OSCAR WILDE E O SORRISO DO GARI
O QUE SEMPRE ME
CHAMOU atenção no modo de viver e de dizer das pessoas foram seus elementos
paradoxais. Quando muitos nos vem apelando por alegria, felicidade, paz,
harmonia, fraternidade, sinceridade, pergunto-me, será que querem realmente tudo
isso? Falei em um artigo anterior das verdades
que existem nas mentiras, e dizer que alguém não deseja a felicidade, parece
ser minimamente tacanho de minha parte: afinal, todos querem isso: felicidade. Os
fatos, contudo, não são tão simples assim. Façamos uma reflexão sobre frase de Oscar
Wilde, autor que citarei outras vezes: “o caminho dos paradoxos é o caminho da
verdade”.
Muitas
pessoas vão as suas psicoterapias e dizem que querem ser felizes no
casamento/relacionamento e são justamente elas que mais sabotam a vida conjugal
por fazerem do amor uma doença grave e incapacitante; outras dizem que se dão
por satisfeitos numa eventual realização profissional e sequer dão passos para
pequenos empreendimentos. Existem também os poetas e escritores de livros que
jamais escreveram, pintores de quadros que jamais pintaram, cantores que jamais
solfejou uma melodia, e, paradoxalmente, por essas razões se acham injustiçados
por não serem reconhecidos, e ainda, rezam
pela boa sorte. Para esses Wilde – mais uma vez – diria: “Quando os deuses querem nos punir, respondem às nossas
preces”. O que prevalece nessas pessoas, com muita intensidade, seria o que Freud
chamou de Masoquismo Moral, que é justamente essa postura de fracasso auto-acusatório,
auto-retaliador, auto-penitente. Que vantagem
teria isso? Wilde diria: “Há uma espécie de
conforto na auto-condenação. Quando nos condenamos, pensamos que ninguém mais
tem o direito de o fazer”. Pois aí está boa parte da resposta. Esse
masoquismo traz as pessoas um falso sentimento de amparo, de acolhimento e de
aceitação que fazem, no final das contas, se sentirem “pobres crianças tristes”,
e desse modo, protegidas. O maior medo desses “infelizes”, em realidade, é de ficarem
sozinhos – apesar de se queixarem de já estarem na solidão – ou de terem alguma
autonomia (solidão e autonomia são palavras primas). É, enfim, muito mais cômodo
ficarem como estão. Se, contudo, cansarem-se de tanta infelicidade o que fazem,
então? Como fiz uma analogia à imagem de uma criança pobre, continuemos: vão a
loja de briquedos! Mas como são, de fato, adultos, entram numa loja de
departamento e compram algumas felicidades: telefones celulares, notebooks,
vestidos, calças, camisas, saias, sapatos, televisores, aparelhos de som, DVDs,
blu-rays, estofados. Depois disso tudo, sofrem com a auto-punição do consumo,
do desamor e criticam o capitalismo.
(originariamente publicado em 30/09/2012)
MARCOS
CREDER