domingo, 15 de janeiro de 2017

AS HORAS TERMINANTES

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Em O General e seu Labirinto Grabriel García Márques narra os últimos meses de vida de Simón Bolivar. Dilemas pessoais, amorosos e político se misturam nestes últimos instantes daquele que ficou conhecido como "o herói latino-americano". Além do mito García Márques nos expõe um ser humano frágil, envelhecido e contraditório. Trata-se de um livro sobre a descida ao inferno de um personagem real literariamente desnudo como uma espécie de um cavaleiro de triste figura, um Dom Quixote Marqueseano. No cinedocumentário Allende em Seu Labirinto, dirigido por Miguel Littin, algo de análogo se processa, dada as devidas proporções. O Allende apresentado é heroico quase homérico. Em meio ao desespero de suas últimas horas, cercadas de traições, insídias e intrigas, há também espaço para a lealdade, a dignidade e a integridade de princípios e valores. Por vezes caricato e com falas clichês e personagens estereotipados - como é muitas vezes comum em docudramas - Allende em Seu Labirinto vale mais pela curiosidade e desvelar histórico do que um grande filme. Pelo contrário, é um filme menor com uma grande história verídica, mas que serve um pouco para imaginar o quão devem ter sido elevadamente tensas, confusas, agoniantes e aflitivas as ansiosas horas terminates.
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Salvador Allende foi na minha adolescência e começo de juventude um mito e um nome proibido. Talvez tenha sido mais mito exatamente por ter sido proibido. Presidente eleito do Chile (entre 1970 e 1973) em plena guerra fria entre capitalismo x comunismo, Allende era um político marxista e foi o primeiro chefe de estado socialista da história da América do Sul. Diferente de Fidel Castro e Che Guevara, que acreditavam na instauração do socialismo pelo uso das armas, Allende confiava ser possível chegar ao socialismo pela via democrática. O seu estreito tempo de governo ficou conhecido como a via Allende para o socialismo, Nacionalizou bancos e minas de cobre (principal riqueza chilena) e tentou uma ampla reforma agrária no país. Pressionado pela oposição de direita e, principalmente, pelos Estados Unidos (governo Richard Nixon) criou-se aos poucos um cenário político-econômico propício a um golpe de estado militar. E foi o que aconteceu em 11 de setembro de 1973.
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11 de setembro de 1973 começa para Allende às 6:20 hs. com o tocar do telefone e sendo avisado que a Marinha se sublevou a partir do porto de Valparaíso. Uma hora depois Allende vai ao palácio presidencial (La Moneda) empunhando um fuzil Ak-47, presente de Fidel Castro, com vistas a resistir. E assim o filme Allende em Seu Labirinto e a roda da história se inicia naquele hoje distante 11 de setembro de 1973.
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"Não vou renunciar¹ Colocado numa encruzilhada histórica pagarei com minha vida a lealdade do povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregaremos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos não poderá ser ceifada definitivamente. Eles têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e fazem os povos", discursou pela última vez Allende através de uma estação de rádio às 10:10 hs. de 11 de setembro de 1973. Menos de uma hora depois começa um dos episódios mais dantescos e tetricamente surreal que pode presenciar minha geração à época: o bombardeio ao Palácio La Moneda.
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O significado de labirinto é uma intricada combinação de corredores e/ou passagens onde é difícil encontrar a saída. Labirinto também significa uma coisa complicada, confusa, de difícil solução. Simbolicamente labirinto é enredamento, e é isto que o filme em questão aborda: o novelo em que o governo de Allende se emaranhou. Politicamente o destino do mesmo caminhou para a tragédia. Porém a tragédia gerou uma desgraceira violenta: um dos golpes de estado mais violento da América Latina e a longeva ditadura de Augusto Pinochet. (1973-1990). "Posso escrever os versos mais tristes esta noite", versou certa vez o poeta e Nobel de Literatura Pablo Neruda, que veio a falecer doze dias após o golpe.
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Polêmico em sua versão dos fatos Allende em seu Labirinto tem uma narrativa clássica que se desenvolve linearmente em um ambiente claustrofóbico cuja tensão se eleva a cada minuto. Não é um filme de entretenimento, nem muito menos de lazer dominical, porém uma análise da trama política de um jogo de traição e sedição. Tem o mérito de ofertar aos jovens de hoje uma significativa parte da história que lhes antecedeu, possibilitando, assim, que a história do amanhã não repita em farsa o que o ontem vivenciou como tragédia.

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Tragédia Grega de nosso tempo

Há alguns acontecimentos terríveis que se repetem, que suscitam discussão e que estão longe de ser compreendidas. Como são acontecimentos trágicos e (felizmente) raros,  geralmente ganham muito espaço na mídia. Refiro-me à notícia que faz com que pessoas, por razões as mais diversas, venham a cometer múltiplos  homicídios  envolvendo um grande número de pessoas e em seguida se matam. São eles, membro extremista de alguma organização política ou religiosa,  rebeldes que se voltam contra seus colegas de escola ou da comunidade,  ou pessoas que saem atirando em qualquer transeunte, ou ainda, como no caso recente noticiado em Campinas, sujeitos que transtornados  executam filhos, ex-mulher e diversas pessoas numa festividade (no caso de Campinas, no réveillon - ato de razão ainda pouco conhecida. A primeira pergunta que se faz quando assistimos a mais uma dessas tragédias é corriqueira: são, essas pessoas, normais?


A essa pergunta, qualquer resposta é especulativa, embora a maioria da opinião pública tende a colocar o sujeito no lugar da doença psíquica - por pura falta de outros argumentos e, acrescento, por puro comodismo - pois se se comete um ato insensato, e a  insensatez é uma forma de  loucura (condição que nem eu nem  o leitor é acometido - risos) então o ato se explica pelo adoecimento.- Atribuir esse caso a um transtorno não é um erro, mas não podemos “psiquiatrizar” todos os atos violentos da humanidade - a maioria dos atos insensatos ainda são frutos  pessoas mentalmente sãs.  Nas especulações que são geralmente aventadas, existem estes que entendem  esse acontecimento a um  fenômeno pessoal de natureza psíquica, mas há outros que  veem como evento de um esgarçamento no tecido social. Enfim, uns preferem chamar  de loucos, outros de fanáticos e mais alguns, de vítimas do contexto violento da sociedade que, sendo sujeitos normais, descarregam seus melindres  nesses atos odiosos. Um fato é consenso: todos estavam possuído pelo ódio, pelo desejo de vingança, e seus atos consequentemente suscitaram sentimentos igualmente odiosos.


O ódio e a vigança, nesse acontecimento de Campinas, em especial, me fez lembrar uma antiga peça grega do teatro de Eurípides: Medeia. Para quem não conhece, Medeia é uma personagem, uma feiticeira, que se casa com Jason, com o qual mantém fortes laços amorosos,  e desse relacionamento tem dois filhos. Jason se apaixona por outra pessoa e se separa de Medeia. Entorpecida pelo ódio e pelo sentimento de  abandono, Medeia planeja vingar-se: matar os filhos e desaparecer. Medeia não se mata, mas sai de cena de forma magica voando em direção ao sol.

Só após assistir a esses acontecimentos recentes,  que venho a compreender, que uma peça tão antiga, ainda tenha sobrevivido entre nós. Medeia é um fragmento extremo do nosso funcionamento de nossos ressentimentos. Medeia é o retrato  falado do ódio e da vingança. Enfim,   a expressão desses ressentimentos que se converte em tragédia.  Medeia é mais uma das tragédias da vida humana. E a pergunta, mais uma vez, se repete: Medeia era normal? Eurípides a faz feiticeira, e acredito que muitos constroem seus personagens como seres sobrenaturais para  disfarçar o incômodo de nossa condição. Na Idade Média, por exemplo, era mais cômodo atribuir todas as maldades do mundo às bruxas ou ao satanás a ter que aceitar que nossos impulsos , quando não domados, são mais cruéis do que de muitos animais.  A verdade é que “Medeias” são  domadas diariamente dentro de nós, algumas, rara e felizmente vão ao ato extremo.  O que nos contém, entre outras coisas é a fala, o argumento, a negociação, a conciliação e, naturalmente nossas censuras internas. A diferença que há entre estes e os verdadeiros assassinos são o fato de que estes homicidas e suicidas são sujeitos de atos. Freud num belo texto, Totem e Tabu finaliza ao comentar o processo de transição da horda à civilização trazendo a seguinte frase: "No princípio era o ato".  O seu entendimento pressupõe que o surgimento da linguagem apazigou, por assim dizer, os nossos instintos mais agressivos. Mas esse apaziguamento não necessariamente anulou os atos do humano - até porque eles, em algumas ocasiões, são necessários.  Houve apenas um adestramento instintivo, que converteu sentimentos em palavras, palavras que eventualmente são renunciadas e que levam a essas tragédias.   Medeia, como peça e como mito, suponho, que jamais deixará de existir e de nos visitar.

Marcos Creder

domingo, 1 de janeiro de 2017

FELIZ ANO NOVO, DE NOVO.

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Coube a mim o destino de postar nosso primeiro texto neste 2017 que ora se inicia. Particularmente não sou lá de réveillon e nem de abraços efusivos ao chegar no zero da contagem regressiva de dez. Convencionamos achar que um novo ano nasce no acordar do seu inovado primeiro dia. Formalidades e crendices à parte a vida segue, apenas continua. Como diz Ferreira Gullar em seu poema sobre a morte de Clarice Lispector, "as pedras, as nuvens e as árvores/no vento/mostravam alegremente/que não dependem de nós". O universo não está nem aí para nós. O sol, as estrelas, a Via Láctea, as galáxias e o que mais houver  muito além disso é totalmente indiferente as pequenas mazelas e alegrias miúdas de nossa mais completa insignificância. O bioquímico Jacques Monod afirmava que o "homem sabe finalmente que está só na indiferente imensidão do Universo, de onde emergiu por acidente". Somos uma espécie de minúsculo resíduo salivar de uma cuspida cósmica qualquer.
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Aff, isso é lá coisa que se diga logo no primeiro dia de um ano que mal se iniciou. Hoje é dia de começar a realizar as promessas das noites anteriores. Mas hoje, provavelmente, começaremos novamente a dilatar nossos velhos adiamentos. Por que adiamos? Por que permanecemos a procrastinar ações e sonhos? Por que somos seres que nos delongamos tanto? Uma explicação plausível reside na ideia que tais protelações funcionam como defesas emocionais e psíquicas contra conflitos e angústias existenciais. Será? É possível. Difícil para o ser humano, além de sua pequeneza diante da grandiosidade universal, lidar com a finitude, posto que é chama. A terminalidade certa de nossa existência encobre-se com ilusões de perenidades, Adiamos coisas na vida como quem vive na eternidade.
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Parafraseando o poeta e cronista Affonso Romano de Sant'Anna, adiar preserva a miragem do finito mais longe, bem longe, e assim vive-se na aparência da superfície plana por onde deslisamos como se não houvesse nenhuma beirada, nenhum abismo. Sair do espaço resvalante e entrar no tempo, diz o referido cronista, "é descobrir outra dimensão além dos dedos da mão" é entender que a linha da vida não é uma reta inacabável e aceitar a curva. Há muito deixei de ser imune pela eternidade. A casa do meu avô, embora ainda lá continue, não é mais a casa do meu avô. Por lá residem estranhos. Nem sei onde fica o jazigo onde enterraram o pó do meu avô.
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Pode parecer paradoxal à princípio adiar a realização de sonhos, desejos e o alcançamento de satisfações. Intriga, pensando assim, porque acabamos "escolhendo" viver a vida em estado de constante frustração. Sim, frustrações são inevitáveis; porém muitas delas podiam não existir. Muito do que podemos ser e ainda ser podem ver a luz do sol e achar ouvidos de gente. E por que não nos afoitamos?, afinal - lembra Fernando Pessoa -"tudo é ousado para quem nada se atreve".
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Ousar é atrever-se, abalançar-se. Ir mais além. Sair da inércia de quem vive apenas como um potencial e tornar-se, enfim, ato. Não transitar pelo pouco tempo que a vida nos ofereceu como uma potencialidade de existência que não surge e retarda existir. E se o passado, caro leitor(a), foi-te até aqui o que não conseguistes ser, que o futuro que ainda te resta seja o máximo que possas ser. Não esperes o pipocar do champanhe para desarquivar tua lista de intensões, pois, como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, "é dentro de você que o Ano Novo/cochila e espera desde sempre". Se queres, contudo, continuar deixando pra lá teus potenciais ou pra mais tarde o que te é necessário ser, se buscas encontrar a escolha certa ou que não te achas preparado ainda, lembra-te que até então te sobra a vida e que "no declive do tempo os anos correm".

Felix sit annus novous

Joaquim Cesário de Mello