domingo, 10 de fevereiro de 2019

AO NORTE DA MESA PRÓXIMA

(Este texto foi originariamente publicado pela Revista Caravelle nr. 75, da Universidade de Toulouse, França, por ocasião de “la célébration officielle des 500 ans du Brésil”).

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O garçom me serve uma bebida forte à base de aniz, com a qual me vejo invadido de quentura e azul. Imediatamente zonzo pelo sabor do inusitado, abro o livro marcado somente para não perceber que as outras mesas desconhecem minha presença. Sou um estranho entre pessoas estranhas e elas sabem disso. Estou longe de casa. Estou longe de mim. Meu lar é lugar nenhum.
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Esta cidade edificada de ruas com nomes e datas que não me dizem nada, arranha-céus, árvores, praças, postes e luzes não foi construída para mim: sou um estrangeiro em suas entranhas e sombras, transitando-a apenas como o minuto que perpassa a minha vida. Os rostos dessa gente não me significam coisa alguma, não me importa suas dores de dentes, amores e desamores, sequer sei dos seus vizinhos. Para eles sou transparente e não existo, unicamente habito esta cadeira neste momento, em um bar que nunca vim.

Resultado de imagem para MESA DE BAR,  PINTURAO que pensa a lua de mim aqui sentado sem amigos ou amantes? Como um surdo aguardo que me chamem o nome, este substantivo próprio tão doce e delicado que só se sente à falta dele no deserto das bocas áridas. Devo ter deixado minha história em um quarto de hotel e agora não sofro mais qualquer nostalgia. Esqueço-me de mim para lembrar das minhas ausências e dos meus prantos. Sobrevivo aos meus mortos e aos meus abandonos, só não quero morrer sem ver meus poemas publicados, pode ser que alguém algum dia me leia e me compreenda além do silêncio em que me sepultei. Minha cabeça lateja em um corpo amolecido de febre e gripe. Tusso secreções e esta imensa noite que carrego no peito.
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Quisera-me ser um barco a navegar a imensidão infinita dos oceanos azuis. Minha alma é um 
mar agitado, perigoso, sem sol e sem sal, em busca de praias onde possa sossegar suas ondas e depositar espumas agonizantes. Quem penso que sou bóia em mim. Receio afogar-me sem história e sem nome, enquanto aqui o redor fervilha em música na urdidura das tramas pélvicas. O calor que me aquece e me esfria não é de febre nem de álcool, é do incêndio desta cidade alheia onde procuro o socorro de uma mão e não encontro. O que se estende até a mim é solidão.
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Chamo o garçom novamente, mais uma vez, como forma de falar com alguém. Solicito e ele me atende com outro copo. Logo vai embora. Nada me apraz o olhar, nem mesmo aquela velha prostituta de cabelos mal pintados de ruivo encostada ao canto do escuro, pronta a me saquear bolsos, filhos e afagos. Chego a me apiedar cumplicidamente dela e de sua indisfarçável decadência, pois representa seu papel e ao final adormecerá só em sua cama, assim como eu. Se me desse vontade de escrever versos começaria com a palavra adeus, porém minha única vontade é saber para que estou e para onde vou quando não mais houver esta cadeira, o copo e o garçom a me servir. Quando todos já tiverem se abrigados, restarão meus cacos, as pálpebras insones e este cansaço mais que febril. Tusso secreções reprimidas e esta grande noite que me aprisiona a garganta e me domina o peito.
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Adeus minha adorável prostituta. Acaso fosse outrora, talvez teu corpo visitasse. Contudo, não agora. Após, jamais. Quando tiver tua idade também não me recordarei desta ocasião passageira, por isso, à tua face soturna e triste, ofereço tão somente o esquecimento dos meus gestos e da nossa impossibilidade. A minha memória é um cemitério de lembranças e poeiras, são poucos, muito poucos, os fantasmas que me acompanham ao dia. Se em uma outra hora ou data retornar, encontrar-te-ei outra vez plantada no canto do bar assim como hoje: imóvel e muda, esperando despedidas.

Resultado de imagem para RUA, HOMEM SÓ,  PINTURADeixa-me ir agora querida prostituta, cujo nome é tão silencioso como o meu. Deixa-me ir, libertando-me do teu encanto misterioso de Medéia, pois almejo os movimentos e as surpresas das ruas. A inércia é a privação da vida e já me bastam tantas perdas enterradas em meu peito entupido. Que assim se escreva em minha lápide: “aqui repousa um homem só e aqueles que morreram antes dele”. Se falecer é desaparecer duas vezes, então desejo morrer depois da minha morte (serei amanhã um morto em alguém?). Tusso secreções, escarro a noite.
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Até nunca mais minha inominada prostituta. Agradeço a caridade de teu único olhar sobre mim, deixando-te em troca a ilusão de novos fregueses. Parto, afinal partir é melhor que ficar. Perambulo trôpego e bêbado pelas calçadas, vomitando azuis pelas esquinas. Até a lua agacha-se envergonhada por detrás das nuvens.

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Retorno cambaleante ao quarto e às minhas malas onde lá encontro partes de mim. Persigo o sono e só assim ao levantar não saberei se tudo não passou de um sonho ou de um pesadelo do instante em que fui ninguém. A sinusite dói e a coriza me escorre afetos e líquidos. Quero rápido dormir para logo acordar com alguém que não conheço chamando meu nome. Preciso urgentemente voltar a existir. Hoje, é certo, não sonharei com anjos, mas com prostitutas.
Tusso secreções e a noite inteira me acoberta de breus.


Joaquim Cesário de Mello

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O MAL QUE VOCÊ ME FAZ

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O termo tóxico nos remete à venenoso, danoso, malévolo, perigoso, prejudicial e por aí vai. Tóxico também nos leva associar com droga, narcótico, entorpecente ou substâncias prejudiciais e que causam dependência. Tóxico vem de grego toxicum que significa veneno. Do ponto de vista da toxicologia a toxidade de uma determinada substância tem a ver com a qualidade de virulência que tal substância ocasiona no organismo. Porém é comum às vezes vermos o uso da palavra tóxico ligada à relacionamento. E como isso é possível? Como um relacionamento entre pessoas podem gerar toxidade?
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O que vem a ser tóxico entre duas ou mais pessoas é a atmosfera emocional desta relação. Neste sentido um relacionamento tóxico é aquele em que são gerados emoções ditas negativas de maneira constante e espiralizante. O clima emocional é amplamente negativante. Do ponto de vista afetivo é um relacionamento débil e mórbido, um relacionamento que drena emocionalmente as pessoas envolvidas e que contém elevados níveis de stress. É como se um invisível espinho fosse gravado na alma dolorosamente. E porque tóxico tal relacionamento é viciante.

Resultado de imagem para relação tóxicaEnvolver-se com uma pessoa tóxica é se envolver com uma pessoa abusadora, exploradora, manipuladora, chantagista, inclusive ameaçadora. Críticas constantes, desqualificação, xingamentos, humilhações, vexames, degradações, desonestidade e agressões tanto verbais como físicas, compõem o clima emocional de tal relacionamento. Trata-se de um vínculo corrosivo e desgastante. É um típico relacionamento que se preservado muito tempo ruma para a ruína e destruição.

Resultado de imagem para pessoa tóxicaA violência psicológica é tão violenta ou até mais do que a violência física. Tem gente que parece naturalmente tóxica. Usualmente são pessoas invejosas, maldosas, mentirosas, falsas e até mesmo perversas. Embora não tenhamos uma "personalidade tóxica" existe pessoas tóxicas. Envolver-se com gente que sofre de transtornos de personalidade borderline e paranoide, por exemplo, é frequentemente se enrolar toxicamente. Mas há aquele que parecem procurar tal tipo de relacionamento. Comumente são pessoas que baixa autoestima, com dificuldades de dar limites, com ausência de assertividade e fortes tendências submissas e dependentes. Sim, um relacionamento é uma avenida de da mão-dupla e não uma rua de mão-única. 
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Vampiros não são apenas lendas sobre entidades que sobrevivem se alimentando de sangue humano. Há verdadeiros vampiros emocionais por aí camuflados inicialmente de cordeirinhos e que na primeira oportunidade mostram suas garras hostis e arrogantes. São indivíduos parasitas das almas alheias. E pensar que tudo pode levemente começar leve comentários sutis e com pequenas piadas irônicas que em sua jocosidade e aparente despretensão buscam fazer troça e atingir a autoestima da vítima. Gradualmente vai envolvendo a sua presa e quando ela menos espera já está enredada.  Não existe um padrão único e específico. Ás vezes são pessoas tiranicamente dominadoras e sufocantes, outras ameaçadoramente psicóticas, assim como neuróticas suficientes para estragar a vida de quem está ao seu lado, ou verdadeiras montanhas-russas emocionais de características border. Ronald Shouten (professor de Medicina em Havard) chama de "quase psicopatas".

Resultado de imagem para amor tóxicoMuitos se enganam acreditando que amam a pessoa que está adoecendo suas vidas. Porém, indo além da superficialidade das aparências há de se entender a questão em termos de intersubjetividade, isto é, o que se intercambia subjetivamente entre os sujeitos. Relacionamentos patogênicos são muitas vezes relacionamentos fusionais (bilateralmente ou unilateralmente) e adesivos. Não há propriamente dito - em termos psicoafetivos - duas individualidades em jogo; um ou ambos desaparecem como sujeito autônomo e definido. Ao se aferrar à alguém, o que temos é uma espécie de borrão entre o self e seu objeto. A identidade subjetivamente falando é tão frágil que a pessoa necessita se ancorar a um outro. Sabe aquele ditado que diz antes só do que mal acompanhado? Pois é, inverte-se a questão para antes mal acompanhado do que só.
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O psicanalista David Maldavsky refere que regressivamente uma pessoa se liga à outra como uma ventosa ou como um sanguessuga, mediante o apego usurpante da vitalidade do outro. Pode ser que tudo comece bem lá atrás, bem antes do início da relação. Provavelmente a gênese parece estar no sentimento primário de desamparo. Não há ser humano que não tenha iniciado a vida sem necessitar de mãe, ou mais precisamente da função materna. O medo do desamparo ou a experiência do desamparo pode fomentar uma personalidade com tendências fortemente dependentes.
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Alguém assim tão perigosamente dependente é algo análogo com alguém dependente de uma droga psicoativa. O termo hoje usado de drogadição (droga + adição) nos oferece a seguinte ideia: que a droga vem a tamponar (somar) vazios psíquicos (faltas, subtrações) da alma humana. Uma relação tóxica é um elo amoroso que atenua a sensação de desamparo. Por isso que é muito difícil àquele que está quase como que umbilicalmente ligado ao objeto amoroso tóxico (daí a analogia com a droga) romper com esse tipo de aliança. O sujeito não se encontra em um laço afetivo, mas sim em um nó afetivo.

Joaquim Cesário de Mello