A palavra felicidade é uma palavra por demais
desgastada. Todos a querem, sempre quiseram e não é um fenômeno da atualidade –
esteve na aspiração de todas as pessoas em diferentes momentos da história da
civilização. Se hoje ela é supostamente
alcançada através de pílulas da medicina ou das palavras dos psicoterapeutas,
na Idade Média, por exemplo, numa época em que não havia farmácias ou
consultórios, havia caldeirões de feiticeiras e druidas que produziam
substâncias ou palavras mágicas que tinham algum efeito terapêutico sobre a
felicidade. Por trás dessa magia medieval, contudo, muitos desses feiticeiros
eram julgados como hereges, transgressores ou como endemoniados justamente por
trazer dádivas que feriam, por assim dizer, as Leis da Natureza ou a Lei de
Deus, como se o desejo mais transgressor fosse corromper as destinações da
condição humana em função da felicidade. Desses magos sobreveio os alquimistas e
acrescento, alguns cientistas.

Seriam os cientistas os novos
vendedores de felicidade da atualidade? Seriam transgressores? Cabe lembrar que
nem sempre a ciência vai responder sobre as coisas da vida da maneira como
desejamos. Muitos cientistas, pelo contrário, nos jogou um banho de água fria
com suas descobertas: Galileu, Copérnico, Darwin, entre outros, foram
questionados e excomungados justamente por trazer à tona não propriamente a
infelicidade, mas uma nova cosmovisão que nos diminuía e nos colocava num lugar
insignificante e finito perante o universo. Os pesquisadores e profissionais da
área de saúde, contudo, podem ser visto de modo diferente. É possível que os
profissionais médicos, psicólogos ou enfermeiras tenham justamente escolhido
estas profissões com objetivo de propiciar bem-estar àqueles que iriam
assistir. Imaginemos que um cliente nos venha perguntar sorrateiramente: serei
feliz com esse tratamento? O que responderíamos? Claro que gostaríamos de fazer todas as pessoas
felizes, mas seria por demais pretensioso prometer isso até porque felicidade é
uma palavra que, apesar da doçura, não se qualifica ou quantifica ou ainda não corresponde, muitas vezes, ao
que de fato querermos. Sabe-se de uma situação análoga ocorrida com Freud em
que uma paciente haveria questionado se seria feliz e que teria respondido que
iria transformar a infelicidade da paciente em uma "infelicidade comum". Freud se
mostrava pessimista em relação à alegria da condição humana – no artigo “Mal-estar
na Civilização” disse categoricamente que o projeto de “Criação” não havia
contemplado a felicidade.

O que dizer então da pílula da
felicidade. Na verdade, são várias pílulas da felicidade. Talvez pudéssemos
resumir de maneira grosseira que entre as fórmulas da felicidade estaria os
ideias epicuristas: ausência de dor, tranquilização (ataraxia) e busca do
prazer. Será que a felicidade poderia estar no balcão de uma farmácia? Há algum
tempo foi feito uma pesquisa que mostrava o ranking das marcas de
remédios mais vendidas e são elas: dorflex, rivotril e cialis, respectivamente,
um analgésico do corpo outro da alma e um fármaco que trata disfunção sexual
masculina – de certo modo, três substâncias que fecham o axioma epicurista.
Somos mais felizes hoje, então? Somos mais felizes por ter acesso à tecnologias
sofisticadas, a botões eletrônicos, controle remotos, imagens virtuais, carros,
aviões? Não. Não há nada que afirme que somos mais felizes que o homem medieval.
Absurdamente na história da humanidade não há como mensurar um suposto “índice”
de felicidade. Na verdade, temos a sensação de nunca fomos tão infelizes quanto hoje (sozinhos, competitivos ao excesso, instáveis afetiva e profissionalmente,
dependentes químicos, atormentado pela velocidade da vida). Como disse, temos
uma sensação, porque se olharmos de perto possivelmente não haverá diferenças
significativas entre os diversos momentos históricos para o que vivemos. “Sensação”
talvez seja a palavra que dê um tom ambíguo ao nosso julgamento, pois se trata
de um elemento puramente subjetivo, muitas vezes em desacordo com a realidade.
Uma vez, tarde da noite, assistindo a um desses documentários
de TV a acabo, vi algumas informações curiosas sobre nossa percepção do tempo.
Quando houve o terremoto do Haiti vários estudiosos disseram que houve uma
fissura no planeta que teria encurtado o dia em toda a terra... “Seria isso a
justificativa para a vida ficar cada vez mais atribulada?”, Questionava o
apresentador. “Não”, disse um cientista com aspecto nerd, “se fôssemos usar o parâmetro do tempo humano com a astronomia, teríamos pelo contrário, mais
disponibilidade de tempo porque o processo de expansão do universo, cada
vez mais lento, poderia dar impressão de vagareza.”, concluiu. O que faz
a diferença entre o tempo, felicidade e outras de nossas aflições é justamente
nossas impressões subjetivas. Nesse mesmo documentário, perguntou-se as pessoas
que vivenciaram o terremoto quanto tempo teriam durado os abalos e praticamente
todos erraram no tempo, alargando ainda mais a duração da catástrofe. Teríamos
tendência a experienciar mais o aspecto trágico da vida? Se fôssemos assim , viveríamos a vida com o que Freud denominou de "masoquismo moral" e, desse modo, não teríamos qualquer vocação para a felicidade, seríamos todos tristes e infelizes. Prefiro, contudo, fazer dessa discussão utilizando-me de uma frase de Guimarães Rosa: "infelicidade é uma questão de prefixo".
(originariamente publicado em 28/10/2012)
Marcos Creder