sexta-feira, 19 de junho de 2015

DIÁRIO DE AULA - ESPECIAL

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Para se trabalhar psicoterapicamente famílias é necessário um esquema referencial teórico para que possamos operacionalizar o manejo e abordagem. É como Saint-Exupéry dizia: "o essencial é invisível aos olhos", isto é, para que possamos "enxergar" a estrutura e dinâmica familiar se faz necessário um olhar teórico, pois sem isso apenas enxergaremos um grupo de pessoas em ação. Teoria é um conjunto de princípio fundamentais, uma tentativa de entender e explicar fenômenos e a realidade. Etimologicamente teoria vem do grego theorein que significa observar. Porém teorizar é mais do que meramente observar, e sim compreender e percepcionar a realidade além da experiência sensível. Neste sentido mais intelectual, teoria é preciso compreender tais experiências e suas expressividade à luz da linguagem, dos conceitos e dos postulados.
No campo do estudo de família encontramos várias teorias pertinentes, entre elas a Teoria Sistêmica, a Estrutural, a Estratégica, o enfoque Psicanalítico, a escola Construtivista, a Cibernética e por aí vai. Vamos, portanto, abaixo, pontuar alguns aspectos da Teoria Estrutural e da abordagem Sistêmica. 
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Para início de conversa vamos compreender a família como uma unidade funcional que, assim como um organismo vivo, age e se regula como um sistema. Sim, a família pode ser entendida como um sistema vivo, aberto, em constante transformação. E como tal (sistema) existe o lado de dentro e o lado de fora do sistema. Chamemos o lado de dentro de intrasistêmico e o lado de fora de intersistêmico (considerando que um sistema interage com outro sistema para um funcionamento de um sistema maior que aqui denominamos de comunidade/sociedade). Dentro de um sistema, por sua vez, existe os subsistemas (subgrupos de um grupo). Os subsistemas podem ser vários: parental, conjugal, fraternal, individual, assim como podemos utilizar outros critérios, tipo: gênero, geração, grau de parentesco, etc. Um elemento pertencente a um subsistema pode a mais de um subsistema outro. Cada subsistema tem regras e limites específicos. Desse modo podemos conceituar a estrutura familiar como sendo composta por um sistema que é igualmente composto por subsistemas. Uma família assim é formada pelos subsistemas e suas inter-relações. Já a dinâmica familiar é a comunicação entre o sistema familiar com outro sistemas, bem como entre os subsistemas que se encontram abrigados dentro do sistema familiar. 
Resultado de imagem para minuchin. livrosSalvador Minuchin define a estrutura familiar como "um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza as maneiras pelas quais os membros da família interagem. Uma família é um sistema que opera através de padrões transacionais. Transações repetidas estabelecem padrões de como, quando e com quem se relacionar e esses padrões reforçam o sistema". A estrutura compreende três dimensões: fronteiras, regras e hierarquia/poder.
Resultado de imagem para fronteiras familiaresSe um sistema ou subsistema possuem parte interna e externa, então há de se falar de fronteiras sistêmicas e intrasistêmicas. As fronteiras determinam quem está dentro e quem está fora de um sistema/subsistema e definem o papel de cada um dentro dele. As fronteiras familiares são fenômenos interativos e podem ser observadas através das condutas verbais e não verbais das pessoas envolvidas. As fronteiras podem ser abertas ou fechadas. Em famílias disfuncionais notamos a presença de fronteiras rígidas (muito fechadas) e fronteiras difusas (muito abertas). 
Resultado de imagem para familia aglutinadaQuando as fronteiras sistêmicas são bastante rígidas temos o fenômeno das famílias aglutinadas, também chamadas de emaranhadas. No emaranhamento não se distingue os espaços próprios de cada indivíduo. Já nos sistemas familiares onde as fronteiras sistêmicas são difusas, temos a família fragmentada, também chamada de família cismática ou  desligada. No desligamento, ao contrário das família aglutinadas, observa-se que as fronteiras de cada membro são delimitadamente tão rígidas que cada membro da família não parece ter nada a ver com o outro, isto é, é cada um na sua. 
Resultado de imagem para familia disfuncionalAs família aglutinadas são aquelas onde existe excesso de coesão e ausência de individualidade. Nas famílias cismáticas temos excesso de individualidade e ausência de coesibilidade (espaço de pertencimento afetivo). Lembrar que as famílias transitam entre duas forças antagônicas e necessárias à função familiar que são: a coesão e a individuação. A família funcional é aquela que coexistem tanto a coesão familiar quanto a individuação dos membros. 
Sei que o assunto é longo e se estende mais. Porém como foi até aqui que conseguimos chegar com a disciplina FAMÍLIA E REALIDADE SOCIAL neste período universitário, então meu texto se encerra por aqui. Contudo, com vistas a aprofundamentos e melhor conhecimento sobre o assunto sugerimos os seguintes links:


- FAMÍLIA NUCLEAR E TERAPIA DE FAMÍLIA 

- MODELOS DE FAMÍLIA E INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA

- A PERSPECTIVA SISTÊMICA PARA A CLÍNICA DA FAMÍLIA

- DOMINANDO A TERAPIA FAMILIAR 

Dedico este post à meia dúzia de "gatos pingados" que hoje participaram da "aula free". Sua preferência de estarem em sala mesmo no início das férias demonstrou comprometimento e investimento no que escolheram como futuro profissional. O meu agradecimento e reconhecimento aos mesmos. Continuem se dedicando e levando a sério seus estudos. Lembrar que quem tira férias são os meros alunos. Estudantes sempre continuam estudando. Isto faz a diferença. Com certeza. 

Joaquim Cesário de Mello


domingo, 14 de junho de 2015

De um desejo insaciável



Na adolescência li um livro que do nada caiu nas minhas mãos. Estava escondido por trás de outro livros, encadernado com letras douradas e lombada vermelha, tinha, inclusive, uma tira de tecido como marcador, enfim, lembrava livros infantis vistos nos filmes de bruxa ou de contos de fadas - falo assim, porque acho que toda coisa escrita carrega mitos e magias; livros não são tão enfeitiçados como imaginamos, mas assim como uma bruxa lê em voz alta palavras encantadas, as palavras dos livros, de qualquer livro, pode nos encantar. Do livro que encontrei ao acaso, percorri-lhe as  primeiras páginas, e assisti ao narrador/personagem -  um escritor  - trazer a sua miséria: Vender textos para reduzir-lhe a fome. Cada publicação rende-lhe algumas refeições e paga as despesas da modesta moradia .  Assim como seus textos, o personagem vende objetos pessoais para que, do mesmo modo, sacie a fome. O estranho e o enigmático é que a única alternativa que o personagem encontra para sobreviver é pelo seu ofício. Somente escrevendo que se come. O que está em jogo é a manutenção da vida, e a vida do personagem é manter-se escritor. Manter-se escritor é esticar a corda  entre a necessidade  e o desejo. Comer é a necessidade, escrever é desejar.

O livro “Fome”, do escritor Norueguês Knut Hamsun, escrito no século XIX, em 1890, subverte a literatura da época - para quem lê nos dias de hoje, julgará atual, fato que fez o escritor Thomas Mann  chamá-lo do “maior escritor de sempre”. Apesar de desconhecido, acredita-se que Hamsun influenciou a literatura ocidental. Hansum é capaz de criar do seu personagem um rico diálogo - melhor dizendo, um monólogo interior - trazendo sempre à tona as questões sobreviventes.   Na verdade, a fome está lá, mas também está, em igual ou maior intensidade, na insaciedade do literata.

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Sabe-se que os primeiros estudos sistemáticos dos transtornos alimentares datam do início e de meados do século XX - uma pergunta que se  faz com muita frequência: antes disso não havia anorexia nervosa? Possivelmente sim, mas  em menor proporção e menos visibilidade. Podemos dizer que, assim como os eventos do dia-a-dia humano, as doenças tem lá seus “modismos”. Há no humano uma insaciedade,  uma necessidade de manter padrões do ideal. O ideal de corpo, por exemplo, dos nossos tempos,  séculos XX e XXI são diferentes dos do século XXVIII e XIX - as roupas, nestes tempos, eram volumosas e as mulheres ideais eram mais gordinhas. Quando observamos o fenômeno da anorexia nervosa, condenamos, de maneira desavisada, a jovenzinha de corpo desnutrido ou esquelético, julgando-a fútil. contudo, a jovem da atualidade, busca, e por vezes adoece, um novo padrão de corpo ideal. Do mesmo modo que o personagem de Hansum, a fome está, aqui,  a serviço da satisfação narcísica do permanente desejo de ser melhor, de superar-se - coisa bem humana, por sinal. Há um desejo de se satisfazer a custo da restrição. A fome sustenta na novela norueguesa a estética do texto e o desejo de ser escritor, a fome está para a jovem modelo a serviço da estética de corpo - o corpo gótico imposto na atualidade.

A ideia que as pessoas tem de seu próprio corpo é escassa e as suas interpretações subjetivas, tem significativa influência no corpo psíquico - é, inclusive, possível emagrecer ou engordar psiquicamente, sem perder ou ganhar um grama do corpo  fisiológico. O corpo enfim, é uma atribuição de valores, que flutuam de acordo com os ideais de uma sociedade. Os que exageram, adoecem. A fome em Hansum e na anorexia é saciada por coisa nenhuma.

Marcos Creder