quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ADMIRÁVEL MUNDO VELHO


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O Literalpédia (enciclopédia do blog LiteralMente) em recente descoberta arqueológica encontrou vestígios de uma antiga e quase extinta civilização chamada Senescência. Tal importante descoberta revelou ainda a existência de remanescentes daquela antiga cultura em nosso meio, disfarçados de pessoas contemporâneas, com seus ipod e iphone, Gps, smartphone, televisão slim, relógios digitais e cacarecos tecnológicos outros; além de frequentarem internet, redes socias, facebook, twitter, orkut, abrirem blogs, vestirem-se com roupas da Diesel, Fossil, Tommy Hilfiger, usarem brincos e tatuarem o corpo com nomes, florzinhas e dragões. O que restou da Senescência, os senescentes - embora tinjam seus cabelos de ruivo, preto, louro ou acaju - representa uma ameaça aos tempos modernos, haja vista serem uma constante denúncia sobre a peremptoriedade das coisas e a terminância da vida. O governo federal preocupado com isto, através do seu Ministério da Saúde adverte: "a Senescência é prejudicial à saúde".
Sendo assim, o Literalpédia expõe ao público em geral um pequeno pedaço do seu acervo arqueológico encontrado para que possa contribuir aos cidadãos de bem indentificarem os senescentes presentes entre nós. Caso você mostre alguns dos artefatos primitivos abaixo à alguém e ver nele seus olhos marejarem, pimba: você está frente a um senescente. Favor, portanto, avisar imediatamente às autoridades sobre o mesmo, ligando para o número: 0800.800.0800.


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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Eco do Passado




Costumamos situar nossos grandes pensadores  num passado remoto que não vivenciamos ou que, se vivenciamos, não tínhamos ainda o intelecto suficiente para conhecê-los mais profundamente. Cientistas como  Einstein, Copérnico  ou  Galileu, escritores como Dante, Cervantes,  Flaubert, ou Proust, filósofos como Platão, Espinoza, Nietzsche ou Heidegger  parecem terem vividos em momentos gloriosos que pouco tiveram o prazer de conhecê-los - pessoas que pareciam que eram extraordinária diariamente. Tendemos, assim como faz a igreja a católica, a canonizá-los, a colocá-los num lugar sobre-humano, e do, mesmo modo que a igreja, a valorizá-los apenas no post mortem - não existem Santos vivos.

Queria, ainda adolescente,  encontrar um machado de Assis, um Camus, ou um Proust perambulando pelas ruas ou ao menos em discurso de jornais.  Percebi que faltava a essas pessoas  inteligentes ou geniais contemporâneas,  o mesmo item cristão – precisavam estar  mortos. Acho curioso, mas entendo que o herói, desde do teatro grego, é aquele que viveu no passado, nos salvou de alguma coisa e já não mais existe. O importante é o valor simbólico, muitas vezes mitológico, desses sujeitos. A pessoa viva atrapalha o herói ou o gênio dentro dela.  Para serem grandes é necessário estarem mortos. No passado, antes de ter esse pensamento em mente,  sentia uma tristeza por viver em anos, supostamente, tão medíocres. Contudo, a mediocridade não estava no tempo, estava na maneira de idealizarmos nossos gênios.   Anteontem, ou melhor da sexta-feira para o sábado,  tomei mais uma vez ciência desse insight. E não foi não sem motivo. Um desses gênios ou intelectuais mais importantes desse e do século passado, havia morrido. Mais uma vez um grande ícone se construiu em minha consciência, poucas horas depois de falecido. Falo de Umberto Eco.

Um fato interessante ocorreu quando ainda assistia às notícias em primeira mão de sua morte: a imprensa deu destaque apenas a três obras de sua autoria, “O Nome da Rosa”, o “Cemitério de Praga” o “O Número  Zero”. “O Nome da Rosa” realmente é uma obra que não poderia deixar de ser lembrada, haja vista a grande repercussão que teve na crítica literário e entre o público em geral – “O Nome da Rosa” foi um Best Seller , num tempo em que livros de qualidade podiam concorrer com mais frequência a lista dos mais vendidos. Todos o leram, ou se não leram, fingiram ter lido -  estes puderam sustentar a mentira com mais firmeza   e familiaridade depois que o livro foi adaptado para o cinema por Jean Jacques Annoud. Os dois outros livros citados pela imprensa foi destacado por serem as seus dois últimos romances, que julguei chatos e medíocres. Mas várias obras poderiam destacar Eco, e mais que isso, Eco era um intelectual completo,  conhecimento além de literatura, em semiótica, era um profundo conhecedor de História, especialmente da Idade Média. Se a História, no futuro se remeter ao século XX, terá muito o que falar em tecnologia e avanços científicos e dirá provavelmente que Eco encerra o período da erudição enciclopédica. E o mais interessante de tudo isso, seu texto podia penetrar em segmentos menos intelectualizados da sociedade – "o Nome da Rosa" é um grande exemplo disso. Naturalmente, obras como “O Pêndulo de Foucault”, “A Ilha do Dia Anterior”, ou “Baudolino” não são textos  fáceis.


Um dos interesses que mais me instigavam em Umberto Eco era justamente seu interesse por livros – mas livros em formato de papel. Umberto eco era um grande colecionista e defensor da obra escrita, costumava dizer que o livro foi uma invenção tão importante quanto a invenção do fogo ou da roda. Dono de uma biblioteca com incontáveis livros,  Eco guardava um certo saudosismo aos pesquisadores de seu tempo e não poupava críticas às redes sociais – “uma legião de imbecis” – e a internet.

Se a história for injusta com esse autor terá que minimamente colocá-lo no lugar dos últimos grande estudiosos que se debruçaram em  livros de papel.


Marcos Creder


domingo, 14 de fevereiro de 2016

AO NORTE DA MESA PRÓXIMA


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O garçom me serve uma bebida forte à base de aniz, com a qual me vejo invadido de quentura e azul. Imediatamente zonzo pelo sabor do inusitado, abro o livro marcado somente para não perceber que as outras mesas desconhecem minha presença. Sou um estranho entre pessoas estranhas e elas sabem disso. Estou longe de casa. Estou longe de mim. Meu lar é lugar nenhum.
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Esta cidade edificada de ruas com nomes e datas que não me dizem nada, arranha-céus, árvores, praças, postes e luzes não foi construída para mim: sou um estrangeiro em suas entranhas e sombras, transitando-a apenas como o minuto que perpassa a minha vida. Os rostos dessa gente não me significam coisa alguma, não me importa suas dores de dentes, amores e desamores, sequer sei dos seus vizinhos. Para eles sou transparente e não existo, unicamente habito esta cadeira neste momento, em um bar que nunca vim.

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O que pensa a lua de mim aqui sentado sem amigos ou amantes? Como um surdo aguardo que me chamem o nome, este substantivo próprio tão doce e delicado que só se sente à falta dele no deserto das bocas áridas. Devo ter deixado minha história em um quarto de hotel e agora não sofro mais qualquer nostalgia. Esqueço-me de mim para lembrar das minhas ausências e dos meus prantos. Sobrevivo aos meus mortos e aos meus abandonos, só não quero morrer sem ver meus poemas publicados, pode ser que alguém algum dia me leia e me compreenda além do silêncio em que me sepultei. Minha cabeça lateja em um corpo amolecido de febre e gripe. Tusso secreções e esta imensa noite que carrego no peito.

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Quisera-me ser um barco a navegar a imensidão infinita dos oceanos azuis. Minha alma é um mar agitado, perigoso, sem sol e sem sal, em busca de praias onde possa sossegar suas ondas e depositar espumas agonizantes. Quem penso que sou boia em mim. Receio afogar-me sem história e sem nome, enquanto aqui o redor fervilha em música na urdidura das tramas pélvicas. O calor que me aquece e me esfria não é de febre nem de álcool, é do incêndio desta cidade alheia onde procuro o socorro de uma mão e não encontro. O que se estende até a mim é solidão.

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Chamo o garçom novamente, mais uma vez, como forma de falar com alguém. Solicito e ele me atende com outro copo. Logo vai embora. Nada me apraz o olhar, nem mesmo aquela velha prostituta de cabelos mal pintados de ruivo encostada ao canto do escuro, pronta a me saquear bolsos, filhos e afagos. Chego a me apiedar cumplicidamente dela e de sua indisfarçável decadência, pois representa seu papel e ao final adormecerá só em sua cama, assim como eu. Se me desse vontade de escrever versos começaria com a palavra adeus, porém minha única vontade é saber para que estou e para onde vou quando não mais houver esta cadeira, o copo e o garçom a me servir. Quando todos já tiverem se abrigados, restarão meus cacos, as pálpebras insones e este cansaço mais que febril. Tusso secreções reprimidas e esta grande noite que me aprisiona a garganta e me domina o peito.

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Adeus minha adorável prostituta. Acaso fosse outrora, talvez teu corpo visitasse. Contudo, não agora. Após, jamais. Quando tiver tua idade também não me recordarei desta ocasião passageira, por isso, à tua face soturna e triste, ofereço tão somente o esquecimento dos meus gestos e da nossa impossibilidade. A minha memória é um cemitério de lembranças e poeiras, são poucos, muito poucos, os fantasmas que me acompanham ao dia. Se em uma outra hora ou data retornar, encontrar-te-ei outra vez plantada no canto do bar assim como hoje: imóvel e muda, esperando despedidas.
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Deixa-me ir agora querida prostituta, cujo nome é tão silencioso como o meu. Deixa-me ir, libertando-me do teu encanto misterioso de Medéia, pois almejo os movimentos e as surpresas das ruas. A inércia é a privação da vida e já me bastam tantas perdas enterradas em meu peito entupido. Que assim se escreva em minha lápide: “aqui repousa um homem só e aqueles que morreram antes dele”. Se falecer é desaparecer duas vezes, então desejo morrer depois da minha morte (serei amanhã um morto em alguém?). Tusso secreções, escarro a noite.
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Até nunca mais minha inominada prostituta. Agradeço a caridade de teu único olhar sobre mim, deixando-te em troca a ilusão de novos fregueses. Parto, afinal partir é melhor que ficar. Perambulo trôpego e bêbado pelas calçadas, vomitando azuis pelas esquinas. Até a lua agacha-se envergonhada por detrás das nuvens.

Retorno cambaleante ao quarto e às minhas malas onde lá encontro partes de mim. Persigo o sono e só assim ao levantar não saberei se tudo não passou de um sonho ou de um pesadelo do instante em que fui ninguém. A sinusite dói e a coriza me escorre afetos e líquidos. Quero rápido dormir para logo acordar com alguém que não conheço chamando meu nome. Preciso urgentemente voltar a existir. Hoje, é certo, não sonharei com anjos, mas prostitutas.
Tusso secreções e a noite inteira me acoberta de breus.


Joaquim Cesário de Mello
ORIGINARIAMENTE PUBLICADO EM: 
Couverture fascicule

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Trocando as Máscaras

Escrevi há um ano um texto, aqui no blog, neste mesmo dia de carnaval - o dia de domingo. O domingo de carnaval costuma ser diferente de outros domingos, apesar da mesma luz, não tem o mesmo tédio, não representa uma virada da semana, passa desapercebido, pois o carnaval, de certo modo, o deformou, o pressionou para a festa, para a folia.

Ao reler esse o texto, observo que tentei dar ênfase à ilusão necessária da vida da gente nessa festa, e de que, por traz disso, do sonho e do engodo, havia uma alegria incontinenti. Estava certo? Sim, a ilusão está nas máscaras e as máscaras de carnaval, em sua maioria, sorriem. Vi, não faz muito tempo, uma dessas frases de internet  - que  raramente são interessantes - que invertia justamente a minha forma de pensar o “engodo” do carnaval. Dizia: “ao acabar o carnaval, vestem-se as máscaras” (uma bela frase)  O carnaval, dentro dessa perspectiva, se aproximaria mais do sujeito como, de fato, ele "é",  e os seus afazeres cotidianos seriam formas mascaradas de existir.Certo? Respondo com a minha costumeira ambiguidade, sim e não. Sim, porque há, de fato, uma aspiração de nos tornarmos autênticos, trazendo de volta nossos comportamentos mais arcaicos e infantis - disse, certa vez, em outro texto, que o carnaval "é uma festa de criança encenada por adultos".   Isso, contudo, se realiza na impossibilidade - onde entra o "não".  Só uma nova ilusão, a ilusão de estarmos sendo “nós mesmos” é que pode se efetivar, e por fim nos dar alguma alegria. O que ocorre, mais uma vez, é outro teatro, outra encenação, que representa - apenas representa, as vezes de forma histriônica - a essência de cada um de nós. Digamos que nessa aproximação com o que, de fato, nós somos, chegamos mais perto do que queríamos ser, do que, de fato, somos em verdade. Em verdade não somos nada.  Nessa catarse carnavalesca chegamos mais perto do irrealizável e do imaginado - mas, como esta escrito, o irrealizável não se realiza. E de onde vem tanta alegria frente a frustração do irrealizável? - quando ponho a palavra “alegria” nesta última frase, percebo-a com  estranheza e chego a pensar de forma absurda que o carnaval, na sua forma mais tradicional,  tem um “quê” de melancolia. Por que digo isso?

Sempre achei curioso que muitas marchinhas e frevos de  carnaval remetem-se a pessoas - foliões, em sua maioria - que já morreram, a lugares maravilhosos que já não mais existem, a épocas remotas e felizes.  O carnaval deixa de ser um festa do momento para ser uma festa nostálgica de tempos inalcançáveis, enfim, o melhor carnaval ocorreu no passado, já passou, e, como uma festa pretérita,  é irresgatável - e, acrescento, igualmente ilusório.  Tendemos a sobrevalorar o passado (em psicopatologia denominamos o exagero desse fenômeno psíquico de  ilusão mnêmica) e essa sobrevaloração cria uma ambiguidade entre o prazer e a dor, prazer em lembrar e dor da irresgatibilidade. A própria palavra nostalgia vem do grego nostos ( regresso a casa) algia (dor) define bem essa ambiguidade. A nostalgia tende a entristecer, a formar um eterno  Pierrot cabisbaixo. Mas de onde vem a alegria, então? 

Quando iniciei os estudos em psiquiatria sempre me disseram - ainda acredito nessa argumentação - que no transtorno bipolar do humor o dominante é a melancolia, a depressão. A euforia seria, por assim dizer, uma defesa à crueldade  melancólica. uma saida caricata para a felicidade. Desse modo, assim como a folia de carnaval, o melancólico defende-se com alegria das crueldades do mundo com alegria.  Uma alegria estranha, escandalosa, tão berrante quanto a máscara que cobre a tristeza.

Marcos Creder