filhos quando não estão entupidos de tarefas e atividades (escola, balé, inglês, judô, natação, etc) estão entregues à “pedagogia da mídia” (televisão, dvd, internet, games, etc). A família mal tem espaço e tempo para se reunir e conversar sobre a vida e o cotidiano. 

O declínio gradual da infância enquanto infância é bem discutido pelo crítico social norte-americano Neil Postman, em seu livro O Desaparecimento da Infância. Lembra-nos o autor que vivemos um período histórico onde a presença da mídia eletrônica se faz de maneira hegemônica e dominante. Para ele a televisão, por exemplo, contribuiu em muito para destruir a linha demarcatória entre infância e adulteza. Frente à televisão a criança, embora protegida pelas paredes do lar, está exposta a inúmeras e incontáveis imagens e cenas de violência e sexualidade, bem como é instigada a uma postura de consumismo exacerbado. Por meio da televisão e da internet uma criança precocemente entra em contato com o mundo adulto e, às vezes ou muitas vezes, com o que ele tem de pior.
Mesmo que o leitor ora presente ache normal ou nem perceba, tente observar com mais agudeza as brincadeiras infantis de hoje e verá que as mesmas estão adultificadas. Os sinais da precocidade adulta na criança são claros e visíveis: modelo de roupas, hábitos alimentares, linguagem, comportamento, objetos de uso pessoal, erotização, participação de menores em práticas delituosas ou criminosas em número crescente. O visual de uma criança e de um adulto é cada vez mais idêntico, distinguindo-se quase tão somente pelo tamanho diminuto. Será isto uma regressão sócio-histórica para antes do Iluminismo?
A infância é um artefato social, não uma categoria biológica”, escreve Postman. A infância, criada conjuntamente com o surgimento da Modernidade, a cerca de 350 anos atrás está em estado agonizante. O paradigma antes vigente floresceu durante os referidos séculos e sedimentou entre 1850 e 1950 (surgimento da televisão), período este em que a criança passou a ser alvo de atenção exclusiva, tempo este também que moldou a constituição da família burguesa. 
A crítica de Postman à televisão tem sua relevância e pertinência, visto que, ao contrário da literatura, não há hierarquia de compreensão e linguagem, pois a imagem é para todos, crianças ou adultos. Televisão não requer compreensão – diz Postman – e sim recepção. O volume frenético de informações contribui sobremaneira para ir minando e acabando com algumas fases da vida. Da mesma maneira que o mundo letrado de antes ajudou a separar ou ampliar os limites entre o mundo infantil e o mundo adulto (literatura infanto-juvenil e literatura de adulto), a televisão e a internet, com seu poder de poderem ser assistidas por qualquer faixa etária, acaba por construir novos e diferentes valores sociais. A cultura de consumo e a ideologia da sociedade de massa constroem assim corações e mentes, e praticamente quase todos não acham nada demais verem suas filhas em festinhas infantis dançando a dança da garrafa, eroticamente rebolando em cima de uma garrafa – como já tive oportunidade de presenciar.
Joe Kincheloe, coautor do livro Cultura Infantil, afirma que “o acesso das crianças a informações do mundo adulto transformou tudo drasticamente, ou alguém por acaso duvida que tanto a televisão, como a internet e outras mídias, funcionam como uma espécie de “babá eletrônica” das crianças pós-modernas? Percebam que se antes a memória que trazíamos de nossas meninices eram impregnadas pelas lembranças das presenças de nossos pais e de outras crianças, as dos futuros adultos do por-vir virão cheias de imagens eletrônicas provindas de telinhas de computador, Ipod, tablet e televisão. Quantas crianças não aprendem primeiro a manejar computadores antes mesmas de serem alfabetizadas? Nem necessita responder, é só olhar ao redor.

Os meninos e as meninas estão virando adolescentes cedo demais, até mesmo antes da puberdade, enquanto que os adultos estão ficando cada vez mais adultecentes, como se a adolescência fosse uma interminalidade interminável. Vivemos um imenso paradoxo: enquanto os adultos de infantilizam, as crianças se adultificam. Evidente, portanto, que as relações intersubjetivas sofrem alterações sob a influência insidiosa da mídia e da sociedade de consumo.
Fim do mundo? Não, outros tempos. Tempos onde as crianças não pedem permissão aos adultos para aprender. Tempos tecnológicos estes em que os adultos é que são ensinados pelos “pirralhos”. Só temo sobreviver até o dia em que não haverá mais crianças, adultos ou velhos, mas só uma multidão de incansáveis adolescentes. Não quero, sinceramente, estar vivo quando vivermos em uma sociedade sem crianças, ou melhor, uma sociedade sem o sentimento da infância e toda a sua puerilidade ingênua e de lúdica inocência. Não quero participar de uma cidade de Hamelim onde o flautista nos tirou todas as crianças, mas sim resisto em continuar desejando o ser humano em todas as suas idades.

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 11 de janeiro de 2015

"Nascemos originais e morremos plágio" Millôr Fernandes



No meu último artigo aqui no literalMENTE falei da repetição e agora, motivado por filme que assisti nesse intervalo de 15 dias  continuarei com esse tema.  Ando percebendo que o cinema, nos últimos anos,  tem se mostrado pouco criativo, embora que possa citar uma ou outra exceção. Confesso que hoje para assistir a filmes, prefiro que tenham previamente me  recomendado ainda assim demoro-me, protelo  – o passar do tempo me deixou impaciente e duas horas de filme  soa-me como perda de tempo.  prefiro perder tempo lendo, conservo a teimosa ideia  de que os filmes são inferiores aos livros – sei que é um equívoco.

O filme que assisti é pouco conhecido das pessoas e seu título é pouco atraente – “Cópia Fiel” de Abbas Kiarostami diretor que guarda alguns premios. Do filem não escutei comentários - nem contra nem a favor. Talvez para o cinéfilo,  esse filme seja não só conhecido, mas obrigatório - estou longe  desse lugar. O filme tem um enredo que, de início, parece comum – faz lembrar aquela trilogia “Antes do Amanhecer”  em versão menos juvenil ou européia e mais iraniana, haja vista seu diretor. Mas não é só isso: nos primeiros minutos de exibição, observa-se que se vai dissolvendo o lugar-comum  e o roteiro  adentra em território de eventos surpreendentes – tive sensação semelhante quando assisti, há muitos anos, à "Uma Simples Formalidade” que me tirou de um longo tédio e me atirou   no susto nos seus minutos finais.  Digamos que em “Cópia Fiel” essa virada ocorre gradativamente..


O filme tem boa, ou melhor ótima, locação: a Itália,  a região da Toscana e a fotografia é maravilhosa.  Narra um encontro inusitado entre um filósofo-escritor - que viera lançar um livro na Itália - e uma mulher, dona de uma galeria de artes. O título do livro é justamente o título do filme: “Cópia Fiel”.  O livro desenvolve, com erudição, o tema do “original” e a da “cópia” como caprichos da sociedade moderna-contemporânea, citando como exemplos as obras de arte. Segundo o autor/personagem, a ideia de originalidade cai por terra, na medida em que as criações são sobreposições de criações anteriores. Discute-se o “original” e a “cópia” como influência e/ou como  falsificação  e, entre essas duas condições, várias repetições. O filme poderia ser resumido com a famosa frase de Millôr Fernandes de que "nascemos originais e morremos plágio". No diálogo-passeio estabelecido pelo casal, se propõe que a ideia de estudar a cópia fiel está  além de uma escolha acadêmica. Escolhemos temas de acordo com nossas faltas e repetições e  é justamente das faltas que vem o desejo. O filme faz lembrar que mesmo que tentemos nos distanciar de nossas escolhas, caímos em armadilhas do desejo. Como disse Francoise Dolto: "no jogo do desejo as cartas são marcadas e os dados viciadas".

O filme também me fez lembrar o livro de Jensen “Gradiva” que foi analisado minuciosamente por Freud e que se fez referência ao círculo que fazemos e percorremos para cair mais ou menos no mesmo lugar. Mesmo o mais sábio dos sujeitos cai em armadilhas tão convencionais que se surpreendem com a repetição. 

Marcos Creder

Obs: observei que a leitura desse artigo acima poderá ser prejudicada na compreensão. Preferi manter as imprecisões a ter que contar o filme. Falar mais seria dar spoiler.

domingo, 4 de janeiro de 2015

TRANSITORIEDADE VERSUS PERMANÊNCIA





Séculos antes de Cristo, Heráclito já dizia que "tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado.... Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo.... É na mudança que as coisas acham repouso...." A vida, segundo Heráclito é um fluxo permanente em que nada permanece, pois tudo se transforma em seu contrário. O cerne do seu pensamento, à época original e inovador, era perceber que nada existiria sem o seu oposto, e que o mundo e a vida se faz em uma constante luta entre contrários. Os sentidos humanos nos enganam ao nos iludir por enxergar muitas vezes as coisas como imóveis, estáveis e perenes. Não são. Tudo que é vivo se move, tudo se transforma, tudo passa. O existir é constituído de mutabilidades e instabilidades. O se mover no mundo é um caminhar em terreno movediço. O dia se tornará noite e a noite se tornará dia novamente, continuamente. A guerra - afirma Heráclito - é mãe e rainha de todas as coisas. 
É na mudança que as coisas acham repouso, isto é, "tudo muda exceto a própria mudança". Nada o que é será para sempre, nem o para sempre é para sempre continuamente. Até na Física contemporânea se discute a finitude do universo que se iniciou em uma explosão cósmica chamada "Big Bang" (fenômeno este que teve origem estimativamente a cerca de 13,5 bilhões de anos atrás), embora também hajam aqueles que creem que o universo seja infinito e se expandindo sem limites no tempo e no espaço. Físicas à parte, aqui no planeta Terra a vida das coisas e dos seres, individualmente falando, tem lá seu início e tem lá seu termino. A vida, qualquer vida, é frágil e breve, algumas podem durar mais e outras menos. "A morte nos ensina a transitoriedade de todas as coisas", escreve Leo Buscaglia.
Vivemos, então, este dilema, este conflito e esta luta: queremos ser permanentes enquanto somos transitórios. Muitos sofrem pela caducidade da vida e da beleza de certas coisas. O desejo da eternidade ou da infinitude parece querer impor seus anseios. Porém Freud nos ensina que a permanência, ou a duração absoluta, não é condição para apreciar e usufruir a essência, o valor e o significado subjetivo da vida. A limitação da fruição, prossegue Freud, eleva o valor dessa fruição. E afirma: "uma flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela".  A exigência de imortalidade, ambição da alma humana, não consegue se sobrepor às exigências da realidade. Não é porque a cada dia nos esvanecemos um pouco, até o derradeiro dia, que não podemos nos encantar com o belo que nos transita na transitoriedade de nossas vidas. A descoberta da nossa própria efemeridade e da fragilidade fugaz do mundo humaniza ainda mais o humano que nos habita. Ou como diz Montaigne, "quem ensinasse os homens a morrer, os ensinaria a viver".
E assim sofre o homem de impermanências. Há quem procure consolo e asilo nos pensadores de hoje. Eu, particularmente, busco cada vez mais a sabedoria dos de antigamente. Mas - dirão alguns - os tempos atuais são outros e o mundo está diferente. Refuto dizendo que as inquietações basilares da alma humana são as mesmas, visto que nos ainda somos passíveis de nos encantar e de nos espantar com o que nos cerca. Eis uma permanência que reside subjacente na transitoriedade individual e subjetiva de cada alma humana. Isto é inerente ao espírito humano. Em cartas dirigidas a Paulino, Sêneca disserta: "a maior parte dos mortais queixa-se da malevolência da Natureza, porque estamos destinados a um momento da eternidade, e, segundo eles, o espaço de tempo que nos foi dado corre tão veloz e rápido, de forma que, à exceção de muitos poucos, a vida abandonaria a todos em meio aos preparativos mesmos para a vida". Porém rebate o filósofo: "não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores... a vida, se souberes utilizá-la, é longa". 
Em seu "Sobre a Brevidade da Vida" Sêneca nos enriquece e clareia à alma que uma vida longa e uma vida curta se diferencia não pelo tempo que a vivemos, mas pelas decisões que nela tomamos e pela sabedoria com que a desfrutamos. Esquecemos das coisas simples ao nos cegarmos pelo brilho indiferente do sol e das estrelas. E nos lamentamos, como expõe Fernando Pessoa, em lamúrias que choram "ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram". O que produzimos, esclarece Sêneca, no final das contas, é o que realmente vale. Lembremos permanentemente, no transitar contingente de tudo, que nossas vidas - a minha, a sua e a de cada um - é nossa e que somos responsáveis por elas, valorizando-as e sabendo dar importância e dedicar tempo ao que realmente importa. Ou ainda como bem diz Sêneca: "Não julgues que alguém viveu muito por causa de suas rugas e cabelos brancos: ele não viveu muito, apenas existiu por muito tempo. Julgas que navegou muito aquele que, tendo se afastado do porto, foi pego por violenta tempestade e, errante, ficou à mercê dos ventos, ao capricho dos furacões, sem, no entanto, sair do lugar? Ele não navegou muito, apenas foi muito acossado."

Negando a impermanência e a vicissitude, apegamo-nos. Acreditamos até, quando passamos por um momento ruim e adverso, no prolongamento e na durabilidade do instante. O fim, o término, a morte e o passageiro, nos convida, pois, a aproveitar a vida e seus instantes. Robert Herrick, poeta inglês do século XVII, versou: "colhe teus botões de rosa enquanto podes/O Velho Tempo ainda corre/E esta mesma flor que ainda sorri/Amanhã estará à morte". Evite, caro leitor(a), ver tais versos como mórbidos. Ao contrário, perceba-os como um verdadeiro chamamento ao carpe diem, a velha expressão latina que Horácio, em suas "Odes", declamou ao nos sugerir colher de todo o momento fugaz seu proveito. Mas não confundamos "colher o dia" como gozar o dia no sentido hedonista do termo. O epicurismo defendido por Horácio salienta que a beleza e a vida são perecíveis, e que devemos viver o hoje sem grandes preocupações com o amanhã e, assim, não se deve desperdiçar o agora e sim aproveitá-lo. Podemos ver embutido também o seguinte significado: não gastemos tempo com coisas insignificantes, inúteis ou sem sentido. Saborear o presente não representa viver intensamente como se não houvesse amanhã. Se o futuro depende daquilo que fazemos no presente, como dizia Gandhi, temos que roubar do agora vivido o que pudermos levar para o porvir, como também escreve o escritor e jornalista português Miguel Cardoso, para quem o que mais valem são as poucas e pequenas coisas que fazemos e experienciamos, pois elas ninguém haverá de nos retirar no futuro. 

Cuidemos de nossas vidas como quem cuida de um jardim. É no nosso não-futuro que reside a felicidade que devemos saber tirar das pequenas coisas, afinal, como alega Schopenhauer, é no aqui-agora que repousa exclusivamente nossa existência. Jamais esqueço dos ensinamentos do poeta Mário Quintana: "o segredo não é correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você". 
No Salmo 90:12 Moisés pede a Deus que o ensine a contar os dias para que possa alcançar um coração sábio. Sim, é sabendo que os dias passam e que não são muitos que temos a sabedoria em desfrutar cada momento de nossas vidas naquilo que de fato nos é útil e frutífero, pois a vida é um vapor que aparece por um pouco e depois se desvanece (Tiago 4:14). Não penso na vida eterna, mas na eternidade do que me é passageiro. Por isto, indago-me: tenho me dedicado ao que importa?; tenho amado quem me ama e a quem eu amo?; tenho valorizado o sorriso, o vento e o abraço? tenho em minha companheira a certeza de ter um companheiro?; tenho feito do cotidiano a realidade dos meus sonhos?; tenho olhado mais para as coisas que olho menos?; "antes de que se rompa o fio da prata" (Eclesiastes 12:6) tenho visto no semblante da minha filha o orgulho, a alegria e o gostar de ter tido um pai?; tenho concebido da singularidade da minha vida a especialidade e o sentido de quem deveras sou?...
            Sei que quando o dia for noite e o céu for cinza, quando sentir o abatimento do que me é contrário e quando o lá fora parecer não me interessar, haverei sempre de ouvir os versos de Carlos Pena Filho:


"lembra-te que afinal te resta a vida
com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.

Joaquim Cesário de Mello