domingo, 19 de julho de 2015

ADOLESCÊNCIA PARA MAIORES DE 18 ANOS

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Nestes tempos folgados de férias escolares, digo acadêmicas, encontro-me com maior disponibilidade de mim. E, assim, um tanto ocioso e um tanto livre das obrigações e das teoréticas academiais, passei a assistir alguns filmes e ler alguns livros pendentes e novos. Recentemente assisti na Netflix o filme "A Ponta de um crime" (Brick), de Rian Johnson, seu primeiro filme de cinema, vencedor no Festival de Sundance (2005) do prêmio de originalidade e visão. Rian é roteirista e chegou depois a filmar "Looper" e alguns capítulos da série televisiva "Breaking Bad". A Ponta de um Crime é um filme de suspense ao feitio dos filmes de David Lynch. Eu diria, até, que um estilo David Lynch adolescente. Adolescente aqui expressado não por ser menor ou pueril, mas sim por centrar sua narrativa no âmbito e no universo juvenil higt school dos subúrbios dos EUA mediano. Um filme que flerta com o noir e transita beirante pelo onírico. Com ares de teen movie não há nada de adolescente nele. Bizarro e um tanto psicótico, Brick (que em inglês é tijolo, mas também gíria para tijolo de heroína) realmente tem algo de criativo, embora com sabor de requentado.
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As aparências enganam. Nada é o que parece ser. A trama é frenética e algo subvertida. Sua narrativa nos leva (através do personagem central) a um submundo que geralmente não conhecemos ou não queremos saber de sua existência. Enigmático, misterioso e sensual, assisti-lo é um exercício mental interessante. Com um roteiro rocambolesco e cheio de peripécias, temos frente a nossos olhos um desfile de personagens excêntricos e extravagantes em um enredo que se desenrola sem pressa, mas que nos mantém a atenção. Inteligente.
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Elaborar e produzir um filme que se afasta dos cânones do mainstream hollywoodiano é meio caminho andado para se transformar em cult movie. E o que vem a ser um filme cult? Argumento original e insólito, história inovadora, estilizado e estiloso, ousado e fora do convencional, podem ser critérios que conjugam a definição de cult. Geralmente um filme cult é cultuado por um público restrito. Para aqueles que curtem a mediocridade imperante dos cinemas de shopping, fuja. Fuja ou não assista A Ponta de um Crime. Sua praia é outra.
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No filme em questão o que mais interessa é o subliminar. Psicologicamente não percebemos tudo. Podemos até falar em percepção e subpercepção. Quanto a relação entre percepção e consciência, Freud em seu livro "Moisés e o Monoteísmo" escreve: "do fenômeno da consciência, podemos, pelo menos, dizer que esteve originalmente ligado à percepção. Todas as sensações que se originaram da percepção de estímulos penosos, táteis, auditivos ou visuais, são as mais prontamente conscientes. Os processos de pensamento, e tudo o que possa ser análogo a eles no id, são, em si próprios, inconscientes". O inconsciente existe (freudiano ou não) porque muitas coisas e eventos passam ao nosso redor e em nossa mente cuja a mesma não é capaz de perceber conscientemente. Desde a Grécia antiga, Demócrito, por exemplo, já dizia que "muito do perceptível não é claramente percebido". Assim, voltemos ao filme ora abordado.
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Filmado em grande parte em um universo escolar com muitos espaços vazios de pessoas, todos os personagens (principais e/ou secundários) parecem fazer parte de um mundo à parte onde todos, de uma forma ou de outra, terminam sendo suspeitos de uma espécie de organização conspirativa e criminosa. O subterrâneo das marginalidades aflora à pele. A originalidade e singularidade do cineasta Rian Johnson também pode ser apreciada em "Looper - Assassinos do Futuro", filmado anos após em 2012. Não é fácil ser incomum em uma arte industrial impregnada de mesmices e remakes. Se o filme A Ponta de Um Crime é feito em um cosmos juvenil, ele não é composto para adolescentes, seja de qualquer idade.
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Se ao dormirmos sonhamos, em cinema também sonhamos, sonhamos acordados. Em A Ponta de Um Crime o que temos é uma história estruturada de maneira onírica. Nele cruzamos a fronteira entre o manifesto e o latente. Somos de imediatos retirados do convencional e entramos no subjetivo das entrelinhas. Passamos do limite do espelho e somos, assim, levados a transitar no lado obscuro do ser humano e de suas sociedades. Como se voltássemos a ser crianças seguimos a trajetória do personagem central em uma brincadeira de faz-de-conta. Como disse acima, nada é o que parece ser. O que é não é visível à interpretação rasteira das percepções e das lógicas superficiais das cognições sem imaginação. 

Resultado de imagem para mundo invertidoO mito do sonho americano é desconstruído sem muitas delongas. O esgarçamento do tecido social é aqui representado um tanto vertiginosamente goela adentro. Diferentemente de Veludo Azul, de David Lynch, não transitamos de um um mundo a outro, porém somos de chofre jogados na loucura misteriosa que parece subjazer na epiderme do mundo evidente em que vivemos ou sobrevivemos. Somos, desta maneira, lançados em meio ao desconhecido, ao oculto, ao enigmático e ao tenebroso. Um entretenimento para estes dias repousantes com sérios ares de uma maluquice reflexiva. Vale suas quase duas horas. Assista sem pipoca.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 12 de julho de 2015

Arte e autoria




Quando dava aula no Hospital Ulysses Pernambucano pela UNICAP, selecionava pacientes que quisessem participar das  entrevistas com os pequenos grupos de estudante de psicologia. Esse trabalho não era difícil, pois a maioria gostava de interagir com os alunos e, mesmo que não se reconhecessem doentes, “queriam dar aulas para os estagiários”. Numa dessas ocasiões encontrei um deles, ainda no pátio, que estava desenhando -  e desenhava muito bem, por sinal - aquilo que chamou de “o projeto de uma bomba para explodir o Iraque”. Perguntei por que desenhava objetos tão destrutivos e ele, corrigindo-me, respondeu: "não desenhei nada, doutor. A minha mão que foi guiada por Deus; Se fosse por mim, fazia outras coisas, desenhava flores”. Explicou-me que sua mão  era, de fato, conduzida  pelo Pai  - “já foi”, acrescentou, “pelo Diabo”, confidenciou-me.  O paciente disse-me não ter nenhum controle sobre seus  atos de natureza física. Contudo,  ficar   à mercê dos desejos das forças sobrenaturais, o angustiava - justificava que fazia  tratamento no hospital, justamente porque isso lhe tirava o sono. "precisava voltar a dormir", concluiu.


As palavras do paciente caracterizam o fenômeno psicopatológico conceituado por  Kurt Schneider como “delírio de influência corporal”  (Karl Jaspers chamaria de “atos impostos”). Na verdade, são dois conceitos: delírio, por quebrar o teste de realidade e a capacidade de julgamento e, consequentemente, de ajuizar, e, por acreditar piamente no evento; de "Influência", por acreditar que forças sobrenaturais controlam os atos de sua vida cotidiana, que seu corpo  é, muitas vezes sem sua autorização,  um mero instrumento de  um outro, um superior.   Quem estivesse comigo nesse e escutasse o cliente, não questionaria seu quadro psicótico. Contudo, mesmo sabendo que se trata de um delírio, uma atividade inquestionavelmente patológica, posso afirmar que a psique humana, mesmo não adoecida, pode construir ideias falseadas parecidas.


Assisti ao filme “A Caverna dos Sonhos Esquecidos”, um documentário sobre  investigações arqueológicas ocorridas nas recém descobertas cavernas de Chauvet na França. O narrador e diretor do filme é ninguém menos que o cineasta, sucesso no cinema alternativo dos anos 1960 e 1970, Werner Herzog. O filme é extraordinário e mostra com detalhes as investigações feitas nas inscrições rupestres datadas em mais de 40 mil anos. Fato instigante é que, ao contrário de outros registros de arte rupestre, nesse, em especial, a qualidade de conservação e e qualidade  artística dos desenhos  surpreendem. Para aqueles quem habituaram a ver gravuras com aspectos de garatujas infantis,  nessa recém-descoberta se revela um domínio de técnica assustador.  Observa-se noção de proporção e perspectiva bem mais elaboradas que outras cavernas arqueológicas desse memo tempo histórico. Além disso, algumas gravuras chegam a provocar ideia de movimento -   desenhos de animais com traços paralelos que provocam a "ação" da imagem. Herzog, comenta essa imagem como primeira ilustração com intenção de fazer cinema.


O filme é recomendadíssimo.


Esse filme me fez lembrar do paciente  que atendi no HUP. Em um determinado momento, um arqueólogo comenta que  entrevistou, em outra ocasião, um aborígene da ilhas polinésias que retocava gravuras. Perguntou por que ele gostava de desenhar: o sujeito lhe corrigiu, “eu não desenho, quem desenha é o Espirito”. O arqueólogo pergunta-se sobre as razões do autor, assim como meu paciente, fugir ou se distanciar da autoria. A resposta, ou as respostas não são nada simples, mas nada impede que possamos criar suposições.


Um dos sentidos da arte está na mimesis, na imitação da realidade,  e posteriormente, na poiesis, na criação. Arte como imitação não tem questionamentos relevantes - é a representação da realidade; mas como criação,  adicionar-se  àquilo que foi imitado, o desejo do criador. A grande problemática está que tanto nos seres pré-históricos, quanto nos aborígenes a noção de subjetividade, de indivíduo - e aí e se inclui o indivíduo autor - é bastante fragmentada, mesma fragmentação pelas quais partilham os pacientes psicóticos. O sentido da arte, como representação ou criação tem, em parte, um caráter de magia, como se a expressão artística se tornasse sacra e ganhasse um caráter de verdade oracular. Daí a necessidade do artista em abandonar a autoria e torna-se feiticeiro. 

Jorge Luiz Borges, utilizou de recursos semelhantes, nos contos misturou realidade com ficção, distanciando-se aqui e ali da criação, e provocando, deliberadamente, embaraços nos leitores. No momento que a arte escapa da realidade e invade a imaginação, provavelmente, o sentido vai mais além da cópia e tenta provocar empatia das pessoas. Vai desejar fazer, como bem disse Aristóteles, a vida como poderia ser. As civilizações pré-históricas insistiam em desenhar essas figuras em cavernas não apenas para passar o tempo, mas para dominar o tempo, fazer previsões e lutar contra o infortúnio. Por mais céticos que sejam os artista, essa magia continua a existir em toda obra de arte.

Marcos Creder

domingo, 5 de julho de 2015

NADA




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De que é feito o nada? Como pode haver o nada? Depois de tudo que vivi e que ainda viverei é isto o que me resta: o nada? O tudo vira nada? E o que é o nada? Ausência do tudo? O vazio absoluto? Vácuo sem fim? Qual o maldito que inventou o nada? Dizem que viemos do nada e para o nada iremos. Mas não quero ir pro nada. Prefiro ficar por aqui cercado de interrogações no afogar das minhas tantas incertezas, afinal se o nada é feito de nada então ele é um lugar-nenhum, um oposto de mim que está além e depois de mim. E se assim for, o nada será o absoluto negativo de mim. 
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Será o nada o oposto da vida? Mas o oposto da vida não é a morte, por que então existe o nada? Ou será que ele inexiste? Às vezes chego a crer que a vida é um aparecimento no meio do nada, e o nada é o seu desaparecimento. Vai ver que na verdade somos nada; o que somos - ou acreditamos que somos - são apenas ilusões psicológicas. Vai ver que tudo é psicológico e emocional, e no fim o que temos é nada. Por isso que não consigo pensar no nada, pois não há psicologia de onde vem o nada. 

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Bandeira podia querer ir pra Pasárgada, mas eu não quero ir pro nada. Lá não há rei nem camas, nem mulheres sequer pra se escolher. O nada é a falta de tudo, mas se no nada tudo falta, então no nada faltará a consciência da própria falta. E se no nada me faltar a falta, logo não terei desejos e nem sentirei faltas ou saudades, nem tristezas ou banzos, lembranças ou melancolias. Não há mortos a quem chorar no nada. O nada além de incolor é também indolor. Não há dor, sofrimento ou agonia, aflição, remorso ou qualquer outro padecimento. Depois do nada ninguém mais envelhece ou morre. Talvez seja melhor rever meu medo sobre o nada e sua existência impensável. Ainda assim não quero ir pro nada, já que no nada não há nenhum rosa pra se amar e nem o meu menino pra me evocar. 
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Se um dia pro nada eu for, desde logo saibam que meu ir é contra minha natureza. Quem depois de mim pensará nos meus pais? Quem depois de mim haverá até de pensar em mim? Após as primeiras e rápidas lágrimas serei de pronto esquecido. Não posso querer ser esquecido, logo eu que não me esqueço dos meus sonhos, logo eu que demorei tanto para ser o que sou, e ainda nem mesmo sei quem sou. 

Resultado de imagem para o ser e o nadaAgarro-me aos sonhos e a memória para não ser sugado pro nada. Lutarei que nem Quixote contra este inimigo silencioso e cego chamado de nada. Enquanto em mim houver esperança sei que não serei nada. O nada é diferente de mim. Nele não posso existir e não existindo então nada mais me interessará. Por isso teimo em negar o nada que, por sua vez, é a própria negação de mim e de tudo. Nego o nada para continuar existindo, tão somente.
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Caso quisesse clamar aos céus o que encontraria? O universo e suas parcas estrelas. O universo quase inteiro é mais feito de vazios e silêncios. É como exclamou certa vez o físico, matemático e filósofo Pascal: "o silêncio desse espaço infinito me apavora". Talvez não sejamos apenas nós que estamos sendo aos poucos sugados para o nada. O próprio universo - dizem alguns astrônomos - está prestes a ser tragado para dentro de todo o vazio. Em algum instante nada mais restará no universo, nenhuma partícula ou átomo, nenhuma luz ou memória. 
Resultado de imagem para vazio existencialAssim como o poeta Manoel de Barros, "não preciso do fim para chegar". Já sou por dentro tão cheio de vazios. Sussurro-me de silêncios em mim. No ínfimo do meu íntimo sou atemporal e nada me falta a não ser a falta que sentirei um dia de mim. O nada que me espera é antecipado de adeuses.


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Desaparecer e inexistir é medo de quem existe. A existência é um breve e rápido tímido suspiro, enquanto a inexistência é um mergulhar irretornável nos porões obscuros da eternidade sem volta. Assim, quando a vida houver em mim vivido, recolherei-me contrariado ao nada e de lá nada mais saberei daquele que um dia fui, daquele que em nenhum dia conseguiu ser e daquele que um dia deixou simplesmente de ser. O nada, um dia, sempre aparece.


Joaquim Cesário de Mello