sábado, 8 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - CLÍNICA







Sabe emocionalidade exagerada e demais? Sabe aquela pessoa que está sempre querendo chamar a atenção? Sabe aqueles indivíduos dramáticos, flertadores e inapropriadamente sedutores? Sabe aqueles que são sensíveis, sensíveis ao extremo, que quando ouvem alguma música triste choram e se entristecem horas a fio? Sabe o sujeito que logo após nos conhecer demonstra uma intimidade que até parece um amigo de infância? Pois é, talvez estejamos frente a uma personalidade histriônica (PH).
Além das características acima, a PH manifesta egocentrismo e autocomplacência. A teatralidade e dramaticidade observadas no comportamento histriônico nos remete ao termo histrião que na Antiguidade significava o ator que representava as farsas bufonas, cômicas ou trágicas - peças teatrais estas que visavam criar impacto do expectador. Porém isso não quer dizer que a expressividade emocional exagerada dos histriônicos seja uma simulação ou artificialidade. Eles realmente acreditam em suas próprias teatralidade, isto é, toda aquela emotividade florida existe, contudo superficialmente. É como se elas somente pudessem se comunicar de maneira exibicionista. Neste sentido não estamos frente a um ator ou atriz deliberado, mas sim frente a uma vítima - vítima de um transtorno de personalidade, reconhecidamente classificado no CID-10 e DSM-V como Transtorno de Personalidade Histriônica (TPH). 
A pergunta que logo se faz é: o que levou a pessoa a ser assim? Em outras palavras, qual a etiologia de tal comportamento desadaptativo, disfuncional, inadequado e, por que não dizer, patogênico? Para Fenichel no caráter histriônico há sempre uma fuga da realidade para a fantasia como uma espécie de tentativa de dominar a ansiedade através de uma representação frente a uma platéia. Há quem fale que nas raízes da PH existe uma combinação de inadequação materna e de pseudomasculinidade paterna, gerando assim uma dificuldade na construção da identidade sexual da pessoa. Outros falam de uma mãe histerogênica e de um pai narcisicamente sedutor. Já outros destacam os aspectos genéticos e constitucionais, além dos adquiridos (psicossociais). Seja lá como for, provavelmente devem ser causas multifatoriais. 
Pela própria história do conceito de histeria a psicoterapia psicodinâmica, além da psicanálise, encontra-se na base do tratamento do TPH. O foco predominante é o de aumentar a consciência do paciente sobre a superficialidade de suas experiências emocionais que, muitas vezes, refletem em seus medos inconscientes do aprofundamento afetivo e dos compromissos relacionados a uma intimidade verdadeira. É fundamental, por parte do psicoterapeuta e do setting, estabelecer-se um limite firme e claro ao comportamento sedutor do indivíduo com TPH, mantendo-se a postura de compreensibilidade e entendimento deste tipo de comunicação apresentada pela paciente. Em meio a toda dramaticidade e emocionalidade excessiva e sedutora, o terapeuta deve ficar constantemente atento a sua contratransferência, para evitar enredar pela relacionamento histérico proposto pelo comportamento, fenomenologia e dinâmica da PH e do quadro clínico. 
Não confundamos que por ser uma pessoa (afetivamente carente) que geralmente busca psicoterapia e de imediato tenda a expressar facilmente seus sentimentos (buquê afetivo), com um paciente de fácil atendimento. O TPH tem uma tendência a "ver" o terapeuta como uma espécie de salvador da pátria, e em sua voracidade faminta dramatiza sua necessidade de ajuda. São pessoas que muitas vezes buscam o serviço clínico não para se tratarem (lembrar que um transtorno de personalidade não é uma doença em si, mas um jeito de ser que lhe causa sofrimento e que gera sofrimento), porém para terem atenção. Jamais esquecer que as queixas apresentadas frequentemente são exageradas e volúveis. Por também terem uma forte inclinação de apresentarem sintomas somáticos ou dissociativos, cabe ao psicoterapeuta reconhecer que tais sintomas são uma forma de expressão e, assim sendo, validá-los no sentido de aceitá-los com a importância que os mesmos tem para o paciente. 
Conforme o critério diagnóstico contido no DSM-V, o TPH manifesta um estilo de discurso excessivamente impressionista e, ao mesmo tempo, carente de detalhes. Todavia, lembremos que todo floreio emotivo-narrativo é superficial, isto é, trata-se de uma organização de personalidade empobrecida em sua capacidade reflexiva sobre suas emoções e sentimentos, visto ser seu estilo comunicacional mais primitivo e oral onde muitas vezes as funções da psiquê são exercidas pelo soma (corpo). Por esta razão são pessoas bastante propensas a acting-outs. Dentro do ambiente clínico suas emocionalidades dramáticas e seus histrionismos são movimentos regressivos onde a ação predomina sobre a palavra (pensamento). Tal estilo comunicacional melodramático, infantilizado e pueril (impregnado de gestualidade e de "caras e bocas") não é volitivo por parte do paciente, ele apenas até então é assim. É assim que ele sabe "pensar" e falar.
Estima-se que 2 a 3% da população geral apresente TPH, sendo a maioria mulheres. Em contextos clínicos ambulatoriais a estimativa aumenta para algo em torno de 10 a 15%. Podemos, então afirmar, que conjugadamente o Transtorno da Personalidade Borderline, o TPH represente os principais transtorno de personalidade que procuram ajuda psicoterápica. A indicação é frequentemente para uma psicoterapia individual não suportiva, isto é, evitando-se, regra geral, uma abordagem de apoio, com vistas a focar mais os sentimentos e as emoções exibidas.
Por se tratar não de um transtorno mental, mas sim de um transtorno de personalidade, a abordagem psicoterápica não é de curto prazo, podendo se estender, em média, de um a quatro anos. Deve-se evitar, ainda, a manualização da psicoterapia, pois não se trata de um tratamento que se pode reduzir a uma série de passos a serem seguidos de maneira padronizada. Isto não quer dizer que o psicoterapeuta não tenha suas estratégias e que não busque alcançar metas. Uma das estratégias possíveis e utilizáveis é procurar compreender, explorar e elaborar os padrões conflituosos de relacionamento que irão surgir no contexto do ambiente clínico. Em outras palavras, a relação terapeuta-paciente é um recurso de trabalho e entendimento. Busca-se, ainda, priorizar o tema da sessão a ser trabalhado, explorá-lo à luz dos aspectos conscientes e menos consciente percebidos pelo paciente, interpretando os conflitos ora em manejo com as queixas apresentadas e com os objetivos da traçados para a psicoterapia. Seja qual a abordagem diretamente empregada (analítica, cognitiva-comportamental, interpessoal, etc) ela sempre terá como finalidade melhorar a rigidez comportamental do cliente. Para tal é mister direcionar em relação aos aspectos rígidos da personalidade que têm origem psicológica e que reflitam em condutas pessoais inflexíveis e desadaptativas.
"O que o paciente está evitando ao agir assim"? "O que ele está querendo dizer por detrás de todas esta dramatização e exagero"? "Que relação tem o que o paciente discursa com sua história de vida"? "Como estou me sentido frente ao paciente"? "Qual o verdadeiro sentimento que se esconde na encenação emocional"? "Que papel o paciente está atribuindo ao outro e a mim"? "Como o paciente está me vivenciando"? "Qual a correlação entre a temática de hoje e as temáticas passadas abordadas"? "O que ele(a) quer do outro ou de mim"? "Por que isso lhe gera ansiedade"? "Por que ele não está sentindo isso"? "Ele(a) está com medo de quê"? Estas e outras perguntas que o terapeuta se faz irá influenciar seus manejos e permear suas intervenções.
Um manejo que pode encontrar espaço e aplicabilidade no tratamento com pessoas histriônicas é a utilização do "princípio da dominância afetiva" - mencionado no livro "Psicoterapia Dinâmica das Patologias de Personalidade", de Otto Kernberg et all - que, já em 1941, Fenichel também denominava de "princípio econômico da interpretação". Aplicando o "princípio da dominância afetiva" o psicoterapeuta intervem no material apresentado pelo cliente onde ele está mais investindo afeto ou, pelo contrário, onde o afeto parece suprimido, como é o caso, por exemplo, do paciente narrando uma experiência assustadora de maneira calma e objetivamento intelectualizada (mecanismo de defesa chamado de isolamento). O fato é descrito desacompanhado das emoções correlatas. Claro que um indivíduo com TPH muito geralmente traz seu material eivado de emocionalidade, sendo o exemplo dado mais comum em pessoas com Transtorno de Personalidade Anancástica. É necessário, portanto, trabalhar reflexivamente a afetividade envolvida na temática dentro de um contexto de pertinência e realidade, buscando sempre melhor significar os sentimentos e afetos. Em outras palavras, sair do superficial e rumar para a profundidade subjetiva. Em termos psicodinâmicos, abordar a conflitiva atual à luz de sua derivação e/ou ativação dos conflitos básicos ou nucleares. O princípio é o de nortear a análise e compreensão das conflitivas presentes do paciente partindo do exterior (superfície) para o interior (profundidade).
Uma das regras básicas da abordagem psicoterápica é auxiliar o paciente a deixar de apenas relatar seus sentimentos de maneira impressionista para refletir mais cognitivamente. Suas percepções sobre as coisas que vivencia é vaga e dispersa, fazendo-se necessário instigar o discurso em busca de mais detalhes. Como diz Glen Gabbard "a experiência interna do paciente histérico é com frequência a de uma folha ao vento, varrida por poderosos estados afetivos", razão pela qual o estímulo à reflexão à atenção aos detalhes (interna e externamente) ajuda-o a ligar sentimentos a ideias. A superficialidade com que vive os sentimentos é uma defesa contra afetos subjacentes, provavelmente perturbadores.
Devido ao potencial do surgimento da transferência erótica por parte do paciente com TP, é necessário o exame contínuo, por parte do terapeuta, de seus sentimentos contratransferenciais. O monitoramento da contratransferência contribui para que a transferência erótica - que em sentido histérico surge gradualmente - possa ser minimizada e embatida através da análise dos significados e carências nela embutidos, relacionando-os com relacionamentos atuais e passados do paciente.
O bom de tudo isso, afinal, é que são pacientes que facilmente se vinculam ao terapeuta, o que, por sua vez, contribui para o desenvolvimento de uma aliança terapêutica, desde que o profissional entenda que tamanha facilidade é em grande parte consequência de expectativas mágicas e infantis inconscientemente transferidas à sua figura.
Trata-se de uma clínica florida e multicolorida e que há mais de um século se estuda e melhor se conhece. A bibliografia é vasta e polivalente. Entre tantos, sugere-se: PSICOTERAPIA PSICODINÂMICA PARA TRANSTORNOS DA PERSONALIDADE, de Clarkin, Fonagy e Gabbard; PSIQUIATRIA PSICODINÂMICA NA PRÁTICA CLÍNICA, de Glen Gabbard; PSICOTERAPIA DINÂMICA DAS PATOLOGIAS LEVES, de Caligor, Kernberg e outros; PSICOTERAPIA DE ORIENTAÇÃO ANALÍTICA, de Cláudio Eizirik e outros; e TERAPIA COGNITIVA DOS TRANSTORNOS DE PERSONALIDADE, de Beck, Freeman e Denise Davis.
Talvez se não fossem os histéricos e histriônicos a psicologia clínica demoraria um pouco mais a nascer. Ou talvez até o percurso da psicologia clínica fosse outro.

Joaquim Cesário de Mello

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - EXERCÍCIO

QUESTÕES LEVANTADAS A PARTIR DA APRESENTAÇÃO EM SALA DO DOCUMENTÁRIO "A MORTE INVENTADA":


1) O que representa o título do filme "A MORTE INVENTADA"?

2) À luz do documentário, como você traduz o poema abaixo que é declamado no filme?

"Qual será o meu limite? Até onde eu posso ir?
Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorrisos, encontro também um rastro de conversa boa com pedaços de estórias espalhadas.
São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra.
Pulamos desequilibrados num pé só até chegar no céu e chegamos.
Brincamos de correr de costas. O segredo é olhar pra frente para vencer.
Eu sempre perdi.
Nas corrida de folhas ela vencia e perdia.Algumas vezes nós dois empatávamos, perdendo.
Nossas folhas ficavam encalhadas numa pedra ou coisa parecida.
Brincamos de correr e congelar, de estátua. Quem mexesse perdia.
Nessa brincadeira incluímos um novo amigo. Os três a congelar: eu, ela e o tempo, que não entendeu as regras do jogo e seguiu correndo. Depois foi ela que correu. E eu fiquei ali congelado. Todo mundo perdeu.
Só agora, a essa altura da vida fui conhecer o mais amargo dos sentimentos.
A injustiça, é uma onda de 10 metros que te arranca de dentro de si e faz tudo se apagar.
Falta chão, falta ar, falta voz. Você perde o plumo, perde o rumo. Não sabe mais pra onde fica o céu. Por eternos três segundos, você prova o terrível gosto da água do mar, o gosto do sal, da areia e da morte.
A razão e os sentimentos submergem e aflora os seus mais profundos instintos. É você no avesso, primitivo, em carne viva. Esse sentimento veio morar comigo.
Julguei ter encontrado meu limite.
Nada, e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Mais uma vez estive enganado.
Do convívio levaram o fogão. Da ingenuidade, tiraram as rodas da frente. Do afeto roubaram a pilha. Mesmo assim eu estava pronto para o mínimo. Julguei ter encontrado o meu limite. Nada e ninguém me faria me perder de mim. Não mais brigaria. Ainda restava o mínimo. Um elo entre ela e eu. Único e suficiente, intocável. Isto nos bastava! Uma fresta para se ver, para se falar, para se ouvir, para sentir. Um elo entre ela e eu!
Mas esse elo virou fetiche, território de conquista.
Dele fizeram um adorno, ele ganhou uma orelha, ganhou as ruas e sumiu. Assim o nosso amor virou um brinco. E o elo se foi.
Em apenas um corte, 13 meses se passaram. Sem olhar sem ouvir, sem cheiro sem gosto e sem contato, sem sentido. No fim deste período meu papel mudou.. Como inimigo me vi diante de uma outra menina, que não aquela que não existe mais.
Em apenas um corte.
Tentei ouvir em todas as estórias um pedaço de minha própria estória. Tentei encontrar nas pessoas com quem conversei ,a palavra que eu não soube escrever, a voz que eu perdi.
A minha saudade é um longo corredor esfumaçado de hospital, com piscar de incontáveis vagalumes de ontem. Em alguns casos para se chegar a cura basta levantar a camisa e mostrar onde dói, em outros tem que arregaçar a pele. E mostrar onde dói.
Aqui não cabem nem as palavras, nem o grito, nem a raiva, nem a saudade, nem a angústia, nem o eu.
Qual será o meu limite?
Até onde eu posso ir? Passamos por aqui inúmeras vezes, minha filha e eu.
Ainda hoje encontro pegadas de sorriso. Encontro também um rastro de conversa boa, com pedaços de estórias espalhadas. São palavras e letras caídas pelo chão.
Brincando riscamos quadrados na terra. Pulamos desequilibrados em um pé só, até chegar no céu e chegamos.
Não brincamos de voltar no tempo, esse jogo nós não inventamos, mas posso inventá-lo agora. Regras e número de participantes. O vencedor pode ir ao passado e refazer as coisas que não deram certo, para depois voltar ao presente e descobrir de um jeito melhor que antes. Que as coisas ruins não passaram de um filme triste de cinema, onde basta acender as luzes e descobrir que tudo não passou de ilusão. Mas não foi."


3) Como você articula a Síndrome da Alienação Parental (SAP) e a prática vivenciada pelas famílias depoentes?

4) Como você analisa a participação dos profissionais de Psicologia apresentados e citados no filme?

5) Comente as sequelas percebidas que o fenômeno da alienação parental (AP) causou na vida dos depoentes que sofreram como crianças/vítimas a AP.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

DIÁRIO DE AULA - CLÍNICA





Dificuldades para se relacionar, oscilações de humor, impulsividade, sentimentos crônicos de vazio, dificuldade em controlar a raiva chegando a mesma à fúria, são manifestações sintomáticas relacionadas ao Transtorno de Personalidade Borderline, também conhecido como Transtorno de Personalidade Limítrofe. A história do termo borderline em psiquiatria vem do final do século XIX quando o psiquiatra inglês Hughes assim definiu pacientes que passavam a vida oscilando entre a sanidade e a loucura. Stern, em 1938, denominava tais pessoa como "hemorrágicas emocionais", devido a característica de estarem quase sempre feridas ou magoadas emocionalmente. Termos como "esquizofrenia marginal" e "esquizofrenia pseudoneurótica" chegaram a ser utilizados associativamente. Embora muitas vezes possam ser confundidos com esquizofrenia ou bipolaridade, os transtornos borderlines variam em duração e intensidade das emoções.
Otto Kernberg formula psicanaliticamente o conceito de Organização Borderline de Personalidade, cuja estrutura de personalidade apresenta mecanismos de defesa primitivos com preservação da capacidade de Teste de Realidade. Atualmente, embora ainda predomine a ideia de que o desenvolvimento do Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) tenha a ver com fatores da história de vida do indivíduo, alguns estudos parecem apontar para uma certa predisposição biológica, tais como anormalidade do metabolismo da serotonina e desordens neurológicas. Seja lá como for, o paciente borderline está cada vez mais presente nos consultórios e ambientes clínicos de saúde mental. Talvez isto esteja ocorrendo não porque haja mais borderlines na humanidade, mas sim porque estamos melhor compreendendo e enxergando o adoecer borderline. 
Não se trata de uma psicopatologia clara e simples, chagando as pessoas com tal transtorno serem chamadas de "pacientes difíceis", principalmente por apresentarem percepções empobrecidas e contraditórias do outros e de sua incapacidade de mostrar-se à alguém. Embora do ponto de vista egóico suas perturbações não cheguem ao nível do psicótico, têm sérias limitações para usufruir as opções emocionais frente aos estímulos do cotidiano. Seu limiar de tolerância à frustração é bastante baixo e entram em curto-circuito agressivo fácil e bruscamente. A tendência à adição é alta e possuem pouca persistência nas coisas, sendo a sua vida uma constante descontinuidade. Todavia, apesar da refratariedade ao tratamento psicoterápico, tais pessoas podem se beneficiar significativamente de uma atenção cuidadosa e firme de uma relação terapêutica. 
Os limites do setting psicoterápico têm que ser claros e bem definidos já no início do processo, devendo o terapeuta ficar sempre alerta e vigil às manifestações resistenciais do paciente. Não são casos de indicação para psicoterapia de curto tempo de duração, devido as suas fragilidades egóicas evidentes. A motivação para a mudança pode até existir desde o início, contudo ela é bastante baseada em pensamentos mágicos, idealizantes e imediatistas. A construção de uma boa aliança terapêutica é um longo processo que requer paciência, trato e manejo por parte do profissional. 
Além de enfocar constantemente a aliança terapêutica (muitas vezes frágil e passível de inúmeros ataques), o principal foco de trabalho é o desenvolvimento das capacidades e funções egóicas atrofiadas (ampliação do Ego), mediante aumento da mentalização de experiências emocionais. O fortalecimento da capacidade reflexiva é fundamental ao êxito terapêutico, devido tal capacidade encontrar-se inibida ou carente de desenvolvimento em personalidade border. Entenda-se aqui mentalização como capacidade de compreender os comportamentos e sentimentos pessoais e dos outros. Trata-se de focar a percepção do paciente em sua própria mente, assim como pensar a dos outros, levando-o a descobrir seus estados mentais associados a seus sentimentos e condutas, e como estes influenciam suas respostas, assim como as respostas de quem ele se relaciona. Neste sentido a atenção predominante não é voltada ao comportamento em si, mas sim aos estados mentais subjacentes. O objetivo não é promover insight, mas promover a curiosidade do paciente a respeito dos motivos causadores de suas atitudes, bem como considerar alternativas comportamentais outras. O processo de mentalização, assim, ajuda a pessoa borderline a separar seus sentimentos e pensamentos dos sentimentos e pensamentos dos demais que a rodeiam. Em outras palavras, o exercício da mentalização não deixa de ser uma postura psicopedagógica do terapeuta em relação ao seu cliente, dentro de um contexto e suporte clínico.
Um outro aspecto característico da abordagem psicoterápica é a menor ênfase na associação livre, visto a desorganização e labilidade egóica do paciente, evitando, desse modo, uma sobrecarga de material a ser trabalho clinicamente pelo mesmo, afinal o seu discurso não é pautado em uma fala livre, porém desorganizada. Sintetizar, clarificar, confrontar e esclarecer são intervenções bastante utilizadas neste manejo clínico. Já a utilização das intervenções interpretativas por parte do psicoterapeuta visam o aqui-agora. A interpretação não tem como alvo conflitos internos inconscientes, porém os estados contraditórios do Ego consciente do paciente (confrontação). O conflito não é entre consciente e inconsciente, entre superficial e profundo, e sim entre o que o Ego percebe e processa e o que o Ego não percebe e portanto não elabora. Lembrar que uma das principais características da estrutura borderline é exatamente que o individuo tem dificuldade em dar significado as suas experiências emocionais vulcânicas. 
Inevitável, ao lidar com TPB, é o fenômeno transferencial e seu correlato: a contratransferência. Ataques ao vínculos são frequentes, inclusive em formas de desvalorização da terapia e do profissional. É necessário que o terapeuta esteja preparado para tais ataques e tenha tolerância a agressividade a ele dirigida, assim como tolerância (continência) a lidar com ansiedade (sua e do seu paciente). A transferência negativa é, acima de tudo, uma forma border de se comunicar e de se relacionar. Quanto mais o terapeuta assim compreender mais viável será o manejo utilizado com vistas a preservação e sobrevivência do vínculo terapêutico. Como diz Winnicott, o terapeuta não deve negar em si o ódio contratransferencial, transformando-o assim em uma compreensão consciente e discernível de seus sentimentos de resposta. A respeito do tema sugerimos conhecer o capítulo XV ("O ódio na contratransferência"), contido no livro "Da Pediatria à Psicanálise" de Winnicott, editora Imago. 
Como o essencial é focar nos afetos (mundo interno) e não nos comportamentos (mundo externo) o foco do terapeuta é no estado mental atual dele (paciente). E sendo assim, o terapeuta há de se estar constantemente se perguntando "o que está se passando na mente do paciente agora?". Intervenções do tipo "por que você acha que ele disse/fez isso?" são frequentemente utilizadas. Busca-se, também, uma nova perspetiva no lidar com as experiências e eventos da vida. Em termos de interpretações transferenciais as mesmas devem ser curtas e simples, centradas no afeto que permeia a relação do paciente com o terapeuta no aqui-agora da sessão. Atentar ao fato de que são pessoas com fracas leituras introspectivas de suas próprias subjetividades, razão pela qual, portanto, trata-se sobre os sentimentos emergentes e não os inconscientes. 


Pelo acima exposto, a complexidade do tratamento psicoterápico frente ao paciente borderline é ampla, o que requer uma compreensão mais aprofundada da temática e experiência e segurança no manejo. Como o espaço aqui presente é curto e ligeiro, remeto o leitor(a) a complementar com um texto anteriormente publicado aqui no blog (http://literalmente-literalmente.blogspot.com.br/2013/11/psicoterapia-do-paciente-borderline.html), assim como oriento aprofundar o estudo visitando os seguintes links:

http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n4/16
http://www.uricer.edu.br/new/site/pdfs/perspectiva/128_143.pdf
file:///C:/Users/Joaquim/Downloads/0c96051c71048c9c64000000.pdf
https://www.youtube.com/watch?v=UxTHw5GqyHY

Joaquim Cesário de Mello

domingo, 2 de novembro de 2014

A culpa nos adoeceu




Desde que iniciei minha carreira profissional, faço interconsulta psiquiátrica em hospitais gerais. O que é isso? Interconsulta é a área da psiquiatria que trabalha o fenômeno psíquico em conjunto com outras doenças da medicina - clínica médica, cardiológica, ciruirgia, endocrinológica,reumatológica etc. O interconsultor, em tese, não seria apenas um fornecedor de parecer psiquiátrico, como muitos pensam, mas um profissional que transita entre as manifestações psíquica e às doenças somáticas e interfere na relação médico-paciente-instituição hospitalar.  Enfim, a função de interconsultor envolve o entendimento dessa relação entre sujeitos, e desses sujeitos com a doença.

Uma pergunta inicial e comum entre os que têm curiosidade por essa área,  é saber se os eventos psíquicos "fabricam" doenças físicas, ou ainda, se as doenças físicas interferem no psiquismo. A resposta que dou é imprecisa: não temos subsídios para separar, como continentes distintos, o lugar do psíquico do lugar do corpóreo. Embora possa parecer bem definidos, não  se sabe ao certo quais são suas  fronteiras, se é que existem. Há várias argumentos que defendem a cisão, e, outros, a fusão do corpo com a mente - essa discussão é antiga que tão cedo  se terá respostas. O que trago nesse pequeno artigo são as correspondências que há entre o sofrimento físico e as teorias leigas construídas pelo sujeito.  A pergunta: até que ponto  nossa psiquê  elabora uma teoria sobre a doença e o que ela nos quer dizer?

Apesar de vivermos numa época em que as ciências naturais  predominam com complexas teorias fisiológica, anatômica, citológico, bioquímica das doenças, assistimos, aqui e ali, inclusive, de pessoas esclarecidas, especulações, aparentemente, descabidas: "adoeci porque tive uma vida errada", "essa moléstia se instalou porque fui desonesto", "sou o culpado pela doença dos meus entes queridos". Interessante que mesmo que o médico venha a esclarecer as reais razões do adoecimento, ainda sim, silenciosamente, o doente carrega a ideia de que o "pecado" ou uma "má conduta" o aniquilou e vem se revelar  nos momentos mais desesperados do adoecimento. 

 Um ou outro médico diz, desapontado, que, no que diz respeito ao  adoecimento, o pensamento humano atual é  semelhante ao  da Idade Média.  Pegunto: avançamos? Se respondermos sensatamente, sim, se emocionalmente, não. Se somos muitos mais afetivos que efetivos, então, no momento do adoecer, as maldições mais arcaicas reaparecem, assim como apareciam com nitidez para nossos ancestrais mais primitivos.

Essas formas malditas - ou seja, de pensar doença como maldição -  faz parte da vida psíquica humana, e suponho, é a forma predominante. São os desejos arcaicos humanos que estão em jogo. Os desejos geralmente tendem a entrar em rota de colisão com os pensamentos morais e, nesse choque surgem, ainda na poeira, as doenças, que nos freia e nos faz refletir. A doença aparece-nos para impedir ou para "comunicar"  nossos oráculos. A doença  vem para repensar a vida e, sob  a forma de masoquismo moral,  sobrevalorar o adoecer como penitência, uma forma de condenação dura e inflexível, que, do mesmo modo que na Idade Média, poderá nos levar à morte. 

Na dialética dos "malditos", os sujeitos amaldiçoados não só são os doentes, seus cuidadores,  podem, em razão de mecanismos reparatórios, se julgarem igualmente pecadores e condenados a expiar seus males, convivendo com o sofrimento dentro dos hospitais - Na Idade Média, os pecadores eram condenados a trabalhos voluntários nos leprosários (a lepra representa bem impedimentos dos desejos arcaicos. O pecado envolve o desejo da "carne", antes  erótico, se torne, no leprosário, repulsivo).


Mas de onde vem tanta culpa para tanta penitência. O ser humano é movido pela suas transgressões e por suas culpas, está entre o desejo e o seu impedimento.  Há, contudo, um detalhe:  as transgressões não são tão "transgressoras", tampouco se conhece o crime que levou a tanta  culpa. O pensamento humano  provém de fantasias primitivas  de crianças que  viveram não apenas contos de fadas. A mente humana constituí-se de crenças elaboradas por uma mitologia pessoal, fantasias mitológicas que divide o ser entre o bem e o mal e que, desse modo, são passíveis das punições, onde o sujeitos são julgados e condenados à doença e ao desamparo -  A doença talvez seja uma das maiores experiencias do desamparo.

Marcos Creder