sexta-feira, 14 de setembro de 2012

CESTA DE VERSO & PROSA

O SORRISO

De todos os sorrisos o meu é o que mais me surpreende
porque ele é vago, débil e fútil
um adorno que pendurei na ilusão do que penso que sou
a mentira que adorna a janela do meu ser
é minha arma, minha fuga e minha defesa
O preço pelo qual me vendo, me penhoro
sem nem saber de mim, o que virá depois?
é o que preenche uma lacuna que dói
quando sinto que não existo
e que não me valho à existência
a minha vida toda me deixei acreditar no que me diziam
não sou digno, não sou bom, não o posso
logo, não mereço qualquer regalia
assim, aprendi a me sentir notado apenas no precipício
me estrangulava para estrangular o outro e para ser salvo de minha inércia
assim, aprendi a jogar o jogo que fingem não jogar
jogando o jogo de não jogar percebi que em verdade, jogava
jogar é não saber e jogar, já jogando, enquanto se pensa que não se joga
e no jogo de pensar que não jogava já jogando me perdi de mim
e na selva do possível hesitei, cristalizei, eternizei e arruinei, a mim
quando se navega um navio há sempre um destino, risco fácil quase risório
navegar é preciso, mas é, ainda assim, uma escolha
quando navega-se a si mesmo não há destino, cria-se, sem instruções
preferi então o chão de mim, firme e vulnerável, sem saber que há diferenças
ao escolher o chão de mim, escolhi em verdade navegar parado
navegar a si mesmo não é escolha é condição

André Guimarães (Psicologia/FAFIRE)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

  

QUAL A IDADE DA INTELIGÊNCIA?
Uma conversa com Jorge e com Lucas



Guilherme Saraiva (escritor, filósofo)

Venho acompanhando com regularidade as postagens do literalMENTE, e confesso que cada vez mais venho me animando com os textos. Além de bem escritos, gosto da diversidade, do despojamento, da simplicidade e da honestidade em que os temas são, por assim dizer, defendidos. Na verdade, gosto da honestidade em todos os aspectos. Uma vez assistindo ao filme “A Idade da Terra” de Glauber Rocha – um filme, diga-se de passagem, insuportável – ouvi um grito: “tira essa merda”. Éramos poucos no cinema e o rapaz foi surpreendentemente ovacionado por nós, gatos pingados. A chatice tem a vantagem de arregimentar pessoas tímidas e educadas – essa também minoria de gatos pingados – e esse fenômeno de franqueza é exceção à etiqueta dos chatos. Enfim, a chatice culta é avessa a honestidade e é por isso que venho gostando imensamente desse blog.

Pois então, antes que proíbam os meus comentários críticos à Axé Music, aos forrós e pagodes estilizados e, por fim, aos sites de relacionamentos – por preconceito étnico-regional ou por postura antidemocrática contra a liberdade de expressão – falarei, assim como o colaborador Jorge Armando, mais algumas palavras desagradáveis sobre a formação de vida das pessoas de hoje e, como disse Lucas, da de(formação) – adoro trocadilhos – das pessoas de ontem. Na verdade, a única ressalva que faço a Jorge, é que sendo a ignorância uma coisa meio que da índole humana, ela é atemporal – e acrescento pandêmica. Quanto a Lucas, teço um minúsculo comentário em torno de uma palavra. Explico já. Para aqueles que estão se sentindo perdidos no meio desse texto recomendo que leiam os artigos de cada um postados recentemente no LiteralMENTE.
Façamos de conta que estamos num Café – saiamos, portanto, do ambiente universitário ou virtual . Nesse Café há uma mesa de jovens homens e mulheres a cerca de uns vinte metros. Que tal fazermos silêncio e tentamos escutar o que dizem? Nada? Não escutam? Realmente, não dá para ouvir... Como somos todos curiosos e criativos, tentamos construir personagens que, somando com as nossas próprias experiências, ganham vida própria na nossa imaginação. Não seria imprudente, embora não tenhamos nenhum subsídio para isso, elegermos aquela mulher mais à esquerda, de óculos, como a mais interessante e o homem magro que está ao seu lado, de barba rala, como o mais perspicaz do grupo. Porque os escolhi assim? Por pura aparência e intuição, ou, como Jorge disse, em algum momento do seu texto, por ignorância. Confesso que sou um esteta e elegi a mulher por ela me parecer bonita e agradável e o homem por parecer simples e inteligente. Porque fiz isso? Porque sou tão feio quanto ele e me suponho inteligente, e essa seria a minha única característica ou recurso que tenho em mãos para conquistar aquela bela mulher. Talvez vocês questionem, chamando-me de preconceituoso porque não a chamei de inteligente. Respondo: quando contemplo o belo, nele, particularmente, incluo a inteligência. Esse modo de pensar, que aglutina o belo e o sábio, foi comum a muitos homens e mulheres da geração de Jorge, da minha geração, da geração dos autores desse Blog – vejam só! esquecemos de chamá-los para esse encontro nesse Café! – em suma, das gerações que tem hoje acima de quarenta e poucos anos de idade. Antes que você me corrija, Lucas, aceito seu possível comentário a meu respeito – pretensioso, presunçoso, pedante! -, afinal, você e muitos de seus amigos também admiram as pessoas inteligentes. Você tem razão! Mas você há de convir que na história da humanidade existe o fenômeno da moda e, ser inteligente, nos anos 1960 e 1960 fazia parte da moda, mesmo que muitos não fossem tão sensatos como se imaginou. Mulheres como aquela ali e rapazes franzinos, exibiam-se com livro de escritores existencialistas, com livros de filosofia e nas filas dos cinemas de Arte. Livros de autores como Marcuse que Jorge citou, eram, por assim dizer, uma moda como são hoje os smartphones. O que posso afirmar, amigos, é que não há dúvidas, estamos fora de moda.
Andei folheando umas revistas velhas e vi que, por exemplo, nos anos 1960, a lista dos Best Sellers da revista Veja, eram livros que hoje são considerados difíceis ou, como diriam, “cabeça” demais. “Todos os Homens são Mortais” de Simone de Beauvoir, “O Estrangeiro” de Camus a “Idade da Razão” de Sartre são alguns exemplos que encabeçam as listas dos mais vendidos naqueles anos. Mas será que o mundo naquela época era tão mais inteligente assim? Bem, para quem hoje pensa que Beethoven é o nome de um cachorro, ou que Sócrates foi um jogador de futebol inteligente, ou ainda, que Molière é um erro de digitação da palavra “mulher” – como tentou me corrigir uma famosa livraria (repito livraria) virtual – Ler Camus seria o mesmo que ler a Odisséia em grego arcaico. Você tem razão, Jorge, estamos num buraco desgraçado e aproveitando esse nosso encontro com Lucas, contarei aos dois sobre um acontecido, um outro, mas lamentável encontro. Corrijo-me, um reencontro.

Detesto reencontros, reuniões de pessoas que não se vê há zilhões de anos e que as únicas frases ditas geralmente são amenidades vagas que se esgotam em poucos minutos. Indaga-se, de início, um mini-curriculum profissional-vivencial-estético – “Você está fazendo o quê? Você tá bem? Você não mudou nada!” – e, termina-se discutindo a meteorologia ou o trânsito da cidade. Inevitavelmente fui, por assim dizer, “convocado” para uma confraternização desse tipo em razão de um aniversário de uma pessoa amiga. Lá chegando reencontrei – este prefixo “re”, por sinal, iria se repetir várias vezes naquela noite nas palavras resgate, retorno, rememorar, reduzir, rever, repensar – enfim, reencontrei várias pessoas que não via há tempos. Uma delas, uma mulher, chamou-me atenção. Sônia como a chamarei, era uma grande amiga dos tempos de faculdade da área de ciências humanas, fazia sociologia e naqueles remotos tempos, lia Lévi-Strauss (antes desse nome se tornar uma marca de roupa), tossia Manuel Bandeira, arrotava a ética Spinoziana, enfim, tinha todos os predicados – palavra démodé – de uma bela e, como estava na moda, inteligente mulher dos anos 60. Com cabelos negros encaracolados (não havia necessidade de chapinhas), seus pés calçavam chinelos baixos, de couro cru, dando impressão de que caminhava descalça pelos lugares – uma mulher andar descalças naqueles anos era um ato muito sensual. Sônia citava trecho de Rimbaud em francês, gostava de Clarice Lispector, assistia aos filmes de Fellini, Ettore Scola, Pasolini (um diretor pornô permitido), Bergman. Fui a sua formatura cujo “baile” aconteceu, imaginem!, num botequim no centro da cidade, nos arredores do “beco da fome” – ah! Como essas recordações são nítidas e agradáveis quando conto a vocês ... Enfim, passadas algumas décadas, Sônia estava lá, naquela festa, na minha frente. Nossas faces, nossos corpos mudaram, nossas belezas eram resíduos daquela juventude de trinta ou mais anos – há algo escrupuloso no processo de envelhecer. Lembro-me que numa conversa universitária, ainda com desprendimento de adolescente ouvi de alguns amigos que o bom da inteligência é que ela era uma espécie de consolo para as transformações do corpo – naqueles anos, pensávamos o corpo e a alma, Lucas, como dois países à beira de uma guerra. Seguindo, contudo, esse ingênuo raciocínio, eu iria reencontrar no semblante de Sônia, já uma senhora, toda uma explosão de sabedoria. Puro engano. Percebi que aquela amiga tão culta e tão lida (antes linda) tinha se transformado na sua inteireza do vinho para a água. A sua inteligência havia se alisado como os seus cabelos e sua futilidade, assim como sua silhueta, tinha ganhado uns quilinhos a mais. Tornara-se uma pessoa rude, rústica. Na primeira conversa ela ensacolou a sociologia, a literatura, Levi-Strauss, o cinema italiano, Rimbaud, Camus etti alli, e todos os ismos daqueles tempos. Nessa sacola tinha uma doença, uma doença grave da qual chamou de juventude. A juventude era-lhe algo como uma doença mental, como num delírio de grandeza. Como pude ver ela estava bem curada dessa doença – disso não se podia contestar. Vocês devem estar se perguntando: e, uma vez curada, qual seria a sua verdadeira saúde? Ela foi taxativa, seu pragmatismo era ofensivo. Hoje Sônia é funcionária pública frustrada, mas bem remunerada, perto de se aposentar. Sua grande aspiração de vida era entreter-se em saber das biografias de personalidades que julga relevantes: Leonardo, Maximiliano, Milton, Newton... Engana-se, Lucas, se você pensou que ela havia se interessado pelas vidas do pintor italiano, do imperador germânico, do escritor ou do físico inglês. A vida de minha ex-bonita amiga resumia-se em assistir ao BBB – esses eram os nomes de seus integrantes na ocasião. Por algum momento, pensei que ali estava outra mulher de nome homônimo, que não era, não podia ser a Sônia que imaginei. Mas as coisas pioravam a todo momento. Falava-se em programas de auditório, viagens a Miami, e de revistas de fofocas televisivas. Enfim...
Se você, Lucas, acha normal realities shows ou tudo que falei, penso que farás ressalvas se disserem que são atividades frutos de hábitos de inteligência. Há alguns que se justificam, assistem a esses programas para “ter um entendimento, um estudo, da alma humana” – eu, particularmente, preferia quando esse cinismo era utilizado para se assistir os filmes de Pasolini...
Vejam como são os nosso estudiosos alunos e pesquisadores!

Por falar nisso, Lucas, permitam-me fazer dois comentários – os únicos comentários críticos ao seu texto. Quando você questionou a palavra aluno você foi à etimologia que vem sendo difundida no meio acadêmico. Algo que se aproxima da ideia de “Sem luz”. Posso dar uma opinião? esqueça essas filigranas, essas discussões não levam a nada e fazem parte do discurso do politicamente correto – veja o artigo de Paulina Souza da semana passada - de alguns setores acadêmicos. se eu fosse me restringir em usar de maneira correta algumas palavras com suas devidas relações etimológicas, algumas denominações soariam estranhas... Se aluno é “sem luz” e eu resolva fazê-lo, por exemplo, com luz “portador de luz” (lucem ferrem) e de “genialidade” (daimon), eu teria duas novas formas de denominá-lo: lúcifer e demônio. Veja só! São essas as etimologias. Há quem diga que a palavra aluno nada tem a ver com “sem luz”, mas com “menino” ou “discípulo” (alumnus) – pesquise mais, se tiver interesse. Eu sinceramente não tenho interesse algum.

O que quero dizer com tudo isso – e agora falo para vocês dois, Jorge e Lucas. A primeira reflexão é de que não há momentos que determinados seguimentos foram mais inteligentes que outros. O que há, são interesses inteligentes e imbecis – restrinjo-me em utilizar apenas a palavra “interesse” – alternado-se em diversos momentos da história. Se vocês me perguntarem o que movimenta esse pêndulo... não tenho a menor ideia – quer dizer, tenho, mas isso merecia outro artigo. 


 Começo a enxergar um pequeno grupo de jovens que estão se cansando da moda da ignorância.

Enfim, Sônia foi um sonho – mas convenhamos (não é Jorge?) foi um sonho bom...


 

domingo, 9 de setembro de 2012

QUANDO A PAIXÃO VIRA PENSÃO: DA CONJUGALIDADE À DIVORCIALIDADE PARTE I


Todas as relações de amor um dia chegam ao fim, nem que seja quando a morte as separa. Mas nem sempre uma história de amor termina pelo morrer de um dos amantes, aliás, o final de uma relação amorosa em vida transforma uma história de amor em outra história.

                O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, provavelmente depois da morte de Norberto Bobbio o último grande intelectual pós-guerra vivo e em atividade, aponta que em um mundo impregnado de sinais incertos e ambíguos, cuja rapidez de suas mudanças nos deixa confusos e um tanto vagueantes e perdidos, as relações afetivas e íntimas tornam-se cada vez mais flexíveis e frouxas, o que aumenta ainda mais a sensação de insegurança. Em seu livro “Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços afetivos” (editora Zahar) Bauman agudamente nos alerta sobre como uma sociedade e cultura onde a descartabilidade das coisas impera e se valoriza o instantâneo e o transitório acaba afetando a vida familiar, sexual e amorosa das pessoas nela viventes.



                Em uma sociedade líquida, nos dizeres de Bauman, o longo prazo é exceção à regra. As ligações amorosas são flácidas e os laços afetivos são facilmente desatáveis. O se apegar foi trocado pelo se pegar. Mais do que ficar com alguém no sentido de permanência, vive-se ficando no sentido de não ficar. Uma sociedade destradicionalizada, como afirma o também sociólogo inglês Anthony Giddens, é o lugar por excelência dos “relacionamentos puros” (desincorporados de expectativas normativas) onde as relações perseveram enquanto correspondem e gratificam as partes envolvidas. São relações em que cada um tem sua própria expectativa e objetivo, enquanto a relação gratifica tais perspectivas a mesma permanece, quando não acaba. Simples assim.
                Sim, não se iluda caro(a) transeunte leitor(a), vivemos o mercadejar do amor. Em uma sociedade de consumo – cuja essência e sobrevivência se baseiam na abundância e no descartável – o que mais há é uma fartura de corpos e uma efemeridade afetiva. Tá ficando cada vez mais difícil o hoje chegar no dia seguinte. Esquecemos as lições de Erich Fromm ao referir que “o amor é uma atividade, não um afeto passivo; é um ato de firmeza, não de fraqueza; é propriamente dar, e não receber”. Até parece, né? Olhemos ao redor. O que vemos? Muitas pessoas buscando o amor como satisfação e não como um espaço de realização. Estamos cada vez mais “analfabetos afetivos”, estamos desaprendendo a amar ou amando de outra forma: rápida, curta, passageira e intolerante às mínimas frustrações.
                O ser humano trás consigo uma necessidade que lhe é humana: a necessidade de pertencer a alguém ou alguéns. Chamamos isto de sentimento de pertença. Da mesma maneira que o corpo precisa de alimento para se manter, desenvolver-se e se fortalecer, o nosso psiquismo igualmente precisa de amor para se manter, desenvolver-se e se fortalecer. Todo ser humano, em grau maior ou menor, necessita sentir-se amado, assim como necessita amar. Dos nossos primeiros vínculos afetivos fundantes partimos para outros vínculos que, embora não nos sejam fundantes, são mantenedores desta intrínseca necessidade humana em se vincular. Espécie de eco emocional com a nossa primeira infância. Daí porque o ser humano busca tanto se conjugalizar.
                A relação conjugal (formal ou não) é a relação entre pessoas que decidem e se unem uma à outra na busca de uma vida mutuamente compartilhada. Por isto tais pessoas são denominadas de cônjuges, do latim “cônjuge” (com = um com outro, juge = ligação). Psicodinamicamente entende-se que a união amorosa entre duas pessoas não é determinada livremente pelo acaso, afinal por detrás ou por debaixo de nossas supostas escolhas conscientes mecanismos inconscientes identificatórios nos influenciam. Há, pois, em toda e qualquer conjugalidade um entrelaçamento de identificações em jogo. Não desprezemos ingenuamente a força das heranças que trazemos em nossa “bagagem psíquica”, advindas desde nossas relações primárias, bem como herdadas de nossa cultura e história familiar e social.
                No tocante ao estudo da conjugalidade destaca-se dois tipos diferentes de conjugalidade, a saber: uma estrutura conjugal baseada na simetria e na gemelaridade, isto é, uma idealização mútua onde os egos não parecem se diferenciar, com ênfase na completude; e uma outra cuja ênfase recai na complementaridade e os egos envolvidos são suficientemente discriminados entre si. Evidente que temos assim, diametralmente opostas, duas conjugalidade em suportes distintos: a primeira imatura e a segunda matura.
                Evidente também que o cotidiano compartilhado há de desnudar o casal das cobertas ilusórias da paixão. A realidade muitas vezes é o antagonista do sonho e quando a idealização diminui sobrepõem-se os defeitos ou qualidades do outro que não gostamos. É aqui, como se diz no jargão futebolístico, que vai se saber quem é menino e quem é homem. A conjugalidade estruturada em bases narcisistas não suporta e se dissolve frente uma realidade divergente da idealizada. Àqueles que esperavam felicidade sem dor ou renúncia vê escapar da cena conjugal a felicidade fácil e romântica dos primeiros instantes, como se ela evaporasse como fumaça entre seus dedos.
                Não é tarefa fácil manter a conjugalidade em tempos de fluidez e imediatismos. A frouxidão dos laços afetivos revela a vulnerabilidade e precariedade cada vez mais manifesta como fraturas expostas. A expectativa de vida dos casais hoje é mais curta do que a de seus membros. A lógica do consumismo extrapolou o campo das mercadorias e invadiu a esfera psíquica dos afetos. Em um mundo de frenéticos prazeres superficiais e efêmeros homens e mulheres buscam estabelecer suas parcerias em um pano de fundo onde qualquer mínimo dessabor é imediatamente deletado. Entra-se e se sai de relacionamentos como quem cruza portas e transita em corredores cada vez mais curtos. 

                Em interessante artigo publicado em Psicologia Reflexão e Crítica da UFRS (vol. 11, nr. 02, 1998), “Casamento Contemporâneo: o Difícil Convívio da Individualidade com a Conjugalidade”, Terezinha Féres-Carneiro discute as tensões existentes no casamento entre duas forças antagônicas: a individualidade e a conjugalidade. Comenta ela que os ideais hoje vigentes projetados na figura conjugal enfatizam muito mais a autonomia e a satisfação individual de cada cônjuge do que a interdependência relacional. Os desejos individuais se sobrepõem-se aos desejos comuns e projetos conjugais. A antiga lógica do “para sempre” não mais vigora, muitas vezes imperando no ideal contemporâneo de casamento que o outro tem de ser uma espécie de reservatório inesgotável que busca atender todas as necessidades manifestas e latentes. E nesta elevada expectativa e hiperexigência o casamento sofre conflitos, pressões e tensões que podem levá-lo à ruptura e dissolução. Mas isto será tema da continuação deste assunto no próximo post a ser brevemente publicado.
(continua)
Joaquim Cesário de Mello
LiteralMENTE

quarta-feira, 5 de setembro de 2012




 











PUTA MERDA, PORRA: QUE SACO!

 Paulina Souza (psicoterapeuta)


                Vivemos a era do “politicamente correto”. Em nome de uma não discriminação e da preservação da dignidade humana sem a existência de preconceitos, principalmente racistas e sexistas, camufla-se uma forma nem tanto sutil de dominação, censura e repressão. Em nome do “politicamente correto”, portanto, restringe-se a liberdade de expressão através de um patrulhamento ideológico conservador quase ao estilo macarthista.
                Essa tal coisa do “politicamente correto” começo em meados dos anos 70/80 do século XX lá pelas bandas dos EUA. Inicialmente aplicou-se ao universo linguístico e rapidamente estendeu-se a outras práticas sociais. A partir daí não se chama um negro de negro, mas de afrodescendente, bem como se deve evitar o verbo judiar, pois ele está negativamente associado ao judeu. A linguagem tá ficando tão puritana que daqui a pouco vamos ter poucas palavras do velho dicionário para se usar, ou então se criar um novo dicionário aos moldes do Novilíngua. Para quem porventura não saiba o que danado é Novilíngua remeto-o ao livro 1984 de George Orwell, livro este que cunhou também o termo “Big Brother” que os mais ingênuos apenas conhecem como um programa de televisão. O Novilíngua é uma nova fala ficticiamente criada por um governo altamente autoritário cujo objetivo não era criar novas palavras, mas sim remover o sentido de determinadas palavras com o intuito de restringir o pensamento crítico. Por exemplo, no Novilíngua não existia o vocábulo liberdade para que não se pensasse em liberdade. Pois é, daqui a pouco teremos já já o nosso Novilíngua.
                Pois é, no excesso do “politicamente correto” chegamos ao ponto de se impor mudanças nas narrativas históricas e até mesmo em obras artísticas e literárias, como foi o caso recente do Conselho Nacional de Educação (CNE) frente à obra de Monteiro Lobato. Em seu livro Caçadas de Pedrinho há frases como “Não vai escapar ninguém – nem Tia Anastácia que tem a carne preta”. É meu nego, a coisa tá russa e tá ficando cada vez mais preta. Vixe! esqueci que num posso falar assim; vão deletar este meu texto do blog.
                Que intenções habitam as aparentes boas intenções do modismo do “politicamente correto”?  Há um velho ditado popular que diz de boas intenções o inferno está cheio. Segundo o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, em relação ao Brasil, o “politicamente correto” serve para mascarar a incompetência do Estado brasileiro, como, por exemplo, na questão das cotas raciais nas universidades, visto que o Estado arrecada muito dinheiro e ao invés de investir em uma escola descente o governo fica preocupado com cota e continua fazendo uma escola pública que é uma verdadeira porcaria. De que adiante, pois, abrir vagas a fórceps nas universidades para grupos ou pessoas desfavorecidas socialmente se elas lá chegam quase como “analfabetas funcionais”, no sentido de serem adultos que infantil e adolescentemente foram educadas de maneira precária? Ainda segundo o próprio Pondé, em seu recente livro Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, “o mundo virou um churrasco na laje”.
                Sim, por detrás do discurso do “politicamente correto” muitas vezes se esconde uma beatice moral hipócrita e aleivosa que busca aviltar a inteligência minimamente crítica e contestatória. Ressalve-se, de passagem, que não estou a me opor a necessidade de ser abrir entradas a grupos sociais no espaço público antes a eles negado, ou de se respeitar as diferenças e as minorias. Claro que não. Todavia estamos correndo o sério risco de não mais poder-se escrever um livro, uma peça de teatro ou fazer um filme onde o vilão ou o mau caráter da história seja negro, gay, pobre ou índio. Aliás, desculpem-me, estou esquecendo das mulheres, dos anões, dos gordos, dos cadeirantes, das empregadas domésticas, dos corcundas, dos velhos, dos vesgos, dos que têm pés chatos, dos judeus, dos tronchos, dos feios... Que tal acabarmos que os vilões e só termos mocinhos na vida? Eh, se fosse hoje Shakespeare seria processado por racismo por haver escrito O Mercador de Veneza, ou Homero por sexismo com Odisseia.
                Como disse certa vez o apresentador da MTV Paulo Bonfá, “hoje em dia o saci seria um afrodescendente portador de necessidades especiais”. Pois, estamos cada vez mais nos policiando uns aos outros como quem vive sob o regime de um Estado totalitário e fascista. Estamos nos submergindo pelas águas da onda de vigília do “politicamente correto”. A liberdade de expressão vai se resumindo em uma liberdade socialmente vigiada e permitida desde que nos ditames do que se deve pensar, dizer e agir. E, assim, no intuito santimônio de dignificar o outro não falemos mais de putas, mas sim de “profissionais do sexo”; de bichas, mas sim de “homoeróticos”; de velhice, mas sim de “melhor idade”... É realmente mais fácil mudar as palavras do que mudar o mundo.
                E do que pouco ou quase nada sei (não sou lá tão socrática assim), sei que a política do “politicamente correto” criou um nova minoria: a minoria dos politicamente incorretos. Ser tachado de politicamente incorreto faz alguém parecer ser diferente e devemos correr dele(s) como o diabo corre da cruz. Cruz credo. Chegamos ao extremo (talvez o extremo seja ainda mais extremo mais adiante) de não podermos dar uma mísera palmadinha num filho, pois isto é pecado e crime, e talvez por isto tenha visto certa vez na rua uma mulher jovem dando uma prensa no seu filho birrento e uma outra mulher mais velha, parecendo ser a mãe da mãe, dizendo: bate nele não, estamos na rua. Pois é...
                Bem, convoco aqui os coordenadores do blog ao debate, bem como aos colaboradores e mais precisamente o Guilherme Saraiva. Porém, antes de mais nada talvez seja melhor utilizar o “politiques correto” e eufemizar o título tão incorretamente acima dado. Retirem o mesmo e em seu lugar leiam: PUXA VIDA, GENTE: QUE TÉDIO!

domingo, 2 de setembro de 2012

MONTAIGNE, HOLBEIN E O TANGO ARGENTINO

Venho ultimamente utilizando os textos de Joaquim Cesário como mote para meus artigos. Que explicações daria para isso? Amizade? Sem dúvida! Sintonia de inquietações? Provavelmente. Falta de imaginação? Quem sabe... Mas há em mim, desde os tempos remotos, a vontade de criar interlocutores.   Na adolescência elegia um restrito número de amigos de colégio, sentava a sombra de uma árvore, uma mangueira, e na hora do recreio e das aulas educação física – que eu dificilmente participava – punha-me a conversar sobre as coisas mais estrambóticas da vida: o cosmos, a vida, o capitalismo, a religião e  outras inutilidades. Digo inutilidades porque eram, naquela ocasião, temas que não interessavam as pessoas de nossa idade. Éramos Nerds antes dessa gíria existir.   O literalMENTE traz de volta esses diálogos e esses  temas que, com a maturidade, ganham alguma importância. O último artigo de Joaquim (“Da precariedade da vida e outras finitudes”) traz a tona o submerso conflitos de nossa existência perante a vida e a morte. 

 Soube de um amigo, que ao viajar recentemente à Buenos Aires teria ido a uma casa de tango, daquelas bem turísticas e caricatas.  O ambiente das casas de tango tentam seduzir o público com  o requinte, a música e a dança sensual que, com junto a nostalgia , trazem o panteão portenho de figuras inesquecíveis e melancólicas: Carlos Gardel, Aníbal Troilo, Juan D’Ariezo, Astor Piazzolla.

        Alberto, o amigo que eu mencionei, entusiasmado, fora a uma apresentação no bairro de Abasto. A casa estava lotada e mal o espetáculo havia se iniciado, Alberto começou a sentir um mal-estar, um incômodo no abdome que foi progressivamente se disseminado por todo corpo provocando calafrios, e  cólicas.  Sem saber ao certo o que acontecia, resolveu ir ao toalete para lavar o rosto ou arejar-se num ambiente mais iluminado. No caminho, desceu um degrau, ou talvez dois, e, surpreendentemente, os seus olhos na penumbra, enxergavam não mais o caminho do toalete, mas olhavam para a rua, para o lado de fora da casa de Tango. Estava no chão  com a cabeça apoiada nos braços de um engravatado -  muitas pessoas faziam-lhe perguntas, perguntas tolas: seu nome, idade, endereço do hotel. 

                           Acontecimento confuso, leitor? Sim.  Para Alberto, mais ainda. Embora tenha sido assim  o acontecimento narrado por ele, o fato foi mais longo, durou cerca de 5 minutos para outras pessoas  que assistiram o seu caminhar. No caminho do toalete, Alberto havia desmaiado e fora levado pelos braços  argentinos e brasileiros para fora da casa de Tango para prestarem-lhe socorro.  Esse trecho de tempo, tenso e comovente, disse-me, jamais vivi. Sua recordação era sumária: o caminho escuro para o toalete acendeu-se com as luzes avermelhadas das ruas de Buenos Aires. Ao ser abordado, já fora, se estava bem, disse que estava perfeitamente bem. Seu rosto lívido, contrariando a ideia de que teria sofrido um mal-estar severo, parecia, pelo contrário, utilizar-se do frio do inverno portenho como um éter prazeroso. 
                           
Sua indagação: “o que vivi nesses  cinco minutos? A inexistência? Seria isso a morte?” Seria a síncope – esse componente do  tango - o intervalo da morte na vida? Essas indagações não lhe provocavam medo,  eram-lhe, surpreendentemente, reconfortante, pois a ideia que tinha da morte era de um lamentável vazio, de uma interminável escuridão, de um lugar eternamente silencioso. Nenhum desses três elementos estava presentes naquela noite. Não houve buracos, as luzes não se apagaram, os sons não se interromperam. “Nada aconteceu”, repetiu.  A morte era esse “nada acontecer”, era o hiato onde sequer havia aflições.

 Esse relato me fez lembrar um acontecimento semelhante vivido, há quatro séculos, pelo filósofo Michel Montaigne. Do mesmo modo, após sofrer um grave acidente de equitação, Montaigne experienciou “intervalo” semelhante, mas que durou dias, fato que influenciou sobremaneira a sua obra, como diz a sua biógrafa  Sarah Bakewell (autora do recomendado texto “ Como Viver: Uma Biografia de Montaigne em uma pergunta e vinte tentativas de respostas”)

Bakewell acredita que os seus “Ensaios” teriam se iniciado após essa vivência, quando se encastelou na biblioteca de seu Château em Bordeaux.  Nos seus escritos a ideia de vida e de morte ocuparam boa parte do seu pensamento, contudo, sem aflições, tampouco resignações. Cético, o mesmo Montaigne que disse:  “Todos os dias vão em direção à morte, o último chega a ela” ou  “Os homens têm tal apego à própria miserável vida que aceitam as mais duras condições para conservá-la.",  é o mesmo autor das frases: “Ensinar os homens a morrer é ensiná-los a viver" e  "Viver é o meu trabalho e a minha arte" (Montaigne também leu Sêneca).


Hans Holbein, o Moço 
Os Embaixadores, 1533, óleo e têmpera sobre madeira. National Gallery, Londres – Inglaterra:



                           Os conceitos parecem se misturar entre o linear e o paradoxal quando se trata de falar de vida e morte. Representam-se com habilidade nas coisas da vida, mas a morte, contudo, parece  não ter ícones. Está oculta ou na inexistência. Uma imagem, em especial, tentou me dar significação ao que não tem palavras.  impressiona-me a pintura de Hans Holbein “Os Embaixadores”.  Nela apresenta-se, um retrato cotidiano do século XVI, não fosse por um detalhe. Observa-se no meio e abaixo da pintura uma imagem disfórmica que se atravessar como um artefato.  Na verdade, um crânio distorcido. Essa enigmática imagem tem se desdobrado em várias discussões sobre a ideia de morte e de vida.  Ao ver esse pintura pude entender que a vertigem sentida por Alberto na Casa de Tango, anuncia essa ideia de morte  –  “Apenas anuncia, nada mais que isso...”, corrige-me Alberto. Porque, como ele bem disse, não há metáforas para “o nada acontecer”, como não há tangos sem síncopes.

Marcos Creder

quarta-feira, 29 de agosto de 2012




CARTA A UM JOVEM ESTUDANTE
(em resposta a resposta ao texto A Ocacidade da Pedagogia do Vazio)

      Jorge Armando
(poeta, psicólogo e professor universitário)



“O homem superior atribui a culpa a si próprio; o homem comum aos outros”
(Confúcio)

Meu caro jovem Lucas,

                Presumo-lhe jovem pelo teor e maneira de escrever, principalmente pelo reluzente brilho de sonho e esperança. Sim, quanto mais velho na vida vamos ficando em muito se diluem alguns sonhos e parcas vão ficando as esperanças. Embora prossiga meu trajeto com sonhos e esperanças, sinto que aos poucos vai ficando cada vez mais árduo preservá-los. Mao Tse Tung dizia que a realidade é o oposto do sonho. Talvez seja, mas o que será do humano sem o exercício contínuo do sonhar? Luto e me esforço para continuar humano e não me robotizar.
                Em suas reflexões e ponderações existem verdades, assim como nas minhas igualmente. Isto lá significa que você está certo e eu errado ou vice-versa? Não. A verdade é muito mais ampla do que nossas miúdas visões podem alcançar. A verdade, comparativamente falando, é uma sinfonia complexa e polifônica. Como você demonstra uma inclinação pelo chamado pensamento oriental, evidentemente já deve ter conhecido o princípio budista denominado “caminho do meio” que se define como o não extremismo, isto é, a moderação e o meio. É como quando afinamos um violão, por exemplo, pois se esticarmos demais as cordas elas rompem e se afrouxamos demais elas não emitem qualquer som. Em uma linguagem mais pop: “nem eu nem você”. Os dois.
                Sim, caro Lucas, estudante (no sentido de quem literal e visceralmente estuda) é uma coisa rarefeita, todavia isto não é uma questão de geração, afinal desde muito tempo isto é um fenômeno recorrente no seio acadêmico, ou seja, nesta década, assim como na década passada e na outra e na outra... temos mais alunos (aquele que só “estuda” quando obrigado pelo professor ou pela escola) do que estudantes. Tem sido assim há muito tempo. Acontece que, como você mesmo reconhece, o número de alunos matriculados nas faculdades e universidades aumentou exponencialmente nos últimos anos. Digamos que 20 anos atrás 20% do corpo discente fossem de realmente estudantes, Os outros 80% são apenas figurantes, ops, digo, alunos. Digamos que tal proporção (20 – 80) persista. Proporcionalmente é a mesma coisa, contudo quantitativamente é bem diferente. Digamos que em uma IES qualquer houvesse 20 anos atrás cerca de 1000 matriculados e que hoje tenha 4000. Ora, 80% de 1000 é 800, enquanto 80% de 4000 é 3200. Mesmo que 20% continue 20%, o aumento quantitativo de 400% é bastante considerável. Se antes eram 800 circulando corredores, salas e pátios; agora são 3200. É como aumento de número de carros na rua: o tráfego aumenta e congestiona-se o sistema viário. É muito barulho e muito ruído, e para se conversar se tem que gritar.
                Sim, caro Lucas, o que pode ser relevante para alguém pode não ser para outro alguém. Entretanto, estamos estudando Psicologia, por exemplo. Os sistemas teóricos (e técnicos) psicanalítico, humanista, gestáltico, bioenergético, cognitivo, construtivista, sistêmico, interpessoal, etc., são nascidos e desenvolvidos dentro do universo do conhecimento ocidental. As origens gregas, romanas, latinas, renascentistas, anglo-saxônicas e modernas fundam e lastreiam o conhecimento acumulado e progredido desde então até os dias contemporâneos. Claro, também, caro jovem, que o mundo ocidental por centenas de anos foi influenciado pelo oriente e encontramos nos antigos e nos que nos antecederam ecos macedônicos, sumerianos, egípcios, babilônicos, assírios, mouros, persas, chineses... O pensamento e a sabedoria mulçumana, por exemplo, penetrou fortemente na Europa medieval entre a metade do século VIII e início do século XIII. Só pra se ter uma ideia devemos aos árabes o conhecimento matemático do “zero”. E quanto o “zero” revolucionou tanto a nossa matemática quanto nossos pensamentos.
                Mas venhamos e convenhamos como estudar e compreender o que se está estudando sem o mínimo de conhecimento histórico do caldo cultural que nos trouxe até aqui. Neste aspecto, caro Lucas, não é uma questão de conhecer nome de pessoas ou personalidades, mas ideias. Afinal, as ideias movem o mundo (ocidental e oriental). Nada contra o poeta chinês Li Bai - que em versos cantou que por estar tão perto das estrelas não ousava falar para não incomodar os que moram no céu – mas num dá né pra entender o freudismo sem saber alguma coisa de Platão, Schopenhauer e física termodinâmica (aquela que se estuda superficialmente no segundo grau).
                Porém, caro jovem Lucas, não fiquemos aqui no pouco espaço que temos nos pegando a picuinhas, pendengas, minúcias ou filigranas. Não vamos fazer da temática uma competição entre Sêneca e Li Bai, nem muito menos nos reduzamos a um conflito de gerações. Vamos nos ater ao que decididamente interessa: a qualidade do ensino superior.
                Ensino superior não se confunde unicamente com alunos e estudantes, mas também professores, as próprias faculdades e universidades, o sistema de ensino brasileiro e o sistema capitalista imperante em sua terceira fase, o capitalismo de consumo. O capitalismo tem um dom que lhe é inerente, ou seja, a de transformar, ao estilo Rei Midas, tudo que toca em lucro. Conhecimento – ao menos o suposto e pretenso conhecimento vendido nas escolas em geral – transformou-se em mercadoria. Compram-se mais diplomas e formam-se menos pessoas. Vive-se hoje um acintoso comércio de títulos (vide o que fizeram das pós-graduações). E todos parecem aceitar o convite à festa da simulação e dos simulacros. Ou como escreveu Adolfo Calderón, em artigo na revista São Paulo Perspectiva, “com a chegada das universidades mercantis, pode-se afirmar que se institucionalizou o mercado de ensino universitário”. A coisa toda parece que perdeu ou está perdendo seu mínimo pudor.
                A docência mesma tá se nivelando por baixo. Não vê quem não quer ou não consegue ver pela própria miopia que a vida foi lhe oferecendo. A mediocridade impera de ambos os lados, é só você, caro Lucas, vir pro lado de cá do balcão pra ver o olhar perdido de muitos alunos frente a qualquer coisa que lhes leve a pensar com um pouquinho mais de profundidade. Às vezes é de dar pena. Já do teu lado do balcão deixo a você mesmo o comentário.
                As graduações estão cada vez mais fracas – com professores e alunos anoréxicos culturais – e as pós então, meu deus, é uma repetência só, não havendo nenhuma inovação na maioria das vezes. E quantos professores são apenas meros reprodutores de livros (quando muito), camuflados em aulas coloridas de datas shows? Professores que realmente pesquisam, produzem e praticam são poucos. O modelo vigente é filhote de uma política de educação de massas e não uma educação para as massas.
                O passado não é sinônimo de melhor do que hoje, pois se assim fosse não teríamos as duas grandes guerras mundiais – só pra ficarmos no século passado – o holocausto, Ruanda e o genocídio dos Balcãs na década de 1990, por exemplo. Porém, no passado que a cada dia que passa está ficando remoto o modelo era alicerceado em outros paradigmas. Havia a ideologia de missão, isto é, os aspectos financeiros eram meio e não fins. O aviltamento é visível, meu jovem Lucas, e claro que em qualquer época houve e haverá bons e maus alunos, bons e maus professores, boas e más faculdades, bons e maus profissionais. Apenas que o lado mau da balança tá ficando mais pesado.
                O que mais inquieta nisso tudo, meu querido Lucas (permite-me assim chamá-lo?), é a passividade bovina de quem aceita por apenas aceitar e tão somente. Não sejamos contra os que querem passar a vida ingênuos, medíocres e confortáveis. Direito deles. Escolhas deles. Mas há os que manifestam alguma motivação em conhecer algo mais do que suas cercanias e circunvizinhanças, porém se iludem com o que lhes oferecem e pensam – de bom coração – que estão realmente estudando.  O “homem unidimensional” a que se referia Marcuse (mencionado no primeiro post) é o indivíduo instrumentalizado, massificado e produzido em série como um produto qualquer saído de uma linha de montagem. Esse homem  tecnocrata e consumista alienado é um ser humano acrítico e iludido em sua própria ignorância pelo parco exercício reflexivo em que vive, submerso em um sistema ideologicamente construído. O próprio Marcuse certa vez respondeu a indagação do colega Adorno (outro eminente membro da chamada Escola de Frankfurt, conhecido por sua teoria crítica da sociedade) de que “é possível fazer poesia depois de Auschwitz?". Sua resposta, Lucas, foi que sim, pois  "a arte só pode cumprir sua função revolucionária se ela não fizer parte de nenhum sistema, inclusive o sistema revolucionário”.
                Aos alunos de boas intenções, mas mal alimentados de estímulos e instigações além da superficialidade cosmética que as Instituições de Ensino Superior lhes oferecem (não esquecer que a coisa toda já vem se arrastando desde lá atrás em seu processo de socialização, educação e ensino) fica aqui o alerta e o sincero aviso de que ainda há tempo, enquanto vida houver, para o conhecimento germinante ao invés do pseudoconhecimento rasteiro e ludibriante do estudar preguiçoso, sem esforço e sem dor. Assim, somente assim, podemos sair daqueles supostos 20% e aumentá-los rumo a uma utópica maioria. O que seria de nós sem os sonhos, não é mesmo?
                Finalmente, prezado Lucas, vejo-o parecido comigo. Não é porque estamos alguns anos separados ou abordando ângulos diferentes de uma mesma poligeometria que não haja pontes entre nós e quem mais quiser participar da festa. A verdade é mais ampla e mais complexa do que enxergam os meus olhos e os teus. E se for verídico que no meio podemos melhor ver os extremos e os caminhos que nos levam até eles, façamos o seguinte: “tu me ensina a fazer renda, eu te ensino a namorá”, como dizem estes celebrados versos do cancioneiro popular.
                Considero, portanto, encerrada minha participação temática sobre este imenso assunto aqui no blog. Que tal deixarmos de lado os posts e marcarmos logo uma cervejinha para debatermos mais sobre tudo e um pouco mais? Convidados estão todos os interessados na questão. Falta marcar o dia, o horário e o local...