domingo, 30 de junho de 2019

SOLIDÃO






A solidão é algo inerente ao ser humano. Utilizando-me de Heidegger, cada ser está por si só no mundo. Quando nascemos somos nós que nascemos, assim como morrendo somos nós que morremos. Embora desde o nascimento vivamos em coletividade, sou eu que nasço, sou eu que morro. Somente. Assim como os outros também.

Mas, por que mesmo assim, sofremos ao nos sentirmos sós, mesmo que em meio a multidões? Esta solidão que nos queixamos ou tememos vem do lado de dentro da alma, do interior de cada homem. É aquele sentimento de isolamento e vazio que nos dá. Uma sensação de separatividade, de que algo está faltando, de que ninguém nos ama, de que estamos desconectado e, às vezes, nem sabemos de que. É como se todo o dia, o dia inteiro, fosse uma enorme noite que começa a partir de dentro de mim. O escritor francês Victor Hugo já dizia que "todo inferno está contido nesta única palavra: solidão". Solidão assim vista, assim sentida, é pura tristeza, profundo pesar.
Já que nascemos sozinhos, de onde vem, então, este sentimento doloroso de solidão? Da infância, é claro. É lá, desde criança cedo, nos primeiros longínquos medos que nos dava ao sermos deixamos sozinhos em um quarto. A base emocional do sentimento de solidão repousa, pois, em um outro angustioso sentir: o desamparo. O desamparo psíquico está diretamente relacionado às sensações primárias e infantis de abandono e privações de necessidades emotivas. Carência e ausências de vínculos protetores e apego seguro nos predispõem aos vazios da alma humana. Tais vazios, por sua vez, criam dentro de nós um espaço de uma depressão sem tristeza e de sentimentos inominados.
Quando a alma é dominada pela solidão tudo parece transbordado de deserto e ela se encolhe, se retrai e se fecha hermeticamente. O poeta alemão Rainer Maria Rilke assim descreve a solidão:


A solidão é como uma chuva. 
Ergue-se do mar ao encontro das noites; 
de planícies distantes e remotas 
sobe ao céu, que sempre a guarda. 

E do céu tomba sobre a cidade.

Não há idade, raça, credo, gênero, nível sócio-econômico, a solidão é algo que pode acometer qualquer um. Embora a solidão como sentimento seja um fenômeno psíquico, há uma forte relação entre solidão e isolamento. Quanto mais uma pessoa se encontra afastada, privada ou separada de convívio social, mais ela se sente solitária. E vice-versa, pois quando se está com profundos sentimentos de solidão a pessoa tende a se retrair socialmente. Porém deixemos logo claro a diferença: enquanto isolamento social representa estar só, a solidão representa sentir-se só.
De um modo geral há em nós uma tendência a fugir e a se recolher quando nos sentimos ameaçados, por exemplo, ou quando nos sentimos agredidos, intimidados ou criticados. Caso tenhamos uma baixa autoestima (temporária ou crônica) tal tendência reage a eventos até banais e corriqueiros da vida. Todavia, quando isto acontece, o indivíduo não sente seu interior como verdadeiramente um abrigo, um refúgio, mas sim é acometido de estados de vazio, insatisfação e tédio. O estar só consigo mesmo é, então, amargo, penoso e triste. É como diz Rilke nos versos finais do poema Solidão, cujas estrofes iniciais citei acima: "quando aqueles que se odeiam/têm de dormir juntos na mesma cama:/então, a solidão vai com os rios..."

Pois é, sabemos que a solidão vem das raízes do sentimento de desamparo do bebê. Quando obrigado a se desencapsular do narcisismo onipotente de suas ilusões primitivas encontra no corpo materno o agasalhar abrigante de seus medos e ânsias. Mas o outro não é ele. O outro e seu corpo se separam da criança. E ela fica só, pois o emergir de um Eu se produz na intimidade da solidão agora descoberta. 
O Eu dentro da mente, ou melhor a noção de Eu, nasce, portanto, concomitante à solidão. Na exploração do mundo que se agiganta, descortina-se ao psiquismo a sua inescapável condição: sua solitude. Dentro de nosso corpo, dentro de cada corpo, habita uma pessoa chamada Eu. Saber conviver sozinho consigo mesmo prepara a mente para os enfrentamentos da lutar pelo viver. E é dentro de mim, dentro de cada um de nós, que podemos sonhar acordados. No estar só consigo próprio, planta-se o solo saudável do adulto de amanhã.
Eis, em resumo, o grande paradoxo humano. ou seja, a dependência x a autonomia. Nesta luta existencial, jamais deixaremos de possuir laços de dependência. Todos continuaremos, vida a fora, em busca de afetos, trocas e reconhecimentos. Por isso muitas vezes buscamos o outro. Por isso outras vezes nos sentimos sós. Em seu livro O Labirinto da Solidão, escreveu Octavio Paz que "a solidão é o fundo último da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e que procura um outro". 
Alguém já disse que a angústia não se compartilha e que a dor da falta é solitária. No interior do ser humano habitam carências e faltas. Quem não é, em si mesmo, um baú de perdas e um tesouro de ausências? Não douremos a pílula, isto é, nem cultuemos o sentimento de solidão em si, nem o endemoniemos. Há a solidão dos solitários, como descreve a seguir Marcel Proust: "No solitário, a reclusão, ainda que absoluta e até ao fim da vida, tem muitas vezes por princípio um amor desregrado da multidão e tanto mais forte do que qualquer outro sentimento, que ele, não podendo obter, quando sai, a admiração da porteira, dos transeuntes, do cocheiro ali estacionado, prefere jamais ser visto e renunciar por isso a toda e qualquer actividade que o obrigue a sair para a rua". Há a solidão do reencontro, como descreve Clarice Lispector: "Minha vida é um grande desastre. É um desencontro cruel, é uma casa vazia. Mas tem um cachorro dentro latindo. E eu — só me resta latir para Deus. Vou voltar para mim mesma. É lá que eu encontro uma menina morta sem pecúlio. Mas uma noite vou à Secção de Cadastro e ponho fogo em tudo e nas identidades das pessoas sem pecúlio. E só então fico tão autônoma que só pararei de escrever depois de morrer. Mas é inútil, o lago azul da eternidade não pega fogo. Eu é que me incineraria até meus ossos. Virarei número e pó. Que assim seja. Amém. Mas protesto. Protesto à toa como um cão na eternidade da Seção de Cadastro".
Resultado de imagem para baile,pinturaHá ainda a solidão libertadora, como explica o filósofo Shopenhauer:"Nenhum caminho é mais errado para a felicidade do que a vida no grande mundo, às fartas e em festanças (high life), pois, quando tentamos transformar a nossa miserável existência numa sucessão de alegrias, gozos e prazeres, não conseguimos evitar a desilusão; muito menos o seu acompanhamento obrigatório, que são as mentiras recíprocas... Assim como o nosso corpo está envolto em vestes, o nosso espírito está revestido de mentiras. Os nossos dizeres, as nossas ações, todo o nosso ser é mentiroso, e só por meio desse invólucro pode-se, por vezes, adivinhar a nossa verdadeira mentalidade, assim como pelas vestes se adivinha a figura do corpo".  
Resultado de imagem para solidão criativa,,pintura E há os que professam a solidão como espaço criativo, que aqui se encontra nos dizeres da escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís:"A harmonia do comportamento social requer, todos o sabemos, tanto o isolamento como o convívio. Excessiva comunicação, debates exagerados de assuntos que requerem meditação e peso moral, avesso muitas vezes à cordialidade natural das afinidades eletivas, não enriquecem o patrimônio de uma sociedade. Antes embotam e alteram o terreno imparcial da sabedoria." 
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Sim, há solidões e solidões. Muito depende da nossa autoestima. Muito depende se gostamos ou não da pessoa que nós carregamos em nosso interior, embora imperfeita, falha, frágil, carente, incompleta e, às vezes, até ainda enlutada, é o humano que nos habita, com toda sua força e vulnerabilidade, com toda suas virtudes e defeitos, com toda sua extensão e limitação. A solidão, assim, não é apenas algo que nos dói, mas algo de que também necessitamos. É preciso gostar de si próprio para poder estar só consigo mesmo.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 26 de maio de 2019

O AMOR, APESAR DE TUDO

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Nunca fui a Berlim. Muito provavelmente  jamais irei ou terei a oportunidade de ir a Berlim. Mesmo que um dia eu vá, jamais conhecerei a Berlim do filme Familiye. A Berlim pano de fundo é o que se chama de uma cidade paralela. Enfoca o subúrbio pobre de predominância turca, parecendo menos um bairro e mais um gueto onde se vive de pobreza, corrupção, vícios e violência.

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A família em questão se resume a três irmãos. Um ex-presidiário em recente liberdade condicional, outro adicto em jogos e o terceiro, Muhammed, que tem síndrome de Down. embora seja um longa de diretores estreantes (Kubilav Sarikawa, Sedar Kirtan e Erhan Emre), e talvez até por isso mesmo, o filme é áspero, rude e um tanto cru. Combina com a história e a cercania da paisagem. Todo o bairro é uma espécie de grande, tumultuada e conturbada família. 

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Assistir Familiye, totalmente realizado em preto e branco, não nos dá uma sensação de estarmos assistindo uma película, mas sim como se estivéssemos passeando ao vivo pelos arrabaldes cinzentos do distrito de Spandau onde se desenvolve o filme. Não é um passeio turístico, avisamos, mas um andar pelo submundo da cultura turca que habita a cultura alemã. Todavia, se a dureza das ruas se mostra em suas vísceras, o carinho e a ternura dos laços afetivos também mostra a sua cara. Se lá fora a crueza e a luta pela vida impera, dentro do pequeno cubículo onde reside a família a lealdade sobreleva-se. 
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Como diz o cineasta Kubilay, o filme em questão se resume em uma única palavra: amor, amor entre irmãos tão diferentes, mas tão pertos entre si. A conferir pela Netflix.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 12 de maio de 2019

FANTASIA MAIOR QUE O MUNDO

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O psiquismo humano é inicialmente narcisista. O desenvolvimento da pessoa que vai se formando dentro da mente passa pelo surgimento de algo que não havia originariamente na psiquê rudimentar: um EGO. Didaticamente falando EGO é a parte do aparelho psíquico que lida com o mundo externo e a realidade. O EGO, portanto, no interior da subjetividade, é um fundamental componente e matriz do construto psicológico denominado de personalidade, pois o EGO é responsável pela diferenciação que fazemos entre nossos processos psíquicos e a realidade que se apresenta à nossa frente. Podemos dizer, resumidamente, que o EGO é o núcleo da personalidade de um indivíduo. Sem EGO podemos ter um ser vivo, porém não temos uma personalidade vivente neste ser vivo. Para que um EGO se desenvolva a mente vai se afastando gradualmente do narcisismo primário.
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Todavia no percurso do emergir de um EGO na alma humana tal "nascimento" não se faz sozinho, visto ser acompanhado intrinsecamente pelo próprio conteúdo narcísico da mente. Por mais amadurecida que vem a ser o psiquismo a posteriori haverá ele de ter em si resíduos inescapáveis do período psicologicamente inaugural da onipotência infantil. Tais resquícios convencionamos chamar de EGO IDEAL. O EGO IDEAL é, pois, uma espécie de substituto psíquico do narcisismo infantil perdido. Um EGO IDEAL nada nada mais é do que um EGO idealizado, ou seja, detentor de toda perfeição.
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A expressão IDEAL DE EGO foi criada por Freud conjugadamente ao termo EGO IDEAL. Se o conceito de EGO IDEAL nos remete ao narcisismo da própria mente em relação a si mesma, IDEAL DE EGO, por sua vez, tem a ver com a idealização do EGO em relação com às figuras parentais, isto é, uma autoimagem mental estruturada a partir da identificações com o narcisismo dos pais, afinal narcisista não são apenas nós, mas os outros também, inclusive nossos progenitores e cuidadores principais. Os ideais que nossos pais projetam em nós desde pequenos são psiquicamente internalizados e compõem uma instância mental que unificadamente com o EGO IDEAL vão ser a base formativa do denominado SUPEREGO.

Resultado de imagem para ideal de egoA mente humana transforma-se, assim, em uma espécie de "campo de batalha" interno onde fantasias de cunho narcisistas se entrechocam com a realidade e suas possibilidades e tangibilidades. Embora tenhamos crescido, não sejamos mais nenhum bebê ou criancinha pequena, embora nosso psiquismo tenha amadurecido jamais deixaremos de ter um funcionamento psíquico de influência narcisista. Podemos ter perdido a infância ao não sermos mais crianças, porém psicologicamente a perda do narcisismo infantil é uma metáfora, afinal a grandiosidade e o exibicionismo de nossas originária imaturidade permanece remanescente como um substrato mental que aqui, no psiquismo menos menino e mais amadurecido, chamamos de EGO IDEAL e IDEAL DE EGO.

Idealizar é função da mente. Idealizamos porque temos a realidade que nos limita. O cotidiano e o mundo sem ideal nos é intolerável. Idealizar é necessário, mesmo que isso implique em desilusões e frustrações.

Joaquim Cesário de Mello



domingo, 28 de abril de 2019

OLHAR DE MENINO

Por ocasião da minha primeira comunhão
em 18/10/1964


O que tu olhas menino
no fundo das tuas breves inocências?

Ainda não te habitas
os machucados de tuas perdas
que vêm depois do findar da candura,
quando o mundo desencantado
haverá de tirar de ti
qualquer resíduo de eternidade.

O que tu olhas menino
nestes teus olhos de mares verdes
até então sequer um pouco desbotados?

Teus pecados infantes
e teus pequeninos segredos
ficarão imorredouramente trancafiados
no que resta do que ficou
deste agora tão longínquo retrato.

O que tu olhas menino?
Serão os sonhos que ficaram para trás
fixamente permanentes neste lugar de ontem
que para ti é o hoje
de onde partem teus anseios
posteriormente não consumados?

O que tu olhas menino?,
senão o filho que paristes com a vida
e que hoje te devolve o olhar
com saudade de quando carregava
um imenso céu por dentro de si.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 14 de abril de 2019

ESCOMBROS DE UMA ETERNIDADE ARRANCADA


          Hoje meu pai é apenas um nome de rua no bairro da Várzea. Dele nada mais me resta senão as esparsas lembranças de sua presença em minha infância, além de umas caixas que minha mãe zelosamente guardou ao longo de sua rápida existência, com textos, notícias, livros, rascunhos, documentos e algumas fotos, resíduos de uma época de mim tão cedo interrompida. 
         Perdi meu pai ao final da minha meninice, quando o mundo ainda era encantado. Como bem diz o escritor, ilustrador e músico português Afonso Cruz, todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. E foi lá, no éden da minha puerícia, que ficou para sempre a sombra hoje em preto e branco daquele que nasci e continuarei filho. 

O primeiro da esquerda para direita de terno preto (Cezário de Mello), com Gilberto Freire,
Carlos Pena Filho, Cordeiro de Farias, Aderbal Jurema e outros.
(acervo: Fundação Getúlio Vargas)

          Cascavilhando as caixas onde sobram os destroços e ruínas da infância, recentemente deparei-me com ecos empacotados no silêncio tumular dos encaixotados. Do jazigo da distante aurora da minha vida, encontrei dois poemas inéditos do meu pai (que foi poeta, escritor, crítico literário, jornalista, professor universitário e advogado). Reproduzo-os abaixo não meramente como um tributo, mas também como relembrança de um Joaquim que eu quase fui.

Agora,
nas pupilas de teus olhos
goivos noturnos.
Em tuas mãos desacordadas
o beijo das estrelas.

Não vi quando partistes 
nem quando chegastes ao pressentido porto
borboleta azul.
Vejo apenas que as auroras
trazem a cor das violetas.

Não te acompanhei o voo
nem vi em tuas asas
o canto sonoro dos ventos frios
em tarde que era de verão.

* * * * *


Negros corcéis desembestados
te cortaram o imprevisto voo
num dobrar da estrada
escondida no pó.

Estão para sempre
fechadas tuas asas
borboleta azul,
como se fora uma carta
que o destino acabou de ler
e guardou num cofre.

Não sei se o relógio
venceu o tempo,
ou se teus gestos
desafiaram o encontro
que marcastes.

Se os ventos te viram sorrir
quando fechastes as asas,
se em teus olhos se fixou
o último desenho,
só a tarde guardou este mistério.

Nunca mais (agora
que tudo é silêncio)
diante do amor e do vinho
teu rosto jovem revelará segredos. 

(Cezário de Mello/1951)

Eu miúdo nos braços de minha mãe.


"A infância que já não existe presentemente, existe no passado que já não é."
(Santo Agostinho)

Joaquim Cesário de Mello