QUESTÕES LEVANTADAS A PARTIR DA APRESENTAÇÃO EM SALA DO DOCUMENTÁRIO "A MORTE INVENTADA":
1) O que representa o título do filme "A MORTE INVENTADA"?
2) À luz do documentário, como você traduz o poema abaixo que é declamado no filme?
"Qual será o meu limite? Até onde eu posso ir?
Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorrisos, encontro também um rastro de conversa boa com pedaços de estórias espalhadas.
São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra.
Pulamos desequilibrados num pé só até chegar no céu e chegamos.
Brincamos de correr de costas. O segredo é olhar pra frente para vencer.
Eu sempre perdi.
Nas corrida de folhas ela vencia e perdia.Algumas vezes nós dois empatávamos, perdendo.
Nossas folhas ficavam encalhadas numa pedra ou coisa parecida.
Brincamos de correr e congelar, de estátua. Quem mexesse perdia.
Nessa brincadeira incluímos um novo amigo. Os três a congelar: eu, ela e o tempo, que não entendeu as regras do jogo e seguiu correndo. Depois foi ela que correu. E eu fiquei ali congelado. Todo mundo perdeu.
Só agora, a essa altura da vida fui conhecer o mais amargo dos sentimentos.
A injustiça, é uma onda de 10 metros que te arranca de dentro de si e faz tudo se apagar.
Falta chão, falta ar, falta voz. Você perde o plumo, perde o rumo. Não sabe mais pra onde fica o céu. Por eternos três segundos, você prova o terrível gosto da água do mar, o gosto do sal, da areia e da morte.
A razão e os sentimentos submergem e aflora os seus mais profundos instintos. É você no avesso, primitivo, em carne viva. Esse sentimento veio morar comigo.
Julguei ter encontrado meu limite.
Nada, e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Mais uma vez estive enganado.
Do convívio levaram o fogão. Da ingenuidade, tiraram as rodas da frente. Do afeto roubaram a pilha. Mesmo assim eu estava pronto para o mínimo. Julguei ter encontrado o meu limite. Nada e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Ainda restava o mínimo. Um elo entre ela e eu. Único e suficiente, intocável. Isto nos bastava! Uma fresta para se ver, para se falar, para se ouvir, para sentir. Um elo entre ela e eu!
Mas esse elo virou fetiche, território de conquista.
Dele fizeram um adorno, ele ganhou uma orelha, ganhou as ruas e sumiu. Assim o nosso amor virou um brinco. E o elo se foi.
Em apenas um corte, 13 meses se passaram. Sem olhar sem ouvir, sem cheiro sem gosto e sem contato, sem sentido. No fim deste período meu papel mudou.. Como inimigo me vi diante de uma outra menina, que não aquela que não existe mais.
Em apenas um corte.
Tentei ouvir em todas as estórias um pedaço de minha própria estória. Tentei encontrar nas pessoas com quem conversei ,a palavra que eu não soube escrever, a voz que eu perdi.
A minha saudade é um longo corredor esfumaçado de hospital, com piscar de incontáveis vagalumes de ontem. Em alguns casos para se chegar a cura basta levantar a camisa e mostrar onde dói, em outros tem que arregaçar a pele. E mostrar onde dói.
Aqui não cabem nem as palavras, nem o grito, nem a raiva, nem a saudade, nem a angústia, nem o eu.
Qual será o meu limite?
Até onde eu posso ir? Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorriso. Encontro também um rastro de conversa boa, com pedaços de estórias espalhadas. São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra. Pulamos desequilibrados em um pé só, até chegar no céu e chegamos.
Não brincamos de voltar no tempo, esse jogo nós não inventamos, mas posso inventá-lo agora. Regras e número de participantes. O vencedor pode ir ao passado e refazer as coisas que não deram certo, para depois voltar ao presente e descobrir de um jeito melhor que antes. Que as coisas ruins não passaram de um filme triste de cinema, onde basta acender as luzes e descobrir que tudo não passou de ilusão. Mas não foi."
3) Como você articula a Síndrome da Alienação Parental (SAP) e a prática vivenciada pelas famílias depoentes?
4) Como você analisa a participação dos profissionais de Psicologia apresentados e citados no filme?
5) Comente as sequelas percebidas que o fenômeno da alienação parental (AP) causou na vida dos depoentes que sofreram como crianças/vítimas a AP.
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
DIÁRIO DE AULA - CLÍNICA
Otto Kernberg formula psicanaliticamente o conceito de Organização Borderline de Personalidade, cuja estrutura de personalidade apresenta mecanismos de defesa primitivos com preservação da capacidade de Teste de Realidade. Atualmente, embora ainda predomine a ideia de que o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tenha a ver com fatores da história de vida do indivíduo, alguns estudos parecem apontar para uma certa predisposição biológica, tais como anormalidade do metabolismo da serotonina e desordens neurológicas. Seja lá como for, o paciente borderline está cada vez mais presente nos consultórios e ambientes clínicos de saúde mental. Talvez isto esteja ocorrendo não porque haja mais borderlines na humanidade, mas sim porque estamos melhor compreendendo e enxergando o adoecer borderline.
Pelo acima exposto, a complexidade do tratamento psicoterápico frente ao paciente borderline é ampla, o que requer uma compreensão mais aprofundada da temática e experiência e segurança no manejo. Como o espaço aqui presente é curto e ligeiro, remeto o leitor(a) a complementar com um texto anteriormente publicado aqui no blog (http://literalmente-literalmente.blogspot.com.br/2013/11/psicoterapia-do-paciente-borderline.html), assim como oriento aprofundar o estudo visitando os seguintes links:
http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n4/16
http://www.uricer.edu.br/new/site/pdfs/perspectiva/128_143.pdf
file:///C:/Users/Joaquim/Downloads/0c96051c71048c9c64000000.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=UxTHw5GqyHY
Joaquim Cesário de Mello
domingo, 2 de novembro de 2014
A culpa nos adoeceu
Desde que iniciei minha carreira profissional, faço interconsulta psiquiátrica em hospitais gerais. O que é isso? Interconsulta é a área da psiquiatria que trabalha o fenômeno psíquico em conjunto com outras doenças da medicina - clínica médica, cardiológica, ciruirgia, endocrinológica,reumatológica etc. O interconsultor, em tese, não seria apenas um fornecedor de parecer psiquiátrico, como muitos pensam, mas um profissional que transita entre as manifestações psíquica e às doenças somáticas e interfere na relação médico-paciente-instituição hospitalar. Enfim, a função de interconsultor envolve o entendimento dessa relação entre sujeitos, e desses sujeitos com a doença.
Uma pergunta inicial e comum entre os que têm curiosidade por essa área, é saber se os eventos psíquicos "fabricam" doenças físicas, ou ainda, se as doenças físicas interferem no psiquismo. A resposta que dou é imprecisa: não temos subsídios para separar, como continentes distintos, o lugar do psíquico do lugar do corpóreo. Embora possa parecer bem definidos, não se sabe ao certo quais são suas fronteiras, se é que existem. Há várias argumentos que defendem a cisão, e, outros, a fusão do corpo com a mente - essa discussão é antiga que tão cedo se terá respostas. O que trago nesse pequeno artigo são as correspondências que há entre o sofrimento físico e as teorias leigas construídas pelo sujeito. A pergunta: até que ponto nossa psiquê elabora uma teoria sobre a doença e o que ela nos quer dizer?
Apesar de vivermos numa época em que as ciências naturais predominam com complexas teorias fisiológica, anatômica, citológico, bioquímica das doenças, assistimos, aqui e ali, inclusive, de pessoas esclarecidas, especulações, aparentemente, descabidas: "adoeci porque tive uma vida errada", "essa moléstia se instalou porque fui desonesto", "sou o culpado pela doença dos meus entes queridos". Interessante que mesmo que o médico venha a esclarecer as reais razões do adoecimento, ainda sim, silenciosamente, o doente carrega a ideia de que o "pecado" ou uma "má conduta" o aniquilou e vem se revelar nos momentos mais desesperados do adoecimento.
Um ou outro médico diz, desapontado, que, no que diz respeito ao adoecimento, o pensamento humano atual é semelhante ao da Idade Média. Pegunto: avançamos? Se respondermos sensatamente, sim, se emocionalmente, não. Se somos muitos mais afetivos que efetivos, então, no momento do adoecer, as maldições mais arcaicas reaparecem, assim como apareciam com nitidez para nossos ancestrais mais primitivos.
Essas formas malditas - ou seja, de pensar doença como maldição - faz parte da vida psíquica humana, e suponho, é a forma predominante. São os desejos arcaicos humanos que estão em jogo. Os desejos geralmente tendem a entrar em rota de colisão com os pensamentos morais e, nesse choque surgem, ainda na poeira, as doenças, que nos freia e nos faz refletir. A doença aparece-nos para impedir ou para "comunicar" nossos oráculos. A doença vem para repensar a vida e, sob a forma de masoquismo moral, sobrevalorar o adoecer como penitência, uma forma de condenação dura e inflexível, que, do mesmo modo que na Idade Média, poderá nos levar à morte.
Na dialética dos "malditos", os sujeitos amaldiçoados não só são os doentes, seus cuidadores, podem, em razão de mecanismos reparatórios, se julgarem igualmente pecadores e condenados a expiar seus males, convivendo com o sofrimento dentro dos hospitais - Na Idade Média, os pecadores eram condenados a trabalhos voluntários nos leprosários (a lepra representa bem impedimentos dos desejos arcaicos. O pecado envolve o desejo da "carne", antes erótico, se torne, no leprosário, repulsivo).
Mas de onde vem tanta culpa para tanta penitência. O ser humano é movido pela suas transgressões e por suas culpas, está entre o desejo e o seu impedimento. Há, contudo, um detalhe: as transgressões não são tão "transgressoras", tampouco se conhece o crime que levou a tanta culpa. O pensamento humano provém de fantasias primitivas de crianças que viveram não apenas contos de fadas. A mente humana constituí-se de crenças elaboradas por uma mitologia pessoal, fantasias mitológicas que divide o ser entre o bem e o mal e que, desse modo, são passíveis das punições, onde o sujeitos são julgados e condenados à doença e ao desamparo - A doença talvez seja uma das maiores experiencias do desamparo.
Marcos Creder
Marcos Creder
domingo, 26 de outubro de 2014
...E AGORA JOSÉ?: O SUJEITO INQUIETADO
Segundo o filósofo Jean Paul Sartre a crise existencial se instala e se estabelece quando o sujeito humano percebe a existência de algo errado e passa a se interrogar de suas limitações. É quando somos tomados pela consciência do Nada e, consequentemente levados à angústia de se perceber como um ser inacabado, ao mesmo tempo que compreende ser ele autor de sua vida, embora seja incapaz de construí-la com perfeição. Neste sentido é que reconhecemos o Nada como oposto da plenitude. Desse modo enxergamos a real distância entre onde o ser que gostaria de estar e o ser onde se efetivamente se encontra.

A vida deve ter um sentido? Sim. Ao menos para muitos. A sensação de que no dia-a-dia corriqueiro do cotidiano perdemos a razão para se viver, ou que estamos vivendo com a falta dela, pode primeiramente nos angustiar e nos entristecer, mas é, como já dissemos, um momento complexo de profunda reflexão, embora acompanhado de incertezas e dúvidas quanto ao futuro. A antiga e velha "zona de conforto" não mais existe - se é que ela de fato tenha algum dia existido. Estamos desconfortáveis com o aparente e ilusório conforto. É hora, pois, de reagir e de se reinventar. Não é fácil, afinal podemos ainda escolher outros rumos e outras rotas, mas tais escolhas implicam renúncias e responsabilidades, visto que escolher acarreta compromisso, às vezes de sair da "zona de conforto" e me arriscar, inclusive a tentar ser feliz comigo mesmo.
Joaquim Cesário de Mello
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