quarta-feira, 8 de maio de 2013

VALE A PENA VER DE NOVO


A TRAGÉDIA DE ONTEM DA HISTÓRIA


Um dos temas trágicos da humanidade que ainda me surpreende, e sempre me surpreenderá, apesar das inúmeras tragédias cotidianas, é aquele que se relaciona ao extermínio dos judeus na 2ª Guerra Mundial. Sabe-se que é bastante explorado pela literatura e, principalmente, pelo cinema e, para alguns, é um enredo desgastado ou repetitivo – discordo dos críticos que pensam assim, acredito que, em se tratando dessa passagem da história da humanidade, a repetição é necessária e bem-vinda.  Precisamos de alguns “mantras” para que possamos incorporar alguns valores éticos e evitar atos hediondos e, por fim, se utilizarmos elementos estéticos nessas narrativas, faremos, quem sabe, arte. Uma repetição, contudo, deixa parcialmente de sê-la, no momento que mudamos de foco.  Cada filme que vejo ou cada texto que leio, que faz referência a essa época, percebo  por  um novo enfoque, mas o sentimento de horror se repete, e, se repete tão inusitadamente, que faz pensar, ilusoriamente,  que nunca tinha visto episódio tão trágica  quanto esse genocídio cometido nesse “dia de ontem” da história da civilização.
Na verdade, já se tentou dar várias explicações sobre o nazismo e, principalmente, sobre os nazistas e, muitas vezes, a solução mais usual – ou mais “cômoda” como diria Luiz Felipe Ponde – seria tentar, por assim dizer, psiquiatrizá-los, julgando-os como loucos, desequilibrados, psicopatas etc. Controvérsias à parte, prefiro utilizar a definição de Hannah Arendt: eram pessoas “terrivelmente normais”. Esses “normais” e essa “normalidade”, acrescento, não é histórica, não foi daquele época, não pertence a outra etnia, não faz parte de uma religião, nem mora do outro lado do continente, tampouco do outro lado da cidade. Ela habita muitos discursos de pessoas iguais a nós.    
 Assisti ao filme “A Chave de Sarah” (2010) do diretor francês Gilles Paquet-Brenner.  O filme narra um episódio  de uma outra  França ocupada pela Alemanha nazista que se mostrava muito mais colaboracionista que “resistente” – enfim, da França que estamos mais acostumados a ver nos livros de história . A maneira como a comunidade judaica foi presa e deportada aos campos de concentração e de como parte da população francesa apoiou ativamente, particularmente me surpreendeu e me fez pensar se a humanidade, de fato, não seguiria as linhas de pensamento de Leviatã de Thomas Hobbes. Não seria a sociabilidade acidental? Não se reduziria a moral aos interesses, às paixões e ao conatus (instinto de conservação individual)?
Duas personagens se destacam no filme: Júlia Jamond, uma jornalista norte-americana radicada na França dos tempos atuais que tem como objeto de pesquisa justamente o dia em que cerca de 12 mil judeus foram presos, e,  Sarah, uma dessas prisioneiras, a segunda personagem, uma criança de dez anos de idade. Enquanto Julia procura desvendar os mistérios desse passado, Sarah, após fugir do campo de concentração, vai tentando se ocultar no futuro. A fuga de Sarah tinha pelo menos dois objetivos: carregar uma chave e sobreviver. Metaforicamente as duas coisas são postas em prova pela crueldade dos acontecimentos da 2ª. Guerra. Contudo, Sarah sobrevive àquela época e Julia consegue desvendar grande parte das minúcias do acontecimento. Enfim, falando desse modo, poderíamos interpretar que o filme conclui, como muitos concluiriam, sua narrativa de forma alegre ou pelo menos esperançosa. Mas não foi bem assim que os fatos aconteceram...
Uma pergunta muitas vezes se deixar esquecer quando, aliviados, saímos de um recorte cinematográfico de uma tragédia: que resíduos deixaria, naquelas crianças, ou mesmo nos adultos, a experiência trágica? Tendemos a acreditar, infantilmente, que as histórias épicas desses heróis, que vivem horrores semelhantes, após fazer essa travessia – essa Odisséia – caminham naturalmente para a vida das pessoas normais. Será?
 Ao questionar esses resíduos ou seqüelas, vem sempre a minha lembrança a história verídica de uma das inúmeras vítimas de Auschwitz, o mais famoso e mais terrível campo de concentração nazista. Trata-se do escritor Primo Levi, judeu italiano, que milagrosamente sobreviveu ao extermínio e que depois de terminada a guerra, dedicou-se  boa parte de sua vida a pergunta que deu título a um dos seus livros mais famosos, o autobiográfico “É isso um homem?” – texto que narra toda a experiência no campo de concentração. Levi voltou à vida comum, inquieto com seus questionamentos, e famoso com sua habilidade de escritor. Foi autor da celebre frase: ‘O objetivo da vida é criar melhor defesa contra a morte". Aos 68 anos de idade, contudo, acidentou-se. Caiu do terceiro andar do lugar onde morava, e ali mesmo morreu. Apesar de controverso, a maioria dos biógrafos atribue a sua morte a um ato de suicídio – ou parafraseando Arendt, a um acidente “terrivelmente normal”.
O filme Chave de Sarah reedita a frase-título irrespondível de Primo Levi: É isso um homem?

Marcos Creder (publicado originalmente em 10 de junho de 2012)

domingo, 5 de maio de 2013

Nem Édipo soube do que fez



Falei não faz muito tempo que as terminologias psiquiátricas invadiram o senso comum e se tornaram palavras bastante “recitadas” no dia-a-dia. Falarei sobre   efeitos semelhantes  nas psicoterapias. Muitas pessoas vem  as psicoterapias e análises com teorias prontas sobre si mesmo. Alguns arriscam até a dar uma nomenclatura com suposições, por assim dizer, psicologizantes de seu sofrimento: “tenho complexo de Édipo mal resolvido, sou um recalcado, tenho lá minhas neuroses e psicoses, o meu problema é meu superego”.  Não tenho, e já deu para perceber,  muita apreço por jargões ou terminologias técnicas excessivas, inclusive,  aborrece-me sobremaneira, alguns discursos que se protegem com frases cujas palavras se aglutinam e se tornam incompreensíveis, há “idiomas” psicológico-psicanalítico que em sua maioria não querem dizer nada, que  faz lembrar da novela de Lima Barreto, “o Homem que Sabia Javanês”, que a custa de seu saber erudito – ou seja, falar uma língua desconhecida, bizarra – o personagem ganha  notoriedade em todos os salões cariocas do início do seculo XX. Conheço muitos que falam Javanês... Mas isso não vem ao caso. O interessante é que o costume médico faz com que, muitas vezes, necessitemos de nomes estrambóticos para nos propiciar algum conforto ou amparo técnico, mesmo que não tenhamos ideia alguma do que se trata.   O alento de dizer uma palavra estranha parece conferir saberes extraordinários aos ignorantes - tanto para o que fala quanto para o que ouve.

Em contrapartida, quando Freud começou a construir os primeiros pilares da psicanálise, preferiu, para nossa surpresa, um caminho mais simples, sem pedantismos, fazendo do seu texto simples e de fácil compreensibilidade se comparados aos textos de muitos de seus seguidores. Muitos leitores de Freud eram filósofos, escritores, músicos, poetas,  não eram médicos ou psicólogos e, sequer quiseram fazer carreira profissional. Eram curiosos  que se interessaram por um bom texto e pela revolução metapsicológica.

Mas eu falei que muitos se protegem com jargões e, entre esses, não só se protegem  os profissionais como também  os clientes-pacientes. Saber os termos, o vocabulário da psicanálise, está, as vezes, mais a serviço do “não saber” do que do saber propriamente dito. Confuso?  Vejamos...

  Aquele que diz que o seu conflito reside no seu Complexo de Édipo mencionaria seu impasse da seguinte forma, já na primeira sessão: “amo a minha mãe" e, confidencialmente, “odeio o pai”. Com um hálito erudito conclui, “minha neurose é assim, sou neurótico de livro...”, conclui envaidecido.  Suponho que se um sujeito desejasse a mãe, inclusive sexualmente, e tivesse um desejo de aniquilar o pai como está bem claro no discurso do analisando, certamente estaria longe de ser neurótico, estaria mais próximo, bem mais próximo, seguindo a mesma batuta classificatória de perverso. Mas como o dito é um dito embusteiro, um dizer estético, um desenho de palavras, provavelmente, quem o pronunciou está longe de efetivar o incesto ou de cometer  o parricídio. Na verdade,  traz-se com esse dizer, um saber estéril e racionalizado que tem pouco valor na psicanálise. O “já sabido”, ou visível na consciência não interessa tanto quanto o que nos interrroga ou o que desconhecemos completamente. Jacques Lacan, um desses teóricos que, como citei no início, carrega um barroquismo no seu dizer – muitas vezes incompreensíveis – tem um frase interessante: “em psicanálise, o paciente não  sabe o que diz”.   E, acrescento, o sujeito que nos chega com um saber pronto, sabe menos ainda – e aqui poderia se acrescentar o rol dos profissionais de saberes “densos”. Enfim, sabemos pouco do que nos ocorre.


No mito grego que inspirou  Sófocles a construir a peça Édipo Rei,  observamos  que a frase citada pelo cliente acima, volta a ser pronunciada no oráculo da Pitonisa – sacerdotisa do templo de Apolo –  ao próprio Édipo: “matarás teu pai e se casarás com tua mãe”. Ao ter conhecimento disso, Édipo foge daqueles que julgava serem seus pais – não sabia que era filho adotivo – para que o oráculo não se consumasse.  No caminho para Tebas mata o rei Laio e casa-se com Jocasta, sua esposa. Tebas, então, é invadida por uma misteriosa praga, uma maldição, e mais uma vez o oráculo é consultado. Tirésias, o profeta, paradoxalmente, visionário e cego, reafirma que o oráculo, enfim , ocorrera: Édipo havia casado com a mãe e assassinado seu pai.

Um tema muitas vezes deixado de lado pelos os intérpretes da peça de Sófocles é justamente essa relação que existe entre o  saber racionalizado que esconde outro saber,  o verdadeiro saber que está ali bem a nossa frente e que nunca nos tínhamos dado conta ou que nunca nos foi permitido ter conhecimento.  Desse modo, podemos também acrescentar que o conflito de Édipo foi ter pensado saber, mas não se sabia o que dizia ou o que fazia.

Marcos Creder 

domingo, 28 de abril de 2013

O ONTEM VISTO DE HOJE



     (aos atuais e futuros filhos) 



      Quem nós somos se confunde com nossas histórias. É a história pessoal de cada um que nos individualiza, nos singulariza e nos identifica. Somos um feixe de acontecimentos, lembranças, experiências e vivências, e tudo isto junto nos faz únicos porque lhes atribuímos significados. Um mesmo evento, episódio ou fato são valorizados, sentidos e provados de maneira particular e pessoal por cada pessoa, cada individuo. O escritor Érico Veríssimos (todos da minha geração leram ou foram obrigados pela escola e pelo vestibular a ler Érico Veríssimo) em seu romance “O Resto é Silêncio”, ao narrar o suicídio de uma jovem, presenciado por vários personagens, narra e descreve as várias reações de cada um. O fato é um só (o suicídio), mas o impacto sobre as pessoas são diversos. O cineasta japonês Akira Kurosawa é ainda mais contundente em seu filme “Rashomon” quando, através do recurso fílmico do flashback, expõe os relatos divergentes de quatro testemunhas de um crime. É, e são, como se fossem quatro histórias diferentes. Não é à toa que em Direito sabe-se, embora se aceite como meio probatório, o quanto é passível de falibilidade a prova testemunhal.
                O filósofo político Noberto Bobbio em seu livro “O Tempo da Memória” escreveu com propriedade no alto dos seus 87 anos que “somos o que lembramos”. Mas podemos nós fiar e acreditar cegamente em nossas memórias e lembranças? Saibamos, de antemão, que nossas memórias podem ser auto-enganativas, afinal se chamamos o psiquismo de mente é porque ele mente. Mas não, nem necessariamente, porque sejamos mitomaníacos, mas sim, como diz o poeta Walt Whitmam, quando escreve: contradigo-me? Pois bem, então me contradigo. Sou extenso, contenho multidões.
                          Nos fazemos como pessoa dentro de nós e nos descobrimos dentro de nós, porque desde logo e cedo estamos inseridos no mundo que iremos aos poucos conhecendo. E este mundo está repleto de situações e acontecimentos, e no tatear titubeante do caminhar pela vida mundo a fora, vamos simultaneamente nos construindo como pessoa ao tempo em que vamos experienciando o mundo. A pessoa de cada um e o mundo de cada um são a dupla face de uma mesma moeda.  
           Aqui e acolá o que nos acontece vai deixando marcas que se somam ao jeito de ser do ser que se edifica. Cada evento em si tem lá sua importância, mas em muito dependerá da nossa subjetividade, isto é, do significado, da significância e das repercussões emocionais e suas reverberações em nossa alma e psiquismo. Não somos um mero acumular de episódios e fatos ocorridos. Somos uma mistura indelével de percepções, sensações e atributos, com os quais damos interpretações às circunstâncias e aos acontecidos.
                A história pessoal de cada indivíduo humano não é tão somente as experiências deste frente ao mundo físico, mas é também, e principalmente, uma realidade interpessoal onde através do convívio com os outros se constrói um ser por meio do diálogo entre o que se percebe e o que se compreende. E assim, a história de cada um de nós é feita do significado que damos a ela, ou seja, nossa história pessoal é o modo pessoal como construímos nossa história.
                   Nossa narrativa autobiográfica não é em si uma história realística, pois a mesma é bastante colorida pelas emoções, fantasias e desejos. Organizamos nossas histórias pessoais por meio de visões pessoais sobre a mesma. Somos uma versão de nós mesmos. Para facilitar, portanto, um pouco o até aqui explanado, ouçamos Freud quando afirma que pode-se questionar se temos mesmo alguma lembrança proveniente de nossa infância: as lembranças relativas à infância talvez sejam tudo o que possuímos. Nossas lembranças infantis nos mostram nossos primeiros anos não como eles foram, mas tal como apareceram nos períodos posteriores em que as lembranças foram despertadas. Nesses períodos de despertar, as lembranças infantis não emergiram, como as pessoas costumam dizer; elas foram formadas nessa época. E inúmeros motivos, sem qualquer preocupação com a precisão histórica, participaram de sua formação, assim como da seleção das próprias lembranças.” 
                        Atribuir novos significados ao passado requer mudar a visão que temos de nós mesmos e de nossas biografias. Isso é possível porque os significados que damos aos acontecimentos vividos e as experiências vividas em muito depende do filtro pelo qual vivemos e registramos. Olhando para trás, e mudando o filtro, podemos alterar tais significados, afinal não podemos passar uma “borracha” e simplesmente deletar o passado, pois este está entranhado em nós, gostemos ou não. George Santayana, poeta e filósofo espanhol, já dizia que quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”.

                        Lembremos ainda que a memória humana, além de plasmada pelas impressões, é igualmente seletiva. É como menciona o professor Wolney Honório Filho: “a memória vem elegantemente acompanhada do esquecimento”. E o esquecimento – não esqueçamos de Freud – é um recurso psíquico frente a vivências difíceis e conflitos não superados. Às vezes tendemos a “apagar” parte de nós e de nossas histórias do que reconhecê-las dolorosamente como parte integrante de nossas personalidades. A mente humana, assim, às vezes, prefere o silêncio em si mesma.


Sim, mudando um pouco o ângulo já mudamos um pouco até nós próprios. Duvida? Então tente olhar pro passado e veja, por exemplo, seus pais com maior compreensão de suas humanidades e juventudes, e destile de suas lembranças mágoas e rancores. Aposto que eles vão continuar ali no mesmo lugar do seu passado, mas provavelmente eles não estarão agora lhe influenciando ou machucando tanto, e se alguma lágrima escorrer em sua face ela não terá o antigo sabor salgado misturado com acre e fel.
                Se a partir do hoje mais maduro olharmos o ontem com estes olhos mais sábios de agora, provável que possamos entender melhor que as falhas e erros parentais não foram advindos de pais onipotentes, grandiosos e maldosos, mas de humanos assustadiços, carentes e contraditórios, e que, embora fossem os adultos da nossa infância, eram também crianças assombradas com outras crianças no colo. Homens e mulheres que escondiam meninos e meninas cujos esconderijos não eram impermeáveis, pois a vida – já encenava Bergman – penetra tudo. Não, não. Nem sempre tivemos pais que repudiaram nossos prematuros afetos, mas que titubearam frente a eles. Muitas vezes quisemos amor e eles nos devolveram angústias de suas próprias primitivas histórias.
                Hoje, se pudéssemos voltar pra trás, de lá de onde viemos, erraríamos outros erros, evitaríamos outros medos, pediríamos desculpas de outras coisas, amaríamos de outras maneiras e escreveríamos outros textos com outros teores.



                 Hoje, relendo minha própria história, reencontro-me com meus pais de outro jeito. 
Joaquim Cesário de Mello


quinta-feira, 25 de abril de 2013

VALE A PENA VER DE NOVO



DA PRECARIEDADE DA VIDA E OUTRAS FINITUDES



     Somos minúsculos frente ao curso da vida. Temos hábito de dizer que a vida passa, mas a vida, por já existir antes de nós e depois de nós, ela não passa para o indivíduo, é o indivíduo que passa por ela. A finitude nos acompanha desde o nascimento. Nascer, por si mesmo, já representa um morrer. Quando um feto é expelido ou retirado do útero morre-se no parto um estilo de vida (uterino) e um mundo (aquático); nasce-se uma nova maneira de se viver (extrauterina) diante de um mundo até então novo e diferente (aéreo). Vai-se respirar através dos pulmões pela primeira vez, vai-se sentir fome, calor e frio, vai-se começar a ver a luz pela primeira vez, vai-se chorar e o mundo nunca mais será como antes.
               Perdemos inicialmente o útero, após o seio e o colo. No caminhar da existência muitas outras perdas ocorrerão, desde a perda da infância, do corpo infantil e dos pais idealizados. Sequencialmente perde-se a adolescência, a juventude e a vitalidade. Perde-se objetos, lugares, momentos, pessoas, funções e assim se vai, ou melhor, assim vamos pela vida afora. Até que chega o instante derradeiro em que se perde a própria vida e, finalmente, se morre. Literal e vivencialmente é como diz o poeta: “isto o que ganhei: essas perdas. Isto o que ficou: esse tesouro de ausências”.
            A memória é o eixo central na exiguidade de nossas existências, afinal somos hoje quem somos graças a todas as nossas perdas e a capacidade humana de se ver e se recordar como uma continuidade de vida. É como disse o também poeta pernambucano Manuel Bandeira: “com o tempo o coração da gente vai se transformando num cemitério”. Eu mesmo, certa vez, escrevi em uma crônica (O Homem à Margem da Cidade, in Cronistas de Pernambuco, Editora Carpem Diem/2010) caminhava agora pelas ruas com a inabalável certeza de que chegaria, afinal chegar era o prazer de depois partir. Pisava sem pressa o chão das calçadas e os asfaltos da cidade que era sua. Nela nasceu, cresceu e haverá um dia em que nela se enterraria. Quando por baixo dela viver, outros a pisarão com o mesmo cuidado com que pisa sua infância, seu passado, sua história... Os pés do adulto que o corpo leva trilham as pegadas do menino insone e traído”.
                Embora saibamos que tudo nos esvai como fumaça, tudo passa na voraz fugacidade do tempo, sonhamos ilusória e inutilmente com a permanência. Mas eis que vem, inexorável e sempre implacável, a transitoriedade ligeira do existir e nos deixa pasmos e nostálgicos como Manuel Bandeira em sua Evocação do Recife: “a casa de meu avô.../Nunca pensei que ele acabasse!/Tudo lá parecia impregnado de eternidade”. Somos todos, sem exceção, passageiros de uma vida que existida é somente passageira.
                Quanto mais se vive mais aumentam as lápides do cemitério do coração. Vamos aos poucos, dia após dias, convivendo mais com os mortos do que com os vivos. E se ainda assim, sobrevivermos aos nossos vivos, eles nos restarão como lembranças a compor o mosaico da memória. Em sua velhice o filósofo político italiano, Norberto Bobbio, escreveu que “somos o que lembramos”. Eu diria, complementando, que nossa alma é feita de sonhos, lembranças, ideias, desejos, sentimentos e perdas. Não há um ser humano qualquer que já não tenha passado por suas perdas. E ainda continuará passando.
                O psiquiatra e psicanalista alemão Erik Erikson foi um dos estudiosos da psicologia do desenvolvimento que mais contribuiu sobre o tema. Não se estuda Psicologia sem conhecer Erikson e é dele o destaque para as “oito idades do homem”. O crescimento psicológico se faz integrado com o ambiente social e cada etapa ou estágio nos prepara para os enfretamentos dos conflitos adaptativos inerentes à vida. O crescer é feito de perdas. Necessitamos elaborar satisfatoriamente nossas perdas para que o viver não nos pese de maneira depressiva. Necessitamos melhor lidar com as mudanças, as transições, as tristezas e seguir a vida. O luto nos acompanha seja por perdas reais, seja pela gradação de papéis (tais como: de solteiro para casado, paternidade, aposentadoria, etc.), seja pelo próprio envelhecer. O luto, como processo elaborativo das perdas, tem papel fundamental na vida humana.
                A vida humana, a vida de um indivíduo humano, é um instante. Um instante espremido entre duas escuridões, como refere o escritor russo Nabakov: “a nossa existência é um curto-circuito entre duas eternidades de escuridão”. Do breu uterino ao breu do túmulo. Este é o nosso percurso e caminho.
                Freud também nos deu sua contribuição no belíssimo texto Sobre a Transitoriedade (1915), quando relata um passeio com um amigo por um jardim. O amigo manifesta o desagrado e o incômodo com a finitude humana e Freud a partir desta conversa especula sobre “a exigência humana de eternidade”. Ensina-nos ele, no refletir sobre a caducidade do que chamamos belo, que é exatamente porque as coisas são transitórias que a amamos. Então passa a discorrer sobre o tempo que passa e o tempo que permanece, sendo este último não somente o tempo da memória e das lembranças, mas o tempo que só é tempo no tempo depois, isto é, o tempo do inconsciente. No conjunto inteiro de sua portentosa obra Freud distingue a consciência da inconsciência, e ao invés de que um leitor apressado sobre o tema possa pensar (o passado como um causador do presente) o que passa torna-se assim e então uma realidade psíquica, visto que o inconsciente é psiquicamente o lugar onde os tempos se amalgamizam.
                Sêneca (4 a.c.? – 65 D.c) é outro que dedicou parte de sua vida a se debruçar sobre o que ele chamou de “brevidade da vida”. Em cartas dirigidas ao personagem Paulino o filósofo pondera com sabedoria sobre a natureza finita da vida humana e a nossa relação com o rápido transcurso temporal da existência. A forma como utilizamos a fluidez do tempo que nos cabe é que a transforma em lamento ou fortuna. Escreve ele: “Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai”. Para Sêneca a vida pode até ser breve, mas o que a prolonga é a arte do seu uso.
                Ou como também nos ensina o mestre budista japônico-americano Gyomay Kubuseo -  mesmo velho Carpe Diem latino - : “quando o sol brilha, desfrute-o; quando a chuva cai, desfrute-a. Todas as coisas nesta vida – deixa que venham e deixe que se vão”. Tá, já sei o que está pensando meu porventura avulso leitor, que é fácil falar ou escrever, porém praticar e sentir são outros tantos. É vero. E aqui reside a nossa grande busca: viver a vida como um artista e fazer de cada instante o instante. Dessa forma, evitando me alongar demais, pois a vida tá passado e eu tenho uma cervejinha gelada me esperando e uma mulher a ser beijada, transformo a partir de agora este texto em passado com os versos do poeta pernambucano Carlos Pena Filho: “,,,lembra-te que afinal te resta a vida/com tudo que é insolvente e provisório/e de que ainda tens uma saída:/entrar no acaso e amar o transitório” (grifos nossos).

(publicado originariamente em 26/08/12)
Joaquim Cesário de Mello