quarta-feira, 5 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - EXERCÍCIO

QUESTÕES LEVANTADAS A PARTIR DA APRESENTAÇÃO EM SALA DO DOCUMENTÁRIO "A MORTE INVENTADA":


1) O que representa o título do filme "A MORTE INVENTADA"?

2) À luz do documentário, como você traduz o poema abaixo que é declamado no filme?

"Qual será o meu limite? Até onde eu posso ir?
Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorrisos, encontro também um rastro de conversa boa com pedaços de estórias espalhadas.
São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra.
Pulamos desequilibrados num pé só até chegar no céu e chegamos.
Brincamos de correr de costas. O segredo é olhar pra frente para vencer.
Eu sempre perdi.
Nas corrida de folhas ela vencia e perdia.Algumas vezes nós dois empatávamos, perdendo.
Nossas folhas ficavam encalhadas numa pedra ou coisa parecida.
Brincamos de correr e congelar, de estátua. Quem mexesse perdia.
Nessa brincadeira incluímos um novo amigo. Os três a congelar: eu, ela e o tempo, que não entendeu as regras do jogo e seguiu correndo. Depois foi ela que correu. E eu fiquei ali congelado. Todo mundo perdeu.
Só agora, a essa altura da vida fui conhecer o mais amargo dos sentimentos.
A injustiça, é uma onda de 10 metros que te arranca de dentro de si e faz tudo se apagar.
Falta chão, falta ar, falta voz. Você perde o plumo, perde o rumo. Não sabe mais pra onde fica o céu. Por eternos três segundos, você prova o terrível gosto da água do mar, o gosto do sal, da areia e da morte.
A razão e os sentimentos submergem e aflora os seus mais profundos instintos. É você no avesso, primitivo, em carne viva. Esse sentimento veio morar comigo.
Julguei ter encontrado meu limite.
Nada, e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Mais uma vez estive enganado.
Do convívio levaram o fogão. Da ingenuidade, tiraram as rodas da frente. Do afeto roubaram a pilha. Mesmo assim eu estava pronto para o mínimo. Julguei ter encontrado o meu limite. Nada e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Ainda restava o mínimo. Um elo entre ela e eu. Único e suficiente, intocável. Isto nos bastava! Uma fresta para se ver, para se falar, para se ouvir, para sentir. Um elo entre ela e eu!
Mas esse elo virou fetiche, território de conquista.
Dele fizeram um adorno, ele ganhou uma orelha, ganhou as ruas e sumiu. Assim o nosso amor virou um brinco. E o elo se foi.
Em apenas um corte, 13 meses se passaram. Sem olhar sem ouvir, sem cheiro sem gosto e sem contato, sem sentido. No fim deste período meu papel mudou.. Como inimigo me vi diante de uma outra menina, que não aquela que não existe mais.
Em apenas um corte.
Tentei ouvir em todas as estórias um pedaço de minha própria estória. Tentei encontrar nas pessoas com quem conversei ,a palavra que eu não soube escrever, a voz que eu perdi.
A minha saudade é um longo corredor esfumaçado de hospital, com piscar de incontáveis vagalumes de ontem. Em alguns casos para se chegar a cura basta levantar a camisa e mostrar onde dói, em outros tem que arregaçar a pele. E mostrar onde dói.
Aqui não cabem nem as palavras, nem o grito, nem a raiva, nem a saudade, nem a angústia, nem o eu.
Qual será o meu limite?
Até onde eu posso ir? Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorriso. Encontro também um rastro de conversa boa, com pedaços de estórias espalhadas. São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra. Pulamos desequilibrados em um pé só, até chegar no céu e chegamos.
Não brincamos de voltar no tempo, esse jogo nós não inventamos, mas posso inventá-lo agora. Regras e número de participantes. O vencedor pode ir ao passado e refazer as coisas que não deram certo, para depois voltar ao presente e descobrir de um jeito melhor que antes. Que as coisas ruins não passaram de um filme triste de cinema, onde basta acender as luzes e descobrir que tudo não passou de ilusão. Mas não foi."


3) Como você articula a Síndrome da Alienação Parental (SAP) e a prática vivenciada pelas famílias depoentes?

4) Como você analisa a participação dos profissionais de Psicologia apresentados e citados no filme?

5) Comente as sequelas percebidas que o fenômeno da alienação parental (AP) causou na vida dos depoentes que sofreram como crianças/vítimas a AP.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - CLÍNICA





Dificuldades para se relacionar, oscilações de humor, impulsividade, sentimentos crônicos de vazio, dificuldade em controlar a raiva chegando a mesma à fúria, são manifestações sintomáticas relacionadas ao Transtorno de Personalidade Borderline, também conhecido como Transtorno de Personalidade Limítrofe. A história do termo borderline em psiquiatria vem do final do século XIX quando o psiquiatra inglês Hughes assim definiu pacientes que passavam a vida oscilando entre a sanidade e a loucura. Stern, em 1938, denominava tais pessoa como "hemorrágicas emocionais", devido a característica de estarem quase sempre feridas ou magoadas emocionalmente. Termos como "esquizofrenia marginal" e "esquizofrenia pseudoneurótica" chegaram a ser utilizados associativamente. Embora muitas vezes possam ser confundidos com esquizofrenia ou bipolaridade, os transtornos borderlines variam em duração e intensidade das emoções.
Otto Kernberg formula psicanaliticamente o conceito de Organização Borderline de Personalidade, cuja estrutura de personalidade apresenta mecanismos de defesa primitivos com preservação da capacidade de Teste de Realidade. Atualmente, embora ainda predomine a ideia de que o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tenha a ver com fatores da história de vida do indivíduo, alguns estudos parecem apontar para uma certa predisposição biológica, tais como anormalidade do metabolismo da serotonina e desordens neurológicas. Seja lá como for, o paciente borderline está cada vez mais presente nos consultórios e ambientes clínicos de saúde mental. Talvez isto esteja ocorrendo não porque haja mais borderlines na humanidade, mas sim porque estamos melhor compreendendo e enxergando o adoecer borderline. 
Não se trata de uma psicopatologia clara e simples, chagando as pessoas com tal transtorno serem chamadas de "pacientes difíceis", principalmente por apresentarem percepções empobrecidas e contraditórias do outros e de sua incapacidade de mostrar-se à alguém. Embora do ponto de vista egóico suas perturbações não cheguem ao nível do psicótico, têm sérias limitações para usufruir as opções emocionais frente aos estímulos do cotidiano. Seu limiar de tolerância à frustração é bastante baixo e entram em curto-circuito agressivo fácil e bruscamente. A tendência à adição é alta e possuem pouca persistência nas coisas, sendo a sua vida uma constante descontinuidade. Todavia, apesar da refratariedade ao tratamento psicoterápico, tais pessoas podem se beneficiar significativamente de uma atenção cuidadosa e firme de uma relação terapêutica. 
Os limites do setting psicoterápico têm que ser claros e bem definidos já no início do processo, devendo o terapeuta ficar sempre alerta e vigil às manifestações resistenciais do paciente. Não são casos de indicação para psicoterapia de curto tempo de duração, devido as suas fragilidades egóicas evidentes. A motivação para a mudança pode até existir desde o início, contudo ela é bastante baseada em pensamentos mágicos, idealizantes e imediatistas. A construção de uma boa aliança terapêutica é um longo processo que requer paciência, trato e manejo por parte do profissional. 
Além de enfocar constantemente a aliança terapêutica (muitas vezes frágil e passível de inúmeros ataques), o principal foco de trabalho é o desenvolvimento das capacidades e funções egóicas atrofiadas (ampliação do Ego), mediante aumento da mentalização de experiências emocionais. O fortalecimento da capacidade reflexiva é fundamental ao êxito terapêutico, devido tal capacidade encontrar-se inibida ou carente de desenvolvimento em personalidade border. Entenda-se aqui mentalização como capacidade de compreender os comportamentos e sentimentos pessoais e dos outros. Trata-se de focar a percepção do paciente em sua própria mente, assim como pensar a dos outros, levando-o a descobrir seus estados mentais associados a seus sentimentos e condutas, e como estes influenciam suas respostas, assim como as respostas de quem ele se relaciona. Neste sentido a atenção predominante não é voltada ao comportamento em si, mas sim aos estados mentais subjacentes. O objetivo não é promover insight, mas promover a curiosidade do paciente a respeito dos motivos causadores de suas atitudes, bem como considerar alternativas comportamentais outras. O processo de mentalização, assim, ajuda a pessoa borderline a separar seus sentimentos e pensamentos dos sentimentos e pensamentos dos demais que a rodeiam. Em outras palavras, o exercício da mentalização não deixa de ser uma postura psicopedagógica do terapeuta em relação ao seu cliente, dentro de um contexto e suporte clínico.
Um outro aspecto característico da abordagem psicoterápica é a menor ênfase na associação livre, visto a desorganização e labilidade egóica do paciente, evitando, desse modo, uma sobrecarga de material a ser trabalho clinicamente pelo mesmo, afinal o seu discurso não é pautado em uma fala livre, porém desorganizada. Sintetizar, clarificar, confrontar e esclarecer são intervenções bastante utilizadas neste manejo clínico. Já a utilização das intervenções interpretativas por parte do psicoterapeuta visam o aqui-agora. A interpretação não tem como alvo conflitos internos inconscientes, porém os estados contraditórios do Ego consciente do paciente (confrontação). O conflito não é entre consciente e inconsciente, entre superficial e profundo, e sim entre o que o Ego percebe e processa e o que o Ego não percebe e portanto não elabora. Lembrar que uma das principais características da estrutura borderline é exatamente que o individuo tem dificuldade em dar significado as suas experiências emocionais vulcânicas. 
Inevitável, ao lidar com TPB, é o fenômeno transferencial e seu correlato: a contratransferência. Ataques ao vínculos são frequentes, inclusive em formas de desvalorização da terapia e do profissional. É necessário que o terapeuta esteja preparado para tais ataques e tenha tolerância a agressividade a ele dirigida, assim como tolerância (continência) a lidar com ansiedade (sua e do seu paciente). A transferência negativa é, acima de tudo, uma forma border de se comunicar e de se relacionar. Quanto mais o terapeuta assim compreender mais viável será o manejo utilizado com vistas a preservação e sobrevivência do vínculo terapêutico. Como diz Winnicott, o terapeuta não deve negar em si o ódio contratransferencial, transformando-o assim em uma compreensão consciente e discernível de seus sentimentos de resposta. A respeito do tema sugerimos conhecer o capítulo XV ("O ódio na contratransferência"), contido no livro "Da Pediatria à Psicanálise" de Winnicott, editora Imago. 
Como o essencial é focar nos afetos (mundo interno) e não nos comportamentos (mundo externo) o foco do terapeuta é no estado mental atual dele (paciente). E sendo assim, o terapeuta há de se estar constantemente se perguntando "o que está se passando na mente do paciente agora?". Intervenções do tipo "por que você acha que ele disse/fez isso?" são frequentemente utilizadas. Busca-se, também, uma nova perspetiva no lidar com as experiências e eventos da vida. Em termos de interpretações transferenciais as mesmas devem ser curtas e simples, centradas no afeto que permeia a relação do paciente com o terapeuta no aqui-agora da sessão. Atentar ao fato de que são pessoas com fracas leituras introspectivas de suas próprias subjetividades, razão pela qual, portanto, trata-se sobre os sentimentos emergentes e não os inconscientes. 


Pelo acima exposto, a complexidade do tratamento psicoterápico frente ao paciente borderline é ampla, o que requer uma compreensão mais aprofundada da temática e experiência e segurança no manejo. Como o espaço aqui presente é curto e ligeiro, remeto o leitor(a) a complementar com um texto anteriormente publicado aqui no blog (http://literalmente-literalmente.blogspot.com.br/2013/11/psicoterapia-do-paciente-borderline.html), assim como oriento aprofundar o estudo visitando os seguintes links:

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n4/16
http://www.uricer.edu.br/new/site/pdfs/perspectiva/128_143.pdf
file:///C:/Users/Joaquim/Downloads/0c96051c71048c9c64000000.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=UxTHw5GqyHY

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 2 de novembro de 2014

A culpa nos adoeceu




Desde que iniciei minha carreira profissional, faço interconsulta psiquiátrica em hospitais gerais. O que é isso? Interconsulta é a área da psiquiatria que trabalha o fenômeno psíquico em conjunto com outras doenças da medicina - clínica médica, cardiológica, ciruirgia, endocrinológica,reumatológica etc. O interconsultor, em tese, não seria apenas um fornecedor de parecer psiquiátrico, como muitos pensam, mas um profissional que transita entre as manifestações psíquica e às doenças somáticas e interfere na relação médico-paciente-instituição hospitalar.  Enfim, a função de interconsultor envolve o entendimento dessa relação entre sujeitos, e desses sujeitos com a doença.

Uma pergunta inicial e comum entre os que têm curiosidade por essa área,  é saber se os eventos psíquicos "fabricam" doenças físicas, ou ainda, se as doenças físicas interferem no psiquismo. A resposta que dou é imprecisa: não temos subsídios para separar, como continentes distintos, o lugar do psíquico do lugar do corpóreo. Embora possa parecer bem definidos, não  se sabe ao certo quais são suas  fronteiras, se é que existem. Há várias argumentos que defendem a cisão, e, outros, a fusão do corpo com a mente - essa discussão é antiga que tão cedo  se terá respostas. O que trago nesse pequeno artigo são as correspondências que há entre o sofrimento físico e as teorias leigas construídas pelo sujeito.  A pergunta: até que ponto  nossa psiquê  elabora uma teoria sobre a doença e o que ela nos quer dizer?

Apesar de vivermos numa época em que as ciências naturais  predominam com complexas teorias fisiológica, anatômica, citológico, bioquímica das doenças, assistimos, aqui e ali, inclusive, de pessoas esclarecidas, especulações, aparentemente, descabidas: "adoeci porque tive uma vida errada", "essa moléstia se instalou porque fui desonesto", "sou o culpado pela doença dos meus entes queridos". Interessante que mesmo que o médico venha a esclarecer as reais razões do adoecimento, ainda sim, silenciosamente, o doente carrega a ideia de que o "pecado" ou uma "má conduta" o aniquilou e vem se revelar  nos momentos mais desesperados do adoecimento. 

 Um ou outro médico diz, desapontado, que, no que diz respeito ao  adoecimento, o pensamento humano atual é  semelhante ao  da Idade Média.  Pegunto: avançamos? Se respondermos sensatamente, sim, se emocionalmente, não. Se somos muitos mais afetivos que efetivos, então, no momento do adoecer, as maldições mais arcaicas reaparecem, assim como apareciam com nitidez para nossos ancestrais mais primitivos.

Essas formas malditas - ou seja, de pensar doença como maldição -  faz parte da vida psíquica humana, e suponho, é a forma predominante. São os desejos arcaicos humanos que estão em jogo. Os desejos geralmente tendem a entrar em rota de colisão com os pensamentos morais e, nesse choque surgem, ainda na poeira, as doenças, que nos freia e nos faz refletir. A doença aparece-nos para impedir ou para "comunicar"  nossos oráculos. A doença  vem para repensar a vida e, sob  a forma de masoquismo moral,  sobrevalorar o adoecer como penitência, uma forma de condenação dura e inflexível, que, do mesmo modo que na Idade Média, poderá nos levar à morte. 

Na dialética dos "malditos", os sujeitos amaldiçoados não só são os doentes, seus cuidadores,  podem, em razão de mecanismos reparatórios, se julgarem igualmente pecadores e condenados a expiar seus males, convivendo com o sofrimento dentro dos hospitais - Na Idade Média, os pecadores eram condenados a trabalhos voluntários nos leprosários (a lepra representa bem impedimentos dos desejos arcaicos. O pecado envolve o desejo da "carne", antes  erótico, se torne, no leprosário, repulsivo).


Mas de onde vem tanta culpa para tanta penitência. O ser humano é movido pela suas transgressões e por suas culpas, está entre o desejo e o seu impedimento.  Há, contudo, um detalhe:  as transgressões não são tão "transgressoras", tampouco se conhece o crime que levou a tanta  culpa. O pensamento humano  provém de fantasias primitivas  de crianças que  viveram não apenas contos de fadas. A mente humana constituí-se de crenças elaboradas por uma mitologia pessoal, fantasias mitológicas que divide o ser entre o bem e o mal e que, desse modo, são passíveis das punições, onde o sujeitos são julgados e condenados à doença e ao desamparo -  A doença talvez seja uma das maiores experiencias do desamparo.

Marcos Creder

domingo, 26 de outubro de 2014

...E AGORA JOSÉ?: O SUJEITO INQUIETADO







Caro leitor(a), você já chegou naquele ponto da vida em que se vê pensando e se perguntando qual o sentido de sua existência e de que se vale a pena estar vivo neste mundo? Não? Ainda não? Não se preocupe você tem grandes chances de um dia passar por isso que vulgarmente chamamos de "crise existencial", afinal mudanças e transformações podem nos provocar medos, questionamentos e reflexões sobre a vida e o futuro. Mas não se apavore quanto a tal possibilidade de crise, pois, acaso ocorra, será um momento de oportunidade existencial. Oportunidade de mudarmos a rota de nossas vidas ou de percebermos caminhos outros e alternativos. Ah!, os mistérios humanos e a angústia da não resposta. 
"Quem somos, de onde viemos e para onde iremos", dúvidas e incertezas da Humanidade que agora são individualmente despertadas. Um furacão de ambiguidades, vacilações, indecisões e emoções parecem rugir de dentro de nossas almas, levando-nos a sentir sensações de que estamos perdidos feito um barco à deriva. Entender a morte e o que vem depois dela, Deus, o que estamos fazendo aqui, são coisas que não possuem respostas objetivas, que não conseguimos compreender imediatamente e que teimam em nos atormentar. Embora angustie em princípio, a crise existencial nos remete a tomar melhor consciência dos nossos sentimentos, pensamentos e desejos, enfim, adentrar mais em nossa própria essência. Uma verdadeira odisseia rumo ao interior de quem somos. Um momento nauseante - nos disseres sartreanos - que nos joga em uma posição de um ser-pra-si que questiona, indaga e se impressiona com a realidade e a própria subjetividade.
Segundo o filósofo Jean Paul Sartre a crise existencial se instala e se estabelece quando o sujeito humano percebe a existência de algo errado e passa a se interrogar de suas limitações. É quando somos tomados pela consciência do Nada e, consequentemente levados à angústia de se perceber como um ser inacabado, ao mesmo tempo que compreende ser ele autor de sua vida, embora seja incapaz de construí-la com perfeição. Neste sentido é que reconhecemos o Nada como oposto da plenitude. Desse modo enxergamos a real distância entre onde o ser que gostaria de estar e o ser onde se efetivamente se encontra. 
Na crise existencial defrontamos nossos desejos com a realidade. É quando nos damos conta de que estamos longe da nossa autorrealização, que nossos potenciais ainda não foram otimizados e que estamos vivendo como um homem inacabado e incompleto, que a maioria de nossas escolhas foram nos distanciando de quem poderíamos ser e quem ainda podemos ser. Nos tornarmos uma espécie de estrangeiro de nós. E, então, nos vemos inquietantemente nos perguntando: "o que eu fiz da minha vida?"


A vida deve ter um sentido? Sim. Ao menos para muitos. A sensação de que no dia-a-dia corriqueiro do cotidiano perdemos a razão para se viver, ou que estamos vivendo com a falta dela, pode primeiramente nos angustiar e nos entristecer, mas é, como já dissemos, um momento complexo de profunda reflexão, embora acompanhado de incertezas e dúvidas quanto ao futuro. A antiga e velha "zona de conforto" não mais existe - se é que ela de fato tenha algum dia existido. Estamos desconfortáveis com o aparente e ilusório conforto. É hora, pois, de reagir e de se reinventar. Não é fácil, afinal podemos ainda escolher outros rumos e outras rotas, mas tais escolhas implicam renúncias e responsabilidades, visto que escolher acarreta compromisso, às vezes de sair da "zona de conforto" e me arriscar, inclusive a tentar ser feliz comigo mesmo.
Seja o que lá for a crise existencial do sujeito humano, ela é sempre um diálogo interno. Todos temos desejos reprimidos que devem continuar reprimidos. E todos temos desejos reprimidos que podem ou devem ser desreprimidos para que possamos avançar ainda mais rumo a autenticidade do ser de cada um de nós. Esqueça a perfeição: não somos. Ou como diz o poeta Mário Quintana "buscas a perfeição? Não sejas vulgar, A autenticidade é muito mais difícil".

A despeito das tonalidades afetivas (angústia, tédio, medo, tristeza...) que envolvem a crise existencial, trata-se de uma atmosfera psicológica que pode possibilitar uma saída da mediocridade existencial que restringe e limita o potencial de ser de alguém. Tardio ou não o descortinar do ser abre espaço para a ampliação dos seus horizontes. Para o filósofo Kierkegaard a angústia é a condição que antecede toda e qualquer escolha. E mais uma vez replicando Sartre, “É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade, ou a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser; é na angústia que a liberdade em seu ser coloca-se a si mesmo em questão". Sabe aquela máxima descarteana do "penso logo sou". Pois é, pensando entramos em crise. Quando pensamos além dos pensamentos prosaicos passamos para uma outra área funcional do pensar que nos leva a interpretar o nosso relacionamento com o mundo, os outros e com nós mesmos. Como disse certa vez o escritor francês Paul Bourget "é preciso viver como se pensa, caso contrário se acabará por pensar como se tem vivido". Eis, portanto, uma das principais finalidades da crise existencial: pensar como se tem vivido (crise) para poder viver condizentemente com o que se pensa.
"Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa", escreve o poeta Fernando Pessoa em seu celebrado poema Tabacaria. E continua: "fiz de mim o que não soube. E o que podia fazer de mim não o fiz." É para isto que entramos em crise. Entramos em crise para evitar que ao fim da linha de uma vida inteira não diga como diz o poeta: "falhei em tudo". É para falhar menos e nos tornarmos singulares que sofremos o sofrer da crise existencial. Ou ainda como escreve Pessoa em seu Livro do Desassossego: "dói-me o universo porque a cabeça me dói". É isto a essência da crise existencial: doer todo o universo que me circunda a partir de dentro de mim.
Se você caro leitor(a) ainda não chegou ao ponto da vida em que se vê perguntando qual o sentido de sua existência no mundo, prepare-se pois você tem chances de poder chegar lá. E não te assustes se este dia um dia chegar, afinal te resta a chance e a saída de ser o que você ainda pode ser. E sendo quem podemos ser, sempre seremos alguém melhor do que hoje somos. Que o futuro que nos aguarda seja o futuro para onde nos dirigimos em nossos sinceros desejos, embora muitas vezes e muitos de nós caminhemos pra lá sem sequer saber pra que lá estamos indo. Somos todos aquele José do poeta Drummond: "você marcha, José!/José, para onde?".

Joaquim Cesário de Mello