domingo, 24 de abril de 2016

ALGUMAS LUZES DENTRO DAS TREVAS

A PSICOLOGIA MEDIEVAL






Tenho um fascínio meio sazonal, às vezes até bissexto, pela Idade Média. Lendo o livro O OUTONO DA IDADE MÉDIA, de Johan Huizinga, descobri me perguntando como era a psicologia medieval. Sim não estranhe em falarmos de psicologia antes da Psicologia (a letra maiúscula fronteiriça a psicologia como ciência moderna de suas anteriores). Como ciência a Psicologia se define como estudo do comportamento humano, porém ancestralmente a psicologia se definia como estudo da alma humana, e neste sentido ela se confundia com filosofia e religião. A própria origem do termo psicologia é milenar e nos remete à Grécia Antiga. Sócrates, por exemplo, já dizia que era o ser humano a verdadeira matéria digna de estudo. Mas, deixemos os gregos de lado e pulemos para a Idade Média.
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 A chamada Idade Média é um longo período histórico europeu que vigorou entre os séculos V e XV. A expressão Média é uma convenção clássica ao se dividir a História como Antiguidade, Média e Moderna. A própria Idade Média, por sua vez, subdividida em Baixa idade Média e Baixa Idade Média. O livro a que faço menção descreve os estertores daquele período histórico.
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A psicologia medieval, como não poderia deixar de ser, era extremamente vinculada a conceitos religiosos. O Cristianismo predominava, aliás, imperava. O Cristianismo era mais do que uma religião, era toda uma síntese sócio cultural de uma época. O poder da Igreja Católica era hegemônico e monopolizador. Natural que o estudo do psiquismo de então fosse um estudo de caráter religioso sobre a alma humana.
Resultado de imagem para ANIMA, ARISTOTELES A psicologia medieval partia da concepção aristotélica de que era um campo de estudo do “ser vivente animado”. Leia-se animado como aquele que tem anima (alma). Era, portanto, o estudo do vivente animado indissociavelmente em comunicação com a Teologia. Em outras palavras, a parte mais nobre do ser humano (principalissimum hominis) era a presença do elemento divino.
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E assim, hoje motivado pelo passado que contribuiu para formar o presente em que vivo, arregacei as mangar e fui à luta, isto é, debrucei-me em meus livros e pesquisei junto aos textos que tenho acesso. Para quê? Simples. É como está escrito no prefácio da primeira edição do livro O OUTONO DA IDADE MÉDIA, em 1919: “a origem do novo é o que geralmente nosso espírito procura no passado. Deseja-se saber como os novos pensamentos e as novas formas de vida, que mais tarde brilharão em toda a sua plenitude, foram despertados”. Captar o conteúdo essencial do que penso e faço, eis a motivação.
   Pensar a Idade Média em termos de ideias é inevitável pensarmos em Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Mas existiram, é claro, outros tão importantes como Boaventura de Bagnoregio (São Boaventura), Alain de Libera e Bernardo de Claraval, entre outros. Este último, por exemplo, também conhecido como São Bernardo de Clavaral, elaborou uma psicologia da vontade. Em sua visão teológica entendia ele que o ser humano fora criado para participar da felicidade de Deus. Para atingir ao bem desejado deve o homem assentir ou se afirmar. E nisto, postula São Bernardo, o homem é dotado de liberdade: liberdade para decidir sobre sua perdição ou sua salvação. O que capacita o humano a participar de Deus é, pois, a vontade livre. O homem feito à imagem e semelhança de Deus era refletida no livre-arbítrio.

                Para Santo Agostinho, que assim como Platão entendia o homem cindido entre alma e corpo, a alma não era a sede da razão, mas uma manifestação de deus no interior do homem. Como pensador do seu tempo, Santo Agostinho foi um agudo observador do ser humano e fez valiosas considerações sobre os estágios psicológicos do homem. Para ele a criança comunicava sua própria força interna e não necessariamente a vontade ensinada dos pais. Conhecer (introspecção) a si mesmo era seu grande mote e objetivo, afinal, dizia ele, somente a alma poderia conhecer a própria alma. Em sua autobiografia AS CONFISSÕES escreveu que a alma pode facilmente mandar no corpo, sendo sua grande dificuldade mandar e obedecer a si mesma. O conhecimento da vida interior é um conhecimento temporal. O que é eterno vem de Deus.
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  A reflexão de Santo Agostinho sobre o tempo ainda hoje é recorrente. Na divisão do tempo em passado, presente e futuro, diz Agostinho o homem só te capacidade de perceber o tempo no momento que ele ocorre. Não se pode apreender o tempo, pois ele escorre e nos escapa sempre. O passado se afasta initerruptamente, é por excelência o tempo da memória. O presente é o instante da percepção, enquanto que o futuro é o tempo da expectativa, o tempo que ainda não chegou.
Para São Agostinho a alma humana é o habitat das capacidades de compreensão, percepção, memória, sonho, raciocínio e sentimentos. É a sede de todas as potencialidades do espírito humano. E em sua temporalidade térrea e corpórea a alma é um alongamento limitado entre o nascer e o morrer. A imutabilidade da alma e do tempo acha-se na eternidade de Deus. E escreve ele: “É impróprio afirmar que os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer que os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras”.

Resultado de imagem para HOMEM E O TEMPO   O tempo assim entendido é da essência da mente. O passado que não existe mais só é presente por meio da lembrança e o futuro por meio da esperança. E é aqui que reside o EU humano, ou seja, pela interiorização do tempo na memória. Não haveria, pois, nem EU nem tempo para o humano acaso inexistisse a memória. Por isto não fica difícil hoje compreendermos a importância das ideias agostinianas para a ideia moderna de subjetividade, pois vem dele o conceito de espaço interior.
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                Em SUMA TEOLÓGICA, São Tomás de Aquino defende que o homem é feito da mesma matéria que é feita todas as demais criaturas, assim como em OS PRINCÍPIOS DA NATUREZA afirma que o homem tem sua natureza animal. Ao contrário de Agostinho, Aquino compreendia, de um ponto de vista aristotélico, a interdependência entre corpo e mente. O homem tem, segundo este teólogo, tem o livre-arbítrio para escolher seu comportamento. Em busca da perfeição vive homem a sua existência. Este é a essência humana: a busca pela perfeição, somente encontrada em Deus que é capaz de unir essência e existência.
O papel da razão é enfatizado em São Tomás de Aquino que acreditava que é ela que nos ajudar a interpretar se determinado ato é certo ou errado. Afinal, Aquino também compreendia que o conhecimento humano através da concordância da forma do objeto com a forma da mente. Entra-se aí na ideia da intencionalidade (intentio), isto é, dirigir a mente para. Em outras palavras, a mente se conhece não por sua essência, mas sim por seus atos.
                Estão aí implantadas, desde a Antiguidade passando pelo cristianismo medieval, em sucintas palavras, algumas fundamentais bases para se ter acesso a interioridade da alma, ou mais modernamente falando: a realidade psíquica.

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 17 de abril de 2016

A Droga Boa




‘Há uma frase atribuída ao músico Bob Dylan no mínimo inusitada: ou se está apaixonado ou se é inteligente. Frase com bom (ou mal) humor, ironia  ou sarcasmo, mas que, de certo modo, traz à tona a velha discussão sobre a paixão e os atos impensados desse "estado de espírito. A própria palavra paixão em sua etimologia,  remete a várias ambiguidades: de origem grega, páthos se traduz em paixão tal como a conhecemos, no sentido próximo do amoroso; contudo, vai mais além,   significando, por outro lado, sofrimento e doença. As palavras “apaixonar” e “padecer” são palavras primas, quase irmãs. O fato, com essa pequena constatação,  é de que, apesar  de  se desejar  da paixão alegria e prazer, no cerne desse sentir, encontram-se tanto a satisfação como o sofrimento. Se para alguns filósofos o bem-estar, ou a felicidade, encontra-se no distanciamento da dor e na aproximação do prazer, para os apaixonados, abre-se um paradoxo: para haver algum prazer, paga-se o preço do sofrimento. Nessa ambiguidade surge uma questão, qual o sentido da paixão?



 Os apaixonados  apesar de terem suas vidas desorganizadas ou escravizadas pelo sofrimento, dificilmente deixam suas paixão de lado e se são forçados a deixá-la, quando fazem, fazem a contragosto, como se tivesse renunciado o que há de bom na vida, ou a vida em toda sua inteireza. Já ouvi relatos de pessoas que comparam o desejo da paixão à “fissura” da  dependência química. E talvez, seja por isso que muitos adictos em situações de grave dependência, dificilmente se apaixonam por outro– quando ficam abstinentes, contudo, apaixonam-se com muita velocidade e intensidade. Se a paixão é uma “droga boa”, como já ouvi de dependentes abstinentes, assim como uma droga, há riscos de "overdose, dano e risco de morte. Inclusive existem instituições colaborativas como o AA ou NA para os excessivamente apaixonados – que sofrem mais que os apaixonados “comuns”. Contudo,  a esses apaixonados comuns, persiste a ideia no  poema de Camões , “Amor é fogo que arde sem se ver; é ferida que dói e não se sente”. Repito, então, a pergunta. Qual o sentido da paixão?



A humanidade tem um bons disfarces estéticos para as suas necessidades instintivas. Se se tem fome, não se vai mais, como no passado,  à caça aprisionar ou desferir golpes em animais. Vai-se a um restaurante, onde as pessoas sorriem, se confraternizam, comemoram datas importantes, mas no final o que vai ser servido – o que de fato importa – são os  alimentos, os mesmos que os nossos ancestrais, trituravam em redor de uma fogueira  produto. Precisamos comer, enfim. Do mesmo modo precisamos perpetuar a nossa espécie.  Schoppenhauer nas suas  reflexões tinha em mente que o sentido do amor, entre outras coisas, poderia se reduzida a essa necessidade de se perpertuar - pensamento que hoje talvez seja questionado por justamente haver relações diversas em que não se deixa herdeiros biológicos. Mas o sentido do amor seria para este filósofo algo, objetivo: precisa-se desejar outra pessoa, fazer escolhas para que, enfim, aconteça o que importa: gerar herdeiros. Nestas escolhas, segundo o filósofo, tende-se a selecionar no outro o que nos falta ou o que nos complementa, como se houvesse um desejo mágico de fazer do nosso herdeiro nossa imagem e semelhança melhorada. Se não houvesse esse desejo, não haveria paixão e não haveria humanidade. O terceiro que vem, fruto desse desejo, é o legado para nós humanos finitos. Se nossa forma de perpetuação fosse por divisão celular, como ocorre em micro-organismo, não haveria necessidade disso. Mas como o amor constatou a morte e a finitude, precisamos nos apaixonar.

Marcos Creder

domingo, 10 de abril de 2016

A SOLIDÃO DA DISTÂNCIA DISSIMULADA




Quase ao acaso (não há, segundo Freud, acaso no inconsciente) deparei-me em minha biblioteca pessoal com um já lido antigo livro de Paul Auster, “O Inventor da Solidão” (ed. Best-Seller/1997).
      Paul Auster é um escritor americano vivo e também roteirista de cinema bissexto. Autor de vários livros, alguns deles, inclusive, sucessos editoriais, tais como "Trilogia de Nova York".
      “O Inventor da Solidão” não é um livro dos mais famosos do escritor. Livro pequeno, não o transforma por isso em uma obra menor. Trata-se de um livro que recorda suas lembranças, ao mesmo tempo em que mescla seus vastos conhecimentos sobre literatura, psicanálise e filosofia. O cerne do texto é a questão da paternidade.
      Após a morte do pai o autor, iniciando seu longo e elaborativo processo de luto, vai mosaicamente reconstruindo a imagem daquele que contribuiu para lhe dar a vida e que a vida agora o tira dele. A partir deste pai morto, não mais existente, Auster vai se dando conta do um pai desconhecido até então. Através dos objetos que um dia pertenceram a ele temos o começo do desnudar de um pai. Não é à toa, portanto, que o primeiro capítulo tome o sugestivo título “Retrato de um homem invisível”.
 Pode alguém conviver tanto tempo com outro e dele quase nada conhecer? Parece que Paul Auster nos responde positivamente a tal indagação. E não estamos aqui a falar dos segredos íntimos de uma pessoa, mas sim de sua própria solidão, como assim o faz Auster quando descreve o célebre quadro de Van Gogh “O Quarto”: “Observe ali. Observe com cuidado. A cama bloqueia uma porta, a cadeira bloqueia a outra porta, a janela está fechada: não se pode entrar e uma vez lá dentro, não se pode sair... O homem nessa pintura ficou o tempo demais sozinho, debateu-se demais no abismo da solidão. O mundo termina na porta bloqueada. Pois o quarto não é a representação da solidão, é a própria solidão”. Arguta sensibilidade de um observador-escritor profundo.
      Qual o lugar da perda de um pai na vida de um filho? Inicialmente, provavelmente, será a sensação de um vazio; depois, estranhamente, haverá  de vir dúvidas: “será que o amei mesmo?’ ‘a quem amei?’  ‘ele me amou?” “a quem ele me amou?”. Talvez mais do que a inquietação da ausência física haja a inquietação da ausência das respostas.
       Os objetos e as fotografias do morto são agora o terreno aonde se possibilita a construção de um novo encontro. Os óculos com que antes ele via a vida repousam inertes olhando o filho, assim como um fio de cabelo na escova é o resto de uma seiva outrora nutrida de anseios e frustrações.
      Quem era esse pai que se escondia por detrás de suas inúmeras máscaras de convencionalismo e obrigações, e que sempre lhe escapou fugidio pelos meandros miúdos do cotidiano? A imagem edificada pelos anos de evitação era assim como que um retrato incompleto de uma pessoa, lembranças de um não-encontro: um pai lacunar.
      O pai de Auster ficara órfão ainda na infância e este vazio que carregara trouxera-lhe um retorno no conhecer do filho. Um pai e um filho. Duas ausências. Dois estranhos. Um órfão de fato e o outro psíquico. Um pai cujo amor de seu pai lhe foi tirado aos sete anos e que assim só soube amar de maneira interrompida. Um filho cujo destino foi ser amado por um pai que só sabia amar um amor infantil. O filho cresceu. O pai não.
      Uma mesma raiz e duas solidões. Dois continentes separados por um imenso oceano. Uma única distância vivida na proximidade dos corpos. Ambos quartos escuros, fechados, trancados, que não se sabem apagados. A perplexidade que Auster nos dá no refazer de seu pai através de cacos e retalhos é mais que uma leitura poética, é uma comovente história de uma história invisível e que somente após a perda se recupera com a força de uma história feita a dois.
      Em seu mergulho na memória a partir da morte do pai Auster abre seu baú de lembranças com a singela obviedade da existência: "Num dia há vida... E então, subitamente, acontece a morte'.  No cascavilhar do escombros deixados pelo pai o autor/personagem expõe uma dais mais belas paginas da literatura contemporânea. O trecho abaixo que o diga por si mesmo:

"Não há nada mais terrível, aprendi então, do que ter de encarar os objetos de um morto. As coisas são inertes: Têm significado apenas em função da vida que as utiliza. Quando essa vida acaba, as coisas se transformam, mesmo que permaneçam as mesmas. Estão lá e no entanto não estão: fantasmas tangíveis, condenados a sobreviver num mundo a que não mais pertencem. O que se pode pensar, por exemplo, de um armário cheio de roupas esperando silenciosamente para ser usadas por um homem que não voltará a abrir a porta? Ou os pacotes de camisinhas espalhadas pelas gavetas repletas de cuecas e meias? Ou um barbeador elétrico aguardando no banheiro, ainda cheio de pêlos cortados da última barba? Ou uma dúzia de tubos vazios de tintura para cebelo, escondidos num sacola de viagem? - revelando subitamente coisas que não temos vontade de ver, nem desejo de saber. Há nisso certo sentimentalismo e também uma espécie de horror. Por si só, os objetos nada significaam, como os utensílio culinários de uma civilização desaparecida. E no entanto dizem-nos alguma coisa, parados ali não como objetos mas como resquícios de pensamentos, de consciência, emblemas da solidão na qual um homem passa a tomar decisões sobre si mesmo, se irá pintar o cabelo, se irá vestir esta ou aquela camisa, se irá viver, se irá morrer. E a futilidade de tudo isso quando vem a morte."               
       O psiquismo de um morto que em vida era como o enigma de uma esfinge a desafiar o filho constantemente "Decifra-me ou te devoro". A mente de um falecido na continuidade do filho - herdeiro e guardião de um baú de memórias e ausências - revela-se nua e inteira. Auster nos oferece essa viagem aos recônditos de um pai, quase como um intruso ou um ladrão, como ele mesmo confessa, a saquear os locais secretos da alma de um homem.
      Quisera que os pais soubessem disso antes que o saber não lhes tivesse mais nenhuma valia. Conhecer-se por quem não é, é perder-se - diz o poeta. Haveria assim a chance em vida do compartilhamento e do encontro: do pai que se faz conhecer e conhece o filho, e um filho que conhecido se conhece ainda mais. 

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 3 de abril de 2016

Fanatismo e Ponderação (II)



Ouvia muito entre grupos  de pessoas da (minha) juventude, discursos os mais variados. Entre o público adolescente, geralmente, as falas e opiniões  são calorosas, seguem o mesmo padrão do trecho da  canção  Paralelas, de Belchior: como é perversa a juventude no meu coração / que só entende o que é cruel / e o que paixão. Daí mais uma vez vem o aspecto conceitual do fanatismo.

Podemos dizer que fanatismo tende a aglutinar pessoas que, como os adolescentes, tem ainda a capacidade de ponderação prejudicada. Não raro, encontramos "tribos" de adolescentes reverenciando seus "deuses" contemporâneos. Quem são esses deuses? não são deuses nomináveis, mas entre suas determinações,  incluem-se trajes, linguagens, gírias, "posturas" e ídolos.


Pois fui jovem e, do mesmo modo, segui os ideais e reverenciei  osídolos de minha época, não tão diferentes  dos de hoje. Entre os grupos que conheci, havia uma ou outra pessoa que contava histórias mirabolantes, agradáveis de serem ouvidas - eram excelentes narradores - mas improváveis de serem fatos: contavam-me que Walt Disney não havia morrido, que o homem jamais pisou na lua,  que marcianos haviam pousado nos EUA. Tudo isso, ocorria na surdina, sem o conhecimento público, não se noticiava justamente para que não houvesse qualquer comoção e "perda do controle" das massas. Essas história me impressionavam me deixavam, por vezes, amedrontado,  muitas vezes me tirava o sono. Os narradores desses acontecimentos, estudavam ocultismo, ufologia e outras  teorias de conspiração. Havia algo de sedutor em ouvir essas histórias, por mais catastróficas que fossem, e penso que seja por essa sedução, que muitos outros  terminavam por levá-las a sério, e não eram poucos - basta lembrar que o cineasta Orson Welles, em programa de rádio intitulado de A Guerra dos Mundos, conseguiu convencer milhares de norte-americanos que o país estava sendo invadido por extraterrestres. Bobagem? Nem tanto, bobagens semelhantes inspiraram Cristovão Colombo a  atravessar o Atlântico (cujo nome é uma homenagem a Atlântida, igualmente imaginária) em busca dos "Jardins do Éden".
       

Somos seres tendentes ao fanatismo? De certo modo, sim. Freud em Psicologia das Massas alertou sobre esse tema  fazendo referências a busca do amparo, e da satisfação de nossos desejos através do sujeito que represente o Pai, o líder  - o Pai simbólico.   Freud ainda alertou, nesse conhecido texto, que o agrupamento humano tende a agir de forma mais infantilizada, impulsiva e observar os fenômenos de maneira mais passional que individualmente. Contudo, dentro de um grupo fanático nem todos são fanáticos de personalidade, pelo contrário, são uma minoria. Quando, por alguma razão,  o grupo é pulverizado por destituição de seus líderes, como ocorreu, por exemplo, na Alemanha Nazista,   o restabelecimento ou aceitação de um novo modelo realizou-se sem muitos vestígios do fanatismo, antes dominante.

Ainda nesses anos de juventude apaixonada, li numa revista semanal a frase de Millôr Fernandes:" os extremos se assemelham e se encontram no infinito".  A frase era naturalmente uma paródia dos preceitos da geometria euclidiana, que em verdade trata dos pontos paralelos. Millôr deu uma visão circular, embora matematicamente inviável, que muito me impressionou. Faz sentido: a extrema esquerda e a extrema direita, por exemplo, se assemelham em atos, mesmo que sejam discursos completamente diferentes mas que culminam na frase: "os fins justificam os meios" - o fascismo ou o nacional-socialismo é fruto desse encontro de extremos.  Em tudo que observamos no discurso fanático ou extremista, quando se trata de política, por exemplo, é a tentativa paradoxal, como ironizou o esquecido cronista Stanislaw Ponte Preta, de fazer a democracia com as próprias mãos.

Não sou religioso e conheço pouco da religião menos ainda de religião oriental, mas há uma frase atribuída a Buda que talvez seja uma das alternativas de se enredar menos ao fanatismo: "a sabedoria está no caminho do meio" do qual traduzo no caminho da ponderação.


                                                                                  Marcos Creder