domingo, 16 de agosto de 2015

KHÁOS

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O que você faria de se sua vida virasse de cabeça pra baixo, que se tornasse um caos de uma hora pra outra? Difícil responder, não? Pois é, caos é um estado de absoluta confusão, desordem e balbúrdia. Ação e interação acontecem de maneira aleatória de forma a criar profunda instabilidade. Sabe aquela ideia de "uma coisa puxa outra"? Na base da chamada Teoria do Caos concebe-se que uma diminuta mudança no início de um acontecimento qualquer, até mesmo prosaico, pode gerar várias e imensas consequências desconhecidas e imprevisíveis, que por serem desconhecidas e imprevisíveis são denominadas de fenômenos caóticos. Quem já não ouviu falar de "efeito borboleta" contido na ideia de que um simples bater de asas de uma borboleta pode causar uma tempestade enorme (furacão) do outro lado do mundo. Em termos pretensamente científicos, a Teoria do Caos refere que um sistema complexo e dinâmico presentam sensibilidade a condições iniciais que modulam fenômenos que no longo prazo podem tornar-se não previsíveis e determinados. É como se uma sucessão de erros fosse se realimentando em uma espiral de variáveis não previamente mensuráveis.
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Mas por que estamos em domingo este a discorrer sobre a Teoria do Caos? Inicialmente para falarmos de um filme de 2009 dos cultuados cineastas americanos, os irmãos Coen, "Um Homem Sério". À época recebeu indicação de melhor filme e melhor roteiro ao Oscar/2010. Trata-se de um filme com a escrita dos Coen, uma excelente comédia dramática sobre o cotidiano e a realidade social. O estilo ácido e tragicômico dos irmãos Coen já é um clássico na história do cinema. Baseado na cultura judaica, Um Homem Sério é uma agradável viagem ao universo crítico e sardônico dos cineastas. Impregnado de humor negro e cheio de maneirismos estilísticos, com roteiro afiado, o filme é uma aula de narrativa, inclusive nos momentos que chega a nos enganar com proposições fílmicas no jogo das relações causa-efeito. Seus momentos iniciais são dignos de destaque, no que tange, principalmente, às duas narrativas paralelas que ocorrem em sua diegese. Brilhante!
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O misturar e embaralhar de causas e efeitos vai levando o personagem central cada vez mais se emaranhando em uma truncada teia de acontecimentos e consequências que levam a sua vidinha regular, sistemática, suburbana e medíocre ao centro do olho de um furacão. O nosso "herói" é submisso e passivo ao seu destino e ao agonizar vertiginoso de seu mundo antes aparentemente seguro e tranquilo. Sua desvitalizada aceitação ao que lhe vai ocorrendo chega a nos irritar, porém me faz pensar se em nossa existência cotidiana também não somos um tanto assim, embora não nos apercebamos disso. Muitas vezes vamos resignadamente aceitando o caminhar de nossas vidas de maneira linear, como se estivéssemos cantando aquele refrão de Zeca Pagodinho "deixa a vida me levar, vida leva eu". Isto igualmente não é passividade e submissão?

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Os irmãos Coen são mestres do nonsense. O nonsense significa "sem sentido", e o humor nonsense é aquele humor baseado nas coisas absurdas da vida. O sem sentido em uma história artesanalmente nonsense acaba tendo sentido. O disparatado, o perturbado e sem nexo tem lá a sua lógica, mesmo que paradoxal em relação ao lado de fora do espelho. Entrar no nonsense é como seguir o coelho e adentar em um outro mundo fantástico e onírico. Feito Alice, caímos na toca do coelho e nos afundamos em um mundo de cabeça-pra-baixo.

Resultado de imagem para principio da incertezaA constante e interminável luta entre a anatropia e a entropia, entre a ordem e a desordem, a harmonia e a desarmonia, equilíbrio e desequilíbrio, acompanha-nos pela vida inteira. Não somos tão donos assim da nossa história e o acaso nos beira a cada passo. Não controlamos o futuro e o próprio presente é cheio de pequenas imprevisibilidades. Muitas vezes nos topamos, como naquele poema de Drummond, com uma pedra no meio do caminho. Empédocles, o grego, já nos falava de dois princípios vitais, o amor e a discórdia que digladiam entre si, o que Freud denominou de forças pulsionais. A vida - meus caros senhores e senhoras - é cheia de mistérios. Como dizia o poeta e dramaturgo Garcia Lorca, "todas as coisas têm seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas". Como diz um rabino no filme, "não podemos saber tudo". Ou como diz um outro rabino também no filme, "aceite o mistério".
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A nossa própria vida mental é um mistério. Devemos aceitar o mistério do nosso psiquismo, tão somente, assim e pronto? Ou devemos cascavilhá-lo como um antropólogo para melhor entender os rudimentos e as bases do nosso processo mental? Faça você mesmo, caro leitor(a), sua escolha, Eu já fiz a minha.

Resultado de imagem para big bang explosãoA própria origem do universo é um mistério, que os gregos da Antiguidade acreditavam ter sido originado do caos. Para o conhecimento mítico grego antes do início o que havia era a desordem, uma escuridão infinda onde habitava a divindade Caos. É de Caos que nascem os outros próximos deuses. Do Caos nasce, então, o mundo. A oposição entre caos e logos é encontrada na passagem bíblica "no princípio era o verbo". "E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo" (Gênesis). De certa forma até mesmo a explicação física do big bang tem lá sua cosmologia e certo parentesco com o Caos.
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Se a vida e o viver não é assim tão cheio de regras e normas, um trilho a ser percorrido, então entre a ordem usual e rotineira do cotidiano pode ser repentinamente mudada por algum pequeno acidente qualquer de percurso e nos levar em um redemoinho de sequências desordenadas e caóticas. Sabe aquela coisa chamada de "Lei de Murphy"?: "se alguma coisa pode dar errado, dará errado". E continua: "e dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível". Isso tudo porque a realidade é complexa e não necessariamente harmônica. O novo - diz a pensadora portuguesa Maria Manuel Jorge - é a possibilidade que é introduzida pelo aleatório. O acaso, portanto, é causador aleatório da variedade. Mas talvez muito do que comumente pensamos ser acaso ou que dessa maneira chamemos não seja tão acaso assim, afinal ele tem antecedentes que passaram imperceptíveis, diminutos, quase invisíveis, porém estavam antes ali. Talvez hajam razões ocultas no aleatório. Nós é que estamos analfabetos e não conseguimos antecipadamente ler as linhas e entrelinhas que geraram o acaso. A desordem e o caos, nestes casos, não vêm do nada. Ou como escreve o escritor espanhol Carlos Ruiz Zafón, "acho que nada acontece por acaso, sabe? Que no fundo as coisas têm seu plano secreto, embora nós não entendamos". Talvez o velho Einstein possa estar certo em sua afirmação que "Deus não joga dados com o universo". Talvez.
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Bem, só sei que há dias em que nada parece dar certo, e que há momentos da vida que tudo parece revirado e que o mundo parece haver caído. Não é tão difícil você deixar sua vida virar um caos. É necessário dar melhor atenção as pequenas coisas, pois de "grão em grão a galinha enche o papo". Mesmo que o Princípio da Incerteza nos diga ou nos mostre matematicamente que nunca podemos realmente saber o que está acontecendo, podemos ser menos passivos frente a muitos eventos e darmos um pouco mais de importância às minúcias e filigranas do dia-a-dia que, no fundo no fundo, tem lá sua relevância. O absurdo, afinal, também faz parte do teatro da vida; e para começar a desorganizar tudo basta apenas um fiozinho.


Joaquim Cesário de Mello

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