domingo, 13 de março de 2016

GOTÍCULAS DE SAPIENTIA

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Um aforismo é uma frase ou um pensamento sucinto e conciso que enuncia um princípio ou advertência, isto é, um preceito moral. Trata-se de uma sentença breve (apotegma) que traz consigo um fundamento geralmente filosófico ou prático. Exemplo de um aforismo: "só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado", Nietzsche.
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Um dos mais famosos e genial escritor de aforismos foi Oscar Wilde. Wilde é mundialmente conhecido principalmente pelo seu livro "O Retrato de Dorian Gray", tendo sido também um celebrado dramaturgo. Seu sucesso com os aforismos é tanto que a ele é atribuído frases e citações que não são dele. É dele, por exemplo, "a finalidade da arte é, simplesmente, criar um estudo da alma" ou "uma verdade deixa de ser verdadeira quando mais de uma pessoa acredita nela". Suas tiradas são cheias de sabedorias, verdadeiras pérolas do conhecimento sobre a natureza e a psiquê humana.

Resultado de imagem para aforismaA ironia e a mordacidade dos aforismos de Oscar Wilde parecem brincadeiras com as palavras. Porém, embora com criativo sarcasmo, humor e com muita sátira, suas "brincadeiras" literárias são coisas sérias, uma verdadeira aula de alta literatura ("a verdade raras vezes é pura e nunca é simples"). Ele é praticamente insuperável neste estilo artístico. Na rapidez de suas frases Wilde se eternizou.

Resultado de imagem para aforismaA sagacidade de seus aforismo e a profundidade de seus ensinamento é que nos levou neste momento a dedicar-lhe aqui um espaço sobre tal. Wilde foi um escritor atrevido e ousado, e a ferocidade com que ele nos cutuca é digna de destaque e reflexão. Se Fernando Pessoa dialoga com a interioridade e com o imaginário, Oscar Wilde dialoga com a hipocrisia social e a polêmica, tal quando diz: "todos estamos deitados na sarjeta, só que alguns estão olhando para as estrelas" ou quando provoca ao afirmar que "um homem pode ser feliz com qualquer mulher desde que não a ame". Ui!
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A Editora Sextante publicou em 2012 "Oscar Wilde Para Inquietos" com 99 aforismos que bem traduzem o pensamento e a filosofia do referido escritor de origem irlandesa. Que tal começarmos com "viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe". De fato se vivo estamos é porque existimos; a questão é realmente vivemos ou somente sobrevivemos? Quem apenas flutua pelos eventos e acontecimentos da vida tem um viver tão superficial e fútil que não merece chamar sua simples existência de vivência. O músico e ensaísta Francesc Miralles certa vez escreveu que não queria passar pelo mundo na ponta dos pés.  Pois é, como igualmente musicava Vinicius de Moraes "quem já passou/por esta viva e não viveu/pode ser mais, mas sabe menos do que eu/porque a vida só se dá/ pra quem se deu".

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O existencialismo professa que a existência prece a essência, por entender que nenhum ser humano é pré-definido, isto é, ele tem a liberdade e a responsabilidade pelo seu existir (viver). Como diz Sartre, "o homem primeiramente existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define". Quantos não têm medo de viver, viver realmente o que se é ou se pode ser? Quantos não vivem a vida atrofiados em suas interioridades e acabam sofrendo de sufocamentos da alma? Quantos não se encontram frente a sua existência como naqueles versos de Fernando Pessoa: "quantas aspirações, altas e nobres e lúcidas-/sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas-/e quem sabe realizáveis,/nunca verão a luz do sol real nem acharam ouvidos de gente?/O mundo é para quem nasce para o conquistar/e não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão". O medo psicológico de viver faz-nos enferrujar a essência em uma existência superficial sobre a vida quase como se vegetal fôssemos. 

Resultado de imagem para homem acorrentado, rousseauPor isso sentencia Oscar Wilde: "seja você mesmo. Todas as outras personalidades já têm dono". Se a personalidade de uma pessoa é algo única e pessoal, contudo o que muitas vezes vemos é uma multidão de gente se comportando, pensando, gostando e sentindo de maneira igual. Há uma unidimensionalidade de pensamentos e atitudes, onde - como dizia Marcuse - anula a capacidade de se pensar criticamente. Se observarmos são pessoas acríticas, passivas e pouco ou quase nada reflexivas. Deixam-se guiar pelas ideias dos outros, em uma verdadeira espécie de "Maria vai com as outras". É difícil questionar a manada pelo risco de ser excluído ou pelo receio de não ser aceito. Quem sabe não esteja certo Rousseau quando afirmava que "o homem nasce livre, e, em toda parte, encontra-se acorrentado". 

Resultado de imagem para maioria, diferente"Ser natural é a mais difícil das posses". É, não é fácil mesmo ser naturalmente você. Muitos vivem sentindo-se infeliz e com autoestima baixa, pela dificuldade de assumirem sua própria originalidade de ser quem se é. A vida não é um fato consumado, mas sim um potencial de vida. O viver humano não é uma xerox, pois a vida requer unicidade. Contrariar a sua própria natureza e tendência, reprimi-la, é abrir portas e janelas para adoecer psiquicamente. Ainda como diz Wilde, "só se põe a vida a perder quando ela para de evoluir". Nossa alma humana necessita sempre crescer e se expandir. Se pudéssemos viver quatrocentos anos, ainda assim teríamos muito a desenvolver e a evoluir. O teto de cada um é geralmente mais em cima do que nos acostumamos a nos cobrir.
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Muitos aforismos são pequenas gotas de sabedoria e reflexão. Em sua diminuta forma de expressão pode nos levar a pensar mais seriamente sobre determinadas coisas, aliás sobre a nossa própria vida e existência. Sua brevidade não se mensura a sua profundidade. O que não dizer de um dos primeiros aforismos humanos vindo de Hipócrates que exclama: "ars longa, vita brevis". A história humana é cheia de aforismos e máximas. Desde o já citado grego Hipócrates ("para os males extremos, só são eficazes os remédios intensos"), passando pelo imperador romano Marco Aurélio ("o homem comum é exigente com os outros; o homem superior é exigente consigo mesmo"), indo pelo filósofo Schopenhauer ("por toda a parte o homem encontra oposição, vive continuamente em luta, e morre segurando suas armas"), pela escritora Anaïs Nin ("não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos"), pelo poeta Fernando Pessoa ("não me venham com conclusões. A única conclusão é morrer"), por Jorge Luis Borges ("a dúvida é um dos nomes de inteligência") e Voltaire ("devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas do que pelas suas respostas"), entre tantos que pelo mundo vai.
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O escritor austríaco Karl Kraus foi feliz afirmando que "um aforismo não deve necessariamente ser verdadeiro, mas deve superar a verdade", afinal o gênero aforismo busca construir e desconstruir verdades absolutas ("tudo que é sólido se desmancha no ar", Karl Marx) e imutáveis. Literariamente tem a proposta de muitas vezes subverter a lógica usual ("uma gaiola saiu à procura de um pássaro", Kafka) e dialoga com as entrelinhas do se viver. Como escreveu Drummond de Andrade, "o aforismo constitui uma das maiores pretensões da inteligência: a de reger a vida". 

Não vou aqui findar o assunto sem expor um aforismo meu, que é: "sou menor do que meus sonhos, e maior do que vejo no espelho". 

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 6 de março de 2016

Sobre a Única Certeza

Cada vez mais escutamos das autoridades governamentais, independente de ideologias - e isso não pretendo discutir nesse texto -  a necessidade eminente de discussões e de  revisões no sistema de saúde e, principalmente,  no sistema previdenciário - sob o nome da enigmática  da Reforma Previdenciária. Nessas discussões se propõe recalcular as contas das aposentadorias em relação a tempo para gozo, o pecúnio e a adequada assistência médica nas situações limites.  varias questões são levantadas, mas, geralmente,  se deixa de lado é um dos itens principais: o aumento da expectativa de vida da população mundial e a consequente medicinização do envelhecer.

Há um curioso romance de Saramago intitulado de “As Intermitências da Morte” que narra a fantástica história do dia em que estranhamente a morte deixou de existir. Antes de todos se felicitarem com a vida eterna, dois problemas surgem, as religiões ameaçam desaparecer e a  previdência  entrar em grave colapso. O livro permeia a ideia de que, apesar do infortúnio da “única certeza”, temos que morrer para que tudo funcione normalmente.  Desse mesmo modo pensou, não de maneira fantástica, mas realista, o médico Atul Gawande no excelente livro “Mortais”. Gawande é médico cirurgião e traz de volta a velha discussão a respeito de como a medicina ainda guarda  certa  ingenuidade no lidar com a finitude. O médico que no passado tinha  como objetivo propiciar o conforto, bem-estar  e  diminuição do sofrimento de seus pacientes,  converteu-se,  graças aos avanços tecnológicos da medicina, no executor do  adiamento da morte. A questão que destaca é que, com o aumento da expectativa de vida, o número de idosos aumentou e o número de situações de manutenção da vida, sem qualquer qualidade, também se intensificou. Envelhecer desse modo, fato cada vez mais frequente, diz Gawande, tornou-se   um dos principais  problemas da atualidade e que ainda é agravado com o perfil individualista da sociedade pós industrial, em que há um paulatino desaparecimento dos patriarcas e matriarcas.

Os idosos no passado eram mais raros e representavam o sinônimo da sabedoria e do cuidado. no Império Romano a expectativa de vida era de cerca de 30 anos. Dados estatísticos trazidos por esse autor são incontestáveis: na primeira metade do século XX apenas 11% das mortes ocorriam em hospitais, hoje mais de 70%. No século XIX os idosos residiam, em sua maioria,  com os familiares, hoje já se dividem em 50% dos leitos de instituições de longa permanência - instituições que tentam dar acolhimento de qualidade, mas que terminam por  privar, por outro lado, daquilo que os idosos mais se queixam, segundo Gawande: a sua autonomia.  

Do mesmo modo que a medicina não sabe lidar com o idoso, também teria dificuldades de lidar com a morte,  independente da faixa etária. Gawande comenta que os  atos supostamente heróicos dos profissionais de saúde  são, em sua maioria, propiciador de mais sofrimento ao sujeito -  sem que fosse essa a intenção.  Gawande, vai mais longe, narra várias situações em que mostra que é muito difícil lidar com o paciente terminal - um momento de extrema delicadeza na relação médico-paciente em que a medida certa, na forma em que os fatos são informados  requer preparo, experiência e cautela, três itens que não ocorrem na tradicional formação médica.

 “Mortais” é escrito com beleza e simplicidade apesar do tema ser de difícil leitura e de deixar o leitor no nihilismo natural e questionador do sentido da vida.  Lendo Gawande observo que esse sentido só é parcialmente  preenchido  com as palavras do  do século XIX do filósofo Nietzsche. Em “Assim Falou Zaratustra”   o sentido do viver metaforiza-se numa  travessia:  “Perigosa travessia, perigoso a-caminho perigoso olhar-para-trás, perigoso arrepiar-se e parar. O que é grande no homem, é que ele é uma ponte e não um fim ... “

Marcos Creder

domingo, 28 de fevereiro de 2016

AMY: DA INFÂNCIA À MORTE EM 123 MINUTOS

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Consumir é gastar, ingerir, comer, debilitar, exaurir, devorar, destroçar, destruir. Consumimos objetos, coisas, alimentos, bebidas, roupas, aparelhos e quinquilharias várias. Consumimos também pessoas. Foi, em boa parte e sentido, o que fizemos (e continuamos a fazer) com a cantora inglesa Amy Winehouse, nascida em 14 de setembro de 1983 e morta em 23 de julho de 2011. Possuidora de uma potente e rara voz de tipo contralto vocal, Amy Winehouse "explodiu" ao estrelato e ao sucesso em 2006 com o disco Back to Black. Seu êxito musical foi igualmente curtido e acompanhado pelo público com a sua "carreira" desenfreada e autodestrutiva de álcool e drogas. Comparada às clássicas divas do jazz e do soul, como Ella Fitzgerald, Billie Holiday e Sarah Vaughan, Amy com sua voz grave e vigorosa teve uma vida curta e intensa, talvez intensa até demais.
Resultado de imagem para amy documentarioPara muitos o modo de vida e o comportamento de Awy Winwhouse é compatível com o Transtorno de Personalidade Borderline. Psiquiatria ou psiquiatrismos à parte, a vida de Winehouse é uma espiral descendente e destrutiva que mais parece um filme ao estilo Garota Interrompida, Réquiem Para Um Sonho ou Paixão Sem Limites. Pois é, virou um filme, ou melhor um documentário, dirigido por Asif Kapadia, cineasta britânico descendente de indianos. Seu documentário, Amy, concorre hoje ao Oscar de melhor documentário. Não é sobre transtorno de personalidade borderline que iremos tratar aqui, afinal Amy Winehouse é para mim uma imagem midiática, mas sim sobre o filme em si e suas mostrações e insinuações.
Resultado de imagem para amy documentarioDe antemão o filme Amy nos leva a pensar: pode um pai destruir psicologicamente uma filha? Asif Kapadia nos leva a ver que sim. O pai de Amy Winehouse é descortinado como um pai ausente desde a infância da filha. Verdade ou não (o mesmo contesta) o pai de Amy é exposto no documentário como faltoso, omisso, retirado, oportunista e mercenário. Aliás, toda a família mais próxima em  geral, exceto a avó. O filme não opina com palavras, porém com imagens. São as imagens que falam por si mesmas (contudo considere que são imagens editadas). A má reputação do pai de Amy antecede à produção do filme, mas o documentário é fatal para a construção de sua imagem como "vilão". Seja como for, um pai, assim como uma mãe, podem deturpar a construção da autoimagem de seus filhos sim.
Resultado de imagem para amy documentarioAmy começa com filmes caseiros quando ela tinha 14 anos. Desde cedo vamos vendo que mesmo brincando Amy Winehouse já dava mostras do poder de sua robusta voz. Através de depoimentos,  fotos, videos domésticos e pessoais, assim como com filmagens de bastidores e shows, uma vida vai nos sendo exposta e acompanhamos como voyeurs uma espécie de crônica de uma morte anunciada que vai daquela adolescente rechonchuda à mulher magerrimamente tatuada e chapada. Celebridade ao mesmo tempo cultuada e vampirizada. Todos, ao menos os que acompanharam midiaticamente a cantora, devoramo-la avidamente.
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Há um momento emblemático no documentário: Amy, aos 20 anos aproximadamente, diz claramente que "não quero ser famosa. Tenho certeza que não aguentaria a pressão". Dito e feito. Contudo, não creio que a fama por si mesmo a destruiu. Ela própria, em sua possível fragilidade egóica e vulnerabilidade afetiva, parece ter contribuído para tal. Uma combinação por demais fatal: ego frágil + fama. E nós, aqui do outro lado do balcão, concluímos por canibalizá-la.
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Será que ainda estamos buscando "pão e circo"? Que celebramos, como os antigos romanos celebravam seus gladiadores, saudando àqueles que vão morrer? Há, no fundo obscuro da alma humana, um gosto mórbido ou ancestral pelo sangue alheio? Parece que aqui amor e ódio andam bem juntinhos, né? Ou será que por detrás das nossas costelas invejamos a quem idolatramos? Ou será que precisamos consumir até a exaustão e extinção nossos heróis e ícones como uma forma de simbolicamente reciclarmos os mesmos? A vampirização do ídolo pelo fã é algo que merece estudos e aprofundamentos. Alguém até já chamou isso de iconofagia.
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O documentário sob comento é contundentemente claro: Awy não foi nem de perto uma santa nem muito menos um anjo decaído. Ela tinha lá os seus demônios pessoais que tóxicos e bulimicamente lhe mataram. Assim como nós temos os nossos que projetivamente gozamos vê-los agonizar no morrer dos outros. Como dizia o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre "o inferno são os outros".
Pranteamos a morte de Amy Winehouse. Festejamos porque estamos vivos.  Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós.

Joaquim Cesário de Mello