sábado, 28 de abril de 2012

"A LEITURA É UMA AMIZADE (Proust)




Após ler o livro  do amigo e escritor Paulo Gustavo, "A Tartaruga e a Borboleta: um caminho para Proust" - um livro que recomendo  e que  me iniciou na leitura do escritor francês - fiz os seguintes comentários :
  Eis que me chega as minhas mão o seu livro e quando folheio e leio, de início, aleatoriamente páginas avulsas, observo uma frase que nomeei como cartão de visita do seu texto: “a leitura é uma amizade”.  Essa frase de Proust posso dizer que foi o leitmotiv de sua narrativa. Você escreveu por amizade a literatura e, certamente, seu texto vai ganhar muitos amigos e, consequentemente, o texto de Proust, para os poucos que não leram – como eu - será convidado a participar desse seleto círculo de amizade.  A leitura é uma amizade, mas não é uma amizade qualquer. Para os amigos somos simpáticos, somo corteses, somos aconselhadores e a leitura talvez seja a amizade mais franca, mais intima e mais leal. Pois foi isso que observei em “A Tartaruga e a Borboleta: um caminho para Proust”. Seu texto tem sabor, tem ritmo, não é esnobe, tampouco agrada apenas pela boa educação, enfim, como toda boa amizade é agradável, é bonito, é simpático.  A forma como você nos convida para ler Proust não é apelativa ou superlativa, é franca, é convincente, é inteligente,  enfim, uma forma amiga.  A sua lealdade com o entendimento  do texto desse autor só pode ser fruto de outros elementos: leituras, releituras, conhecimento, sensibilidade e, sobretudo, paixão.  Esqueça, portanto, as palavras escritas nas orelhas: modestosintético, e temeridade. Um bom livro, suponho, é também aquele que pode sintetizar temas importantes, sem que para isso seja modesto ou acanhado – quem contestar que leia Maquiavel.
Ao terminar seu livro tive entendimento que Marcel Proust tem  recursos psicológicos bastante sofisticados de dar inveja a muitos psicanalistas e psicólogos. Na verdade, como você bem disse, o tronco schophenhaueriano desmembrou-se na filosofia de Nietzsche, na expressão artística do próprio Proust e na construção da psicanálise do texto freudiano. Mas admitamos a arte é muito mais bonita e instigante e um capítulo como o do “o sono nos abre os olhos” nos traz não apenas uma teoria, mas toda uma experiência do enigma do sono e do sonho – outro dia vi uma frase de Mário Quintana que dizia: “sonhar é acordar-se por dentro”. Mário Quintana? Ilusão! Isso é Proust ou uma cópia aventureira de um de seus tradutores – o próprio Quintana.  
Começo a achar que Dante, Cervantes, Shakespeare fazem parte do velho testamento da literatura mundial e Flaubert, Kafka e Proust do novo testamento. O cristianismo foi divulgado por Paulo de Tarso a toda Roma e a literatura de Proust me foi  apresentada, em especial e particularmente, por um outro Paulo. O Paulo meu amigo, autor de outro amigo meu, o seu texto, amigo da leitura, e da literatura.
Não há bons textos chatos, nem bons amigos chatos. Há amizade e boa leitura."
Marcos Creder  ( texto elaborado para o Blog “O Olhar da Coruja”)

domingo, 22 de abril de 2012

PEQUENAS PERVERSÕES DE UMA VIDA MIÚDA


Como estou já algum tempo envolvido na elaboração do meu próximo livro, cujo título é “As Raízes da Felicidade: um estudo sobre o psiquismo humano”, não poderia deixar de rever um filme que marcou minhas retinas e minha alma. Trata-se do filme “Felicidade” (Happiness) do inquieto diretor do cinema independente americano Todd Solondz. Conhecido por seu estilo sarcástico e, principalmente, por suas críticas à classe média americana, há em sua obra um misto de comicidade e drama. Parece que nada lhe escapa ao modo de vida suburbano ou a pequena burguesia ascendente.
            “Felicidade” retrata um apanhado grupo de pessoas interligadas aqui e ali por laços de parentesco ou laços sociais. Todos vagueiam pela existência como que atordoados, tristes e desesperados. Há a femme fatale que embora devore homens a torto e a direito continua insatisfeita. Há aquela também que vive a cata do homem certo e a que é casada com um psicólogo atraído por garotos púberes. Há ainda, entre outros, aquele cara suado e bufante que tem dificuldade em relações com as mulheres e que, por isso mesmo, procura satisfazer-se por meio de telefonemas obscenos com mulheres desconhecidas. Ao invadirmos a privacidade e a intimidade perversa e miúda dos personagens somos levados a sentir pena deles, assim como podemos sentir pena dos vizinhos, caso não olhemos pro nosso próprio umbigo.
            Cruel e contundente, irônico e cínico, o filme nos leva a acompanhar seus fracassados afetivos na busca obstinada pela felicidade. Masturbações, taras, pedofilias e sem-vergonhices à parte, o filme é cru, raivoso e melancólico com a coitada da nossa condição humana. É o tipo do filme que nos deixa com aquele gosto estranho e amargo na boca. E por que, então, o cito aqui? Por ser uma estonteante e vertiginosa aula sobre as entranhas do comportamento humano. Filmaço, porém não para quem tem intestinos fracos ou acredite no “bom selvagem” de Rousseau.
            A matéria bruta de que somos inicialmente feitos é a natureza e os instintos. Hobbes dizia que “somos o lobo do homem”, enquanto Freud referia que a criança é “um perverso polimorfo”. Seja qual seja a forma de expressarmos nossas origens primitivas lembremos que, assim como ninguém nasce vestido, o psiquismo humano também não. Para nos tornarmos humanos conjugaremos nossa raiz animal com cultura, e se antes éramos tão somente um feixe de instintos e reflexos nos tornamos igualmente um ser de moral e sociabilidades.
            Do nosso berço biológico herdamos nossa inaugural animalidade, enquanto do nosso berço psicossocial herdamos a cultura e os seus interditos. Humanizados somos, assim, um eterno conflito entre desejo e moral, entre o instinto e a sociedade, entre o bestiali e o ethos, entre o Id e o Superego. Quem, por exemplo, comete um crime brutal e hediondo não é um monstro, mas sim um ser humano em que lhe falha as defesas e os interditos. Um ser humano em que, ao perder as principais características que lhe qualifica de humano que são a solidariedade, a empatia e a compaixão, retorna a sua mais pura barbárie primitiva e canibalesca.
            Um filme como “Felicidade” não navega apenas pelos corredores subterrâneos da alma humana, mas também busca investigar o que é isso que o ser humano tanto procura e que chamamos de felicidade. Alguém já disse – creio que Tchekcov – que a felicidade não existe e que não somos felizes, apenas podemos desejá-la. Claro que o arquétipo de felicidade é uma miragem e lá chegando a mesma se dissolve como uma enganosa fumacenta ilusão. Entretanto, talvez, a felicidade possível seja algo mais ou menos parecido como escreveu Érico Veríssimo, ou seja, “felicidade é a certeza de que a nossa vida não está passando inutilmente”.
            Não é o que acontece com os personagens engendrados por Solondz em seu filme. Eles parecem viver à beira de um abismo, vivendo suas vidinhas monótonas e tediosas como andarilhos estonteados e perdidos. Todos, embora não se percebam, estão como que condenados à infelicidade. A infelicidade de uma vida marcada pela pequenez e pela apatia. Vidas sem sentido. Vidas à margem da própria vida.
            Quem é feliz? - pergunta-nos o diretor com a acidez de seu filme. Aliás, como ser felizes na superficialidade da existência e da convivência social. Será que os personagens (e nós neles espelhados) são culpados pelo que fazem ou só fazem o que fazem por serem vítimas? Há certa incomunicabilidade entre eles, como se cada um, a seu modo e maneira, fosse omisso com os demais seres humanos. Faltam-lhes caritas e carecem eles de um mínimo de bondade com o alheio. Como se pode ser, portanto, verdadeiramente feliz vivendo vidas voltadas unicamente aos umbigos e problemas íntimos e pessoais, feitos hipocondríacos a perscrutar seus interiores e, com isto, afastando-se de se lançarem autenticamente ao encontro de outro.
            “Felicidade”, assim, expõe como fratura os pequenos horrores e sordidezes dos cotidianos descompromissados e enfadonhos das vidas mesquinhas e acanhadas, quase como se narrasse uma crônica de uma infelicidade crônica.
            O fecho do enredo apresenta-nos um término antológico quando o casal mais velho do filme, que estão nos estertores de um longo casamento de 40 anos, reúne a família e, escondidos pelas máscaras e vernizes sociais, brindam à felicidade. Neste instante entra o garoto púbere eufórico e feliz por ter finalmente ejaculado pela primeira vez na vida e grita: gozei. Será, então, isto que é felicidade: um alegrar de um rápido gozo? Creio que não. Apenas concordo com a escritora portuguesa Inês Pedrosa quando diz que “não é de serem felizes que as pessoas têm medo; é de escolher – da responsabilidade da escolha, do compromisso que ela acarreta”.
            “Felicidade” é vencedor de vários prêmios a sua época, entre eles o da Crítica Internacional em Cannes e o Metro Media Award de Toronto. Um filme realizado já tem mais de dez anos (1998), mas que não é datado, nem poderia, afinal nada é datado no lado escuro e oculto da alma humana. 

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 15 de abril de 2012

CATANDO ARTE


Pena que os documentários não tenham a mesma popularidade que os outros estilos de filmes e, muitas vezes, alguns deles são exibidos sem sequer passar pelo conhecimento do público, inclusive do público mais dedicado.  Lembro-me que no passado assisti a um filme que considerei marcante, talvez um dos melhores que vi : Arquitetura da destruição – um filme que mostrou todo o tenebroso projeto político, econômico, estético do nazismo. O documentário parecia escurecer na medida em que passavam as minúcias da Alemanha dos anos 1930. Interessante que fatos históricos tão recentes parecem-nos remotos, e muitas vezes se tem a sensação de que documentários são na verdade outra forma de ficção. Isso poderia ser justificado pela questão puramente temporal: um fato que nos ocorre há mais de sessenta anos nos será estranho hoje, e quanto mais cruel, mais tendemos a alongá-lo no tempo. Penso, contudo, que essa variável do tempo é bastante útil, mas precisamos incluir também o espaço, aglutiná-lo à história e, naturalmente, à geografia, pois podem haver duas "Berlins" numa só cidade: a Berlim  de 1930 e a Berlim de 2011 , assim como coexistir várias Capitais da Alemanha.  Voltemos para o Brasil citando um outro documentário dos nossos tempos que trás as assimetrias da vida humana simultâneas  no tempo e no espaço: “Lixo extraordinário”.
Com foco dirigido ao trabalho do artista plástico Vik Muniz numa comunidade de catadores de lixo no Lixão de Jardim Gamacho, no Rio de Janeiro, o filme surpreende por inúmeras reflexões sobre função e conceito da arte – incansável discussão, aliás –  e, obviamente, sobre a condição de miserabilidade dos que vivem da atividade de catador. Pensar que, por exemplo, uma pessoa em meio ao lixo pútrido encontre o livro “O Príncipe” de Maquiavel, leve-o para casa e depois de secá-lo fazer uma leitura sofisticada com ótimas reflexões e interpretações; ou fazer reproduções fotográficas de pinturas consagradas usando resíduos dos dejetos de grandes centros urbanos e daí sair uma boa arte.  O filme revira e dá forma ao lixo, mas remexe de maneira mais sutil naquela velha discussão a respeito do papel da arte, do artista e da comunidade. Não é pretensão do documentário responder essas questões, é importante, como fazem os bons filmes, provocar discussões em cima de suas imagens.  Penso que nesse “falar com imagens” – vocação do cinema –  são dadas boas alfinetada em parte da arte contemporânea. Se nossos artistas procuram sucatear a estética, procuram fazer do harmônico desarmônico, ou o assimétrico, ou simplesmente cultuam o feio, o dejeto, o lixo, penso que Vik Muniz e a diretora Lucy Walker quiseram mostrar exatamente o oposto, resgatando em meio aos entulhos contemporâneos e os dejetos urbanos, uma tradição artística que ainda cultua o belo na arte. E não só o belo, mas a função expressiva de tocar o observador com um mosaico de imagens faladas. “Lixo extraordinário” traz fragmentos de biografias que estavam prestes a serem atiradas literalmente ao lixo e faz da arte um movimento que trás de volta a dignidade de pessoas anônimas, dando face a esses seres humanos.

Marcos Creder        

segunda-feira, 9 de abril de 2012

GENIALIDADE & TRANSTORNO - PARTE I


Mês do Oscar é temporada certa de filmes com temáicas adultas nos cinemas de shopping. Entre eles tivemos a pouco a exibição de "Tão Forte e Tão Perto", que conta a história de Oscar Schell uma criança de quase onze anos e que perdeu o pai nos atentados às Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Mas não é do filme - no todo apenas mediano - que vamos falar aqui, mas sim do possivel transtorno que tem o personagem de Oscar e que lhe dificulta a socialização. Trata-se da "Síndrome de Asperger".
                A Síndrome de Asperger faz parte do espectro autista, todavia se diferencia do autismo como conhecemos por não apresentar comprometimento cognitivo e intelectual. O nome dado ao transtorno deve-se a Hans Asperger, psiquiatra austríaco que em 1944 publicou o artigo "Psicopatia autista: uma desordem de personalidade" onde ele identificou um padrão de comportamento mais encontrado em meninos. Entre alguns aspectos pertinentes temos: ausência de empatia, pouca capacidade para desenvolver habilidades sociais, comportamento solitário e ligação com interesses especiais onde detêm vasto e profundos conhecimentos sobre sua área de interesse que estão acima de sua faixa etária. Em vistude desta última característica Asperger denominava-os de "pequenos professores", pois os mesmos tendem a desenvolver habilidades específicas com particularidades geniais, tais como ler partituras musicais já na primeira infância, alfabetizar-se precosemente e calcular matematicamente com maestria.
                A síndrome manifesta-se desde cedo, logo aos primeiros dois ou três anos de vida. Chama a atenção pelas manifestações de genialidade da criança, porém é um transtorno mental ainda pouco conhecido pela ciência. Quanto mais cedo é diagnosticado melhor. Vejamos alguns sintomas ou sinais apresentados na Síndrome de Asperger, tais como tendência a melhor se relacionar com adultos do que com outras crianças, utilização de linguagem formal com amplo vocabulário e falta de malícia acreditando em tudo que os outros lhe dizem, não entendendo ironias. É ingênuo, puro e sincero. Sua coordenação motora é pobre e é bastante ritualista com rotina rígida. Para sentir-se seguro busca repetir compulsivamente certas ações e têm uma memória excepcional.
                Um outro filme, mais antigo, que aborda a questão é "Muito além do jardim" (1979) onde o personagem vivido pelo ator Peter Selers passa a vida cuidado de um jardim. O mundo além da mansão onde trabalha é visto apenas através da televisão e quando o patrão morre ele se vê obrigado a deixar a casa em que sempre viveu e conhecer o mundo real lá fora. Em ritmo de comédia dramática "Muito além do jardim" explora a temática da Síndrome de Asperger em cenas hilárias e antológicas, tais como quando o personagem sofre um assalto e - acostumado a somente ver o mundo pela televisão - tenta se livrar do perigo com um controle remoto mudando de "canal".
                A incapacidade que tem a pessoa acometida pela síndrome de fazer linguagem simbólica (seu pensamento é concreto) e associativa leva-a a situações exdrúxulas. Expressões do tipo "tá chovendo canivetes" é entendido ao pé da letra e a pessoa é capaz de se esconder debaixo da cama com medo dos canivetes.
                Quem sofre da síndrome tem dificuldade em reconhecer as diferentes manifestações das emoções no rosto do outro. É como se fosse "cego" em distinguir raiva e alegria, por exemplo. Todavia a dificuldade em expressar emoções não é sinônimo de ausência de sentimentos. E isto fica visível no personagem de Oscar no filme "Tão forte e tão perto". Aliás, que tradução horrível, visto que em original é "Extremely Loud and Incredibly Close" (extremamente alto e incrivelmente perto).
                Trata-se, como dissemos acima, de um transtorno cujas causas ainda são um mistério. Especialistas no assunto consideram não haver uma causa única. Sabe-se que se trata de uma forma diferente como o cérebro processa as informações e não a cura conhecida. Embora não haja cura pode-se propiciar uma vida mais harmônica e menos difícil, através de uma educação adequada e apoio ao longo do desenvolvimento infantil e juvenil.
                Do ponto de vista psicoterápico é claro que quanto mais cedo se iniciar o tramento melhor podem ser os resultados. Uma das técnicas mais empregadas é o treinamento de competências sociais, onde a criança ou o jovem é auxiliado a aprender a ler a linguagem corporal e a interpretar expressões não verbais e emocionais. Quando adolescente a participação em grupos terapêuticos podem trazer bons benefícios. Contudo, por se tratar de uma síndrome ainda pouco conhecida, muito ainda necessita ser desenvolvido no tocante à abordagem terapêutica e manejos pertinentes.
                A mente e o cérebro humano é um vasto e talvez inesgotável território a ser desbravado. Nesta fascinante viagem homem a dentro o que se faz de mais impotante e necessário é aceitar e acolher as diferenças.
Joaquim Cesário de Mello

sábado, 24 de março de 2012

SOU UM HOMEM OU UM PRATO DE SOPA?



            E eis que me chega às mãos e aos olhos o livro “A Ilusão da Alma” de Eduardo Giannetti (Companhia das Letras, 2010), livro este que me foi emprestado pelo amigo e coeditor deste blog, Marcos Creder.
            Entre muitas coisas em comum com Marcos temos a cumplicidade de gostarmos de Eduardo Giannetti, de seu estilo literário, de sua verve, de sua fina ironia e de sua multifacetada erudição. Giannetti, economista por formação e igualmente graduado em ciências sociais, é antes de tudo um curioso da condição humana e de sua perambulante existência. Professor universitário e vencedor de dois prêmios Jabuti, Giannetti é um profícuo instigador e intelectual de ponta em um cenário carente de intelectuais de ponta.
            Acontece que o citado livro me chega em um momento reflexivo de vida em que espontaneamente venho me indagando sobre os efeitos do cérebro e do corpo sobre a constituição e imagem que temos de nós mesmos e do mundo circundante. Certa vez disse Jaspers algo como quando morrer meu mundo morre comigo e a realidade fica. A realidade independe de nós, porém o mundo é uma construção psicofenomênica de nossa mente. A relação entre consciência e realidade, entre homem e mundo, é tema filosófico há milênio, porém neurocientificamente estamos saindo do engatinhar para os primeiros passos cambaleantes e trôpegos rumo à autonomia futura.
            A chamada “Década do cérebro”, anos 90 do século XX, trouxe-nos importantes descobertas dessa área do corpo pouco conhecida que é o cérebro humano. Desde então avançamos no conhecimento sobre o mesmo, entretanto estamos praticamente um pouco mais além do que um começo. O caminhar deve ser longo e fascinante.
            Séculos atrás Descartes descrevia a mente humana como uma entidade extracorpórea. A relação íntima e intrínseca entre mente e cérebro vai, assim, aos poucos, deixando de ser um enorme mistério insondável, Hoje sabemos, como dia Giannetti, que o cérebro engendra a mente que, por sua vez, interroga o cérebro que assim assombra a mente. Conhecer mais sobre esta massa cinzenta que temos no interior do crânio e que pesa aproximadamente 1,3 quilos é talvez a última fronteira humana da ciência. Nele se inicia e residem nossas lembranças, sonhos, sentimentos e emoções. O cérebro é por si só um inteiro universo.
            E o que tem o livro de Giannetti a haver com isto? Muito, afinal trata-se como ele mesmo titula de uma “biografia de uma ideia fixa”. Seu conteúdo é um relato pessoal e revelador, consequência de uma retirada de um pequeno tumor cerebral porque passou o autor. Quem nos rege: o cérebro ou a mente? Aí está a espinha dorsal de “A Ilusão da Alma”. Escrito em forma um tanto romanceada o livro é igualmente um ensaio filosófico sobre o tema.
            Por séculos a humanidade acreditou – ainda acredita – na crença ideológica do “livre arbítrio”, ou seja, na nossa capacidade objetiva e subjetiva de escolher nossas ações. Eticamente falando com o livre arbítrio somos moralmente responsáveis por nossos atos. Psicologicamente falando, então, a mente controla o cérebro. Para Santo Agostinho o livre arbítrio é um bem proveniente de Deus. É a condição que Deus nos deu para sermos livres, até mesmo para sermos contra Deus. Para São Tomás de Aquino o libre arbítrio é baseado no exercício da razão e esta razão nos diferencia dos animais. Os animais não têm livre arbítrio, os humanos sim. O livre arbítrio funda o que chamamos de alma.
            Giannetti discute se nosso livre arbítrio é tão livre assim, afinal, afirma ele, as leis que regem o universo são alheias a nós e nossa “soberana” vontade. A vontade humana é fruto direto e indireto das mesmas leis que regem o universo onde o homem habita e está a ele submetido. E conclui que a vontade é independente da vontade. Será? Será que nos resumimos a uma sopa de endorfinas e que somos meros joguetes, feito marionetes, da química cerebral e que nosso Eu tem seu berço na hipófise? Não podemos desconsiderar isto.
            Alterações nos níveis dos neurotransmissores (tais como serotonina, noradrenalina, dopamina), por exemplo, fisiologicamente nos induz estados depressivos. Deprimidos nosso humor muda, assim como nossos pensamentos e nossa relação com os sentimentos e o mundo. A depressão, por assim dizer, é uma morbidez do organismo e do ser como um todo. Em depressão nossa lucidez não é a mesma, comprometendo a vontade, a interpretação e a tomada de decisões. Deprimidos nosso Eu se transforma e a relação com a vida também.
            Mas antes de vermos aqui uma apologia à química cerebral tão somente, deixe-me contar uma passagem da minha vida quando, talvez pela primeira vez, tive contato explícito com a mente humana. Estava eu aos 10 anos de idade em um hotel de veraneio e lá estava um padre que sabia hipnotizar. A gurizada toda ficou curiosa e um primo meu, de mesma idade, ofereceu-se como voluntário. Após colocá-lo em transe hipnótico o padre pôs na palma de sua mão um palito de fósforo e iniciou sugestionando que o mesmo pesava um quilo, dois quilos, cinco quilos... trinta quilos. Lá estava meu primo com a mão no estendida no chão.
            Pois é. Podemos até ser produto de bilhões de células. A alma humana pode ser uma enganação que o cérebro nos oferece. Que o homo sapiens seja apenas um homo iludens. Todavia a mente também ilude o cérebro ao ser capaz de transformar um palito de fósforo em uma tonelada.
            Seja o que for, portanto, a alma humana, a mente ou o psiquismo, seja lá quem se aloja naquilo que chamamos puramente de consciência (Freud já nos falava do inconsciente psíquico), seja de que matéria ou argamassa é feito nosso Eu. Seja quem paga as minhas contas... está aberto o debate.
            Quanto e pergunta que dá título ao presente texto penso que sou, talvez, um pedaço de carne encharcada em um prato de sopa que lhe dá o gosto, mas que se confunde textura com o sabor.
            Valeu Marcão. Uma digestiva leitura que, porém, desarruma alguma coisa por dentro e por detrás das crenças.

Joaquim Cesário de Mello

sexta-feira, 16 de março de 2012

A Morte é a irmã mais velha da "Melancholia"











Na ocasião em que Hipócrates descreveu a melancolia, fê-la uma doença líquida, ou seja, dos humores, como se o estado de espírito, juntamente com sentimentos e palavras, umedecessem e a bile (chole) enegrecia (Melano) o que desencadeava todo o conhecido processo de definhamento físico e psíquico do sujeito. O que mais instigou reflexões sobre a melancolia com o passar dos anos, na verdade, são seus desdobramentos psíquicos, suas indagações existenciais e o seu enredo trágico: a perda e a busca infrutífera por um objeto perdido e o sentido de finitude. O melancólico antecipa-se ao infortúnio da condição humana e se recusa categoricamente a aceitar qualquer indumentária que dê sentido à transitoriedade da vida. “Somos”, insiste o portador/personagem “vítimas ou obra de uma sucessão de acasos, onde a alegria buliçosa e vertiginosa” – a vida – “é um caroço extraordinário, envolvido pela penumbra da incerteza e do inominável: a áspera casca melancólica"

Se deixarmos Hipócrates de lado e fizermos da melancolia um acontecimento que está em rota de colisão com nossa existência, chegaremos a várias suposições alucinadas, mas, entre elas, chegaremos a uma alucinação contemporânea: ao cinema, e aqui, especialmente, ao cinema  do diretor Lars Von Trie e ao filme "Melancholia".

Em recente entrevista à revista Veja o diretor revelou que Deus abandonou a humanidade como uma criança entediada abandona um brinquedo, e deixou à deriva os habitantes da terra. Desse modo, entregues a essa orfandade, Lars Von Trie dá textura ao filme onde a melancolia é materializada, alegoricamente, num planeta prestes a colidir com a terra." Melancholia" aparece, aos olhos do diretor, como astro da condição humana, em que o risco de colisão é irrefutável, inquestionável e contingente. Melancholia é uma arma de extermínio em massa, de pulverização da existência humana.

O filme leva as reflexões da morte – irmã mais velha da melancolia –  e do sentido da vida e há de se destacar, em meio a trama, três personagens importantes: Justine a noiva, que padece de doença melancólica,  num momento que seria de alegria, o dia do seu casamento – cerimônia  que não se efetiva, em meio a fragmentos de diálogos e cenas recortadas;  Claire, sua irmã angustiada, insegura, com extremo pessimismo e temor ao sofrimento e, por fim, John marido de Claire, um vaidoso milionário, racionalista, de elevada auto-estima, soberba, e de reflexões pragmáticas. A única certeza: todos vão findar com "Melancholia", que vem, como no Apocalipse, para o fim da vida e da humanidade. Dessa forma, há três reações das personagens perante o fim dos tempos: admitindo a existência devastadora de "Melancholia", mesmo antes de uma ameaça global (Justine), sofrendo com sua certeza (Claire), ou, categoricamente, recusando em aceitá-la (John).
Não haveria outra saída para tamanho infortúnio? Lars Von Trie parece encontrá-la em provável experiência pessoal, justamente com o recurso da arte, da própria arte cinematográfica, construindo o próprio filme em sobreposição a sua vivência depressiva.
Com a consolidação da dramaturgia e do pensamento grego o conceito de catarse vem humanizar esteticamente os fenômenos aflitivos da natureza.    Fruto “do temor e da compaixão”, a catarse seria uma forma de expressão afetiva que por resultar da expressão artística, traria algum tipo de satisfação.
No negrume surrealista do filme de Lars Von Trie, pode-se afirmar ao assisti-lo a frase de Victor Hugo: “a melancolia é a felicidade em estar triste”.
 
Marcos Creder

domingo, 11 de março de 2012

UNIVERSO ATEU

Em meados de 2011 passou pelos cinemas de shopping o aguardado filme “A Árvore da Vida”, do cineasta Terrence Malick, vencedor do prêmio Palma de Ouro no último festival de Cannes. Aspectos técnicos à parte (fotografia, trilha sonora, atuação de atores) o tão aguardado quinto longo do cineasta, embora tenha decepcionado alguns, merece destaque e considerações.
            Terrence Malick é um cineasta, no mínimo, estranho ao padrão da indústria cinematográfica americana. Recluso, não é de aparecer na mídia, evita o culto a celebridade, e em quarenta anos de carreira só realizou cinco longas metragens e um curta. Seus filmes são geralmente cercados da áurea de obras de arte, principalmente após o magnético “Dias de Paraíso”, reconhecidamente um dos mais cultuados filmes da década de 70.
            Formado em filosofia por Harvard, Malick nos oferece filmes contemplativo, por isto mesmo sem grandes atrativos populescos. Por detrás da eloquência e beleza plástica de suas imagens, seus filmes são marcados de simbolismos, erudição e valores. No filme em questão, “A Árvore da Vida”, temos a discussão implícita do criacionismo versus evolucionismo.
            O filme começa com a representação iconográfica do Big Bang e a partir daí Malick nos oferece uma viagem semiótica pela formação da vida e da natureza. Overdose de imagens (e nisto o filme resulta um tanto cansativo e exaustivo) e perfeccionismo impregnam o filme de ponta a ponta. Embora nos canse muitas vezes pelo excesso de reflexão, trata-se de um espetáculo visual e sonora ímpar – comparável, talvez, a “2001 Uma Odisseia no Espaço”.
            De cunho religioso, espiritualista e místico, também temos logo na abertura do filme uma citação bíblica do Livro de Jó quando Deus indaga: “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?”.  Pulsante como as imagens, o filme oferta pérolas do pensamento Agostiniano e da psicologia humana. Com base na obra “Natureza e Graça” de Santo Agostinho o enredo fílmico é um verdadeiro tratado sobre a vida e como escolhemos vivê-la.
            Como escreve Luiz Felipe Pondé, há duas formas de se viver: "The way of grace or the way of nature". Afirma  Pondé: “a graça é generosa e a natureza torna todos escravos de sua fisiologia’. A graça (simbolizada no filme na personagem Mãe) nos dá a vida generosamente, já a natureza (Pai) é egoísta e cega. Eis a grande lição filosófica do filme: “Existem dois caminhos na vida”.
            Natureza, usualmente, significa o mundo físico, assim como filosoficamente representa o princípio da ação. Para Santo Agostinho, embora a natureza seja criada por Deus, devido ao pecado original ela se acha enferma e necessitando da graça. Em uma espécie de remédio a graça atua não contra a natureza em si, mas em relação a sua debilidade (gratia non tollit, sed perficit naturam).
            Há um verdadeiro duelo surdo entre os personagens da mãe e o pai na criação de seus filhos. Enquanto o pai é puro instinto (natureza) a mãe é pura bondade (graça). Enquanto o pai expressa severidade e autoridade, a mãe transpira compaixão e afeto. Se a natureza é uma força externa e alheia a qualquer humanidade, a graça é, por sua vez, uma força interna na qual se alicerceia toda nossa humanidade demasiadamente humana, afinal o que seria do humano acaso não houvesse a bondade?
            E neste contraponto entre a graça e a natureza o cineasta parece fazer sua escolha de maneira mista, isto é, ambos. Antes houvesse assistido a este filme, porém era impossível, pois ele é somente recente. Pai jovem, eduquei minha filha com um rigor de quem educa para a sobrevivência e a vida. Estive tolamente mais no polo da natureza, enquanto minha esposa ofereceu a nossa filha toda sua generosa bondade cheia de humildade e perdão. Mas eu era jovem e trazia comigo a amarga solidão de uma orfandade precoce.
            Pois é, Malick através de seu filme-ensaio nos provoca questionar qual o sentido da vida. Em um ritmo propositalmente lento nos convida a digerir o tema que por si só é indigesto: o caminhar do ser humano em meio a uma natureza que lhe é indiferente e muitas vezes furiosa. A vida é antes de tudo sobrevivência. Contudo nos igualaríamos ao resto dos animais e répteis se apenas passeássemos pelo mundo somente sobrevivendo. Dotados de discernimento e capacidade e senso crítico buscamos equacionar sobreviver com viver. E em cada enquadramento e em cada fotograma “A Árvore da Vida” não esconde em nenhum momento a beleza trágica e singela de se viver em uma vida que devora a vida. Como não se maravilhar pelo voar coreográfico dos pássaros como se bailassem ao som de um concerto? Uma pintura! Como não se enternecer pelo dinossauro que deixa sua presa dominada como se respeitasse nela sua luta por viver? Comovente lição de compaixão!
            Da fervura abrasadora dos primeiros instantes cósmicos surge aos poucos a vida no esfriar e diluir das larvas escaldantes. Com a velocidade do tempo imensurável a vida se transforma, extingue-se e se renova. Em meio a uma natureza que, como diz o etólogo Richard Dawkins, “não é cruel, apenas implacavelmente indiferente”, onde muitas vezes gritamos e suplicamos por Deus e ouvimos como resposta a natureza, aprendemos a importância de amar. No altruísmo do amor ao próximo encontra-se a lição no pensamento em off do filme: “ao menos que você ame, a vida passa como um flash”.
            Talvez possa estar sendo pretencioso inaugurar-me aqui no blog com a admiração existencial ao filme “A Árvore da Vida”. Afora a poesia imagética, o conteúdo filosófico, e a beleza artística e estética, o filme me fascinou muito mais pelo que residualmente me deixou após sua exibição. Não é um filme fácil ou digerível, até mesmo não é um filme inaugural em termos reflexivos e narrativos. Assisti-lo requer bagagem. Acredito que é um deleite para aqueles que já passaram por “poucas e boas”, mas que ainda se assombram com o simples fato de existir além de apenas respirar.
            A vida é breve, lembra-nos Malick, e ela é mais do que somente um acumular de experiências e sensações. Nada nos é gratuito e sem consequências, que o digam nossas escolhas...

JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO